segunda-feira, 9 de março de 2026
"Sete duelos"
"Sete duelos"
“ Sede sóbrios e vigilantes. O vosso adversário, o diabo, rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar. Resisti-lhe, firmes na fé.” (1 Pd 5, 8-9a)
Inicialmente, vi a verdade duelando com a mentira que, muitas vezes, se apresentou na boca de pessoas bem maquiadas, trajadas, com palavras bem versadas.
Mentira tão bem apresentada, com convicção e persuasão, que parecia uma verdade incontestável. Vi a verdade tão frágil como se não fosse sobreviver. Mas a verdade não pode morrer, pois seria a morte da própria história e da humanidade.
O duelo continuará. Que vença a verdade no final, a verdade que nos faz verdadeiramente livres, que nos vem do Evangelho, como o próprio Senhor nos diz: – “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8, 32).
Vi a vida duelando com a morte, e assim o fará até o fim da existência. Vi a vida florescendo teimosamente numa flor na singeleza de um barranco, ou brotando nas fendas do asfalto.
Vi a vida vencendo a morte, quando o pão foi partilhado, quando se fez renascer o sorriso nos lábios de alguém que participou de nosso cotidiano, amenizando a dor e o drama de uma solidão e, por vezes, até mesmo abandono, em visitas solidárias e expressão de compaixão e comunhão.
Vi este duelo de tantas pessoas que, em suas atividades profissionais, com zelo, amor, ética, tudo fazem para resgatar, salvar vidas, dando o melhor de si, mesmo na precariedade de recursos materiais e humanos; vencendo cansaços, limites, descasos e carências em todos os âmbitos (educação, saúde, lazer, habitação...).
O duelo continuará. Que a vida seja no final a mais bela vencedora: a vida plena e feliz que Jesus veio nos trazer – “Eu vim para que todos tenham vida e tenham vida plenamente” (Jo 10, 10).
Vi a luz quase que se apagando diante da imensidão das trevas do pecado, da injustiça, da infidelidade, desobediência aos desígnios divinos para a humanidade. Mas vi que quanto maior a escuridão, maior é o efeito da chama.
Aprendi com muitos que o auge da escuridão é, de fato, o início de um novo dia; luz que haverá de ser irradiada, sobretudo, por aqueles que um dia o Batismo receberam, para ser no mundo luz, na prática da Boa-Nova das Bem-Aventuranças, como projeto e programa de vida.
O duelo continuará. Cremos na Palavra do Divino Mestre e Senhor que assim nos falou: “Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).
Vi o sonho duelando com os pesadelos, quando pais e mães, incansáveis, se desdobraram para o melhor oferecer aos filhos, enfrentando filas e aprendendo o milagre da partilha do pouco que se tem, para que o milagre do amor possibilitasse a vitória de um filho (a) em objetivos e sonhos cultivados; bem como vi filhos que sonham, dando o melhor de si, para que o sonho de seus pais não se tornem tristes pesadelos, que roubam as forças e a alegria da existência e da razão, porque se deram e se doaram.
O duelo continuará. Que vençam os mais belos e sagrados sonhos, cultivados no sono sagrado, que alimenta de horizontes o tempo acordado de viver, como diz a canção.
Vi a fé, pequena como um grão de mostarda, duelando com a montanha da incredulidade da força de Deus, que vem em socorro de nossa fraqueza.
Vi a fé autêntica duelando com a fé alienante, por vezes mágica, transferindo soluções para Deus, quando Ele tudo dispôs em nossas mãos.
Até mesmo vi a fé com raízes bíblicas duelando com a pseudofé, fonte de renda e enriquecimentos improcedentes, e até escandalizantes.
Vi a fé de mãos dadas com a razão, em muitos que não se cansam de procurar respostas e saídas para amenizar a dor, o pranto, e o lamento de vidas pela enfermidade fragilizadas, agonizadas.
O duelo continuará. Que a fé seja o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que não se veem (Hb 11,1). Como que uma força e impulso que não nos permitem desistir do bom combate.
Vi a esperança, plantada, cultivada e enraizada em mentes e corações duelando contra o seu oposto, o nada mais esperar, como se tivesse chegado ao fim da história, ao caos absoluto e insuperável.
Vi a esperança no canto dos olhos de enfermos, em novo amanhecer envolvidos em suas atividades, como também no olhar de tantos (crianças, jovens, adultos e idosos) de que algo novo há de surgir.
Vi a esperança de mãos dadas com a alegria no coração dos que conseguem ver além do cinza dos muros, e, se preciso como poetas e cantores, emprestam a voz, o olhar e os ouvidos para anunciar que podemos construir a paz, como incansáveis artesãos.
O duelo continuará. Como Abraão que, em esperança, creu contra a esperança, para que se tornasse pai de muitas nações (Rm 4,18), e como canta o poeta: “mas renova-se a esperança. Nova aurora a cada dia. E há que se cuidar do broto para que a vida nos dê flor, flor e fruto”.
Finalmente, vi o maior de todos os duelos: o amor duelando com o ódio, em tantas notícias de violência, assassinatos, chacinas, sangue de inocentes derramado, o chão tristemente marcando, com manchas execráveis, que ferem nosso olhar e nos fazem sofrer pela triste lembrança.
Vi o ódio sorrindo, em aparente destruição do amor, como se ele pudesse ser e ter a última palavra. Mas cremos que o amor é a força que, ainda que em aparentes últimos suspiros, renasce para além de nossa compreensão e discursos racionais, pois o amor jamais passará, nos disse o apóstolo e assim o cremos (1 Cor 13, 8).
O duelo continuará. Que vença o amor no final, pois fomos criados pelo Amor da Trindade, para viver no amor, e amando, encontrar o sentido do existir e a verdadeira felicidade. Somente quem ama é verdadeiramente feliz.
Sete duelos que vi e vivi, ou que vimos e vivemos; duelos que continuaremos enfrentando, sem fugas e recuos, sempre com o Amor de Deus, que foi pelo Espírito derramado em nossos corações (Rm 5,5).
Na fidelidade a Jesus, renovemos sagrados compromissos com o Seu Reino; permaneçamos firmes no bom combate da fé (2Tm 4, 7-8), contando sempre com a força do Espírito, para que sejamos totalmente atentos aos desígnios do Pai.
Permaneçamos firmes e vigilantes no bom combate da fé, sempre!
O Senhor iluminou os nossos olhos (IVDTQA)
O Senhor iluminou os nossos olhos
No 4º Domingo da Quaresma, a Igreja nos oferece, na Liturgia das Horas, um texto escrito pelo Bispo Santo Agostinho (séc V), extraído “Dos Tratados sobre o Evangelho de São João” sobre a passagem em que Jesus realiza o sinal da cura do cego de nascença (Jo 9,1-41).
“Diz o Senhor: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (Jo 8,12).
Estas breves palavras contêm um preceito e uma promessa. Façamos o que o Senhor mandou, para esperarmos sem receio receber o que prometeu, e não nos vir Ele a dizer no dia do Juízo: 'Fizeste o que mandei para esperares agora alcançar o que prometi?’ Responder-te-á: ‘Disse quem e seguisses’. Pediste um conselho de vida. De que vida, senão daquela sobre a qual foi dito: Em Vós está a fonte da vida?(Sl 35,10).
Por conseguinte, façamos agora o que nos manda, sigamos o Senhor, e quebremos os grilhões que nos impedem de segui-Lo. Mas quem é capaz de romper tais amarras se não for ajudado por Aquele de quem se disse: Quebrastes os meus grilhões (Sl 115,7). E também noutro salmo: É o Senhor quem liberta os cativos, o Senhor faz erguer-se o caído (Sl 145,7-8).
Somente os que assim são libertados e erguidos poderão seguir aquela luz que proclama: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não andará nas trevas.
Realmente o Senhor faz os cegos verem. Os nossos olhos, irmãos, são agora iluminados pelo colírio da fé. Para restituir a vista ao cego de nascença, o Senhor começou por ungir-lhe os olhos com Sua saliva misturada com terra.
Cegos também nós nascemos de Adão, e precisamos de ser iluminados pelo Senhor. Ele misturou Sua saliva com a terra: E a Palavra Se fez Carne e habitou entre nós (Jo 1,14).
Misturou Sua saliva com a terra, como fora predito: A verdade brotou da terra (cf. Sl 84,12). E Ele próprio disse: Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6).
A verdade nos saciará quando O virmos face a face, porque também isso nos foi prometido. Pois quem ousaria esperar, se Deus não tivesse prometido ou dado?
Veremos face a face, como diz o Apóstolo: Agora, conheço apenas de modo imperfeito; agora, nós vemos num espelho, confusamente, mas, então, veremos face a face (1Cor 13,12).
E o Apóstolo João diz numa de suas Cartas: Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é (1Jo 3,2). Eis a grande promessa!
Se O amas, segue-O! ‘Eu O amo, dizes tu, mas por onde O seguirei?’ Se o Senhor te houvesse dito: ‘Eu sou a Verdade e a Vida’, tu que desejas a verdade e aspiras à vida, certamente procurarias o caminho para alcançá-la e dirias a ti mesmo: ‘Grande coisa é a verdade, grande coisa é a vida! Ah, se fosse possível à minha alma encontrar o caminho para lá chegar!’
Queres conhecer o caminho? Ouve o que o Senhor diz em primeiro lugar: Eu sou o Caminho. Antes de dizer aonde deves ir, mostrou por onde deves seguir. Eu sou, diz Ele, o Caminho. O Caminho para onde? A Verdade e a Vida.
Disse primeiro por onde deves seguir e logo depois indicou para onde deves ir. 'Eu sou o Caminho, Eu sou a Verdade, Eu sou a Vida'. Permanecendo junto do Pai, é Verdade e Vida; revestindo-Se de nossa carne, tornou-Se o Caminho.
Não te é dito: ‘Esforça-te por encontrar o caminho, para que possas chegar à verdade e à vida’. Decerto não é isso que te dizem. Levanta-te, preguiçoso! O próprio Caminho veio ao teu encontro e te despertou do sono em que dormias, se é que chegou a despertar-te; levanta-te e anda!
Talvez tentes andar e não consigas, porque te doem os pés. Por que estão doendo? Não será pela dureza dos caminhos que a avareza te levou a percorrer?
Mas o Verbo de Deus curou também os coxos. ‘Eu tenho os pés sadios, respondes, mas não vejo o Caminho’. Lembra-te que Ele também deu a vista aos cegos”.
Santo Agostinho nos apresenta o Cristo, que é o caminho para a luz e a verdade para a vida, e enviado por Deus pode nos curar de toda enfermidade, de toda cegueira.
Assim como o cego de nascença, também sejamos curados de nossa cegueira interior, a mais empobrecedora de todas, a cegueira espiritual, tenhamos o coração iluminado para ver como Deus vê, pois Ele vê o coração e não as aparências (1Sm 16,7).
Curados de nossa cegueira para vivermos como filhos da luz, na prática da bondade, amor e verdade, como o Apóstolo nos exorta na Epístola (Ef 5, 8-14).
Curados, iluminados por Deus, e iluminadores do mundo, com Sua Divina luz, sejamos. Amém!
Irradiemos a luz do Senhor (IVDTQA)
Irradiemos a luz do Senhor
Trilhando o itinerário Quaresmal, no quarto domingo (ano A), a Igreja celebra o conhecido “Dominica Laetare”, já experimentando a alegria pela Páscoa que se aproxima.
Em todo tempo, favorável ou adverso, é preciso irradiar a luz do Espírito que em nós habita, pela graça batismal recebida, pois o próprio Senhor nos disse que somos a luz do mundo (Mt 5,14), e disse também: “Eu Sou a luz do mundo, quem me segue, não anda nas trevas mas terá a luz da vida” (Jo 8,12); e no mesmo Evangelho: “Enquanto estou no mundo Eu sou a luz.” (Jo 9, 5).
Na segunda Leitura, ouvimos a passagem da Carta de Paulo aos Efésios (Ef 5,8-14), e ressaltamos de modo especial este versículo: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz” (Cf. Ef 5,8). Em outra passagem, novamente insiste: “Todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas.” (Cf. 1Ts 5,5).
Nisto consiste a missão do discípulo missionário: ser luz do Senhor, por Ele iluminados e d’Ele iluminantes, em todos os tempos e âmbitos (família, comunidade, trabalho, cultura, lazer, meios de comunicação; lugares reais ou também nos espaços/mídias virtuais).
Quando permitimos que o Cristo ocupe o primeiro lugar em nossa vida, quando O temos como o centro de nossa existência, a fé se torna prática e resplandecemos como astros no mundo, não para um exibicionismo estéril, mas para testemunhar a Palavra Divina, Palavra de vida, e assim, frutos eternos produzir, alegria plena alcançar, como Ele mesmo nos prometeu.
Somos iluminados e nos tornamos iluminantes, tendo em nós iluminados e aquecidos pelo fogo do Espírito, que faz arder nosso coração para que o mundo seja mais terno, quando somos sobressaltados com a frieza diante da vida, com mortes absurdas e inadmissíveis, pela fome ou pela violência, e outros inúmeros fatos que bem conhecemos.
Não podemos permitir que a frieza congele a nossa sensibilidade, e não nos faça curvar diante de sentimentos de impotência ou indiferença; tão pouco podemos permitir que nos cegue os olhos e petrifique nosso coração.
Urge que sejamos iluminados e iluminantes, como um pincel de luz, comunicando raios de luz em todas as situações, em todas as horas, sobretudo nas mais difíceis e sombrias, como a morte de alguém que tanto amamos.
Importa ser sempre a luz do Senhor, noite e dia, como também exortou Paulo em sua Carta:
“Sede irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus, inculpáveis no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual deveis resplandecer como astros no mundo..." (Fl 2,15).
Vivamos, portanto, a graça batismal, irradiando a luz batismal, e assim, como discípulos missionários do Senhor, iluminados e iluminantes seremos. Amém.
Sejamos curados de nossa cegueira (IVDTQA)
Sejamos curados de nossa cegueira
A Igreja no quarto Domingo da Quaresma (Ano A), celebra o conhecido “Dominica Laetare”, em que refletimos sobre o tema da luz.
No terceiro, reflete-se sobre a água e no próximo sobre a vida.
Trata-se de um Domingo luminoso por sublinhar que a vida cristã é penitência, mas também alegria (antífona de entrada da Missa e a Oração sobre as Oblatas):
“A Alegria do caminho pascal exprime-se no tema da luz: a luz é vida, é alegria, é Cristo (aclamação antes do Evangelho), e o percurso quaresmal é viagem em direção à luz, redescoberta da luz que no Batismo foi acesa para nós no Círio Pascal”) (1)
Três temas que nos introduzem e nos preparam para a Semana Santa (água, luz e vida) e para recebermos o Batismo, ou renovar nossas promessas batismais na Vigília Solene da Páscoa.
A passagem da primeira Leitura (1Sm 16,1b.6-7.10-13a) não se refere diretamente ao tema da luz, mas nos permite a reflexão sobre o dia do nosso Batismo, quando somos ungidos para sermos testemunhas da luz.
Davi foi escolhido não pela lógica dos homens, mas segundo a lógica de Deus, que não se deixa levar pelas aparências. Davi, o filho mais novo de Jessé, é escolhido, embora jovem, anônimo e desconhecido que guardava o rebanho do seu pai.
A mensagem da Leitura é essencialmente esta: Deus escolhe e chama, habitualmente, os pequeninos, os mais fracos, aqueles que o mundo marginaliza e considera insignificantes. Paradoxalmente, Deus manifesta Sua força através deles.
Urge que aprendamos a ver como Deus vê: ver para além das aparências. Somente quem tiver fé profunda e solidificada conseguirá ver como Deus vê, porque a partir da lógica mais profunda, a lógica do amor, que cria e faz novas todas as coisas.
Na passagem da segunda Leitura (Ef 5,8-14), o Apóstolo Paulo nos coloca frente a uma escolha: luz ou trevas. Viver na luz significa viver a bondade, a justiça e a verdade.
O viver na luz, mais ainda, consiste na acolhida do dom da Salvação que Deus nos oferece gratuitamente, aceitando e vivendo a vida nova que Ele nos propõe (viver na liberdade como filhos de Deus e irmãos uns dos outros).
De outro lado, viver nas trevas consiste em pautar a vida pelo egoísmo, orgulho e autossuficiência; viver à margem de Deus, e, consequentemente, recusar Suas propostas; prisioneiro das próprias paixões, dos falsos valores.
Ser batizado e viver como filhos da luz, portanto, não nos permite cruzar os braços diante da maldade, do egoísmo, da injustiça, da exploração, dos contravalores que a sociedade propõe, tornando menos bela a vida da humanidade.
Viver como filhos da luz exige que descruzemos os braços, abramos o nosso coração e nossas mãos, em alegres e solícitos gestos de partilha e solidariedade. Incomodar-se permanentemente com a escuridão do mundo, procurando todas as formas para torná-lo luminoso.
Na passagem do Evangelho (Jo 9,1-41), Jesus, curando o cego de nascença, é apresentado pelo Evangelista São João como “a luz do mundo”, cuja missão é a libertação da humanidade das trevas.
A adesão à proposta de Jesus nos coloca num caminho de liberdade e alcance da vida plena e feliz e, no fim dela, a eternidade.
A cegueira no tempo de Jesus, segundo a concepção da época, era um castigo de Deus de acordo com a gravidade da culpa. Ela era considerada o resultado de um pecado especialmente grave. Ser cego é ao mesmo tempo ser impedido de servir de testemunha no tribunal e de participar das cerimônias religiosas do templo.
O “cego” curado por Jesus é um símbolo de todos os homens e mulheres que vivem na escuridão, com a indesejável privação da luz, e, portanto, prisioneiros das cadeias que os impedem de chegar à felicidade e à plenitude da vida.
No gesto da cura feita por Jesus, juntando barro à Sua saliva, é o juntar da própria energia que gera vida, repetindo assim, o gesto de Deus ao criar o homem (Gn 2,7). Nisto consiste a missão de Jesus: criar um Homem Novo e animado pelo Espírito que O acompanhou e nos acompanha ao longo de toda a História.
O banhar na piscina de Siloé (que significa “enviado”) é uma clara alusão a Jesus, o enviado do Pai, que nos oferece a água que nos banha e nos purifica de nossos pecados, tornando-nos Homens Novos, livres de toda treva e escravidão.
Diante da cura, temos atitudes diferenciadas:
- dos vizinhos que se acomodam em seu canto;
- dos fariseus que não se dispõem a acolher e a aceitar a missão de Jesus;
- dos pais que não querem se comprometer;
- do homem curado que faz um percurso que passa por um processo até que se torne adulto, maduro, livre e sem medo, em total adesão a Jesus (etapas: encontro com Jesus, adesão, amadurecimento, homem livre e o seguimento).
Reflitamos:
- A missão de Jesus é a criação de Homens Novos, e esta também consiste a missão de Sua Igreja. Como batizados, o que fazemos para que isto aconteça?
- O que nos impede de sermos livres no seguimento de Jesus?
- O que consiste “viver na luz”?
- Quais são as situações obscuras em que podemos comunicar a luz de Deus com nossa palavra e ação?
- Com quem nos identificamos na passagem do Evangelho: com os opositores, medrosos, acomodados, inertes ou com o próprio cego curado que se torna um discípulo missionário do Senhor?
- Quaresma é tempo de conversão para que a luz de Deus possa melhor brilhar através de cada um de nós. O que temos feito para que esta conversão aconteça?
Concluo com um trecho do Prefácio da Missa, e com as iluminadoras palavras do Papa Bento XVI em sua Mensagem Quaresmal (2011), respectivamente:
“...Pelo Mistério da Encarnação, Jesus conduziu à luz da fé a humanidade que caminhava nas trevas. E elevou à dignidade de filhos e filhas os escravos do pecado, fazendo-os renascer das águas do Batismo”
“O Domingo do cego de nascença apresenta Cristo como luz do mundo. O Evangelho interpela cada um de nós: ”Tu crês no Filho do Homem?”. “Creio, Senhor” (Jo 9, 35.38), afirma com alegria o cego de nascença, fazendo-se voz de todos os crentes.
O milagre da cura é o sinal que Cristo, juntamente com a vista, quer abrir o nosso olhar interior, para que a nossa fé se torne cada vez mais profunda e possamos reconhecer n’Ele o nosso único Salvador. Ele ilumina todas as obscuridades da vida e leva o homem a viver como ‘filho da luz’”.
Que o Senhor nos cure de nossas cegueiras e ilumine nosso caminho de penitência e conversão, para celebrarmos, com exultação e alegria, a Páscoa do Senhor, envolvidos pela mais bela e desejada luminosidade que Deus quer nos oferecer, e no mundo haveremos sempre de ser.
Deus nos criou, escolheu, chamou e nos enviou para sermos testemunhas credíveis de Sua Luz!
1) Lecionário Comentado - Volume Quaresma/Páscoa - Editora Paulus - Lisboa - 2009 - p. 178.
“Livrai-nos, Senhor, da cegueira do coração” (IVDTQA)
“Livrai-nos, Senhor, da cegueira do coração”
Aprofundando a Liturgia do 4º Domingo da Quaresma (ano A), que nos apresenta a passagem do Evangelho de João (Jo 9,1-41), sobre o sinal que Jesus realiza, curando o cego de nascença, sejamos enriquecidos com este Comentário escrito pelo Diácono e Doutor da Igreja, Santo Efrém (séc. IV).
“Jesus foi ao encontro de um homem cego de nascença: os discípulos perguntaram a Jesus: Mestre, quem pecou para que nascesse cego: ele ou os seus pais? Jesus respondeu: Nem ele nem seus pais pecaram, mas isso é para que as obras de Deus se manifestem nele. É necessário que realizemos as obras d’Aquele que me enviou, enquanto é dia, enquanto Eu estou com vocês. Vem a noite, e o Filho será exaltado, e vós, que sois a luz do mundo, desaparecerão, e não haverá mais milagres por causa da incredulidade.
Dizendo isto, fez barro com Sua saliva e a aplicou sobre os olhos do cego. E a luz brotou da terra, como ao princípio, quando a sombra do céu, a treva cobria tudo e Ele ordenou a luz que surgisse da escuridão.
Desta forma, Ele formou a lama com a saliva, e curou o defeito que existia depois do nascimento, para mostrar que Ele, cuja mão completava o que faltava à natureza, era precisamente Aquele cuja mão deu forma à criação no princípio. E como se recusam a crer que Ele era anterior a Abraão, com esta obra provou que era o Filho do Homem que, com a Sua mão, formou o primeiro Adão da terra: na verdade, Ele curou a tara do cego com os gestos do próprio corpo.
Também fez isso para confundir aqueles que dizem que o homem é feito de quatro elementos, porque refez os membros imperfeitos com terra e saliva, fez isso para utilidade daqueles que buscavam milagres para crer: Os judeus buscam milagres. Não foi a piscina de Siloé que abriu os olhos do cego, como não são as águas do Jordão que purificam a Naamã: é a ordem do Senhor que tudo faz. Ainda mais: não é a água de nosso batismo que nos purifica, mas os nomes que se pronunciam sobre ela.
Ele ungiu os seus olhos com barro, para que os fariseus limpem a cegueira do coração. Quando o cego partiu no meio da multidão e perguntou: ‘Onde fica Siloé?’, levava a vista de todos os olhos untados. As pessoas o interrogavam e ele lhes dava a informação; elas o seguiam para ver se os seus olhos continuavam abertos. Aqueles que viam a luz material estavam conduzidos por um cego que viu a luz do Espírito; e, em sua noite, o cego era conduzido por aqueles que viam exteriormente, mas que estavam espiritualmente cegos.
O cego lavou o barro dos seus olhos, e enxergou-se a si mesmo; outros lavaram a cegueira de seu coração, e se examinaram a si mesmo. Deste modo, abrindo exteriormente os olhos de um cego, nosso Senhor abria secretamente os olhos de muitos outros cegos.
Aquele cego foi um belo e inesperado tesouro para nosso Senhor: através dele, adquiriu numerosos cegos que desta maneira também curou da cegueira do coração. Nestas poucas Palavras do Senhor estão escondidos tesouros admiráveis, e nesta cura foi esboçado um símbolo: Jesus, Filho do Criador.
Vai e lava o teu rosto. Para evitar que alguém considere aquela cura mais como um estratagema do que como um milagre, Ele o mandou lavar-se. Disse isso para mostrar que o cego não duvidava do poder de cura do Senhor, e porque, caminhando e falando, manifestasse o acontecimento e mostrasse sua fé.” (1)
Oremos:
Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, curai nossa cegueira do coração, que consiste na cegueira espiritual de não vermos o mundo com os Vossos olhos de misericórdia, amor e bondade.
Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, dai-nos, por Vossa graça, o colírio da fé, para que, de mãos dadas com a esperança, na vivência da virtude da caridade, sejamos sinais de Vossa presença.
Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, vivendo momentos tão difíceis com a pandemia do novo coronavírus, iluminai nossas mentes e coração para sábias e necessárias decisões e compromissos.
Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, curai nossa cegueira, para que consigamos enxergar o Caminho que sois Vós, para continuar carregando nossa cruz de cada dia, sem desânimo ou desespero.
Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, concedei sabedoria e luz para todos os profissionais da saúde, livrando-os de toda enfermidade, para cuidarem dos enfermos a eles confiados.
Senhor Jesus, Vós que curastes o cego de nascença, curai os olhos de todas as lideranças religiosas e sociais, para que cuidem e promovam, com serenidade e sabedoria, o necessário cuidado com a vida de todos. Amém.
“Pai Nosso que estais nos céus...”
(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp.66-67
PS: Escrito em março de 2020
As duas posturas: cegueira e visão (IVDTQA)
As duas posturas: cegueira e visão
A cura do cego de nascença realizada por Jesus foi para que se manifestassem as obras de Deus, que se revela como a Divina Fonte de misericórdia, comunicando luz para quem em Sua Palavra confia.
Jesus, enquanto presente na comunidade é a luz do mundo, missão que depois será confiada aos discípulos, com a Sua Ressurreição (Mt 5,14).
Diante do sinal temos duas posturas distintas: cegueira e visão. Da parte dos fariseus, a cegueira. Diante do cego de nascença, a visão recuperada, alcançada porque acreditou no Senhor, confessou a fé em Jesus como o Messias esperado.
Uma passagem do Evangelho em que se revela a cegueira dos fariseus e o alto grau de visão daquele que tinha sido curado; visão alcançada por etapas e contra todas as dificuldades, indiferença da parte de alguns, perseguição e expulsão da comunidade da parte dos fariseus.
Os fariseus presos à rigidez e à frieza da prática da Lei, cegos pelos esquemas mentais legalistas, se recusaram a admitir que, realmente, foi Jesus quem restituiu a visão ao cego de nascença.
Era impossível reconhecer a ação libertadora de Jesus, sobretudo porque para eles as Escrituras afirmavam que o Messias, quando viesse, curaria todos os cegos.
Como acreditar em alguém que viola a Lei do sábado, o dia do descanso? Como realizar sinais em nome de Deus, ainda mais dia de sábado, sem fidelidade às leis religiosas do povo?
O cego de nascença, de outro lado, tem a graça da visão física e a visão mais sublime, ou seja, a visão interior, que consiste na visão da fé.
Momento expressivo desta passagem do Evangelho: a confissão de fé do cego curado pelo Senhor: −“Eu creio, Senhor!”, e se prostrou diante d’Ele em adoração.
Duas posturas tão diferentes que questionam também nossa postura. Podemos ficar numa condição de cegueira absoluta, envoltos nas trevas do pecado, ou recuperar a visão a partir da ação de Jesus em nossa vida, confiando plenamente em Sua Palavra, que nos faz verdadeiramente livres e luminosos; fazendo crepitar mais forte a chama da fé, que um dia, em nosso Batismo, foi acesa no Círio Pascal, sinal do Cristo Ressuscitado, a Luz do mundo, que resplandeceu na escuridão da noite, testemunhada na madrugada da Ressurreição.
Concluo com a Oração depois da Comunhão feita na Missa no quarto Domingo da Quaresma (Ano A):
“Ó Deus, luz de todo ser humano que vem a este mundo,
iluminai nossos corações com o esplendor da Vossa graça,
para pensarmos sempre o que Vos agrada
e amar-Vos de todo o coração.
Por Cristo, nosso Senhor. Amém!”
Em poucas palavras... (IVDTQA)
A luz de Cristo, única luz da Igreja
“«A luz dos povos é Cristo: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente iluminar todos os homens com a sua luz que resplandece no rosto da Igreja, anunciando o Evangelho a toda a criatura» (Lumen Gentium n.1).
É com estas palavras que começa a «Constituição Dogmática sobre a Igreja» do II Concilio do Vaticano. Desse modo, o Concílio mostra que o artigo de fé sobre a Igreja depende inteiramente dos artigos relativos a Jesus Cristo.
A Igreja não tem outra luz senão a de Cristo. Ela é, segundo uma imagem cara aos Padres da Igreja, comparável à lua, cuja luz é toda reflexo da do sol.” (1)
(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 748
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