quarta-feira, 26 de março de 2025

As inseparáveis virtudes divinas (28/05)


As inseparáveis virtudes divinas

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Marcos (Mc 10,46-52), sobre a cura do cego Bartimeu (filho de Timeu). 

Vejamos o que nos diz o comentário do Missal Dominical:

“Se no passado, a fé podia constituir uma explicação ou uma interpretação do universo, um lugar de segurança diante dos absurdos da história e do mistério do mundo, hoje não é mais assim. 

Os movimentos de ideias, o processo tecnológico, a expansão do consumo, os movimentos migratórios e turísticos, a urbanização crescente e caótica com as consequentes dificuldades de integração comunitária, a agressão da publicidade, a instabilidade política, econômica e social, com todos os problemas daí derivados, concorrem para aguçar a dilaceração interior, ainda mais sensível nos homens de cultura. 

Nesse quadro, a carência de uma fé consciente e robusta favorece a dissolução da religiosidade, até a ruptura com a prática religiosa” (1)

Vivemos num mundo secularizado, com fortes marcas de ateísmo, em que o espaço do sagrado muitas vezes é sinônimo de alienação, atraso, anti-história...

O Papa São João Paulo II refletiu sobre estas questões na Encíclica Fé e Razão: não são inconciliáveis a fé e a razão. Uma não pode prescindir da outra, do contrário não corroboram para o processo de fraternidade e promoção da vida, da dignidade humana. 

Evidentemente que podemos cultivar uma fé ingênua, marcada pelo infantilismo, renunciando aos compromissos inerentes a mesma. Delegando a Deus o que é tarefa humana, descomprometendo-se, lamentavelmente, com aquilo que é próprio e inadiável nosso.

Vejamos a fé como resposta, e não uma fuga dos problemas; e mais do que uma resposta, uma proposta transformadora, fundada e nutrida pelo Pão da Palavra e pelo Pão da Eucaristia. 

A fé deve consistir na resposta sedenta de sentido de vida, ultrapassando todo pragmatismo evasivo; todas as explicações que se encerram em si mesmo.

Cultivemos uma fé consciente e robusta, procurando respostas aos incontáveis problemas mencionados, de modo que a fé, a esperança e caridade, como virtudes teologais, amadureçam inseparavelmente em nosso interior, afastando toda a estimulação e excitação de dilaceramentos interiores... Tão somente assim, veremos a fé expressa em gestos concretos, afetivos e efetivos de caridade.

Urge uma  viva e uma Esperança com âncoras nos céus, onde se encontra o Ressuscitado! E, assim a Caridade dará respostas libertadoras para o mundo que precisa ser transformado.
  
(1)  Missal Dominical - Editora Paulus - pág. 1057
PS: Oportuno para a reflexão da passagem do Evangelho de Lucas (Lc 18,35-43)

As virtudes divinas nos acompanham na travessia

                                        

As virtudes divinas nos acompanham na travessia

Cultivemos com todo o apreço as virtudes divinas, 
de modo que nossa nau fará travessia segura, 
tendo as mesmas como âncoras indispensáveis, 
conduzindo-nos até a outra margem desejada;

A cada dia, renovemos a fé, esperança e caridade, 
pois no Senhor toda dificuldade se torna vitória, 
pois com Ele somos mais que vencedores.

Nas dificuldades, Senhor, apenas te peço
a sabedoria e mansidão necessárias, para que
não perca a fé, renove a esperança e inflame de amor por Ti.

Não deixemos que as virtudes divinas, 
que nos movem e nos orientam, se percam, 
para enfrentarmos ventos e tempestades,
confiantes que o Senhor conosco está. Amém. 

Em tudo, e acima de tudo, a caridade

Em tudo, e acima de tudo, a caridade

O Abade São Máximo Confessor (séc. VIII) nos enriquece com esta reflexão sobre a caridade.

“A caridade é a boa disposição do espírito, que nada coloca acima do divino conhecimento. Ninguém poderá jamais alcançar uma caridade permanente de Deus, se estiver preso pelo espírito a qualquer coisa terrena.

Quem ama a Deus antepõe o conhecimento e a ciência d’Ele a toda Sua criatura. N’Ele pensa incessantemente com íntimo desejo e amor.

Se todas as coisas que existem têm Deus por Criador e por Ele foram feitas, então Deus, que assim as criou, como não será incomparavelmente de maior valor? Quem abandona a Deus, o bem insuperável e se entrega ao que é pior, dá provas de considerar Deus abaixo da criação.

Quem me ama, diz o Senhor, guardará meus Mandamentos. É este o meu Mandamento: que vos ameis uns aos outros. Portanto, quem não ama o próximo, não guarda o Mandamento. Quem não guarda o Mandamento, também não pode amar o Senhor.

Feliz o homem que é capaz de amar igualmente todos os homens. Quem ama a Deus, ama também sem exceção o próximo. Sendo assim, não consegue guardar seu dinheiro, mas gasta-o divinamente, dando a quem quer que dele precise.

Quem, à imitação de Deus, dá esmolas, não faz diferença nas necessidades corporais entre bons e maus, porém a todos igualmente distribui em vista da indigência real. Contudo, em atenção à boa vontade, prefere o virtuoso e diligente ao mau.

A caridade não se revela apenas nas esmolas em dinheiro. Muito mais em partilhar a Doutrina e em prestar serviços corporais.

Quem, verdadeiramente, de coração, rejeita as coisas mundanas e, sem fingimento, se entrega aos serviços de caridade para com o próximo, este, bem depressa liberto dos vícios e paixões, torna-se participante do Amor e ciência de Deus.

Quem encontrou em si a caridade divina, sem cansaço, sem fadiga, segue o Senhor, seu Deus, conforme o admirável Jeremias, mas com fortaleza de ânimo suporta todo labor, opróbrio e injúria, sem nada pensar de mal.

Não digais, diz o Profeta Jeremias, somos o templo do Senhor. Tu também não digas: ‘A fé nua, sem mais, em Nosso Senhor Jesus Cristo, pode conceder-me a salvação’. Isto não pode ser se não lhe unires também o amor por Ele mediante as obras. Quanto à simples fé: Os demônios também creem e tremem.

Obra de caridade é prestar de boa vontade benefícios ao próximo como também a longanimidade e a paciência; e ainda, usar das coisas com discernimento.”

Podemos afirmar que tudo feito sem a caridade é a pura expressão da vaidade das vaidades, e não passamos de sal insípido, e deixamos de resplandecer a luz de Deus, que se revela em palavras e gestos de amor e solidariedade.

Refletir sobre a caridade autêntica, como discípulos missionários do Divino Mestre Jesus, é sempre uma oportunidade para crescermos em sua prática. Ainda que a caridade vivamos, é o nunca bastante comparado ao infinito Amor que Deus tem por nós.

Vemos como são inseparáveis as virtudes teologais: fé, esperança e caridade, para que façamos resplandecer a luz de Deus que em nós habita, como templos do Espírito Santo que o somos, na fidelidade ao Senhor.

Também assim é que seremos reconhecidos como discípulos Seus: “Se vos amais uns aos outros, nisto reconhecerão que sois meus discípulos” (Jo 13,35).

Que em todo o nosso ser e em nosso agir seja impresso, como selo, algo que mais nos faça reconhecidos como imagem e semelhança de Deus: o Mandamento do Amor, que se revela em duas dimensões inseparáveis, ou seja, amor a Ele sobre todas as coisas e ao nosso próximo como Ele nos amou. 

A esperança cristã nos move a praticar o bem

                                                     


A esperança cristã nos move a praticar o bem

No dia 18 de dezembro, ouvimos a passagem do Livro do Profeta Jeremias (Jr 23,5-8), em que Deus promete suscitar de Davi um rebento justo, Jesus Cristo, que veio, vem e virá realizar nossa esperança, uma das virtudes divinas que nos move:

“O futuro presente é a dimensão da esperança e da expectativa cristã. Aguarda-se o que já em parte se possui, mas que, em sua inexaurível riqueza, é sempre objeto de posse, de busca de expectativa.

Viver significa esperar, aguardar alguma coisa. A espera contém um sistema de pensamento e um programa de ação.

‘O proveito da esperança é a própria esperança. O desejo da alma é satisfeito pelo fato mesmo de permanecer insaciável. Com efeito, ver propriamente a Deus é como não se saciar nunca de desejá-Lo” (Gregório de Nisseno).

Talvez o cristão, que vive a vida presente na expectativa futura, seja acusado de descurar o hoje pelo amanhã, o presente pelo futuro; mas o batizado que vive da fé toma para si a exortação de Paulo aos cristãos da Galácia (Gl 6,9): ‘Não nos cansemos de fazer o bem? a seu tempo, colheremos se tivermos constância’”. (1)

Peregrinando na esperança, vivamos o Tempo do Advento renovando o sagrado compromisso do testemunho das virtudes divinas, como discípulos missionários do Senhor.

Testemunhemos a fé, na alegre e confiante esperança, vivendo a caridade que não permite que caiamos ou desistamos por causa do cansaço.

Saciemos nossa sede de Deus renovando a esperança no Senhor, pois como bem falou Gregório de Nisseno (séc. IV), “O proveito da esperança e a própria esperança”.

Concluindo fiquemos com as palavras do Apóstolo Paulo, que nos assegura que a esperança em Deus não nos decepciona:

- “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória de Deus.

 
E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança.
 
E a esperança não decepciona, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (cf. Rm 5,1-5).


(1) Missal Cotidiano - Editora Paulus - Comentário sobre a passagem do Livro do Profeta Jeremias (Jr 23,5-8) - pág. 77

A caridade esforçada de nossas comunidades

A caridade esforçada de nossas comunidades 

“Recordamos sem cessar a atuação da vossa fé, o esforço da vossa caridade e a firmeza da vossa esperança em Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 1,3) 

Deste modo, uma comunidade que professa a fé no Senhor deve expressar o amor que se concretize na caridade e na solidariedade, através de seus trabalhos pastorais e ações sociais, empenhando-se em fazer sempre o melhor para Deus e para o próximo. 

Como discípulos missionários do Senhor, esperar e se comprometer com a Boa-Nova do Reino, tornando o mundo mais justo e fraterno, sem dores e lágrimas,
 estabelecendo novas relações de acolhida, serviço, generosidade, partilha.
 

E é este firme propósito que contemplamos em muitos agentes de pastoral e colaboradores presentes e atuantes em nossas comunidades.

Glorifiquemos a Deus pelos inúmeros trabalhos realizados como a mais bela expressão da caridade fecunda, que brota da fé e dá solidez à nossa esperança. 

Contemos com a presença e proteção do Arcanjo São Miguel no bom combate da fé, e com a Virgem Santíssima, sob o título de Nossa Senhora da Piedade, Padroeira de Minas Gerais, para que nos abençoe, anime e conduza na inadiável e desafiadora missão de evangelizar.

Caridade: semente de um novo amanhecer

                                                                    

                         Caridade: semente de um novo amanhecer

A Carta escrita aos Coríntios pelo Papa São Clemente I (séc. I) é oportuna para que reflitamos e fortaleçamos os vínculos da caridade a serem vividos na comunidade.

“Quem tem a caridade em Cristo, que cumpra os Mandamentos de Cristo! Quem poderá descrever o laço da caridade de Deus? Quem conseguirá discorrer sobre a perfeição de sua beleza? É indizível a profundeza a que nos leva a caridade, nossa união com Deus.

A caridade cobre uma multidão de pecados, a caridade tudo suporta, tudo tolera com paciência. Não há nada de sórdido nem de soberbo na caridade.

A caridade não tolera a divisão, não provoca revolta. A caridade tudo faz na concórdia. Na caridade todos os eleitos de Deus são perfeitos.

Sem a caridade nada é aceito por Deus. Na caridade Deus nos assumiu para si. Pela caridade que tem para conosco, nosso Senhor Jesus Cristo, obediente à vontade divina, por nós entregou o Seu Sangue, a Sua Carne, por nossa carne, a Sua alma, por nossa alma.

Bem vedes, caríssimos, como é grande e admirável a caridade e impossível descrever toda a sua perfeição. Quem merecerá ser encontrado nela, a não ser aqueles que Deus quiser tornar dignos?

Oremos, pois, e peçamos-lhe misericórdia, a fim de estarmos na caridade, sem culpa e sem qualquer interesse puramente humano.

Passaram todas as gerações desde Adão até a presente. Mas aqueles que, pela graça de Deus, atingiram a perfeição da caridade, alcançam um lugar sagrado e serão manifestados na vinda do Reino de Cristo.

Porque está escrito: ‘Entrai por um pouco de tempo em vossos aposentos, até que passe minha cólera e meu furor; e lembrar-me-ei dos dias bons e erguer-vos-ei de vossos sepulcros’.  

Caríssimos, se cumprirmos os Preceitos do Senhor na concórdia e na caridade somos muito felizes, porque por elas nossos pecados serão perdoados. Como está escrito: ‘Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido. Feliz o homem a quem o Senhor não argui de falta, e em cujos lábios não há engano.’

 A proclamação desta felicidade atinge os que, por Jesus Cristo, nosso Senhor, são eleitos de Deus; a quem seja a glória pelos séculos sem fim. Amém.”

Esta Carta nos remete necessariamente à Carta de Paulo aos Coríntios (1 Cor 13) – “Ainda que eu falasse a língua dos anjos e dos homens sem amor eu nada seria”, o hino da caridade, como é conhecido.

Roguemos a Deus para que nos envie o Seu Espírito de Amor, para que, na fidelidade à Palavra do Seu Filho, fortaleçamos os vínculos da concórdia entre nós, bem como para conduzir e iluminar a humanidade na procura de caminhos de concórdia e de paz, em que atos de violência, terrorismos motivados por fundamentalismos não se multipliquem nos noticiários.

Que no fortalecimento destes vínculos, movidos pela caridade, também procuremos caminhos necessários para a superação da pecaminosa desigualdade social, que ainda persiste no mundo todo, e que a cultura de morte ceda à cultura da vida, da partilha, da solidariedade, como tem insistido o Papa Francisco.

Somente a caridade vivida é que nos permitirá vislumbrar um amanhecer diferente: a esperança não será jamais ilusão, quando nos deixarmos mover pela caridade, sobretudo para quem professa a fé no Senhor.

Ainda que não se professe a fé, vivemos de esperanças e utopias; novas realidades, novos sonhos, que tão somente possíveis serão, se a caridade não for olvidada e tão pouco banida dos espaços de convivência e decisões.

Mais uma vez lembramos as palavras do Apóstolo Paulo:  “Revesti-vos da caridade porque a caridade é o vínculo da perfeição” (Cl 3,14).

E, para que a caridade se inflame em nosso coração, ainda nos dirá: 
A caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,10).

Viver a caridade é como plantar as mais belas sementes, para que se floresçam as mais belas flores da alegria, com vida abundante, harmonia e paz para todos.

Nada mais a dizer, muito a amar!

(1) Liturgia das Horas – Vol. III – pág. 73-74 - Da Carta aos Coríntios, de São Clemente I, Papa (Séc. I).

Virtudes a serem cultivadas

                                                             


Virtudes a serem cultivadas

Retomo o comentário do Missal Cotidiano sobre as virtudes cardeais da realidade cristã:

“Neste terreno favorável devem florescer e desenvolver-se as virtudes cardeais da realidade cristã: a plenitude da fé (Hb 10,22), uma esperança indefectível que tem seu fundamento na fidelidade de Deus (Hb 10,23) e uma caridade ativa (Hb 10,24)”

É no chão do coração purificado de toda má consciência que a fé lança suas sementes fincando suas raízes, para que se elimine toda erva daninha do desânimo, de modo que a fina e pura flor da esperança exale todo seu odor, que se torna visível pela caridade e boas obras.

Todos nós nas travessias de mares assustadores, de desertos extenuantes com seus temores, de caminhos difíceis porque as pedras são inevitáveis, bem como das flores seus espinhos, precisamos da plenitude da fé.

Uma pessoa que tem fé com certeza não será submergida na travessia dos mares nem terá sua garganta ressequida, ou a alma falecida pela secura e aridez do deserto da existência humana.

Da mesma forma, jamais desistirá de trilhar seu caminho, porque sabe que com Ele, Jesus, o Caminho, é bem sabido o nosso mais desejado destino, não deixando a vida à deriva sem horizonte, sem rumo... (cf. Jo 14,6).

Com esperança indefectível, sem erros, vacilos, defeitos, fará de cada amanhecer uma nova possibilidade; de cada recuo, se necessário for, ponto de um novo avanço (assim são as ondas); se quedas houver, é para que se tome consciência das limitações, para cair toda pseudo-onipotência, para que se aprenda a curvar diante da Divina Onipotência, Deus.

Caridade, também no coração terá; uma caridade com um tom diferencial, que seja ativa. O amor será a mais bela chama que a todos contagia, porque é próprio do Amor de Deus assim fazer. O amor divino é como língua de fogo que aquece as realidades mais frias e sombrias, ilumina outras mais que escuras, desoladoras. O amor é fogo que não se consome, chama ardente de caridade que o coração invade, e luz que jamais se apaga (cf. 1 Cor 13,1-13).

Amar é revelar a presença de Deus e Seu esplendor, e glórias infinitas aos céus elevar... 

Bem disse Jesus ao nos conferir a identidade e a missão de sermos sal e luz do mundo: “Brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas obras, eles glorifiquem vosso Pai que está nos céus” (Mt 5,16)

Plenitude de fé, esperança indefectível, caridade ativa,
Virtudes cardeais de Deus tão preciosas,
Que haveremos, com todo zelo, cuidar,
Cultivo tão belo e precioso jamais omitido.
Certeza de que o amanhã melhor há de ser,
Pois é próprio do amor de Deus fazer florescer
O que para nós for preciso e a vida mais bela ser...

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