domingo, 5 de abril de 2026

“Quando ainda estava escuro...”

                                                  

“Quando ainda estava escuro...”

Assim ouvimos na Liturgia Pascal: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro e vê que a pedra fora retirada do sepulcro” (Jo 20,1).

Quão inspiradoras são para nós estas palavras: “... quando ainda estava escuro...” Assim é nossa existência, muitas vezes marcada pela escuridão que parece interminável. São as nossas conhecidas e inevitáveis “noites escuras”: problemas pessoais, familiares, eclesiais, sociais, econômicos, culturais; crises de múltiplas faces, lágrimas de matizes diferenciados.

“... quando ainda estava escuro...” Será esta escuridão eterna? Para quem crê, sem dúvida não. Aquela noite longa fez Maria Madalena se antecipar – quem ama se antecipa e vai ao encontro. Ainda era escuro e ela foi ao encontro do amigo, pois ainda não havia entendido a promessa da Ressurreição.

“... quando ainda estava escuro...” A noite escura, que devorou os sonhos e a esperança de Maria Madalena e da humanidade, parecia ter posto um termo a tudo. Nada se poderia fazer a não ser cuidar do corpo inerte, sem vida, no túmulo, e amargar o extremo pesar, o insuportável desgosto pela morte tão precoce, tão crudelíssima.

“... quando ainda estava escuro...” Passado o susto, tornou-se uma alegre surpresa, a mais bela notícia que o mundo já ouviu: Ele Ressuscitou! Aleluia! Aconteceu a morte da morte; a vida em sua plenitude: eterna, sem mais amarras, sem limites, sem nada que impeça a manifestação e presença de Deus. Vive Aquele que não fugiu da morte, mas que por amor extremo, infinito, total, incondicional, nos amou e nos amou até o fim: "... tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim" (Jo 13.1).

Ele Ressuscitou! Aleluia! Nada pôde conter o amor de Deus que em nenhum momento o Filho amado abandonou, e mesmo na Cruz o Espírito O assistiu, fortaleceu e acompanhou. Na Cruz três amores se intercomunicam maravilhosamente, como disse Santo Agostinho. Encontram-se na comunhão, solidariedade e obediência, e na fidelidade que se eternizou.

É Páscoa! É tempo de experimentarmos o poder radiante da Cruz que é a força do Ressuscitado; a força do Amor e a luz que emanam do Corpo do Senhor Ressuscitado.

Retomando as palavras do Evangelista: “Quando ainda estava escuro”. Celebrar a Ressurreição de Jesus não significa que tudo mudou; que tudo se transformou e que já não há mais nada a fazer.

Portanto, neste Tempo Pascal, nos empenhemos em iluminar as realidades sombrias e obscuras que ainda permanecem. Somente assim a noite se fará clara como o dia, como profetizara Zacarias – “E acontecerá, naquele dia, que não haverá mais luz, nem frio, nem gelo. Haverá um único dia – Javé o conhece -, sem dia e sem noite, mas à tarde haverá a luz” (Zc 14,6-7).
Assim, na esperança de um novo céu e nova terra, finalizo com as Palavras do Livro do Apocalipse - “Verão a sua face e o seu nome estará sobre suas frontes. Não haverá mais noite: não se precisará mais da luz da lâmpada, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus vai brilhar sobre eles e eles reinarão por toda a eternidade” (Ap 22,4-5).

Acreditemos, contemplemos e imitemos a Paixão do Senhor, para com Ele Ressuscitarmos gloriosamente, pois quando ainda for escuro seremos surpreendidos com a mais Bela Notícia: Ressuscitou! Aleluia! Aleluia!

O transbordamento da alegria Pascal...

                                                          


O transbordamento da alegria Pascal...
Transbordando de alegria pascal, nós nos unimos aos Anjos
e a todos os Santos, para celebrar a Vossa glória...”


Assim ressoa em nosso coração o Prefácio do Dia de Páscoa que se prolonga por todo o Tempo Pascal que estamos vivendo e celebrando.

 - Onde estão os sinais deste transbordamento?
 - Como conseguimos contemplá-los?

Eis o grande desafio: contemplar a alegria pascal num tempo marcado pelas nuvens das dúvidas, pelo desânimo, apatia e perda do sentido da vida (por parte de alguns). Marcado por sinais de morte multiplicados: violência, insegurança, desestruturação da família, imposição de normas de comportamento que violam os princípios naturais da vida e de verdades transitórias, em detrimento de verdades substanciais e eternas, numa postura de relativismo absoluto...

Mas somos pascais, cremos no Verbo que Se encarnou, viveu em tudo a condição humana, menos o pecado. Cremos n'Aquele que, por fidelidade ao Projeto Divino do Reino, em obediência incondicional e Amor imensurável que ama até o fim, padeceu a Paixão, passou por todos os sofrimentos (negação, traição, solidão, agonia...), culminando na crudelíssima Morte de Cruz.

Ele sofreu na Cruz e esta se tornou a Árvore da Vida, a fim de que nela nos gloriemos, como nos falou o Apóstolo Paulo (Gl 6,14). Experimentou a morte descendo à mansão dos mortos, mas o Pai O Ressuscitou, O glorificou e O fez sentar-Se à Sua direita. N’Ele o princípio e o fim de toda a humanidade, para que seja por todos, e por todo o sempre, adorado.

Poderia mencionar inúmeros sinais que manifestam o transbordamento da alegria Pascal, mas faço um caminho diferente: convido o leitor a refletir, buscar e certamente encontrar suas próprias respostas...

Vislumbremos e testemunhemos os sinais pascais que somente são reconhecidos por aqueles que, como os discípulos de Emaús (Lc 24), sentem a presença do Ressuscitado que conosco caminha, comunica Sua Palavra e a nós Se dá, Ele próprio, no Pão da Eucaristia. Aleluia! Aleluia!

Corridas, paragens, avanços...

                                                            

Corridas, paragens, avanços...

“Pedro saiu, então, com o outro discípulo e se dirigiram ao sepulcro. Os dois corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro” (Jo 20,3-4)

Iniciamos o Itinerário Pascal quando, como Igreja, nos preparamos para a grande celebração da Festa de Pentecostes, manifestação do Espírito e comunicação dos dons necessários para levamos adiante o anúncio da Boa Nova do Ressuscitado:

“Como Pedro e João corramos para Jesus Ressuscitado.
Esta corrida durará tanto quanto a nossa curta vida,
com paragens preparadas pela misericórdia de Deus
e o Amor de nosso Senhor. Corramos.
Não olhemos para trás”.  (1)

A vida de fé consiste exatamente nisto: corridas e paradas. Corridas para que possamos colocar em prática nossa fé, com seus inúmeros apelos, sem incorrer num ativismo que nos esvazie, e com o cansaço que nos imobilize e faça nos sentirmos impotentes pela realidade que nos envolve, porque sempre maiores são os desafios e interpelações que clamam nossa ação afetiva e efetiva.

Corridas para que não fiquemos ancorados em seguranças adquiridas, e com medo de avançar para o encontro de metas e sonhos mais ousados, sagrada utopia do Reino que nos impele, jamais nos instala.

Corridas para que os gritos silenciosos de quem sofre sejam ouvidos, e mãos solidárias sejam estendidas.

Corridas ao encontro de quem está com as mãos vazias, suplicantes de um pouco de carinho e de atenção.

Corridas para encontros com quem espera tão apenas uma palavra de ânimo, de esperança, de coragem, para passos firmar, sonhos voltar a ter, porque os pesadelos do cotidiano lhe roubaram a serenidade e a paz.

Corridas para se somar a muitos que não se entregaram na bela e ousada missão de o Reino de Deus fazer acontecer.

Mas também precisamos das paragens...

Paragens para fôlego refazer, para que não sôfregos fiquemos. Paragens diante do Mistério da presença do Senhor, no Santíssimo Sacramento, em diálogo silencioso e profundo recolhimento.

Paragens com a Palavra na mão, lida ou ouvida, meditada e no coração raízes fincadas para frutos do Espírito produzir.

Paragens ao redor da Mesa da Eucaristia para refazermos nossas forças: pelo Pão de Imortalidade alimentados, e pelo Vinho Sagrado, Bebida Diviníssima, redimidos e inebriados.

Entre corridas e paragens, sem jamais olhar para trás, com desejo de retornos e recuos, pois na vida de fé temos que avançar.

Avançar movidos pelo amor que nos impulsiona ir ao encontro da Divina Fonte do Amor: Jesus.

Avançar, na Palavra d’Ele confiar, e redes em águas mais profundas lançar.

Colocar nossa nau no mar agitado da vida, e contar sempre com a presença do Senhor que de nós não se ausenta jamais.

Corridas, paragens, avanços... Até que a margem da eternidade alcancemos. Aleluia!



(1) Pe. Leon Dehon - Sociólogo, escritor, advogado e Padre Fundador da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus. 

Crer no Ressuscitado é certeza de paz!


O Senhor Ressuscitou. Aleluia!

                                                        


O Senhor Ressuscitou. Aleluia!

Renovamos nossa fé na Ressurreição, que tem por fundamento um acontecimento que foi, ao mesmo tempo, historicamente testemunhado pelos discípulos (que realmente encontraram o Ressuscitado) e misteriosamente transcendente, enquanto entrada da humanidade de Cristo na glória de Deus.

Cremos que o sepulcro vazio e os lençóis deixados no chão significam, por si mesmos, que o corpo de Cristo escapou aos laços da morte e da corrupção, pelo poder de Deus; assim como preparam os discípulos para o encontro com o Ressuscitado.

Honra, glória, poder e louvor a Jesus Cristo, Nosso Deus e Senhor, “primogênito de entre os mortos” (Cl 1, 18), que é o princípio da nossa própria ressurreição, desde agora pela justificação da nossa alma (Rm 6,4), mais tarde pela vivificação do nosso corpo (Rm 8,11). Amém. Aleluia!

PS: Catecismo da Igreja Católica – parágrafos nn. 656-658

A Alegria Pascal

                      


A Alegria Pascal

O Tempo Pascal tem matiz exponencial de Alegria:

A Alegria é um dos temas característicos de Lucas e dos Atos dos Apóstolos: manifestação do Espírito, ela não consiste numa simples ausência de sofrimento ou numa alegria esfuziante, mas numa Alegria interior tranquila pela salvação recebida, fruto da fé.

Como já a comunidade Jerusalém (At 2,46), e depois os pagãos (cf. At 13,48-52), também a Samaria se abre à alegria. A alegria, tal como a vida, já está presente na História, no mundo dos homens: espera a nossa fé para ser libertada, e difundir-se”. (1)

Quando nos atemos ao Livro dos Atos dos Apóstolos, vemos o clima de Alegria contagiante das primeiras comunidades, que as leva a multiplicar os sinais do Ressuscitado, continuadoras que são de Sua Missão:

Cura, libertação, conversões, Batismos, Eucaristias, Orações, Comunhão Fraterna, partilha, viagens missionárias, sinais inumeráveis...

Mas, esta Alegria não nasce nem floresce sem a marca da Cruz, da perseguição, do martírio, do sangue derramado em libação.

Alegria Pascal que não passa e não nasça da Cruz, não é a verdadeira Alegria que o Senhor prometera, ainda que paradoxalmente pareça.

Alegria Pascal implica necessariamente no carregar da cruz, exemplo do corajoso testemunho dado pelos Apóstolos das primeiras comunidades.

Romper às portas fechadas por medo, colocar-se a caminho, confiante na ação e força do Ressuscitado, certeza de paz e alegria, porque nos comunica com o sopro a assistência do Espírito Santo.

A Alegria Pascal não consiste, jamais, em ver tudo a partir de um prisma róseo. Ela pode ser vislumbrada no horizonte próximo ou longínquo, mas não separadamente da Cruz.

Ela é a superação da tristeza, do pranto, da dor, do luto, da morte que anda par em par com a história, no cotidiano de cada um de nós. 

Alegria Pascal é não sucumbir no mar da desesperança, da ausência de perspectivas; é não submergir nas lágrimas que se multiplicam, porque não foram secas pela confiança na promessa do Ressuscitado.

A Alegria Pascal consiste em sorver as Delícias Divinas, mas não como ópio que nos afaste de compromissos inalienáveis com a justiça e a paz. 

Não consiste num frenesi, num delírio dos inconsequentes e descomprometidos com a solidificação de laços mais fraternos.

A Alegria Pascal vem quando nossa alma vive a serenidade, não vacilando na fé, não esmorecendo na esperança e tão pouco esfriando na caridade.

Ela é vista no coração daqueles que permitiram que o Senhor lhes falasse ao coração, para ser sentida e irradiada.

É Páscoa!
Que o transbordamento da Alegria não seja apenas força de expressão, mas a mais Bela Notícia, que nos move e que cremos: do Senhor, a Ressurreição! Aleluia! Aleluia!


(1) Lecionário Comentado - Editora Paulus - Lisboa - 2011 - p. 467.

Em poucas palavras...

                                                     


A espiritualidade do Domingo

“O Domingo é o dia por excelência da assembleia litúrgica, em que os fiéis se reúnem ‘para, ouvindo a Palavra de Deus e participando na Eucaristia, fazerem memória da paixão, ressurreição e glória do Senhor Jesus, e darem graças a Deus, que os ‘regenerou para uma esperança viva pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos’”.(1)

(1) Catecismo da Igreja Católica – n. 1167

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