sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O Senhor nos ensinou vencer o Maligno (IDTQA)

                                                 

O Senhor nos ensinou vencer o Maligno

No 1º Domingo da Quaresma (Ano A), a Liturgia da Palavra nos convida à conversão, recolocando Deus no centro de nossa existência, aprofundando nossa comunhão com Ele, na acolhida e vivência de Sua Palavra, vencendo todas as tentações que possam nos afastar de Seu Projeto de Vida e Salvação.

Na passagem da primeira Leitura (Gn 2,7-9; 3-17) encontramos uma bela página catequética que, muito mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, nos lembra que a origem da vida e da humanidade é obra divina. A vida do homem e da mulher procede de Deus diretamente.

Um texto escrito num tempo árduo, em que o povo sentia pesar constantemente sobre si a ameaça do deserto árido, o ideal de felicidade seria um lugar com muitas árvores e muita água.

Homens e mulheres como obra do Criador, colocados no centro da criação, ocupando lugar especial, pois para eles o mundo foi criado e deve ser preservado. Criados por Deus para a felicidade, alcançada tão somente na plena comunhão com Ele.

O grande pecado de nossos pais foi a renúncia desta comunhão, e o desejo de ser como deuses. A Árvore do fruto proibido, a serpente, a nudez, que aparecem na Leitura, são para expressar que Deus criou o homem e a mulher para serem felizes, e trilharem um caminho de imortalidade e vida plena, mas muitas vezes se escolhe o caminho do orgulho, da autossuficiência, vivendo-se à margem de Deus e de Suas Propostas. Aqui se encontra a gênese de todo mal que destrói a harmonia do mundo, a alegria e a paz.

Deus nos criou para o Paraíso e nos deu a liberdade. Somente quando aceitamos nossa condição de criaturas diante do Criador, que nos criou por amor, é que podemos construir uma existência fraterna e harmoniosa, um Paraíso onde se encontra a vida, a realização e a  felicidade.

Na passagem da segunda Leitura (Rm 5,12-19), o Apóstolo Paulo nos apresenta sua clara mensagem, falando de Adão e de Jesus. Por meio de Adão entrou no mundo o pecado, que insere a pessoa no esquema que gera egoísmo, sofrimento e morte. De outro lado, por meio de Jesus, nos vem a Salvação, vida plena e definitiva. Somente através de Jesus Cristo, que Se faz oferta de Salvação para todos, a vida de Deus chega a nós.

Na antítese da mensagem do Apóstolo: Adão é a figura da humanidade que prescinde de Deus e das Suas Propostas, escolhendo um caminho de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência.

De outro lado, Jesus vive em permanente escuta de Deus e, em total obediência realiza Seus Projetos.

É exatamente este caminho que Jesus veio propor à humanidade: a comunhão com Deus expressa acolhida, obediência e vivência do Seu Projeto, exclusivo caminho que levará a humanidade em direção à vida plena e definitiva, e à Salvação que se deseja.

A conclusão a que se chega: uma história construída sem Deus, e à margem de Suas propostas, conduz inevitavelmente ao egoísmo, à injustiça, à prepotência, ao sofrimento e à morte.


Na passagem do Evangelho (Mt 4,1-11) refletimos sobre as tentações do Maligno (tentações diabólicas), que Jesus enfrenta no deserto: ter, poder e ser.

Enfrentando as tentações matriciais no deserto, Jesus nos ensina a confiar na Palavra de Deus para vencermos as tentações que destroem e nos afastam do Verdadeiro Deus e, consequentemente, do próximo.

Todo abandono e afastamento de Deus é abandono e afastamento de si mesmo e do outro, pois Deus habita no mais profundo de cada um de nós.

Ao contrário da primeira Leitura que nos falava do Paraíso para o qual Deus nos criou, o Evangelho nos apresenta o cenário do deserto, da privação e da provação.

Neste tempo quaresmal, é preciso que aprofundemos cada uma das tentações e como vencê-las. Não podemos esquecer o final do Evangelho – “O diabo se retirou para voltar no tempo oportuno”.

Tentação do ter (v.3-4): Vencendo a primeira tentação, Jesus nos ensina que não é a escolha de um caminho de realização e satisfação material que nos fará plenamente felizes. Não é o ter mais que nos faz felizes, tão pouco o acúmulo de coisas materiais. Não é a lógica da acumulação, mas da partilha – “Nem só de Pão vive o homem, mas de toda Palavra que sai da boca de Deus”, respondeu Jesus a Satanás.

Tentação do ser (v. 5-7): Vencendo a segunda tentação, Jesus nos ensina a não procurar um caminho de êxito fácil. Não é a lógica do prestígio, da glória, da fama e do sucesso, mas a lógica da humildade e da gratuidade – “Não tentarás o Senhor teu Deus”, foi a resposta de Jesus.

Tentação do poder (v.8-10): Vencendo a terceira tentação, Jesus nos ensina o caminho do poder serviço, doação, diferente da lógica do poder diabólico, que é a de domínio e exploração – “Adorarás somente ao Senhor teu Deus”, foi a Sua resposta.

Jesus nos ensina a não trilhar o caminho de uma vida sem Deus, que leva ao egoísmo, ao orgulho e autossuficiência. Somente a adesão e fidelidade incondicional à Proposta de Salvação que Deus tem para nós, é que nos levará ao encontro da felicidade, porque na plena e perfeita comunhão com a Fonte da Vida, da alegria e da paz.

Reflitamos:

- Somos conduzidos pela tentação dos bens materiais, do acúmulo, ou pela lógica de Jesus?

- Somos conduzidos pela tentação da procura do êxito pessoal, do prestígio, aplausos, ou pela lógica de Jesus?

- Somos conduzidos pela tentação do poder domínio, com prepotência, intolerância, autoritarismo, humilhando e magoando os pobres e humildes pelos quais Deus tem predileção, ou pela lógica de Jesus?

Entremos com o Senhor no deserto, e façamos também nós quarenta dias intensos de penitência, acompanhados de Oração, jejum e esmola.

Alimentados pela Palavra Divina e nutridos pelo Pão Eucarístico, podemos vencer as tentações do Maligno como Jesus nos ensinou. E, somente com Ele e n’Ele é que também poderemos vencê-las, e a liberdade tão sonhada e desejada viver.

Reconstruir o Paraíso ou viver para sempre no deserto da privação e do sofrimento depende de nós.

Somente suportando as agruras de um deserto é que o Paraíso se torna possível, jamais sem Deus e Sua Palavra.

Enfrentemos a travessia do deserto necessário para que o Projeto de Deus se torne uma grande realidade, sonho e compromisso com o Paraíso, na construção de um mundo mais justo e fraterno.

Conversão com escuta e jejum (súplica)

 


Conversão com escuta e jejum (súplica) 

Ó Deus, firmai nossos passos no itinerário quaresmal, colocando-Vos no centro de nossa vida, e que a nossa fé nos impulsione frente às inquietações do cotidiano, sem jamais vacilarmos na fé, e esmorecermos na esperança e esfriarmos na caridade. 

Ajudai-nos na escuta da Vossa Voz, renovando nossa fidelidade nos passos do Vosso Amado Filho, para que sejamos mais perfeitamente configurados ao Mistério da Sua Paixão, Morte e com Ele Ressuscitarmos. 

Concedei-nos a graça de santas Liturgias, que nos ajudem a ouvir a Vossa voz, e sejamos educados na escuta do clamor dos empobrecidos e dos que mais precisam, acompanhado de gestos de compaixão, proximidade e solidariedade.

Dai-nos a graça da prática do verdadeiro e fecundo jejum,  disciplinando nossos desejos, purificando-os para que mais livres sejamos na prática das obras de misericórdia corporais e espirituais.

Iluminai-nos, para que desarmemos a linguagem, renunciando às palavras mordazes, o juízo temerário, o falar mal de quem está ausente e não se pode defender, assim como às calúnias.

Fortalecei nossos esforços para aprendermos a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs.  

Com o Vosso Espírito, ajudai-nos, portanto, na abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo, e que nossas muitas palavras de ódio deem lugar a palavras de esperança e paz.

Que nosso jejum também passe pela língua, diminuindo as palavras ofensivas, com abertura e escuta da voz do outro, edificando espaços e comunidades que prefigurem e ajudem a construir a civilização do amor. Amém


PS: fonte - Mensagem de Sua Santidade Papa Leão XIV para a Quaresma de 2026  -  “Escutar e jejuar. quaresma como tempo de conversão”. 

 

Jejum agradável a Deus

 


Jejum  agradável a Deus

Ó Deus, fortalecei nosso santo propósito de viver o Jejum, penitência e oração acompanhados pela caridade e obras de justiça, para que não percam seu valor e sentido.

Concedei-nos a graça para que ele seja verdadeiramente agradável a Vós, com o necessário esforço de nos libertarmos de toda forma de egoísmo, acompanhado do  alívio e ajuda ao próximo, como expressão de misericórdia e compaixão.

Iluminai-nos, para que nosso jejum cumprido por amor a Vós, se concretize no amor ao próximo, acompanhado da necessária conversão, e assim seja mais autêntica nossa oração.

Seja nosso jejum renúncias necessárias expressas em solidariedade e promoção da vida dos pobres e humildes, na fecunda prática da caridade. Amém.

 

 

Comentário do Missal Cotidiano – Editora Paulus – 1998 - passagem do Livro de Isaias (Is 58,1-9) – pp. 172-173

A prática do Jejum na perspectiva bíblica

                                                          

A prática do Jejum na perspectiva bíblica 

Ao lado da Oração e da Esmola, o Jejum é uma das três Práticas Quaresmais.

Vejamos no que consiste o jejum, para que serve, como deve ser e qual o sentido de falar em jejum hoje:

Jejum, bem compreendido e vivido, muito nos ajuda no Itinerário Quaresmal em preparação à grande festa da Páscoa do Senhor!

A Igreja orienta para o jejum que consiste na abstenção de carne na Quarta-Feira de Cinzas e Sexta-feira Santa. 

Mas, fundamentada na Palavra Divina, ela nos pede muito mais.

Na Quarta-feira de Cinzas, lemos:

“Agora, diz o Senhor, voltai para mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos, rasgai o coração e não as vossas vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus; Ele é benigno é compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo” (Joel 2,12-18).

Por sua vez, o Profeta Isaías nos diz claramente como deve ser o Jejum que agrada ao Senhor:

“Acaso o Jejum que prefiro não é outro – quebrar as cadeias injustas, desligar as amarras do jugo, tornar livres os que estão detidos, enfim, romper todo tipo de sujeição?

Não é repartir o pão com o faminto, acolher em casa os pobres e peregrinos? Quando encontrares um nu, cobre-o, e não desprezes a sua carne. Então brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa; à frente caminhará tua justiça e a glória do Senhor te seguirá.

Então invocarás o Senhor e Ele Te atenderá, pedirás socorro, e Ele dirá – Eis me aqui” (Is 58,6-9a).

O Profeta Isaías diz claramente que o Jejum praticado pelo povo de Deus não agradava ao Senhor, porque não vinha acompanhado de atitudes coerentes, pelo contrário, praticavam litígios, brigas, agressões, negociatas…

Jejum, Penitência e Oração não têm valor algum se não forem vivificados e acompanhados pelas obras de misericórdia.

Não agrada ao Senhor a prática do Jejum sem a prática da justiça. Logo, este Jejum não alcança o coração de Deus e não edifica a Paz!

O Jejum agradável ao Senhor consiste em libertar-se do egoísmo e prestar alívio e ajuda ao próximo; de modo que deve ser acompanhado sempre da prática da conversão e solidariedade.

Enquanto Jesus caminhava com os discípulos não era preciso o Jejum, pois Ele era o Esposo da humanidade. Após Sua morte e Ressurreição inaugura-se o tempo da Igreja... E, a necessidade do Jejum até que Ele venha!

É, portanto, tempo do nosso Jejum, na perspectiva dos Profetas Joel e Isaías. Jejum biblicamente vivido é garantia de que a vida corresponderá cada vez mais aos desígnios de Deus: com liberdade, dignidade, solidariedade, alegria, comunhão fraterna...

Jejum biblicamente vivido é garantia de nossa dignidade, a qual Deus tem alta estima, revelando Seu rosto, porque a perfeita imagem d'Ele nós somos!

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA LEÃO XIV PARA A QUARESMA DE 2026 (síntese)

 


MENSAGEM DE SUA SANTIDADE PAPA LEÃO XIV PARA A QUARESMA DE 2026 (síntese)

A Mensagem traz como título “Escutar e jejuar. Quaresma como tempo de conversão”. 

Inicia recordando que a Quaresma é o tempo em que a Igreja, com solicitude maternal, nos convida a recolocar o mistério de Deus no centro da vida, para que a fé nos impulsione frente as inquietações do cotidiano. 

É um itinerário a ser percorrido com a necessária escuta da voz do Senhor e a renovação da decisão em segui-Lo, no Mistério de Sua Paixão, Morte e Ressurreição. 

Destaca a necessidade do “Escutar”, de modo especial a Palavra na Liturgia que nos educa para a escuta mais autêntica da realidade.

Sendo a Quaresma tempo de escuta, o  jejum é uma prática concreta que nos predispõe a acolher a Palavra de Deus.

O verdadeiro jejum nos permite disciplinar o desejo, purificá-lo e torná-lo mais livre, ampliá-lo, de tal modo que se volte para Deus e se oriente para agir no bem,  e para conservar a sua autenticidade evangélica, precisa evitar a tentação de envaidecer o coração, a fim de que seja vivido com fé e humildade, afirma o Papa.

Para isto, convida-nos a abstinência muito concreta e frequentemente pouco valorizada:

“a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias.

Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.”

Nossas paróquias, famílias, grupos eclesiais e comunidades religiosas são chamadas a percorrer, durante a Quaresma, um caminho comum, com a  escuta da Palavra de Deus, assim como do clamor dos pobres e da terra, se torne forma de vida comum e o jejum garanta um verdadeiro arrependimento.

Antes de concluir com a bênção, exorta para uma Quaresma que torne os nossos ouvidos mais atentos a Deus e aos últimos e pede a força do jejum que “também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro. E comprometamo-nos a fazer das nossas comunidades lugares onde o clamor de quem sofre seja acolhido e a escuta abra caminhos de libertação, tornando-nos mais disponíveis e diligentes no contributo para construir a civilização do amor.”

Somos pó

 


                                               Somos pó


“Lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar!” (cf. Gn 3,19)

Quarta-feira de cinzas celebrada,
Consciência de finitude renovada.
 
Cinzas sobre a cabeça,
Gesto simples e simbólico.
 
É o que somos diante do Criador,
Lembrança necessária nos acompanhe.
 
Como nos falam as Escrituras,
Do pó viemos, ao pó voltaremos, real finitude.
 
A morte e a finitude para todos inevitável:
Para eminentes ou não, distante ou iminente.
 
Que as sombras e lembrança dos mortos
Nos acordem enquanto é tempo:
 
Com as cinzas, a penitência nos acompanhe,
Conversão da mente e do coração desejáveis.
 
Sem negligência que leva ao esquecimento,
Esquecimento que, por sua vez, leva ao desejo e pecado.
 
Dos pecados capitais despir, a alma libertar:
Soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça.
 
As cinzas recebidas, não como um mero e vazio rito,
Nos coloca no mais belo itinerário quaresmal.
 
Exercícios quaresmais nos acompanhem:
Oração, jejum e esmola, em segredo do coração.
 
Em empenho de conversão e reconciliação.
A Cristo configurados: Mistério de Sua Paixão e Morte,
 
Para que, com Ele, também possamos dessepultar,
E a glória da Ressurreição, vida eterna alcançar. Amém.

“Somos pó e cinza diante da Rocha”

                                                            

                 “Somos pó e cinza diante da Rocha”
 
Reflexão à luz da passagem do Livro de Gênesis (Gn 18,20-32),  em que Abraão faz uma oração em favor de Sodoma e Gomorra, porque o clamor contra estas cresceu e chegou até o Senhor, e houve o agravamento de seu pecado.
 
Reflitamos sobre o diálogo de Abraão com o Senhor, conforme comentário do Missal Dominical:
 
“Em Israel, que vive num regime de fé, não está em perigo a veracidade da relação do homem com Deus, a verdadeira oração.
 
Um homem vivo, um homem verdadeiro, encontra o Deus vivo e verdadeiro. Uma liberdade está diante da Liberdade, o pó diante da Rocha. ‘Eis que ouso falar ao meu Senhor, eu que sou pó e cinza”.
 
Em Israel, a oração está essencialmente ligada a fé. Uma resposta livre ao Deus que se revela e fala, uma ação de graças pelos grandes acontecimento que Deus realiza para o Seu povo. A oração é, pois, antes resposta do que pedido”. (1)
 
Aprendemos com Abraão a fazer da oração um verdadeiro diálogo com Deus: ele se coloca diante diante d’Ele, com ousadia e confiança, apresentando suas inquietações, dúvidas, anseios, e procurando captar Sua vontade para a humanidade.
 
A passagem é uma catequese sobre o peso que o justo e o pecador têm diante de Deus; revela-nos a misericórdia divina que é maior do que a vontade de castigar. 
 
A vontade que Deus tem de salvar é infinitamente maior do que a vontade de perder: Deus está sempre pronto a nos salvar. É preciso que nos abramos à Sua vontade.
 
Abraão nos ensina que é possível dialogar com Deus numa forma familiar, confiante, insistente e ousada. Revela-nos um Deus que veio ao encontro da humanidade, entrou em sua tenda, sentou-se à sua mesa, criando vínculos de comunhão, e ainda mais, realizando os sonhos daquele que O acolhe.
 
Com o pai da fé, aprendemos que Deus é alguém com quem se pode dialogar, com amor e sem temor; com uma Oração que brota de um coração humilde, reverente, respeitoso, confiante, ousado e cheio de esperança.
 
Abraão não repete palavras vazias e gravadas, sem ressonância na própria vida, mas estabelece com Deus um diálogo espontâneo e sincero.
 
Assim, devemos nos colocar diante de Deus sempre, de modo especial, quando em oração, em diálogo com Ele, para que experimentemos o sabor da autêntica oração, sem arrogância, sem sinais de petulância, na mais bela expressão de humildade e confiança: somos pó e cinza diante da Rocha que é Deus (como tão bem expressam diversas passagens da Sagrada Escritura).
 
Somos plasmados pelo Deus, desde os primeiros dias do Paraíso, por Ele criados à Sua imagem e semelhança, agraciados com o Seu divino sopro de vida, como narram as primeiras páginas do Livro de Gênesis.
 
Somos permanentemente modelados por Deus, como barro na mão do oleiro, para que melhor sejamos, e mais perfeitamente sintonizemos Seus desígnios ao nossos respeito e mais felizes sejamos.
 
Somos criaturas do Divino Criador, sim, criaturas com todas as limitações inerentes à condição humana, passíveis de todas as imperfeições em todos os sentidos, convivendo com a graça que em nós é derramada abundantemente, mas sem jamais esquecermos, que somos santos e pecadores, com sede e desejo de sermos santos como Deus é Santo, pois este é o Seu desejo mais pleno e belo para a humanidade.
 
Somos pó, somos barros carregando o tesouro do Espírito em vasos de argilas que somos, como tão bem expressou o Apóstolo Paulo (2 Cor 4,7).
 
E um dia desfeito nosso corpo mortal, voltaremos a ser pó, porque do pó viemos e ao pó retornaremos. Seremos se cremados, um punhado de cinzas apenas, mas certos de que a alma que em nós habita, para Deus haverá de voltar.
 
Confiamos e esperamos, porque de Deus vivemos, nos movemos e somos e para Deus haveremos de retornar, no dia de nossa Ressurreição, pois como Ele mesmo o disse: “Eu Sou a Ressurreição e a vida, todo aquele que em mim viver e crer, ainda que esteja morto viverá” (Jo 11, 25-26).
 
Quando oramos assim devemos nos sentir: pó e cinza, limitados, suplicantes diante de Deus, a onipotência da misericórdia que vem sempre em socorro de nossa finitude e miséria.
 
É o Amor Uno e Trino que vem ao nosso encontro, e nós somos sedentos de força, amor, luz e graça. Somos os eternos suplicantes da presença da Santíssima Trindade que vem em socorro de nossa fraqueza; vem ao nosso encontro o Amante(Deus Pai), com o Amante (Deus Filho) e o Amor (o Espírito Santo).
 
Pó e cinza, somos diante da Rocha! Oremos assim, exatamente como Abraão o fez, e nossa oração chegará até Deus, que não desiste de nós porque nos amou e nos criou e quer nos redimir, mas não sem nossa participação.
 
 
 
(1) Missal Dominical - Ed. Paulus - p.1189
PS: Apropriado para a passagem do Livro do Gênesis (Gn 18,16-33) proclamada na segunda-feira da 13ª semana do Tempo Comum

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