domingo, 23 de fevereiro de 2025

São Policarpo de Esmirna, Bispo e Mártir


São Policarpo de Esmirna, Bispo e Mártir

São Policarpo, cuja memória é celebrada dia 23 de fevereiro, foi Bispo de Esmirna, discípulo e convertido por São João, o Apóstolo e evangelista, e amigo de Santo Inácio da Antioquia.

Aos 86 anos, durante as perseguições do Imperador Marcos Aurélio, foi preso. Ele pediu a Santo Inácio que continuasse a construção das Igrejas que não havia podido terminar.

Foi torturado e martirizado para renegar a sua fé e como não o fizesse, sofreu o martírio cerca do ano 155. Foi queimado vivo no estádio da cidade, milagrosamente, as chamas não o atingiam e não o machucavam e ele se punha a cantar hinos de louvor a Jesus, por isto é invocado como protetor das dores de ouvido e das queimaduras.

Impressionados com o acontecimento os guardas chamaram um arqueiro para que ele perfurasse o santo com uma flecha. Ao ser atingido o seu sangue apagou as chamas. Os guardas tentaram de novo acender a pira, mas sem sucesso.         

O procônsul encarregado do martírio, furioso ordenou que ele fosse decapitado com uma adaga (espécie de arma branca).

É impressionante o relato de seu martírio, que encontramos na Carta da Igreja de Esmirna. Acompanhemos atentamente, e que esta grande testemunha do Senhor renove em nosso coração a fé, o amor por Jesus, fidelidade a Igreja, amor ao Evangelho, fortalecendo em nós a coragem necessária para que também testemunhemos a fé em Cristo no nosso tempo.

“Quando a fogueira ficou pronta, Policarpo desfez-se de todas as vestes e desatou o cinto; tentou desamarrar as sandálias, o que há muito não fazia, pois os fiéis sempre apressavam em ajudá-lo, desejando tocar-lhe o corpo, no qual muito antes do martírio já brilhava o esplendor da santidade de sua vida.

Rapidamente cercaram-no com o material trazido para a fogueira. Quando os algozes quiseram pregá-lo ao poste, ele disse: ‘Deixai-me livre. Quem me dá forças para suportar o fogo, também me concederá que fique imóvel no meio das chamas sem necessitar deste vosso cuidado’. Assim não o pregaram, mas se limitaram a amarrá-lo.
Amarrado com as mãos para trás, Policarpo era como um cordeiro escolhido, tirado de um grande rebanho para o sacrifício, uma vítima agradável preparada para Deus.

Levantando os olhos ao céu, ele disse: ‘Senhor Deus todo-poderoso, Pai do Vosso amado e  bendito Filho Jesus Cristo, por quem Vos conhecemos, Deus dos anjos e dos poderes celestiais, de toda a criação e de todos os justos que vivem diante de Vós, eu Vos bendigo porque neste dia e nesta hora, incluído no número dos mártires, me julgastes digno de tomar parte no cálice do Vosso Cristo e ressuscitar em corpo e alma para a vida eterna, na incorruptibilidade, por meio do Espírito Santo.

Recebe-me hoje, entre eles, na Vossa presença, como um sacrifício perfeito e agradável; e o que havíeis preparado e revelado, realizai-o agora, Deus de verdade e de retidão.

Por isso e por todas as coisas, eu vos louvo, bendigo e glorifico por meio do eterno e celeste Pontífice Jesus Cristo, Vosso amado Filho. Por Ele e com Ele seja dada toda a glória a Vós, na unidade do Espírito Santo, agora e pelos séculos futuros. Amém’.

Então, nós, a quem foi dado contemplar, vimos um milagre – pois, para anunciá-Lo aos outros é que fomos poupados: O fogo tomou a forma de uma cúpula, como a vela de um barco batida pelo vento, e envolveu o corpo do mártir por todos os lados; ele estava no meio, não como carne queimada, mas como um pão que é cozido ou o ouro e a prata incandescente na fornalha. E sentimos um odor de tanta suavidade que parecia se estar queimando incenso ou outro perfume precioso”. 

Nossa Igreja nasceu do lado trespassado de Nosso Senhor, e do Seu coração que jorrou Sangue e Água, sinais do Batismo e da Eucaristia. Igreja que nasce aos pés da Cruz preanunciava o destino de tantos fiéis seguidores ao longo de sua história. Policarpo foi um deles. Mais um de que pelo sangue jorrado, regou semente de novos cristãos.

Seu sangue jorrado questiona nossa adesão a Jesus:

- O que somos capazes de fazer por amor de Jesus e a Sua Igreja?
- Temos a mesma alegria em servir ao Senhor, mesmo enfrentando eventuais dificuldades na vida de comunidade?

Às vezes por tão pouco, mas por muito pouco mesmo, temos pensamentos tão diferentes deste grande mártir do Senhor.

Quando vier o desânimo, o medo, a covardia, ou qualquer sentimento semelhante, procuremos imitar o exemplo de São Policarpo, que é mais um apaixonado incondicional do Senhor, que o ama e o ama até o fim!

A força desarmada do amor (VIIDTCA)

A força desarmada do amor

Para aprofundamento da Liturgia do 7º Domingo do Tempo Comum (ano A), em que é proclamada a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5, 38-48), ofereço algumas citações riquíssimas extraídas do Lecionário Comentado (1), para compreendermos e vivermos o exigente Mandamento do Amor que o Senhor nos deixou.

“O ódio e espírito de vingança são vistos como um cancro, que insinua no coração do homem e que, pouco a pouco, pode levar até a eliminação física do irmão” (p. 304)

A divisão: “A divisão contradiz a natureza da comunidade cristã (a Igreja) e a sua norma de vida. Paulo diz isto àqueles que querem mostrar-se a si mesmos e se vangloriam pela sua presumida sabedoria” (p. 304)

Somos de Cristo: “A fé não está e não pode estar apoiada no prestígio e na autoridade do evangelizador. O cristão deve apoiar sua fé só na pessoa de Cristo. A expressão ‘Vós sois de Cristo’ (v.23) não tem apenas um sentido afirmativo, mas também exclusivo, e significa: Vós pertenceis somente a Cristo e a ninguém mais. Só a sabedoria de Deus não divina e não exaspera” (p.305)

Espiral da violência: “O ódio, a violência, a vingança causam uma espiral que só pode ser interrompida pelo perdão. Se o mal não encontra resposta, esgota-se em si mesmo, como a semente que não encontra terreno onde possa germinar... O discípulo de Jesus, mesmo que venha a encontrar-se em situações-limite, deverá manter o seu coração livre do ódio e do ressentimento” (p. 306)

Lei de Jesus: “A lei do mundo responde a uma lógica de justiça férrea, Jesus pede que ultrapassemos todas as barreiras com o amor” (p. 307)

“O Senhor assegura-nos que o amor utilizado com quem nos aborrece e importuna, não nos saúda e procura tirar-nos o que é nosso, é construtivo, vitorioso.

Este amor pelos inimigos tem, ao mesmo tempo, aspectos profundamente humanos, porque parte da tentativa de entrar no íntimo do próximo, de compreendê-lo melhor, de compadecer-se dele... Perante os inimigos, o cristão deve ser guiado unicamente pela lógica do amor” (p. 307)

De fato, somente o Amor de Deus vivido instaurará um novo tempo, uma nova face para o mundo, rompendo de vez com a espiral da violência que gera tão apenas mais sofrimentos.

É preciso que aprendamos com o Senhor que, nos amando até o fim, morrendo na Cruz, deu o mais perfeito testemunho da força desarmada do amor.

Oremos:

“Ó Deus, que no Vosso Filho, despojado e humilhado na Cruz, revelastes a força do Amor, abri o nosso coração ao dom do Vosso Espírito e despedaçai as cadeias da violência e do ódio, para que, na vitória do bem sobre o mal, demos testemunho do Vosso Evangelho de paz. Amém” (p. 307)

(1) Lecionário Comentado - Tempo Comum - Volume I - Editora Paulus - Lisboa - 2010 - pág. 304-307

PS: Oportuno apra o VII Domindo do Tempo Comum - ano C - quando se proclama a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 6,27-38)

A Boa-Nova: Amar até os inimigos (VIIDTCA)

A Boa-Nova: Amar até os inimigos

Com a Liturgia do 7º Domingo Comum (Ano A), aprofundamos sobre a vivência do Mandamento do Amor, inclusive aos inimigos.

Este Mandamento do Senhor é novo e revolucionário pela formulação, conteúdo e forte exigência.

Vejamos o que nos diz o Missal Dominical sobre o tema:

É novo pelo seu universalismo, por sua extensão em sentido horizontal: não conhece restrições de classe, não leva em conta exceções, limitações, raça, religião; dirige-se ao homem na unidade e na igualdade da sua natureza. É novo pela medida, pela intensidade, por sua dimensão vertical.

A medida é dada pelo próprio modelo que nos é apresentado: “Dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei assim amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34). A medida do nosso amor para com o próximo é, pois, o amor que Cristo tem por nós; ou melhor, o mesmo amor que o Pai tem por Cristo: porque “Como o Pai me amou, também eu vos amei” (Jo 15,9. Deus é amor (1Jo 4,16) e nisto se manifestou o seu amor: Ele nos amou primeiro e enviou seu Filho para expiar nossos pecados (1Jo 4,10).

É novo pelo motivo que nos propõe: amar por amor de Deus, pelas mesmas finalidades de Deus; exclusivamente desinteressado; com amor puríssimo; sem sombra de compensação (Mt 4,46). Amar-nos como irmãos, com um amor que procura o bem daquele a quem amamos, não a nosso bem. Amar como Deus, que não busca o bem na pessoa a quem ama, mas cria nela o bem, amando-a.

É novo porque Cristo o eleva ao nível do próprio amor por Deus. Se a concepção judaica podia deixar crer que o amor fraterno se põe no mesmo plano dos outros mandamentos (Lv 19,18) a visão cristã lhe dá um lugar central, único. No Novo Testamento o amor do próximo está indissoluvelmente ligado ao preceito do amor de Deus.

A fé... lembra ao cristão os mandamentos de Deus e proclama o espírito das bem-aventuranças; convida a ser paciente e bondoso, a eliminar a inveja, o orgulho, a maledicência, a violência; ensina a tudo crer, tudo esperar, tudo sofrer, porque o amor nunca passará” (RdC47) 

Mas insiste ainda: “Ama teu inimigo... oferece a outra face... Não pagues o mal com o mal”. Quanto cristãos fizeram da palavra de Jesus a lei da sua vida! A história da Igreja está cheia de exemplos sublimes a este respeito: J. Gualberto, que perdoa, por amor de Cristo crucificado, o assassínio de seu irmão; pais que esquecem heroicamente ofensas recebidas dos filhos; esposos que superam as ofensas e culpas; homens políticos que não conservam rancor pelas calúnias, difamações, derrotas; operários que ajudam o companheiro de trabalho que tentou arruiná-los, etc...

Em nome da religião e de Cristo, os cristãos se dividiram, dilacerando assim o Corpo de Cristo. Viram no irmão um inimigo, se “excomungaram” reciprocamente, chamando-se hereges, queimando livros e imagens... Derramou-se sangue, explodiu ódio em guerras de religião. O orgulho, o desprezo e a falta de caridade caracterizaram as diatribes teológicas e os escritos apologéticos. Os inimigos de Deus, da Igreja, da religião foram combatidos com armas e com ódio. Travaram-se lutas, organizaram-se cruzadas.

Hoje, a Igreja superou, ou se encaminha para superar, muitas dessas limitações. Não há mais hereges, mas irmãos separados; não há mais adversários, mas interlocutores; não consideramos mais o que divide, mas antes de tudo o que une; não condenamos em bloco e a priori as grandes religiões não cristãs, mas nelas vemos autênticos valores humanos e pré-cristãos que nos permitem entrar em diálogo.

Mas a intolerância e a polêmica estão sempre de atalaia. Não estaremos acaso usando, dentro da própria Igreja, aquela agressividade e polêmica excessivas que outrora usávamos com os de fora da Igreja? Quantos cristãos engajados, uma vez faltando o alvo de fora, começaram a visar com “inimigos” aos próprios irmãos na fé, e os combatem obstinadamente, sem amor e sem perdão!” (1)

Viver o Amor do Senhor, em seu universalismo e novidade. Um amor que ama sem medida, e que se estende até os inimigos. É esta maturidade cristã que somos chamados a alcançar, não obstante qualquer dificuldade.

Configurados a Cristo temos que ter d’Ele mesmos sentimentos (Fl 2,5). Deste modo, “amar como Jesus ama” precisa estar impresso, como selo, em nossa alma, nas mais profundas entranhas de nosso ser. 

 Amar em nossa medida com cálculos e retornos, condições e reciprocidade, não é o que nos fará sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-16), e tão pouco viveremos as Bem-Aventuranças propostas por Jesus no Evangelho de Mateus (Mt 5,1-12a).

Cremos que a felicidade que Deus tem a nos oferecer é diretamente proporcional à nossa capacidade amar, à nossa intensidade de amor, que não ama apenas os bons, mas ama até os inimigos.

Cremos, também, que Deus não nos ama porque somos bons, mas para que sejamos todos bons.

Linhas novas da História precisam de novos conteúdos, que sejam escritos com a tinta do Amor que nos vem do Santo Espírito.



(1) Missal Cotidiano - Editora Paulus - pp.693-694.


PS: Oportuno para o VII Domingo do Tempo Comum - ano C - quando se proclama a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 6,27-38).

Os degraus que nos levam ao cume da virtude (VIIDTCA)

 


Os degraus que nos levam ao cume da virtude
 
Na passagem do Evangelho do 7º Domingo do Tempo Comum (ano A), Jesus nos exorta amar os inimigos (Mt 5,38-48).
 
Sejamos enriquecidos pelo Sermão do Doutor São João Crisóstomo (séc. V), retomando parte deste:
 
“'Ouvistes o que foi dito: amarás a teu próximo e odiarás o teu inimigo. Porém eu vos digo: amai aos vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus, que faz se levantar o sol sobre bons e maus e faz chover sobre os justos e injustos’ (Cf Mt 5,43-45).
 
Observa como colocou a conclusão de todos os bens. Por isso ensinou a ter paciência com aqueles que nos esbofeteiam e até mesmo a apresentar-lhes a outra face; e não apenas juntar o manto à túnica, mas a caminhar por duas milhas mais com quem nos requisitou para uma, para que em seguida aceitasses com maior facilidade o que era superior a estes preceitos; ou seja, que quem cumprir tudo isso não tenha inimigos. Pois bem: existe algo ainda mais perfeito, porque Ele não diz: Não odeies, mas ama. Não disse: não prejudique, mas sim favoreça. Se alguém examina cuidadosamente, encontrará um acréscimo muito maior que este. Porque agora não só manda amá-los, mas a também rogar por eles.
 
Observas a que degraus subiu e como nos elevou até o próprio cume da virtude? Quero que o medites, enumerando-os desde o princípio: o primeiro grau é não injuriar; o segundo, quando injuriados, não nos vingarmos; o terceiro, não aplicar sobre o autor o mesmo castigo com o qual nos fere, mas sim ter mansidão; o quarto, oferecer-se voluntariamente a sofrer injúrias; o quinto, oferecer ao injuriador muito mais do que ele nos exige; o sexto, não odiar a quem nos faz semelhante injustiça; o sétimo, inclusive amá-lo; o oitavo, ainda favorecê-lo. Finalmente, o nono: rogar a Deus por ele. [...]” (1).
 
Ele nos fala dos degraus que Jesus subiu e como nos elevou até o próprio cume da virtude:
 
1º - Não injuriar;
2º - Quando injuriados, não nos vingarmos;
3º - Não aplicar sobre o autor o mesmo castigo com o qual nos fere, mas sim ter mansidão;
4º - Oferecer-se voluntariamente a sofrer injúrias;
5º - Oferecer ao injuriador muito mais do que ele nos exige;
6º - Não odiar a quem nos faz semelhante injustiça;
7º - inclusive é preciso amá-lo;
8º - Ainda mais: favorecê-lo;
9º - Rogar a Deus por ele.
 
Assim vivamos na planície do cotidiano, marcado, por vezes, pelas complexas relações com o próximo.
 
Deste modo, viveremos as Bem-Aventuranças, que Nosso Senhor Jesus Cristo nos apresentou, no alto da Montanha (Mt 5,1-12), e tão somente assim, luz do mundo e sal da terra seremos (Mt 5,13-16).
 
Subamos estes degraus para chegarmos ao cume da virtude, a fim de que vivamos o Mandamento Novo do Amor que nos deu nosso Senhor (Jo 13,34), e que viveu plenamente:  um amor com dimensão universal, sem limites, e que nos permite chegar ao cume da virtude.
 
 
(1) Lecionário Dominical Patrístico - Editora Vozes – 2013 - pp. 140-141

Servidores da Paz e do Amor Pleno – Jesus (VIIDTCA)


Servidores da Paz e do Amor Pleno – Jesus

“...Bem-aventurados os mansos porque herdarão a terra...
Bem aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus...”
(Mt 5,4.9)

A Liturgia do 7º Domingo do Tempo Comum (Ano A) nos faz um grande convite: trilhar o caminho cristão, que é inacabado e exige compromisso sério e radical em contínua conversão, progredindo a cada dia na prática da Lei divina, que o Senhor deu pleno cumprimento, pois quem ama como Jesus ama, cumpre plenamente a Lei.

Com os olhos fitos no Senhor que nos espera ao final da “viagem”, continuamos a refletir sobre o Sermão da Montanha, e seus desdobramentos em nossos relacionamentos.

A passagem da primeira leitura (Lv 9, 1-2;17-18) é um apelo veemente à santidade que passa pelo amor ao próximo – “Sede Santos, porque Eu, o Vosso Deus sou Santo” (v.2).

As Leis de Deus e seus Preceitos existem para que nos ajudem a viver em comunhão com Deus, que passa necessariamente na comunhão com o outro; iluminam a vida cultual e a vida social.

Arrancando as raízes do mal, que podem crescer em cada um de nós, haveremos de multiplicar esforços para permanecer no caminho da santidade, que exige um processo contínuo de conversão. Ser santo, portanto, é permitir que o Amor de Deus seja derramado através de nossos gestos e palavras.

Reflitamos:

- Em que consiste e como testemunhar a santidade no mundo hoje?
- O que ainda me impede de viver e dar um testemunho de santidade?

O Apóstolo Paulo, na passagem da segunda Leitura (1 Cor 3,16-23), continua nos ajudando a não viver pautados pela sabedoria humana, mas pela Sabedoria Divina, que passa inevitavelmente pela Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, a máxima expressão de Amor, doação, entrega e serviço, que gera vida plena e faz nascer como criaturas novas no Ressuscitado.

Como templos onde Deus habita, temos que superar todos os conflitos, divisões, ciúmes, confrontos, pois não nos pertencemos, e tão pouco ao outro, pertencemos ao Senhor, como o próprio Apóstolo diz: “tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (v.23).

O Apóstolo nos exorta ao testemunho que damos pessoalmente, fala de um Deus cheio de Amor e misericórdia que tem um Projeto de Salvação e Libertação para nos oferecer.

Viver a “loucura da cruz” com gestos de amor, partilha e doação, para que formemos e geremos Cristo em nós e no outro. Esforços sejam multiplicados para que se oriente a vida  pela Sabedoria de Deus ou viveremos a sabedoria do mundo, que muitas vezes se caracteriza pela luta sem regras pelo poder, pela influência, pelo reconhecimento social, pelo bem-estar econômico e pelos bens perecíveis e secundários.

Reflitamos:

- Nossa comunidade é uma comunidade fraterna e solidária, que dá o corajoso testemunho da “loucura da Cruz”?
- De que modo nosso viver revela que nossas palavras e ações são iluminadas e orientadas pela Sabedoria divina?

Com a passagem do Evangelho (Mt 5,38-48), continuamos a refletir sobre mais dois exemplos que nos desafiam para que, de fato, sejamos sal da terra e luz do mundo. Viver as Bem-Aventuranças implica em superar a "Lei do talião”, conhecida pela fórmula “olho por olho, dente por dente” (Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21)  e o maior de todos os desafios, amor aos inimigos.

Viver como Deus ama, eis o nosso mais belo e maior desafio, acabando com a espiral da violência, como tão bem viveu e testemunhou Nosso Senhor: um Amor sem medida, um amor que se estende aos inimigos.

Jesus nos revela a face misericordiosa de Deus, um amor universal que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre os bons e os maus. E nos exorta a sermos perfeitos como O Pai Celeste é perfeito, superando a lógica legalista, casuística e fria que não cria proximidade e comunhão.

Para que se viva em comunhão total com Deus é preciso deixar que a vida e o amor  de Deus preencha nosso coração, resplandecendo Sua Luz no cotidiano, e tão somente assim seremos também o sal da terra e nisto consiste o embarcar na aventura do Reino que O Senhor nos convida.

Reflitamos:

- Como sal da terra e luz do mundo de que modo vivo a força desarmada do amor para que se instaurem novos relacionamentos humanos e fraternos, quebrando a espiral da violência?

- Como amar os inimigos, como o Senhor nos exorta?
- O que falta em nossa vida para que vivamos a perfeição do Pai Celeste?

Com a  presença e ação do Espírito Santo, continuemos trilhando o caminho da santidade, em permanente conversão, envolvidos pelo amor de Deus, pleno em nosso coração, para que jamais, como sal, percamos o sabor, e jamais percamos o brilho e o esplendor da Verdade de Deus. 


Tão somente assim, iluminados por Deus, iluminadores em situações mais obscuras seremos.

.Amor e liberdade somente no Senhor (VIIDTCB)

Amor e liberdade somente no Senhor

A Liturgia da Palavra do 7º Domingo do Tempo Comum (ano B) reflete sobre o Projeto de Salvação que Deus tem para toda a humanidade, e que se viu realizado na Pessoa de Jesus.

Entretanto, é preciso acolher este Projeto com fé. Por meio de Jesus – Caminho, verdade e vida – a humanidade pode se voltar novamente para Deus (reconciliação).

Em cada um de nós existe uma profunda necessidade de libertação do exílio de nós mesmos, das nossas múltiplas paralisias, do nosso afastamento de Deus (pecado).

O tema dominante da Liturgia é o perdão dos pecados, a verdadeira doença da humanidade que Jesus combate e derrota ao cuidar da pessoa humana em sua totalidade.

A passagem da primeira Leitura (Is 43,18-19.21-22.24b-25) faz parte do “Livro da Consolação”. Retrata a fase final do Exílio da Babilônia (entre 550-539). O povo de Deus exilado experimenta a frustração, a desorientação e, aparentemente, Deus parece ter dele Se esquecido.

O Profeta se dirige a um povo já extenuado pela experiência do exílio e anuncia a libertação como uma nova criação e um novo êxodo por intervenção divina, mas este povo precisará fazer um caminho de conversão, abandonando toda indiferença e infidelidade que o levou a tal desolação.

É preciso sempre reconhecer as faltas cometidas, as infidelidades multiplicadas. É preciso trilhar um caminho de conversão e renovação para acolher a libertação que Deus tem a nos oferecer.

É necessária a paciência para perceber a ação libertadora de Deus que não demora em atuar, mas não atua segundo a medida de nosso tempo e vontade. Crer no Deus cheio de solicitude e Amor que caminha com Seu povo se faz imperativo.

Somente Deus pode realizar algo completamente novo e atuar em qualquer situação, mesmo nas mais desesperadoras, como era a do exílio em que há muito tempo o povo se encontrava.

Para o Profeta, a lembrança do passado será válida para alimentar a esperança na preparação de um futuro novo. Isto vale para qualquer tempo em nossa vida.

A lembrança do passado só tem sentido se nos impulsiona para o novo que Deus sempre nos prepara. Aquele que crê tem que superar a instalação, o comodismo, ir sempre além, imprimindo um dinamismo para ser um Homem Novo, um Povo de Deus que ao Amor Divino corresponda.

Reflitamos:

- Somos capazes de olhar para trás, reconhecer os erros e dar passos largos na construção de um novo tempo, de uma nova realidade, de novos relacionamentos?

Na passagem da segunda Leitura (2Cor 1,18-22), o Apóstolo nos ensina pelo seu testemunho, ainda que não compreendido, a viver uma vida coerente com o Evangelho, marcada pela sinceridade, compromisso e desprovida de quaisquer subterfúgios ou outras motivações a não ser a pregação da Boa Nova do Evangelho de Jesus.

O Apóstolo foi acusado de volúvel e oportunista, mas tem consciência de que é fiel aos princípios verdadeiros e eternos do Evangelho. Aproveita a ocasião para afirmar a estabilidade de sua doutrina que não é flexível, flutuante, vulnerável, pois anuncia o Evangelho de Jesus Cristo pelo qual dá a própria vida.

Ele não se dobrou a verdades passageiras, ao modismo de seu tempo. Invoca o testemunho de Deus com serenidade, falando do seu testemunho e coerência vivida. Ele viveu adesão total a Cristo e tinha impresso no coração o penhor do Espírito.

O Apóstolo morreu na fidelidade ao Senhor, fiel ao Projeto de Salvação que Deus lhe confiou: coerente, sincero, verdadeiro. Morreu porque em seus olhos brilhava e reluzia a verdade. Ao cristão Paulo deixa uma mensagem: Ele deve fazer este mesmo caminho da coerência, fidelidade e sinceridade.

Reflitamos:

- É este o caminho que percorremos?
- O que o testemunho do Apóstolo nos questiona?
- Se animadores de comunidade, temos as marcas da coerência, sinceridade na vivência do Evangelho que anunciamos e que temos que dar testemunho?
- Quais são os valores que nos moldam, nos impulsionam? Serão os valores do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Na passagem do Evangelho (Mc 2,1-12), contemplamos Jesus, a manifestação da bondade, da misericórdia e do Amor divino que liberta o homem de toda paralisia, de todo pecado. 

Começa a ser desenhado um conflito que o levará à Cruz, por ação e rejeição das autoridades constituídas.

Lembramos que Marcos não faz uma reportagem jornalística. Trata-se de uma autêntica catequese sobre a pessoa e a missão de Jesus, que deverá ser por sua vez a missão de todo aquele que O seguir.

Um paralítico é levado por quatro homens e introduzido pelo telhado na casa onde Jesus Se encontrava. Ele será liberto e perdoado manifestando o poder que Jesus possuía, pelo Pai confiado.

Quatro homens significa a humanidade solidária com quem sofre, e vai ao encontro d'Aquele que tem a última Palavra, a resposta, a libertação.

O paralítico sem nome é a mesma humanidade sedenta de vida, liberdade, movimento, dinamismo, enfim, de uma nova possibilidade.

Também revela que a Salvação de Jesus não é somente para a comunidade judaica, mas para a humanidade inteira. Os esforços feitos para que o paralítico chegasse até Jesus retratam os esforços que devemos fazer para chegarmos até Jesus.

Nada pode impedir nosso encontro com a Fonte da Vida e da Liberdade. Tudo se torna nada, para conhecê-Lo, encontrá-Lo. Os esforços são a revelação da ânsia por libertação. Normalmente Jesus Se revela precisamente em nossas fraquezas, temores, cansaços, incertezas.

Ele tem a Palavra e a resposta. Ele é a própria Palavra que cura, liberta, perdoa, porque a plena manifestação do Amor de Deus.

O perdão que Jesus nos concede, a oportunidade do começo de uma nova vida, ao mesmo tempo revela o poder divino que possui, pois é Deus, e somente Deus pode perdoar (aqui o grande conflito: as autoridades reagem dizendo tratar-se de blasfêmia).

A grande mensagem catequética do Evangelista: Jesus tem autoridade para trazer a vida em plenitude. 

A humanidade que percorre diariamente as estradas de sofrimento e angústia encontra em Jesus uma resposta, uma palavra de Libertação e Vida plena. Somente Ele pode colocar a humanidade numa órbita de vida nova, e sem Ele nada pode ser feito:  por meio de palavras e gestos Jesus ama, salva, perdoa, liberta.

O pecado redimido deixa a lembrança no coração do pecador perdoado, não para imobilizá-lo, mas para que relembre sempre a história de um amor vivenciado, de uma nova oportunidade encontrada. Recorda-se como uma História de Salvação, como que um sigilo de um amor que foi e continua a ser maior do que qualquer enfermidade, qualquer pecado, quaisquer deslizes ou infidelidades.

O perdão purifica e renova. No coração de quem foi perdoado, por um pecado cometido, fica a  lembrança do amor vivido; força impulsionadora para um novo modo de ser e agir, para a não repetição indesejável das mesmas faltas.

Reflitamos:


- Quem nós conduzimos até Jesus?
- Quem recebe da Igreja a solidariedade necessária para o encontro da vida digna e plena?

- Procuramos superar a cada instante o perigo de uma forma de vida cômoda, instalada, medíocre?
- Testemunhamos nossa fé no Senhor, com coragem para a transformação em todos os níveis?

- Quais são as paralisias que nos roubam o compromisso com a construção do Reino?
- Quais são os pecados assumidos, para que confessados diante da misericórdia de Deus mereçam o perdão?

- Antes de nosso pedido de perdão chegar até Deus, quais são os esforços que fazemos para alcançá-lo?

Concluindo, afirmamos que a Face misericordiosa de Deus Se revela em Sua ternura, solidariedade, fidelidade, perdão, liberdade e vida plena para todos.

Pertencemos ao Senhor (VIIDTCA)

                                         


Pertencemos ao Senhor
“Vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus”

Reflitamos sobre a passagem da segunda leitura proclamada no 7º Domingo do Tempo Comum (ano A), em que o Apóstolo Paulo conclui dizendo: “Portanto, que ninguém ponha a sua glória em homem algum. Com efeito, tudo vos pertence: Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, o presente, o futuro; tudo é vosso, mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1 Cor 3,16-23).

Vejamos duas afirmações do Lecionário Comentado, sobre esta passagem:

“O pregador que amarra as pessoas a si mesmo não constrói em Cristo; comportando-se deste modo destrói o Templo de Deus e atrai sobre si uma grande responsabilidade”;

- A fé não está e não pode estar apoiada no prestígio ou na autoridade do evangelizador. O cristão deve apoiar a sua fé só na pessoa de Cristo. A expressão ‘Vós sois de Cristo’ (v.23) não tem apenas um sentido afirmativo, mas também exclusivo, e significa: ‘Vós pertenceis somente a Cristo e a ninguém mais”. (1)

Aqui está o grande desafio da evangelização: quem evangeliza, não evangeliza para si, e tão pouco anuncia suas ideologias. Não reproduz nos fiéis a sua identidade.

Ao contrário, quem evangeliza, é alguém que se encontrou com o Senhor, e professa a fé, não como um conjunto de ideias, como tão bem expressou o Papa Bento de forma emblemática:

“Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus Caritas Est 1).

Tendo encontrado o Senhor, levará aqueles a quem evangeliza ao mesmo encontro, não se apropriando nem da Palavra que anuncia, tão pouco daqueles que ouvem e acolhem esta mesma Palavra.

Urge evitar qualquer possibilidade de fazer da evangelização fonte de enriquecimento, ou mesmo do envaidecimento pessoal, marcado pela fama, prestígio, honras e glórias, que tão somente ao Senhor pertencem.

Também é necessário que os que ouvem e professam a fé, não fundamentem a existência e seus compromissos movidos pelos sentimentos subjetivos que possa despertar aquele que o evangelizou.

Não seguirá até o fim o Senhor, quem por Ele, e tão somente por Ele, tenha seu coração seduzido.

Deste modo, com a fé fundamentada na pessoa de Cristo e Sua Palavra, terá coragem para o seguimento e viverá fidelidade e disponibilidade plena no discipulado, e suportará o peso da cruz, acompanhado das renúncias que se fazem necessárias.

Evidentemente que isto não dispensa aos que evangelizam, o zelo pelo anúncio, a criação de laços afetivos de amizade e eternos, que possam no altar do Senhor ser celebrados, assim como Senhor soube e fez com todos que quiseram se pôr a caminho com Ele.

Evangelizamos verdadeiramente quando nos encontramos com o Senhor e permitimos que Ele nos transforme a todo momento, e esta transformação leva a outros a quererem o mesmo encontro fazer, e mesmo apaixonamento pelo Senhor viver, numa resposta inflamada e eterna de amor.



(1) Lecionário Comentado - Volume Tempo Comum I - Editora Paulus - Lisboa - 2010 - pp. 304-305

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG