domingo, 19 de janeiro de 2025

Apresentar e testemunhar Jesus, a Luz das Nações (IIDTCA) (17/01)

Apresentar e testemunhar Jesus, a Luz das Nações

“Melhor é calar-se e ser do que falar e não ser.
Coisa boa é ensinar, se quem diz o pratica.”

A Liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum (Ano A) nos apresenta as passagens bíblicas: Is 49,3.5-6; Sl 39, 2.4.7-10-11ab; 1 Cor 1,1-3; Jo 1,29-34.

Na primeira Leitura, uma passagem do Antigo Testamento, o Profeta Isaías anuncia a ação divina, que fará do Servo Sofredor a luz das nações, para que seja a Salvação de Deus oferecida a toda a humanidade. Trata-se do segundo cântico do Servo Sofredor.

A Tradição cristã viu sempre nesta página o anúncio profético do Messias, que veio ao mundo como luz e Salvação para a Humanidade.

O Salmo traz um refrão que deve iluminar toda a nossa vida, sobretudo nossa prática pastoral como discípulos missionários do Senhor – “Eu disse: ‘Eis que venho, Senhor, com prazer faço a Vossa vontade!’”.

Servir a Deus com alegria, exultação, sinceridade, doação... Sem reclamar, sem sentir-se obrigado a qualquer coisa. Impulsionados pelo amor, quando algo fazemos, o prazer e a alegria são mais que alcançados, notados e partilhados.

Não encontramos nenhum gosto saboroso naquilo que não fazemos por amor e com prazer, sobretudo quando se refere à vontade divina, que pode exigir de nós algo mais: renúncia, sacrifício.

A passagem da segunda Leitura é a introdução da Carta que Paulo dirige à comunidade de Corinto, convidando todos a trilhar o caminho de santidade e a viver a única vocação que Deus tem para nós: sermos santos.

Finaliza a Carta com uma preciosa saudação que devemos trocar mutuamente, sobretudo quando estivermos esmorecidos, não enxergando a mão e a intervenção amorosa de Deus, que nos concede toda graça e toda paz: “A graça e a paz de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo estejam convosco”.

Na passagem do Evangelho, vemos a presença de João que nos apresenta Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

João batizou Jesus, não porque este fosse pecador, mas para santificar a água na qual todos seríamos batizados. João viu e dá  testemunho sobre Jesus:  Ele,  João, viu, no dia do Batismo, descer do céu sobre Jesus o Espírito como uma pomba. É Jesus, batizado por João, o Messias esperado, o enviado de Deus para com o Batismo no Espírito comunicar Luz e salvação para toda a humanidade.

Oportuna a citação do Lecionário Comentado: “Hoje a Palavra de Deus qualifica João como o ‘apresentador do Messias.

Estamos habituados a assistir às entrevistas na televisão, em que o apresentador se serve de personagens famosas para ganhar audiência: os outros são para ele um pretexto para aumentar sua popularidade.

João, não! Não se serve de Jesus para aumentar a sua fama, ao invés convida os seus discípulos a seguirem Jesus” (p. 62).

A propósito, João dirá em outra passagem: “É necessário que Ele cresça e eu diminua” (Jo 3,30).

Iniciando o ano, somos todos convidados a renovar a alegria da graça do Batismo e também sermos no mundo sinal da Luz que é o Cristo Senhor.

É nossa missão sermos também apresentadores do Senhor, com o anúncio do Evangelho em todos os espaços e por todos os meios.

Mas não basta apresentar Jesus, falar de Jesus. É preciso que nossa vida corresponda ao que anunciamos, ou seja, é necessário o testemunho permanente e incansável, até que um dia possamos contemplar a face d’Aquele que nos foi apresentado, e também ao mundo apresentamos, na glória da eternidade.

Finalizo com as palavras de Santo Inácio de Antioquia (séc I):

Melhor é calar-se e ser do que falar e não ser. Coisa boa é ensinar, se quem diz o pratica. Pois só um é o Mestre que disse e tudo foi feito, mas também, tudo quanto Ele fez em silêncio é digno do Pai”.

Peçamos a Deus a graça de continuarmos apresentando o Senhor ao mundo, sempre acompanhado do necessário testemunho, em constante atitude de amor, diálogo, comunhão e serviço.

O chamado divino e a nossa resposta (IIDTCB)

O chamado divino e a nossa resposta

Deus nos chama para que anunciemos a
Sua Palavra e não a nós mesmos, porque
nisto consiste a vocação do Profeta...

A Liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum (ano B) nos convida a refletir sobre o chamado que Deus faz a cada um de nós, e a resposta esperada expressa total disponibilidade, acolhendo também os desafios próprios daquele que se propõe a responder a este chamado.

A passagem da primeira Leitura (1 Sm 3,3b-10.19) nos apresenta o chamado que Deus fez a Samuel e a sua resposta, após quatro vezes ter ouvido o chamado.

A passagem nos revela que o chamamento é sempre uma iniciativa de Deus, que vem ao encontro da pessoa e o chama pelo nome, e o que Ele espera é uma atitude de total disponibilidade a este chamado.

Os primeiros capítulos do Livro, como o da Liturgia, retratam a fase pré-monárquica vivida pelo Povo de Deus com a experiência das tribos. É o início da sedução pela monarquia, e Samuel aparece neste tempo um tanto quanto caótico.

Destacam-se na passagem cinco pontos marcantes:

1 - A vocação é sempre uma iniciativa de Deus;

2 - Samuel foi chamado por Deus enquanto estava deitado, presumivelmente durante a noite, ou seja, é no momento do silêncio,  da tranquilidade e da calma, que podemos ouvir a voz de Deus. A voz divina é mais audível quando o coração e a mente abandonam a preocupação com os problemas diários, e se tem maior possibilidade de entender os apelos de Deus.

3 - Samuel tem dificuldade de identificar a voz de Deus em meio a tantas vozes e diversos apelos que nos chamam a atenção e nos atraem: há a voz de Deus e outras vozes sempre em nossos ouvidos.

4 - O papel de Eli na descoberta vocacional do jovem Samuel. Muitas vezes as pessoas com quem convivemos têm um papel decisivo na descoberta de nossa vocação.

5 - A disponibilidade de Samuel de embarcar no desafio profético, ou seja, ser uma voz humana de Deus no mundo.

O Profeta não é Profeta pelo desejo próprio, mas pelo desejo de Deus que o chamou pelo nome e o enviou para uma missão própria: Deus nos chama para que anunciemos a Sua Palavra e não a nós mesmos, porque nisto consiste a vocação do Profeta, por isto precisará de tempo de recolhimento, espaço para a Oração, para a intimidade com Deus, para a descoberta do querer de Deus a seu respeito.

Na passagem da segunda Leitura (1 Cor 6,13c15a.17-20),     o  Apóstolo escrevendo à Comunidade de Corinto exorta para que seus membros, tendo vida nova que vem de Deus, vivam uma vida correta em atitudes e hábitos, e não uma vida dissoluta e que contratestemunhe a fé professada.

A cidade de Corinto era uma cidade nova e muito próspera, com características próprias de uma cidade portuária.

A comunidade, por sua vez, formada por pessoas de origem grega e humilde, com o perigo de corromper-se numa moral dissoluta.

Neste contexto, Paulo escreve às comunidades sobre as exigências para todo aquele que aderiu a Jesus Cristo, de modo que a este tudo é permitido, mas nem tudo convém (1 Cor 6, 12).

Como batizados, nos tornamos membros de um só Corpo (Cristo) e, consequentemente, membros do Espírito Santo, com novos pensamentos, ações e comportamentos.

Deste modo, glorificaremos a Deus pelo culto e pela própria vida, pelos pensamentos, palavras e ações; não poderemos separar o culto e o louvor da vida concretamente, vivendo e testemunhando o que fala e professa no cotidiano. Deus nos chama e espera de nós uma resposta coerente, com comportamento também coerente ao compromisso batismal.

O verdadeiro culto é a adesão incondicional a Jesus Cristo e ao Seu Projeto de vida plena para todos nós, numa vida marcada pelo amor, entrega, doação e respeito pelo outro.

Somente assim agirá quem assumir plenamente a proposta de uma vida nova, em total liberdade e fidelidade, e para tanto, haverá uma necessária contínua conversão a Cristo e aos Seus valores, que são os valores do Evangelho.

Na passagem do Evangelho (Mc 1,35-42), temos o chamado dos primeiros discípulos de Jesus, ou seja, daqueles que são capazes de reconhecer no Cristo que passa o Messias esperado, o Messias Libertador.

Interessante a postura de João que apresenta Jesus, o Cordeiro de Deus, para os Seus discípulos. João tem consciência que sua missão não é congregar à sua volta um grupo de adeptos, mas a preparação do coração dos homens para o acolhimento de Jesus e Sua proposta.

João Batista não procurou os “holofotes” para a sua própria pessoa, soube retirar-se discretamente para a sombra, para que os projetos de Deus viessem a se realizar.

Aprendemos com ele a nunca atrair sobre nós as atenções: aprendemos a ser testemunhas de Jesus e não de nós próprios, a não sermos palcos de nós mesmos.

Assim temos os primeiros discípulos que serão aqueles que seguirão no caminho de amor e entrega, com anúncio e testemunho próprio de quem encontrou Alguém que transformou todo o seu viver.

Os discípulos caminham atrás de Jesus, percorrem o mesmo caminho de amor e entrega, adotam os mesmos objetivos e colaboram prontamente na missão.

Na segunda parte, temos o diálogo de Jesus com os discípulos: chamamento e resposta.

Jesus lhes faz um convite à pergunta que a Ele dirigem - “Mestre onde moras?”, dizendo –“Vinde ver”.

André e o outro discípulo aceitaram o convite e fizeram a experiência da partilha da vida com Jesus; uma experiência tão marcante, que André passará de discípulo a testemunha, no relato da vocação de Pedro, no final da passagem do Evangelho.

Um verdadeiro encontro com Jesus nos faz necessariamente discípulos missionários d’Ele por toda a vida, de modo que será cristão aquele que acolheu o chamamento de Deus e deu a sua resposta numa adesão radical e absoluta ao Projeto divino, na realização do Reino de Deus.

Este encontro com Jesus insere-nos, inevitavelmente, numa vida comunitária, porque, uma vez feita a experiência do encontro e vida com Ele, sentimos o desejo de que todos tenham a mesma graça, porque é um encontro que muda e marca todo o nosso viver.

Reflitamos:

- Quando foi que ouvi a voz de Deus me chamar?
- Tenho consciência da vocação profética que me foi confiada?

- Tenho momentos de silêncio e recolhimento para ouvir a voz de Deus e perceber quais são os Seus Planos e Projetos para que eu realize?

- Quem são os “Elis” que me ajudaram/ajudam a compreender a voz de Deus em minha vida, em meio a tantas vozes que existem no mundo?
- Qual é a história da minha vocação dentro do Plano de Deus?

Concluindo, a Liturgia nos pede uma resposta ao chamado de Deus e que ela seja como foi a de Samuel – “aqui estou”.

Urge rever nossas escolhas, renúncias e assumir as consequências de quem se pôs a caminho como discípulo missionário do Senhor, com total adesão a Ele e ao Seu Projeto, testemunhando uma vida marcada pelo amor, doação, entrega e serviço.

Um sim vivido na gratuidade e generosidade nos permitirá alcançar a verdadeira felicidade que tanto desejamos e que somente no Senhor e com o Senhor encontraremos, de modo que seremos homens e mulheres da Igreja no coração do mundo, homens e mulheres do mundo no coração da Igreja.

Na Igreja, celebramos e nutrimos a nossa fé para que na esperança de um novo céu e nova terra, vivendo a caridade, fermentemos um mundo novo, irradiando o Espírito Santo que em nós habita, e sendo sal da terra, procurando dar gosto de Deus a tudo e a todos.

Nada sem Deus, tudo com Ele, pois sem Deus somos sal sem sabor que para nada mais serve, a não ser pisado pelos homens, como o próprio Jesus disse (Mt 5,13-16).

A vida é bela quando temos gosto de Deus e damos gosto de Deus a tudo o que fazemos: das menores às maiores ações.

A chama do Amor Divino (IIDTC)

A chama do Amor Divino

No 2º Domingo do Tempo Comum (ano B), em que a Palavra proclamada na Liturgia nos convida a refletir sobre o chamado de Deus feito a Samuel (1ª Leitura – 1 Sm 3,3b-10.19), a André  e os primeiros discípulos (Evangelho – Jo 1,35-42), sejamos enriquecidos por dois doutores da Igreja, ambos do século IV. 

Do primeiro, Santo Ambrósio (bispo e doutor), que nos fala da "boa tribulação inerente" à vida daquele que se põe a seguir o Senhor; "boa tribulação" porque não ficará nunca sem a resposta e a proteção divinas:

“Quem busca a Cristo, acorra não com passos corporais, mas com a disposição da alma; que O veja não com os olhos da face, mas com os interiores do coração; porque ao eterno não se vê com os olhos da face, visto que ‘aquilo que se enxerga é temporal; o que não se vê é eterno...

Portanto, aquele que busca a Cristo, busca igualmente sua tribulação e não evita a paixão. ‘No perigo clamei ao Senhor, e Ele me escutou colocando-me a salvo’.

É boa, pois, a tribulação que nos faz dignos de que o Senhor nos escute colocando-nos a salvo. Ser escutado pelo Senhor já é uma graça. Por isso, quem busca a Cristo, não recusa a tribulação; quem não a evita é encontrado pelo Senhor. E não a evita quem medita os Mandamentos do Senhor com a adesão cordial e com as obras”  (1)

Quanto ao segundo, Santo Atanásio de Alexandria, nos fala do itinerário do chamado de André e dos primeiros que aceitaram ao chamado do Senhor e se deixaram seduzir pelo Seu olhar de Amor, que mudou suas vidas para sempre.

“André foi em busca de seu irmão Simão e partilhou com ele o tesouro de sua contemplação. Conduziu Pedro ao Senhor.

Coisa surpreendente. André ainda não é discípulo e já é condutor dos homens. Ensinando começa a aprender e adquire a dignidade de Apóstolo. ‘Encontramos o Messias’. Após tantas noites de insônia à margem do Jordão, agora encontramos o objeto de nossos desejos.

Pedro foi rápido ao atender este chamado. Era o irmão de André e adiantou-se cheio de fervor com o ouvido atento.

Tomando a Pedro consigo, André leva ao Senhor seu irmão segundo a natureza e o sangue, para que se beneficie de Seu ensinamento.

É a primeira façanha de André. Fez crescer o número de discípulos, apresentou Pedro, em quem Cristo encontrará o chefe de Seus discípulos.

Isto é tão verdade que, quando, mais tarde, Pedro tenha uma conduta admirável, a deverá ao que André havia semeado. Porém, o louvor dirigido a um recai igualmente no outro. Porque os bens de um pertencem ao outro, e cada um deles se glorifica com os bens do outro.

Que alegria Pedro buscou para todos quando respondeu rapidamente a pergunta do Senhor, rompendo o silêncio embaraçoso dos discípulos! ‘Segundo o povo’, disse Jesus, ‘quem é o Filho do Homem?’. Então, como se fosse a língua dos que tinham sido interrogados, e como se todos respondessem por ele, disse sozinho em nome de todos: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo’.

Em uma frase proclamou ao Mestre o seu desígnio de salvação. Admirável harmonia das palavras. Aquelas que André utilizou para levar a Pedro, as subscreve o Pai desde o céu ao inspirar semelhantes a Pedro.

André tinha dito: ‘Encontramos o Messias’. O Pai disse a Pedro: ‘Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo’” (2)

Ontem eles foram chamados por Deus, cada um na sua experiência própria e determinante, hoje Deus continua chamando a cada um de nós para trabalhar como operários na Sua vinha.

É sempre tempo de revermos aquele momento em que nos sentimos chamados, e jamais deixar morrer a chama do primeiro amor, reavivando a vocação, o chamado que um dia o Senhor nos fez.

Ontem, hoje e sempre, o Senhor continua voltando para cada um de nós o Seu terno olhar de Amor para nos fazer Seus discípulos missionários.

Que a chama do Amor divino, ao darmos os primeiros passos do ano novo, esteja bem acesa em nossa alma e em nosso coração, para perseverarmos com docilidade e abertura ao Espírito, que nos assiste em todos os instantes.

“A nós descei divina luz, em nossas almas acendei...”


(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes – pp.367-368
(2) Idem - pp. 370-371

Como encontrar a autêntica felicidade? (IIDTCA)


Como encontrar a autêntica felicidade?

Anos passados, celebrando em uma Capela da Diocese de Guarulhos, c
ontemplei uma assembleia marcada pela simplicidade, acolhida, calor humano... Era possível perceber as dificuldades nos traços comuns, estampados em cada rosto:

As faces com seus traços e marcas, olhos com suas luzes ou ausência, são como espelhos, ainda que tentemos disfarçar.

Aquela Missa ficou marcada também pelos cantos, desenvolvimento litúrgico, o enlevo espiritual, a chama viva do Espírito, que sempre nos acompanha, queima, arde, renova.

Inesquecível ainda o refrão do Salmo 39, cantado naquela manhã de Domingo:

“Eu disse: Eis que venho, Senhor, com prazer faço a Vossa vontade!” 

O flautista introduzindo o canto e as almas elevando, os violões, a voz da salmista, fazendo vibrar as cordas da garganta, com a unção do Espírito, emergindo do mais profundo do coração onde o amor habita. Deus é Amor, o Espírito é Sua comunicação.  

Na Homilia, enfatizei a Missão do Cordeiro Jesus Cristo; as características de João Batista que a comunidade deve imitar, e que não são poucas: que Cristo apareça e nós diminuamos; fidelidade até o fim; ver o Senhor e, d’Ele, dar testemunho, à luz do Evangelho (Jo 1, 29-34). 

Na perfeita sintonia, a primeira Leitura (Is 49, 3.5-6) falava do servo do Senhor e a missão de ser luz das nações, sendo que a nós cabe anunciar e dar testemunho desta luz, como João o fez.

A segunda Leitura (1Cor 1,1-3) nos inspirou a falar da vocação como dom de Deus e resposta nossa; o convite à santidade, pois o mundo tem necessidade de santos no mais belo e perfeito sentido.

Santidade entendida como fazer com prazer a vontade do Senhor, sendo, no mundo, comunicadores da graça e instrumentos da paz, como a saudação paulina na carta mencionava.

Concluindo a Homilia, assim como ao final da Missa, pedi à Equipe que cantasse novamente o refrão, para que o retomássemos para ao longo da semana, para renovar a disponibilidade e alegria na realização da vontade de Deus.

Muitas vezes em nome do realizar a própria vontade, estabelece-se uma relação de escravidão de si mesmo, talvez uma das piores escravidões: escravidão da própria vontade, sem levar em conta o outro e o outro, entendendo o primeiro como o próximo, e o segundo como a Suprema Divindade.

Somente na fidelidade à vontade de Deus é que faremos o encontro com a felicidade e a liberdade. Talvez por isto muitos, dela, se distanciaram, mas podem ainda reencontrá-la...

O Cálice Sagrado do qual participamos jamais será fuga, mas Bebida que nos sacia, inebria e nos fortalece, porque também do Pão Sagrado comemos, que é o próprio Corpo do Senhor, dado em Comida e Alimento para que, fiéis a Deus, vivamos tão preciosos Mandamentos...

Reflitamos:

- Estamos, como cristãos, fazendo, com prazer, a vontade do Senhor?
        - Qual é a vontade que o Senhor tem para cada um de nós?
- Sou escravo de minhas vontades ou gozo da liberdade encontrada no realizar da vontade de Deus?

É preciso ter coragem de ouvir Deus falar, é preciso maturidade, abertura para perceber qual Sua vontade, que não necessariamente será a nossa vontade, porque infinitamente superior.

Quanto mais for inflamado nosso coração pelo amor divino, quanto mais for por Cristo seduzido, mais gozo, deleite, prazer, contentamento, felicidade teremos, por isto continua ressoando em meus ouvidos o refrão do Salmo:

- “Eu disse: Eis que venho, Senhor, com prazer faço a Vossa vontade!”. 

Oremos:

Nossa Senhora, Mãe e Mestra que disseste: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a Tua vontade”, ensina-nos, como filhos, a fazer o mesmo.

Cristo Senhor, que também no Horto, Te puseste totalmente na mão de Deus, ajuda-nos a repetir e fazer como fizeste: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice, mas que seja feita a Tua vontade...”.

Quando Deus nos chama, só há uma resposta (IIDTCB)

                                               


Quando Deus nos chama, só há uma resposta

A Liturgia do 2º Domingo do Tempo comum (ano B) nos convida a refletir sobre o chamado de Deus feito a cada um de nós, e a resposta por Ele esperada, a fim de que participemos da realização de Seu Projeto de Amor, vida plena e feliz para toda a humanidade.

Chamado de Deus é dom e graça, e deve encontrar  em nós uma resposta livre e incondicional, quando dada por amor.

Na passagem do Livro de Samuel (1Sm 3,3b-10.19), Deus chamou Samuel e ele não O reconheceu, demorou um pouco para perceber que era Deus que o "convidava", porém tão logo percebeu ele respondeu: "Fala que Teu servo Te escuta".

Quantas vezes Deus nos chama, e deixamos passar despercebido, porque não O reconhecemos ou ignoramos Seu convite?

Os motivos? São muitos: alegamos falta de tempo, ou que é complicado demais, que não somos capazes, que talvez um dia...

Reflitamos:

- Qual é a tua resposta quando chamado para participar de uma Pastoral?
- Qual é a tua resposta aos apelos e convites de Deus a cada instante?

Quando Deus escolhe alguém é Ele quem o torna capaz: “Deus não escolhe capacitados, mas capacita Seus escolhidos”.

Não podemos desperdiçar o chamado de Deus, mas experimentar quão boa, agradável e perfeita é a vontade d’Ele.

A atitude de Samuel é profundamente inspiradora para todos nós. Deus não desistiu de Samuel quando o chamou e ele não reconheceu Sua voz.

Assim é conosco: Deus nunca desiste de nós, não importa se não O reconhecemos ou se simplesmente O ignoramos… Ele estará esperando o nosso sim como fez com Samuel, e fará coisas grandiosas em nossa vida.  

Há um canto que reflete bem tudo isto:

"Quando Deus escolhe alguém, Ele mesmo faz Tudo o que determinou em Seu coração. Capacita os chamados, fortalece os seus braços, pois, a obra é d’Ele e não falhará.

Quando Deus escolhe alguém, bom é obedecer. Custe o que custar é sempre o melhor; Ele cumpre a Palavra que diz: Boa e agradável, Perfeita é a vontade do Senhor”

Com o Salmo 39 rezamos: “Eu disse: ‘Eis que venho, Senhor’, com prazer faço a Vossa vontade.” É importante fazer a vontade do Senhor, dizer sim ao Seu chamado de coração aberto.

- Fazer as coisas de Deus apenas para "cumprir tabela", por desencargo, não é atender ao Seu chamado.
- Como atender ao chamado do Senhor: com prazer ou de má vontade?

É sempre tempo de atender ao chamado de Deus com satisfação, alegria, jovialidade e agrado, e permanecer com Ele em todos os momentos, dando-lhe a esperada resposta de amor, nos deixando inundar por uma felicidade que só Ele pode nos proporcionar.

O Apóstolo Paulo, na Carta aos Coríntios (1Cor 6,13c-15a.17-20), nos convida a viver de forma coerente com o chamado de Deus. O nosso corpo é o Santuário do Espírito Santo, portanto não é para a imoralidade. Deus, no Seu Projeto, traça um Plano de vida para Seus filhos, diferente dos pensamentos do mundo, que são voltados para o pecado.

Ele quer que usemos nosso corpo de maneira certa, de maneira livre. Liberdade não é sinônimo de libertinagem. A libertinagem é o uso da liberdade sem o bom senso, transformando-a em um meio de prejudicar a si próprio e aos outros. É, portanto, a escravidão de si mesmo, dos próprios desejos e devaneios.

Todo ser humano é livre pelo consentimento de Deus. Quando deixamos de ser livres, passamos a ser escravos de nossas vontades, do nosso corpo, da nossa fragilidade...

A passagem do Evangelho (Jo 1,35-42) narra os primeiros encontros de Jesus com Seus discípulos. 

Jesus estava passando e eles O seguiram e logo depois perguntaram: Onde moras? E Jesus responde: "Vinde e vede!" E os discípulos permaneceram com Ele.

Permanecer com Jesus é conhecer a Deus, saber onde Ele mora, aprofundando uma relação de amizade, proximidade e intimidade que muda a vida toda e toda a vida. Permanecer com Jesus é escutar Sua palavra e meditá-la; é rezar com Ele e seguir Seus ensinamentos. 

Muitas pessoas procuram a Deus na hora do sofrimento, ou pior, às vezes mantêm uma relação de troca como se fosse um contrato comercial: "vou fazer este sacrifício para que Deus me conceda determinada graça".

Permanecer com Jesus é aprender com Ele a fazer a vontade do Pai com prazer e alegria. Aquele que conhece Jesus não é egoísta; permanece com Ele e conduz o seu irmão a Ele, para que permaneça também em Sua presença, como fez André (Jo 1,41).

Jesus fixa os olhos em Pedro e diz – “Tu és Simão, filho de João; será chamado Cefas (que quer dizer rocha)”

O olhar de Jesus... Olhar marcante que penetrou a alma de Pedro, levando-o aos poucos a reconhecer na humanidade de Jesus o ocultamento de Sua divindade; na divindade de Jesus a Sua mais bela e profunda humanidade: Jesus, verdadeiramente homem, verdadeiramente Deus!

Reflitamos:

-   Jesus fixa o olhar em cada um de nós e nos chama. Qual é a nossa resposta?

Só seremos verdadeiramente felizes se também fixarmos nosso olhar em Jesus e em Sua Cruz. Assim é o cristianismo: carregar a cruz de cada dia com renúncias, despojamentos, aberturas, até que um dia sejamos merecedores da glória dos céus!

Ouçamos o chamado de Deus, que nos chama pelo nome, como fez com Samuel e tantos outros, para uma missão sagrada de anunciar e testemunhar Jesus e Sua divina Luz, que não conhece ocaso, porque é sempre tempo de fazer a luz de Deus brilhar em todos os momentos, em todos os lugares.

Respondamos prontamente ao chamado de Jesus: “Vinde e vede”, vamos ao Seu encontro, e que este transforme e marque todo o nosso viver.

Pois, nada será como antes para quem fez o verdadeiro encontro com o Senhor, o mais belo e desejado de todos os encontros, que nos traz a felicidade e vida plena tão desejada.  

sábado, 18 de janeiro de 2025

“Segue-me” (17/01)

                                                        

 “Segue-me”

“Enquanto passava, Jesus viu Levi, o filho de Alfeu, 
sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: ‘Segue-me”
(Mc 2,14)

Ouvimos no sábado da 1ª semana do Tempo Comum, a passagem do Evangelho de Marcos (Mc 2,13-17), que nos apresenta Jesus chamando os discípulos para o Seu seguimento.

Não pode ficar contida, retida, aprisionada, a experiência pessoal do encontro com o Senhor, que nos chamou pelo nome, a cada um de um modo, e a cada um em uma determinada hora, envolvidos em nossas atividades, como vemos na passagem do Evangelho.

Num dos “Odes de Salomão” assim lemos: 

“O Senhor deu-Se me a conhecer na Sua simplicidade, na Sua benevolência tornou pequena a Sua grandeza. Tornou-Se semelhante a mim para que eu O acolha, fez-Se semelhante a mim para que eu O revista.

Não me espantei ao vê-Lo, porque Ele é a misericórdia! Ele tomou a minha natureza para que O possa compreender, a minha figura para que não me afaste d’Ele” (1).

Sempre enriquecedoras  estas palavras do Papa Bento XVI:

«No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (...) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro» (Deus Caritas Est, 1).

Nisto consiste a vida do discípulo missionário do Senhor: tendo encontrado o Senhor, torna-se intermediário de um novo encontro para outra pessoa.

Ter encontrado com o Senhor é ter feito a experiência do encontro com a misericórdia feito Carne; Alguém que Se fez próximo de nós, muito mais que possamos compreender, e quer conosco caminhar e fazer-nos discípulos missionários Seus. Ele é a proximidade de cada pessoa e a condescendência para com cada criatura.

Assim haverá de ser sempre o discipulado: encontrar e permanecer com o Divino Mestre, Jesus, deixar-se guiar, permanentemente, por Ele, para que que Ele nos conduza:

No seguimento humilde e quotidiano do Senhor, saboreamos a Sua misericórdia e experimentamos o que é sermos chamados pela pura graça de Deus” (2).

Os primeiros discípulos deram sua resposta, agora é o nosso tempo, a oportunidade de também nos tornamos autênticas testemunhas do Messias, d’Aquele que veio ao nosso encontro.

Elevemos a Deus orações, de modo especial, pelos cristãos leigos e leigas, para que, tendo feito este encontro com Jesus, sejam corajosos intermediários, levando muitos ao encontro com o Senhor, sendo no mundo um instrumento e sinal de esperança, fé e caridade, para que a luz de Deus se irradie mais forte e ilumine os cantos sombrios de nossa história, marcado ainda, pelo pecado, sofrimento, dor  e tantos sinais de morte.


(1)       Lecionário Comentado – Vol. Tempo Comum - Editora Paulus - Lisboa 2011 – p. 57
(2)      Idem – p. 58

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Concedei-nos, Senhor, vida e Salvação (15/01)

 


Concedei-nos, Senhor, vida e Salvação


Senhor Jesus Cristo, realizastes tantas curas, e ontem como hoje persiste, com efeito, o equívoco sobre a Boa-Nova que fostes enviado a anunciar e sobre a Salvação que nos alcançastes, bem como Vossa própria identidade.

Ontem como hoje, pode ocorrer que como as multidões, procuremos o pão e a cura e nos esqueçamos da conversão do coração, da adesão à Vossa Pessoa, do Projeto pelo qual destes a Vossa vida, da súplica do perdão de nossos tantos pecados.

Senhor Jesus Cristo, não permitais que caiamos na tentação da busca de uma Salvação exterior, fácil, obtida simplesmente “tocando Vossas vestes”, recitando uma oração, cumprindo uma prática externa, ou talvez entrando numa associação ou ordem religiosa.

Ajudai-nos, no caminho da Salvação, que se dá na profundeza de nosso coração, a fim de que seja interior e radical, curando o nosso coração, assumindo com renúncias e coragem a cruz de cada dia.

Senhor Jesus Cristo, que vejamos todas as demais curas como sinais de Vossa vontade de doação de Vossa Vida, da verdadeira Salvação, que é de todas as pessoas e da pessoa toda. Amém.

 

 

PS: Missal Cotidiano - Editora Paulus p.740 - Comentário da passagem do Evangelho de Marcos (Mc 1,40-45; 6,53-56).

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