quarta-feira, 2 de setembro de 2026

“Um canto de primavera”

                                                     

“Um canto de primavera”

Uma reflexão à luz da passagem da Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios (2 Cor 5, 14-21), que nos apresenta Jesus, Aquele que nenhum pecado cometeu, e Deus O fez pecado por nós, para nos reconciliar.

Fala-nos do amor de Cristo que nos impele, assim como confessa que seu ministério é movido pelo amor demonstrado por Cristo na morte, e com isto, somos chamados a viver uma vida nova, vida de amor por aqueles que pelos quais Jesus morreu e Ressuscitou:

– “Portanto, se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo” (2 Cor 5,17): “Esta página é como um canto de primavera: tudo é novo. Da morte-ressurreição de Cristo tudo renasceu: não podemos olhar os homens como se isso não tivesse acontecido: eles estão envolvidos no amor de Cristo” (1).

Inaugura-se um novo tempo, novas relações, a partir da Sua morte e ressurreição, de modo que “cumpre deixar-se reconciliar, porque Cristo nos amou tanto a ponto de quase identificar-Se com os pecados da humanidade para destruí-los na Cruz, e tornar-nos ‘justos’ e salvadores dos outros. A Eucaristia é nos dada exatamente para isto” (2).

Vivendo tempos difíceis, marcados por crise econômica, ética, moral, somos desafiados a manter viva a esperança, e isto somente é possível se nutrirmos nossa fé n’Aquele que faz novas todas as coisas.

Sua vida marcada pelo amor, serviço e doação da própria vida em favor da humanidade nos desafia a dar razão de nossa esperança, no testemunho da fé e prática da caridade ativa que inaugure novos tempos e novas realidades.

Precisamos acreditar neste “Canto de primavera”, de que as sementes darão flores e frutos em meio a tantos sinais de morte.

Jardineiros da criação que somos, cantar o “canto de primavera” e semear e cultivar as melhores sementes da Palavra ouvida e vivida, para que outros também continuem a cantá-lo.

Jardineiros da criação que não choram nem lamentam o Paraíso perdido, mas acreditam que o Paraíso é possível, como uma interminável obra do Criador que a colocou em nossas mãos.


(1) (2) Missal Cotidiano – Editora Paulus – p. 896

Oremos por todos os Presbíteros

                                                      

Oremos por todos os Presbíteros

Uma breve reflexão à luz da Constituição “Lumen Gentium” n. 28:

“Os Sacerdotes no meio do rebanho adoram a Deus, em espírito e verdade (cf. Jo 4,24). Devem meditar na Palavra e na Doutrina (cf. 1Tm 5,17), acreditar no que assimilam da lei do Senhor, ensinar o que acreditam e praticar o que ensinam [...]

Sejam como pais dos fiéis gerados espiritualmente pelo Batismo e pela Doutrina (cf. 1Cor 4,15; 1 Pd. 1,23) e modelos do rebanho (cf. 1Pd 5,3).

[...] Deem a todos o testemunho da verdade e da vida e, como bons pastores, procurem (cf. Lc 15,4-7) aqueles que foram batizados na Igreja Católica, mas abandonaram os Sacramentos ou mesmo, perderam a fé. [...] atuem em conjunto, sob a direção dos Bispos e do Papa, evitando toda dispersão de forças, para conduzir a humanidade à unidade da família de Deus”.

A partir deste parágrafo, temos um “decálogo”, com os sagrados compromissos que um Presbítero deve assumir:

1 – Adorar a Deus em espírito e verdade;
2 – Meditar a Palavra de Deus contida na Sagrada Escritura;
3 – Conhecer e meditar a Doutrina da Igreja, a riqueza da Sagrada Tradição;
4 – Acreditar na Lei do Senhor, ensinando e praticando o que ensinam;
5 – Ser pai dos fiéis gerados espiritualmente pelo Batismo e pela Doutrina;
6 – Ser Modelo para o rebanho, na fidelidade total a Jesus, o Bom Pastor;
7 – Dar testemunho da verdade e da vida;
8 – Procurar aqueles que foram batizados na Igreja e que abandonaram os Sacramentos ou até mesmo perderam a fé;
9 – Jamais agir isoladamente, mas na comunhão com os irmãos Presbíteros, Bispos e o Papa;
10 – Não se desgastar de qualquer modo, e tudo fazer para congregar na unidade a família de Deus.

Oremos por todos os Presbíteros, de modo especial por aqueles com quem convivemos e partilhamos alegrias e tristezas, angústias e esperanças, na vida da comunidade a serviço do Reino, para que sejam fortalecidos pelo Espírito Santo, e consigam viver este “pequeno decálogo”, que percebemos na preciosa citação da “Lumen Gentium”.

Ilumina minha alma, Senhor!

                                            

Ilumina minha alma, Senhor!

Somente Te conhecerei, Senhor, plena e verdadeiramente, quando não me fundamentar apenas no conhecimento de Ti, numa leitura racional e científica da Palavra e da História, reduzindo-Te a um personagem extraordinário, que escreveu linhas memoráveis desta.

Somente Te conhecerei, Senhor, plena e verdadeiramente, quando fizer um encontro pessoal contigo, estabelecendo uma relação de intimidade e amizade através da Oração.

Somente Te conhecerei, Senhor, sentindo e contemplando Tua presença no cultivo de uma genuína espiritualidade, alimentado por Tua Palavra e pelo Teu Corpo e Sangue, verdadeira Comida e Bebida.

Somente Te conhecerei, Senhor, se não fizer de Ti um objeto de conhecimento, mas que eu Te veja como uma Pessoa que quer estabelecer conosco uma relação pessoal afetiva e efetiva, em favor do Reino pelo qual deste a Tua vida.

Somente Te conhecerei, Senhor, e poderei a Ti ver, compreender e amar, vivendo de acordo com os valores que propuseste, ao chamar cada um de nós pelo nome, com necessária renúncia, despojamento, e assim, com maior liberdade e fidelidade seguir-Te, no caminho da Cruz que nos leva à glória.

Somente serei Teu discípulo, Senhor, se coragem tiver de morrer como um grão de trigo, para não ficar só, e produzir muitos frutos para a glória de Deus, como fizeste, Divino Grão de Trigo, e a mesma coragem tiver e mesma fidelidade e obediência a Deus viver.

Somente peço, Senhor, a graça de permanecer contigo em todas as horas, e que Tu permaneças comigo em todas as horas.

Quero viver a minha hora na mais perfeita sintonia com a máxima hora da Tua agonia e morte, sem jamais fugir, evadir e, na paixão pelo Teu Reino, jamais me omitir.

Tão somente assim, Senhor, Tua divina Luz, em mim e por mim, há de reluzir, até que um dia possa contigo na eternidade, num abraço acolhido, a face do Pai contemplar, e na presença do Teu Espírito para sempre viver. Amém.

Pétalas sobre o asfalto

                                       

Pétalas sobre o asfalto

Há muito mais entre o cinza dos muros da cidade e dos prédios, e das grades que construímos, em busca de um pouco de segurança possível.

Há pessoas que passam com seus carros, esperando impacientemente o abrir dos faróis e, não desejavelmente, teclando celulares, “iPods”, “tablets”.

Há pessoas que caminham nas calçadas, quando possível, quando estas transitáveis são.

Há sirene de ambulância pedindo passagem, levando alguém para socorro imediato, e ficamos imaginando o que teria ocorrido, a agonia de quem nela se encontra, ou simplesmente nem pensamos.

Há mendicantes nos faróis, crianças e adolescentes com suas apresentações, corpos pintados, esperando um trocado, ou ao menos um sorriso...

Há também as flores ou pétalas dos ipês, já caídas e outras caindo, na manhã fria, com sua beleza e suavidade, tornando a cidade menos cinzenta, as dores menos amargas.

A beleza viva de suas cores é como um grito que ressoa fortemente neste cenário, cobrindo-nos com suavidade.

Vejo algumas flores ou pétalas do ipê rosa sobre o carro, enquanto espero o farol abrir, outras sobre o para-brisa... É como se a árvore dissesse:

“Quero cobrir os passantes com minhas flores e pétalas;
Quero cobrir cada carro que passa; florir o asfalto duro e escuro da cidade com minhas cores fortes, ainda que as rodas dos carros por cima de mim passem e pés me esmigalhem.

Cubro o chão para oferecer a quem passa um cenário mais colorido e delicado, sacrificando cada parte de mim para tocar corações insensíveis ou não...”

Pétalas ou flores dos ipês, uma parábola da cidade para nossos ouvidos e coração, que nos faz pensar em que consiste o humano viver em cada tempo...

Então aprendamos: de nada adianta reclamarmos do cinza da cidade, de suas grades e tempo “líquido”, que escoa e escapa de nossas mãos, se nada de bom oferecermos, se nada fizermos para  reencantar e reinventar a vida.

Haveremos de descobrir o possível a ser feito: uma palavra, um gesto simples ou mais complexo, para tornar a vida mais bela e sinal do Paraíso não perdido, mas a ser construído.

Haveremos de, em nome da fé, como as pétalas ou flores dos ipês, saber calar quando preciso, para contemplar corações sensíveis e, aos corações endurecidos, jamais a voz calar.

Haveremos de envolver, como as pétalas ou flores dos ipês, cada pessoa com quem convivemos, com o melhor que pudermos oferecer, sem jamais na esperança esmorecer.

Haveremos de "florir" a cidade, não importa a estação, porque a vida a elas ultrapassa; a vida não se limita apenas a esta ou àquela estação.

Haveremos de sempre florir, e o odor do amor sempre exalar.

Memórias missionárias...

                                                 


Se não sentimos saudades de alguém ou de algo, com certeza é porque em nada nos marcou. Não é o caso de Rondônia, e de tantos outros lugares por  onde passei.

          “A razão de nosso existir: amar e servir” 

Início da primavera de 2003...

A realidade urbana marcada pela correria, falta de tempo, impossibilitou a continuidade no escrever das cartas. Na Cidade se vive um ritmo que muitas vezes favorece o distanciamento. São muitos os apelos, que nos absorvem de tal modo que, quando percebemos, viramos como que “robôs”. É preciso tomar cuidado com o ativismo, que pode levar-nos ao estresse e cansaço. 

Tive que me readaptar a esta realidade, depois de três anos vividos com toda intensidade na realidade que vocês conhecem... 

Confesso que tenho muita saudade de tudo e de todos; das pessoas, dos momentos partilhados, de cada experiência que vivi... Foram três anos plenos de Deus, que jamais serão apagados... 

Atualmente na Diocese de Guarulhos, trabalho na Paróquia Nossa Senhora do Bonsucesso, junto com o Pe. Frizzo. É a segunda Paróquia mais antiga da Cidade de Guarulhos, criada em 1950. 

Em agosto celebramos a belíssima Festa em louvor a Nossa Senhora do Bonsucesso, marcada pela religiosidade popular, romeiros, paroquianos, shows musicais sertanejos, folia de reis, catira, barracas de todos os tipos, comidas, salgados, churrasco... 

São sete Comunidades e um assentamento com aproximadamente 2000 famílias (em processo de regularização da posse dos terrenos). 

A Paróquia deve ter aproximadamente 40.000 habitantes. Celebro Missa quase todas as noites nas Comunidades e Matriz.  

Na Diocese, estou na Coordenação Diocesana de Pastoral, na Assessoria da Pastoral da Juventude. Também fui eleito Representante dos Presbíteros na Comissão Estadual, além de participar do Conselho Presbiteral. 

Tenho saudade da Igreja de Ji-Paraná, para além de todas as dificuldades, ministerial e profética. 

Saudade tem sempre uma dupla dimensão: se por um lado machuca, por outro, é sinal positivo da ausência, do significado que teve e terá em nossas vidas. 

Se não sentimos saudades de alguém ou de algo, com certeza é porque nada nos marcou nada nos diz respeito. Não é o caso de Rondônia. 

Um dia, procurei Rondônia no mapa do Brasil, hoje procuro em minha mente, em meu coração. 

Rezem por mim, para que continue animado no ministério em minha Diocese; no espírito missionário que vocês me ajudaram a aprofundar. Rezo incessantemente por vocês, compartilhando suas dores e alegrias, angústias e esperanças... 

“A Palavra de Deus é viva e eficaz!”. Continuemos nos alimentado da Palavra de Deus, para que possamos avançar em águas mais profundas, reavivando nosso batismo, que é fonte de todas as vocações. 


PS: Carta escrita no início da Primavera de 2003, por ocasião do meu retorno à Diocese de Guarulhos-SP, depois de três anos em missão na Diocese de Ji-Paraná – RO (2000-2002) 

Em poucas palavras...

                                    


Proclamação do Mistério de Cristo

“Unidos no amor, celebramos a sua morte; vivendo a fé, proclamamos a sua ressurreição e, com firme esperança, aguardamos a sua vinda na glória.” (1)

 

 

(1)               Prefácio Comum V – Missal Romano

Em poucas palavras...

                                           


A força e a virtude da Palavra de Deus

“«É tão grande a força e a virtude da Palavra de Deus, que ela se torna para a Igreja apoio e vigor e, para os filhos da Igreja, solidez da fé, alimento da alma, fonte pura e perene de vida espiritual». É necessário que «os fiéis tenham largo acesso à Sagrada Escritura»” (1)

 

(1)Parágrafo n. 131 do Catecismo da Igreja Católica  - citações da Dei Verbum – nn. 21 e 22 respectivamente

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG