quarta-feira, 8 de abril de 2026

Peregrinos da esperança inflamados pelo fogo devorador do amor de Deus

                                                          

Peregrinos da esperança inflamados pelo fogo devorador do amor de Deus
 
 
“O Profeta Elias surgiu como um fogo, e sua Palavra
queimava como uma tocha... Felizes os que te viram,
e os que adormeceram na tua amizade!”
(Eclo 48, 1.11)
 
Vemos na Sagrada Escritura como o fogo devorador do Amor de Deus que tomou conta da vida dos Profetas, e não diferente com o Profeta Elias.
 
Aa Palavra de Deus “é como o fogo” (Jr 23,29), um fogo imparável que desce do céu, inflama o coração dos Profetas que a anuncia ao povo, como que provocando um incêndio sobre a terra.
 
O fogo de Deus longe de destruir a humanidade pecadora, não é devastador, porque a purifica e a transforma para que corresponda melhor aos desígnios e ao Amor divinos:
 
“Elias é considerado pela tradição de Israel o primeiro dos Profetas; com a Palavra que Deus lhe tinha colocado nos lábios não aniquilou o povo, mas purificou-o da corrupção social, da idolatria, do culto a Baal.
 
Ardia de zelo pela causa do Senhor, por isso foi levado para o Céu naquele fogo que o tinha envolvido durante toda a vida. O seu desaparecimento misterioso deu origem à convicção de que ele não morrera e que um dia haveria de regressar para preparar a vinda do Messias” (1)
 
Assim como Elias e João Batista, que foram grandes Profetas antes do Senhor, outros tantos Santos, Profetas e mártires também o foram.
 
Inflamaram ao fogo de Sua mensagem de salvação, porque encontraram no Evangelho a força para enfrentar toda forma de sofrimento, até em sua expressão máxima: a morte.
 
Na Palavra do Senhor encontraram coragem para viver em plenitude a vida própria dos cristãos, e sentiram o coração arder como fogo, assim como sentiram os discípulos de Emaús quando ouviram a Palavra do Ressuscitado.
 
Estes levaram adiante o desejo de Jesus –“Vim trazer fogo à terra e quero que se inflame” (cf. Lc 12,49-53). 
 
Assim como Jesus, o Filho do Homem, Se inseriu na linha dos Profetas sofredores, os Seus discípulos missionários o mesmo o fazem.
 
Jesus por Sua Vida, Paixão e Morte, é uma testemunha convicta da glória que passa pelo sofrimento, pela Cruz, mas que transpõe a soleira da morte.
 
Deste modo, todo cristão é testemunha viva de Cristo, é aquele que O torna vivo e presente no mundo de hoje.
 
Hoje também o Papa Leão XIV, os bispos, os sacerdotes e tantos Agentes de Pastoral são como esta “tocha de fogo”, como assim o foi Elias.
 
Tantos pais e mães, educadores e educadoras, ainda que já na glória estejam, são como tochas acesas a aquecer, iluminar e fazer arder nosso coração.
 
Em cada Eucaristia que participamos, celebramos a Paixão e morte e Ressurreição do Senhor, e por isto nos tornamos um com Ele, no Seu Mistério profundo, intenso, imensurável de Amor e Salvação.
 
Em cada Eucaristia renovamos a certeza de que “O Senhor não cria nenhuma prisão onde possa fechar os Seus filhos rebeldes e não conhece outro fogo senão o do Seu amor ‘cujas chamas são chamas de fogo, uma faísca de Javé. As águas da torrente jamais poderão apagar o amor nem os rios afogá-lo” (Ct 8, 6-7). (2)
 
Concluindo, somente em plena comunhão com o Senhor é que a chama ardente da caridade jamais se apagará, e nossas palavras não serão tão apenas palavras, mas o ressoar da Palavra que antes encontrou espaço, vez e voz no mais profundo de nós: Jesus, a Palavra do Pai na comunhão com o Santo Espírito.

(1) Lecionário Comentado - Tempo Advento/Natal - Editora Paulus - Lisboa - 2011 - pp. 122-123
(2) idem

O Ressuscitado caminha conosco. Alegremo-nos!

                                                         

O Ressuscitado caminha conosco. Alegremo-nos!

A passagem dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) marca profundamente nossa Espiritualidade genuinamente Pascal, e por nos sentirmos, por vezes, profundamente com eles identificados, sejamos enriquecidos por este Comentário.

“A caminhada dos dois discípulos de Emaús coloca-nos perante o Mistério da Ressurreição de Jesus e o nosso modo de O reconhecermos.

É importante, em primeiro lugar, não banalizar esta realidade central do cristianismo com representações insuficientes: a Ressurreição de Jesus não é como a de Lázaro, o qual regressa à vida com um corpo igual ao precedente, para depois morrer de novo.

Neste caso, os discípulos teriam certamente reconhecido o Homem que até três dias antes tinham visto vivo, se a Sua Ressurreição fosse semelhante à de Lázaro. Pelo contrário, Jesus Ressuscitado entrou numa condição radicalmente nova e inconcebível para os recursos humanos apenas, à qual Ele dá origem precisamente com a Sua Páscoa.

Jesus está vivo para sempre e por isso pode aproximar-Se de cada homem. É verdade que a Sua aproximação e o Seu caminhar conosco não é reconhecível por nós só com os olhos do corpo: é preciso que o próprio Ressuscitado nos abra os olhos fazendo-nos percorrer um caminho de conversão [...].

O texto quer refletir precisamente acerca disto: como podemos encontrar o Ressuscitado, cuja presença não nos é dada na forma de uma realidade que podemos ver e tocar?

Os olhos do corpo já não bastam (como não foram suficientes para os discípulos da primeira hora), e então é preciso refletir sobre a condição mediante a qual o Ressuscitado Se apresenta, sobre o modo no qual Ele concede também a nós que O reconhecemos [...].

Os discípulos estão dominados pelas suas desilusões, mas ao mesmo tempo compreende-se que a sua vida não fora até então uma vida de pessoas superficiais: eles tinham-se deixado inflamar pelo Projeto de Jesus (“Esperávamos”; Lc 24,31).

Ambos representam uma Humanidade que procura, deseja ou que pelo menos soube a certa altura desejar coisas grandes; são pessoas dispostas a gastar a sua vida por coisas grandes, e embora na desilusão não se fecham, confessam a sua tristeza (“entristecidos”: Lc 24,17), aceitam qualquer palavra que possa eventualmente chegar até eles e abrem espaço a um desconhecido que se intromete e se põe a caminho com eles. [...]

É importante então compreender que os olhos não veem, não porque o Ressuscitado não está realmente presente, mas porque estão ainda prisioneiros e devem ‘adaptar-se’ à nova luz, porque o coração ainda não sabe arder.

Não veem porque ainda não descobriram a fulgurante sabedoria divina da Cruz, de um Deus que Se ofereceu aos homens sofrendo e morrendo de modo que compreendessem toda a Sua ‘Paixão’ por eles.

Pois bem, só a familiaridade com a Palavra de Deus pode introduzir-nos nesta sabedoria. A Escritura é a meditação contínua dessa Palavra que nos torna acessível o conhecimento do Amor Crucificado por Deus; a Escritura não tem mais para dizer senão o Amor do Pai em todas as suas cambiantes.

É depois na Fração do Pão que nos é entregue, num modo real e imediato, o gesto que abrange e exprime o sentido da vida de Jesus, inteiramente marcada pelo dom total de Si mesmo.

Com estes meios, ainda hoje Jesus Ressuscitado liberta os olhos e o coração do homem e permite-lhe reparar n’Ele, o Vivente, que partilha a caminhada conosco.” (1)

Concluindo, que sintamos renovar em nosso coração, o desejo de caminhar com Jesus Ressuscitado, com a comunidade, espaço privilegiado para ouvir, acolher Sua Palavra, e nos alimentarmos de Sua Divina presença no Pão da Eucaristia, que se partilha na mais bela Mesa da comunhão e da Vida Plena: o Altar do Senhor.

Amém. Aleluia! Aleluia!


(1) Lecionário Comentado - Editora Paulus - Lisboa - p. 441-443. 

No declínio do dia e sempre, ficai conosco Senhor

                                                    



No declínio do dia e sempre, ficai conosco Senhor

Senhor Jesus Cristo, Vós que iluminastes o mundo com a glória de Vossa ressurreição, ficai conosco, pois já é tarde e dia drclina, como assim disseram os discípulos de Emaús (1).

Vós que Vos fizestes companheiro de viagem dos dois discípulos a caminho de Emaús, permanecei sempre com Vossa Igreja, peregrina da esperança sobre a terra, na espera e compromisso com o novo céu e a nova terra,

Não permitais, jamais,  que sejamos lentos para crermos, mas, com alegria e ardor, proclamemos Vosso triunfo sobre a morte, desde aquela madrugada da Ressurreição, em que Vos revelastes Ressuscitado à Apóstola dos Apóstolos.

Ficai conosco e olhai com bondade para aqueles que ainda não Vos reconhecem no caminho de suas vidas e, por vezes, enveredam por atalhos que conduzem a abismos da desesperança e não vida, revelai-lhes o Vosso Rosto para que reencontrem a luz no escuro caminho.

Vós, que, pela cruz, reconciliastes toda a humanidade, reunindo-a num só corpo,
concedei a paz e a unidade a todas as nações, e ficai conosco, para que se refaçam nossas forças com o Pão da Eucaristia, Pão de Imortalidade, e aquecei  nosso coração com Vossa Palavra de Vida Eterna. Amém.


(1) Lc 24,11-35

“Parêntesis de ilusão e de fracasso”

                                                     


“Parêntesis de ilusão e de fracasso”

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Lucas (Lc 24,13-35), em que nos apresenta os discípulos regressando para Emaús, após a morte de Jesus, que, inicialmente, pareceu a eles um “parêntesis de ilusão e de fracasso”:

A primeira coisa que surpreende nos discípulos de Emaús, é a atitude de fuga: tinham perdido Jesus e dispersam-se; deixam o grupo de discípulos e voltam, cada um, ao seu antigo mundo, às suas ocupações passadas, como se todo o assunto de Jesus tivesse sido um parêntesis de ilusão e de fracasso no caminho das suas vidas.

Eles fogem, mas Jesus sai-lhes ao encontro. Não lhes diz nada, contudo eles tendem. Têm que voltar para junto dos irmãos. O seu lugar, é ali, na edificação da nova comunidade dos discípulos de Jesus, no testemunho e na missão do que sabem. Por isso, deixando tudo como estava, apressadamente, no meio da noite, tomam o caminho de regresso (Lc 24,33). Descobriram que Jesus Ressuscitado está onde se encontram os irmãos”. (1)

Caminhando com Jesus que se lhe manifesta no caminho, ao ouvir quando lhes falava das Escrituras, o coração de ambos ardeu, o que acontece com todo aquele que ouve, acolhe e se deixa seduzir e iluminar pela presença e Palavra de Jesus Vivo e Ressuscitado que é “o fato por excelência, o fato no qual se funda a nova humanidade dos salvos” (2).

Acolhendo, em sua casa, o Ressuscitado, que atende ao pedido de ambos: “Fica conosco Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando” (Lc 24, 29), têm a graça de reconhecê-Lo no partir do Pão (Lc 24,35).

A vida cristã deve ser marcada pelo caminhar com Jesus e ouvir Sua Palavra, reconhecê-Lo no partir do Pão Eucarístico, transformando o aparente “parêntesis de ilusão e de fracasso” numa grande expressão da verdade de Sua presença que nos cumula de alegria, de modo que nosso coração fica transbordante de alegria, como tão bem expressa o Prefácio da Missa da Páscoa.

Todos nós passamos por momentos difíceis na vivência da fé, em que podemos nos sentir tais quais os discípulos de Emaús, mas não nos curvamos a este “parêntesis”, e, crendo na Ressurreição do Senhor, continuamos a escrever a história de nossa fé, com a graça do nosso Batismo, como profetas, sacerdotes e reis.

Crendo no Ressuscitado que venceu a morte, daremos ao mundo razão de nossa esperança, porque nossa fé se ancora neste fato fundamental de nossa vida: a Ressurreição. Assim, somos impulsionados pelo Espírito a viver a caridade, o Novo Mandamento que Ele nos deu naquela noite, em que nos tendo amado, amou-nos até o fim.

Nisto consiste a vida cristã, transformar o "parêntesis de ilusão" e de fracasso numa autêntica e frutuosa experiência pascal da Ressurreição do Senhor até que alcancemos a eternidade ao lado do Eterno, no tempo eterno. 

Amém. Aleluia! Aleluia!

Comentários à Bíblia Litúrgica - Gráfica de Coimbra 2
(1) p. 1206-1207
(2) p. 1209

Páscoa: transbordemos de alegria!

                                                      

Páscoa: transbordemos de alegria!

“Não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32)

Reflexão à luz da passagem dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35); um itinerário para aquele que quer descobrir a presença do Ressuscitado.

Descobrir o Senhor que conosco Se põe a caminho, para podermos confessá-Lo com palavras e obras, não nos curvando diante das problemáticas e dificuldades existenciais, com suas contradições, contrariedades.

Aquele que crê é sempre chamado a sair de si para o encontro com o Absoluto, Deus, que Ressuscitou e nos dirige Sua Palavra e nos comunica Sua amável presença, reconhecida no partir do Pão, em cada Banquete Eucarístico que participamos.

Como todo itinerário, temos etapas a serem vivenciadas em contínuo movimento:

Repensar as experiências passadas, procurando reler os fatos, percebendo a presença de Deus em Sua aparente ausência. O que aparentemente se nos apresenta como derrota, pode se transformar em vitória; o caos que parece eterno pode ser iluminado com o esplendor da luz do Ressuscitado. Às possíveis situações em que não aparecem perspectivas, com asfixia eminente, aparece de repente uma fresta por onde o ar entra e nos revitaliza.

Pôr-se em atenta escuta da Palavra do Senhor, sobretudo em vida comunitária. A comunidade cristã há que ser sempre o espaço privilegiado da escuta da Palavra do Senhor, que está sempre pronto a iluminar nossa vida, de modo que nossos horizontes se alarguem em conformidade com os desígnios divinos, superando quaisquer resquícios de individualismos e acomodações indesejáveis, com matizes de fechamentos e empobrecimentos, dor, sofrimento, luto e morte sem perspectivas de Ressurreição.

- E, assim, nesta escuta atenta, deixar ressoar a força da Palavra do Ressuscitado e deixar Sua chama ardente fazer arder nossos corações (como aconteceu aos discípulos de Emaús). O Encontro entre a Palavra e a vida torna-se fecundo, neste aquecimento desejável, porque nos ajuda a avaliar, rever, reorientar o caminho com novas perspectivas. Sem voltar para Emaús, mas voltar para Jerusalém, lugar do conflito, dos desafios, da continuidade, do não desistir do corajoso anúncio e testemunho do Ressuscitado – Emaús ou Jerusalém, qual é a nossa escolha?

- Desta escuta, vem um passo fundamental: a Oração – “Fica conosco Senhor”. É bom estar com o Senhor, permitir que Ele faça morada conosco e em nós. Como é bom estar do lado do Amado! Bem disse Pedro: “Só Tu tens Palavras de vida eterna” (cf. Jo 6,68), e por isto o discípulo amado chegou primeiro ao túmulo para ver e acreditar na presença nova do Ressuscitado, que caminha com a comunidade (cf. Jo 20,1-9).

- Chega-se ao momento ápice: o partir do Pão e o reconhecimento do Senhor Jesus, Ressuscitado, fazendo o mesmo gesto que tantas vezes fizera com eles. Uma anamnese maravilhosa “Anunciamos Senhor a vossa morte e proclamamos a vossa Ressurreição, vinde Senhor Jesus”, e como falamos na Missa, quando partimos o Pão: “Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós..."

A escuta da Palavra, a partilha do Pão preanunciam a Eucaristia (com as Mesas da Palavra e da Eucaristia), remetendo-nos ao cotidiano, multiplicando gestos de amor, comunhão, partilha, compromisso e solidariedade.

A comunidade que ouve a Palavra e celebra a Eucaristia é agora aquela que continuará a Missão do Ressuscitado. Isto deve fazer transbordar nosso coração de alegria. 

Continuar a missão do Ressuscitado, que mais Deus poderia nos confiar?

Renovemos em cada Banquete Eucarístico esta graça. Ele Se faz presente na comunidade, na Palavra proclamada, ouvida, acolhida, acreditada e vivida.

Ele Se faz presente na comunidade quando o Pão é partilhado no Altar, levando-nos também à partilha do pão cotidiano com os que mais precisam.

De Banquete em Banquete caminhamos para o Encontro do Banquete Eterno quando O veremos face a face.

Que a Páscoa seja de fato o nos sentirmos uma nova criatura, buscando as coisas do alto (cf. Cl 3,1-4).

Ouvidos que a Palavra acolhem, coração que arde,
olhos que se abrem, mãos que também assim o fazem,
pés que se põem a caminho para o alegre anúncio
e testemunho do Ressuscitado.
Com Ele morramos, com Ele ressuscitemos. 
Aleluia! Aleluia!

Olhos que se abrem, corações que ardem…

                                                             

Olhos que se abrem, corações que ardem…

“E aconteceu que, estando com eles à mesa, tomando o pão, abençoou e partiu-o, e lho deu. Abriram-se-lhes então os olhos,
e o conheceram, e Ele desapareceu-lhes. 
E disseram um para o outro: Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava, 
e quando nos abria as Escrituras?” (Lc 24,30-32)

Naquela tarde, dois discípulos para Emaús caminhavam:
Desilusão, fracasso, sonhos frustrados, pura decepção.
Ainda não tinham acolhido, no mais profundo de si mesmos,
A graça revitalizadora da Boa Nova da Ressurreição.

É a caminhada daqueles que se dobram diante da morte;
Daqueles que da luta se retiram na perda do sentido;
Daqueles que da vida nada mais esperam,
A não ser viver apenas por ter vivido.

Cléofas e o anônimo discípulo, que para Emaús retornam,
São imagens da não vida, do vazio, escuridão e não confiança.
Daqueles para quem já não há mais esperança,
Que jamais assim façamos, e com o Senhor caminhemos...

Caminhando, redescobrem a chama que fora acesa,
Repensam o caminho e refazem seus sonhos e planos,
Acolhem na intimidade Aquele que dera Sua vida,
Para que o mundo fosse mais fraterno e humano.

Que tarde memorável daqueles discípulos,
Que no caminhar, o Verbo que fora vivo e morto,
Agora com eles, Ressuscitado para sempre está:
Âncora segura, luz resplandecente, seguro porto.

Daqueles lábios de que tantas palavras se ouviram,
Agora voltam a acolher outras belas e tantas.
Somente destes lábios saem palavras que ardem,
Pois não são vazias, porque são eternas e santas.

Corações que ardem ao acolherem aquelas memoráveis palavras,
Palavras que no dia a dia plenificam, preenchem, sustentam;
Palavras de sabedoria que revigoram, corrigem, orientam;
Palavras vivas para quem com a vida se compromete, pois por elas se deixam conduzir.

Olhos que se abrem, dos discípulos ontem e em todo tempo.
Olhos que se abrem quando o Pão Verdadeiro é partilhado,
Gesto que Ele tantas vezes com eles realizara,
Sinal profético do Banquete a ser na vida prolongado.

Só é possível reconhecer a presença do Ressuscitado,
Quem com Ele se puser, sem dúvida e medo, a caminho;
Quem deixar inflamar o coração com Sua ardente Palavra,
Suportando, com amor, dificuldades, dores e espinhos.

Só é possível reconhecer a presença do Ressuscitado,
Quem com Ele à mesa se assentar para o Pão partilhar,
Na Mesa da Eucaristia belas lições sempre aprender.
Prolongando-as na vida, vida nova há de brilhar.

Como cristãos, vivamos a experiência atualizada de Emaús.
Como homens e mulheres de Deus, para lá jamais voltaremos,
Pois sabemos que a Jerusalém é aqui mesmo,
As forças da morte com disposição enfrentaremos.

Que a graça do Amor de Deus no coração seja impressa,
Acendei Senhor, em nós, a chama do amor sedutor e eterno.
Tudo nos será mais fácil: faremos grandes coisas muito depressa,
E com pouco trabalho, faremos o mundo mais belo e fraterno.

Olhos que se abrem, corações que ardem!
Ontem, hoje e sempre, somos discípulos do Senhor também.
Olhos que se abrem, corações que ardem
No coração da Sua amada Igreja. Amém! Aleluia! Aleluia!

PS: Poesia inspirada na passagem do Evangelho dos discípulos de Emaús (Lc 24,13-35).

Não deixe a chama do amor se apagar

                                                          

Não deixe a chama do amor se apagar 

Ouvir uma música possibilita transcender sua escuta com o mergulho no cotidiano, repensando a existência para torná-la mais bela. 

Retomo um trecho de uma das músicas interpretadas por Elton John e Leon Russel:“When Love Is Dying”: 

“... E ninguém lhe diz
Quando o amor está morrendo,
quando o amor está morrendo
Só fica um pouco mais frio
E paramos de tentar, paramos de tentar,
 
Sim, nós paramos de tentar
Oh quando o amor está morrendo
Há uma dor que você nunca pode explicar...” 

Reflito sobre tantos relacionamentos conjugais que estão morrendo; outros que há muito morreram e outros sobrevivem, em últimos suspiros. 

Também reflito sobre tantos outros relacionamentos que poderão sobreviver, se algo for feito. Mas o que pode ser feito?

Quantos relacionamentos ficaram frios, num cotidiano arrastado com lágrimas, sem esperança de retornar à chama do primeiro amor?

Quantas vezes a cruz, que o amor não dispensa, tornou-se quase que insuportável, por que não procede do amor a ser vivido e correspondido? 

“Quando o amor está morrendo” é como um grito nos convidando a também rever outros relacionamentos e não apenas o conjugal. 

Reflitamos sobre relacionamentos de amizade que, se não regados com carinho, atenção, apreço, correção fraterna, aos poucos, podem esfriar, desaparecendo como poeira ao vento ou gotas de orvalho matinais. 

Relacionamentos dentro da comunidade de fé também são vocacionados à maturidade da Comunhão Fraterna (At 2,42-45). Às vezes, a desatenção, a falta do carinho, da compreensão e da prática vital do perdão condenam a relacionamentos e comunidade “frias”, que não revelam a chama terna e candente do Amor de Deus. 

Se Comunidade do Espírito, somos por excelência a Comunidade do Seu Fogo; do Fogo do Amor, da alegria, da convivência, da comunhão celebrada. 

Repenso sobre a dor da frieza que o amor agonizante e desfalecido pode causar no coração de cada um de nós. 

“Há uma dor que você nunca não pode explicar”. E nem é preciso, antes deve-se evitar que a dor se multiplique. 

Redescubramos a beleza do Mandamento que Ele nos deixou: “amor a Deus e ao próximo”, e a ele procuremos corresponder para não morrermos gélida e miseravelmente. 

Antes que a dor venha, e ainda que não venha, amemos como Deus nos ama. 

Memorável página do Evangelho em que o coração dos Discípulos ardeu ao escutar a voz do Amado, e de quando seus olhos se abriram ao contemplá-Lo partindo o Pão. 

Naquela tarde, os Discípulos de Emaús (Lc 24,13-35) nos ensinaram a procura do verdadeiro Amor, para que prolonguemos relacionamentos cristãos, maduros e sinceros que revelem a verdadeira presença de Deus. 

 Concluamos com as palavras do Bispo Santo Anselmo (séc XII): 

“Ensinai-me a Vos procurar e mostrai-Vos
quando Vos procuro; não posso procurar-Vos se não me ensinais nem encontrar-Vos se não Vos mostrais.
Que desejando eu Vos procure, procurando Vos deseje,
amando Vos encontre, e encontrando Vos ame”.

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