quarta-feira, 4 de março de 2026

Em poucas palavras... (IIIDTQA)

          


Matrimônio cristão: Sacramento da Aliança de Cristo com a Igreja

“Toda a vida cristã tem a marca do amor esponsal entre Cristo e a Igreja.

Já o Batismo, entrada no povo de Deus, é um mistério nupcial: é, por assim dizer, o banho de núpcias (Ef 5,26-27) que precede o banquete das bodas, a Eucaristia.

O Matrimônio cristão, por sua vez, torna-se sinal eficaz, sacramento da Aliança de Cristo com a Igreja. 

E uma vez que significa e comunica a graça desta aliança, o Matrimônio entre batizados é um verdadeiro sacramento da Nova Aliança (Concílio de Trento).” (1)

 

 

(1)               Catecismo da Igreja Católica - parágrafo n. 1617

Sentemo-nos à beira do poço com o Senhor! (IIIDTQA)

Sentemo-nos à beira do poço com o Senhor!

“Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais
sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Jo 4,15).

Retomemos o texto da Liturgia das Horas do 3º Domingo da Quaresma, sobre o inesquecível encontro de Jesus com a Samaritana, extraído do “Tratado sobre o Evangelho de São João”, do Bispo Santo Agostinho (séc. V).

“Veio uma mulher. Esta mulher é figura da Igreja, ainda não justificada, mas já a caminho da justificação. É disso que iremos tratar. A mulher veio sem saber o que ali a esperava; encontrou Jesus, e Jesus dirigiu-lhe a palavra. Vejamos o fato e a razão por que veio uma mulher da Samaria para tirar água (Jo 4,7).

Os samaritanos não pertenciam ao povo judeu; não eram do povo escolhido. Faz parte do simbolismo da narração que esta mulher, figura da Igreja, tenha vindo de um povo estrangeiro; porque a Igreja viria dos pagãos, dos que não pertenciam à raça judaica.

Ouçamos, portanto, a nós mesmos nas palavras desta mulher, reconheçamo-nos nela e nela demos graças a Deus por nós. Ela era uma figura, não a realidade; começou por ser figura, e tornou-se realidade. Pois acreditou n’Aquele que queria torná-la uma figura de nós mesmos. Veio para tirar água. Viera simplesmente para tirar água, como costumam fazer os homens e as mulheres.

Jesus lhe disse: 'Dá-me de beber'. Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse então a Jesus:

'Como é que Tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?' De fato, os judeus não se dão com os samaritanos (Jo 4,7-9).

Estais vendo que são estrangeiros. Os judeus de modo algum se serviam dos cântaros dos samaritanos. Como a mulher trazia consigo um cântaro para tirar água, admirou-se que um judeu lhe pedisse de beber, pois os judeus não costumavam fazer isso. Mas Aquele que pedia de beber tinha sede da fé daquela mulher.

Escuta agora quem pede de beber. Respondeu-lhe Jesus: 'Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a Ele, e Ele te daria Água viva' (Jo 4,10).

Pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros.

Se tu conhecesses o dom de Deus, diz Ele. O dom de Deus é o Espírito Santo. Jesus fala ainda veladamente à mulher, mas pouco a pouco entra em seu coração, e vai lhe ensinando.

Que haverá de mais suave e bondoso que esta exortação? Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a Ele, e Ele te daria Água viva.

Que água lhe daria Ele, senão aquela da qual está escrito: Em Vós está a Fonte da vida? (Sl 35,10). Pois como podem ter sede os que vêm saciar-se na abundância de Vossa morada? (Sl 35,9).

O Senhor prometia à mulher um Alimento forte, prometia saciá-la com o Espírito Santo. Mas ela ainda não compreendia. E, na sua incompreensão, que respondeu?

Disse-lhe então a mulher: 'Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la' (Jo 4,15).

A necessidade a obrigava a trabalhar, mas sua fraqueza recusava o trabalho. Se ao menos ela tivesse ouvido aquelas palavras:

Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos e Eu vos darei descanso! (Mt 11,28). Jesus dizia-lhe tudo aquilo para que não se cansasse mais; ela, porém, ainda não compreendia”.

Quaresma, Tempo favorável de nossa salvação, tornando mais fecunda nossa Oração, acompanhada de jejum e esmola, desde o primeiro dia deste Itinerário.

Há encontros e encontros. Este foi um dos encontros que marcou a história da humanidade, pois Jesus Se revelou como Aquele que sacia a sede de vida e felicidade que todos trazemos, desde a concepção até o declínio natural.

Coloquemo-nos, como Igreja, pessoalmente, aos pés do Senhor, no lugar da samaritana.

Ontem foi ela, hoje somos nós que acolhemos o Senhor em pleno dia, para este diálogo amoroso e fecundo, que sacia a nossa alma dos desejos mais santos e divinos.

Que nossas Orações, tanto pessoal como comunitária, sejam um sentar-se com o Senhor à beira do poço recebendo d’Ele a Água cristalina que jorrou de Seu lado trespassado para nos fazer renascer e viver eternamente.

Bebendo da Divina Fonte, renovemos nossas forças para vivermos como alegres discípulos missionários na planície do cotidiano, como vimos no Domingo passado, vencendo as tentações que nos afastam da vida plena e feliz que Deus tem a nos oferecer.   

Temos sede de amor, vida e paz (IIIDTQA)

Temos sede de amor, vida e paz

 “Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo.
Mas quem beber da Água que Eu lhe darei,
esse nunca mais terá sede.” (Jo 4, 13-14)

Sejamos enriquecidos pela reflexão do Missal Dominical, no 3º Domingo da Quaresma (ano A), 

“O tema da água que salva volta com frequência na Liturgia Quaresmal. A partir deste domingo, a Igreja oferece à comunidade cristã que revive seu Batismo uma síntese da história da salvação, servindo-se do rico simbolismo da água.

A água tem sua linguagem:

Necessária para a existência de todos os seres vivos, a água é um elemento ‘natural’ que nos é dado, não é fruto de trabalho: a água viva de uma fonte exprime também o milagre renovado da vida.

Fazendo brotar água da rocha, Deus se manifesta salvador de seu povo e o põe em condições de prosseguir a viagem até a terra prometida (1ª leitura – Êxodo 17, 3-7).

Repensando essas maravilhas de Deus, nos momentos mais obscuros e difíceis de sua história, Israel projeta para um futuro mais ou menos distante a posse de uma terra de águas abundantes, na qual o deserto se transformará em viçoso pomar.

A abundância de água se torna símbolo da abundante salvação que virá unicamente de Deus: um rio que brota do templo purificará o povo, saciará sua sede, fecundará a terra.

No Novo Testamento, a água exprime simbolicamente o dom do Espírito para a geração de uma humanidade nova. Cristo, sobre quem desceu o Espírito no momento do Batismo, anuncia um renascimento na água e no Espírito, promete uma abundância de água-Espírito para os que creem (Evangelho de João 4,5-42).

Sua pessoa Se identifica, pois, com a Rocha (como observava São Paulo, recapitulando os "sinais" do deserto, 1Cor 10,4), o novo Templo, a fonte que mata a sede na vida eterna. João vê o cumprimento do sinal na hora da morte-glorificação de Jesus, quando ele ‘entrega o Espírito’, e do Seu lado transpassado correm Sangue e Água.

A água do nosso Batismo:

A água do Batismo pode, portanto, lavar os pecados e fazer renascer os filhos de Deus em virtude do Sangue de Cristo, fonte de todo perdão.

Quem confessa que Cristo é o Messias, o enviado de Deus, aceita que a salvação se faça da maneira e no momento querido por Deus; compreende que sua sede profunda só é saciada pelo dom de Cristo; toma-se, para os que o cercam - como a mulher samaritana -, revelador da presença que tudo transforma (Evangelho).

No momento do Batismo, a Igreja, que através da catequese preparou a profissão de fé no Filho de Deus, recapitula em sua Oração os acontecimentos salvíficos relacionados com a água e cumpre a ordem de Cristo: batizai em nome da Trindade.

Assim, como gostava de repetir Agostinho, 'pela união da palavra (da fé) com o elemento (água) realiza-se o Sacramento', dom de Deus e livre resposta do homem.

Sede de valores numa sociedade de consumo

Encontramo-nos diante da sede de um povo no deserto, da sede de uma mulher no poço. A sede é símbolo de uma necessidade íntima, vital, torturante.

Além da sede fisiológica há uma sede mais profunda em todo homem, em toda sociedade, em toda comunidade do nosso tempo: buscamos cada vez mais 'coisas' para saciá-la; nada nos basta, nada nos satisfaz.

Nossa civilização só nos oferece 'bens de consumo', não valores espirituais. Convida-nos ao oportunismo, ao mais fácil, mais seguro, mais cômodo.

Os ideais de coerência, de sinceridade, de amor, que existem em todos os homens, são em geral frustrados, traídos por quem os propugna ou pelo indivíduo incapaz de resistir à pressão dos que o cercam.

Todos falam do valor da colaboração, todos reconhecem que somos globalmente responsáveis pelo caminho da humanidade; no entanto, o que encontramos é insensatez, orgulho, instintos de domínio, de grandeza, inclinação para a agressividade, para um prazer às vezes exacerbado, incontrolado e irracional.

Mas muitas vezes renunciamos, e justificamos a renúncia definindo os  valores como 'sonhos de adolescente'.

A revolta dos jovens tem sua raiz nessa sede não aplacada, nessa decepção por tudo que lhes é oferecido, tão distante das verdadeiras e profundas exigências do homem, que tem hoje maior consciência dos valores de fraternidade, justiça, amor, solidariedade.

Não é a primeira vez que, no decorrer da história, o homem enfrenta desafios que põem em discussão modos de pensar e pedem soluções inéditas.

Continuamente o homem faz a experiência de que aquilo que conquistou nunca é uma conquista definitiva. A técnica, as descobertas científicas não matam a sede de segurança, de esperança, de felicidade que todo homem sente.

Lentamente, descobre ou tem a intuição de que só um 'Homem-infinito' pode dar-lhe o que busca no meio da confusão” (1)

Refletindo sobre nossas tantas “sedes”, fixemos nosso olhar e pensamento no Senhor e em Sua Palavra, pois somente com Ele e Sua Palavra e Seu Corpo e Sangue, encontramos a fonte divina para a sede do essencial: amor, vida e paz.
Oremos:

“Ó Deus, fonte de toda misericórdia e de toda bondade, Vós nos indicastes o jejum, a esmola e a Oração como remédio contra o pecado.

Acolhei esta confissão da nossa fraqueza, para que humilhados pela consciência de nossas faltas, sejamos confortados pela misericórdia. Por N. S. J. C. na unidade do Espírito Santo. Amém!”.

(1) Missal Dominical - Editora Paulus, 1995, pp. 160-161

O Encontro da samaritana com o Senhor (IIIDTQA)


O Encontro da samaritana com o Senhor

A Liturgia do 3º Domingo da Quaresma (ano A) nos apresenta a passagem do Evangelho de João (Jo 4,5-42), sobre o diálogo de Jesus com a samaritana, sejamos enriquecidos com este Comentário escrito pelo Diácono e Doutor da Igreja, Santo Efrém (séc. IV).

“Nosso Senhor veio à fonte como um caçador, Ele pediu água para podê-la dar; pediu de beber como alguém sedento, para ter oportunidade de saciar a sua sede. Fez uma pergunta à samaritana para lhe poder ensinar e, por sua vez, ela lhe fez uma pergunta.

Embora rico, nosso Senhor não teve vergonha de mendigar como um indigente, para ensinar o indigente a pedir. E, dominando o pudor, não temeu falar a uma mulher sozinha, para ensinar-me que aquele que está na verdade não pode ser perturbado.

E ficaram admirados de ver Jesus falando com a mulher. Ele tinha afastado os discípulos, para que eles não lhe espantassem a presa; ele lançou a isca para a pomba, esperando apanhar todo um bando. Ele iniciou a conversa com uma pergunta, com a finalidade de provocar confissões sinceras: Dá-me de beber. Pediu água, e em seguida prometeu a água da vida; pediu, depois parou de pedir, do mesmo modo que a mulher abandonou o seu cântaro. Os pretextos tinham cessado, porque a verdade que tinham de preparar agora estava presente.

Dá-me de beber. Ela respondeu-lhe: mas tu és judeu. Respondeu-lhe Jesus: Se tu conhecesses; com estas palavras ele demonstrou-lhe que ela não sabia e que sua ignorância explicava o seu erro; a instruiu sobre a verdade; queria remover pouco a pouco o véu que havia em seu coração. Se lhe tivesse revelado desde o início: Eu sou o Cristo, ela teria se apavorado diante d’Ele e não teria colocação na Sua escola.

Se conhecesses quem é que te diz ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias. A mulher disse-lhe: Senhor, não tens sequer um balde e o poço é fundo... Replicou-lhe Jesus – A minha água desce do céu. Esta doutrina vem do alto e minha bebida é celeste; aqueles que a bebem não têm mais sede, pois não há senão um só batismo para os crentes:
Aquele que beber da água que eu lhe der, nunca mais terá sede. Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me desta água, para que eu não tenha mais sede, nem tenha de vir aqui para tirá-la.

Ele lhe disse: Vai chamar teu marido. Como um profeta, Ele abre uma porta para revelar coisas ocultas. Mas ela lhe respondeu: Não tenho marido; para provar se Ele conhecia as coisas ocultas. Ele lhe demonstrou, então, duas coisas: o que ela era e o que ela não era, aquilo que era de nome, mas não era na verdade: pois tiveste cinco maridos e o que tens agora não é o teu marido. A mulher disse a Jesus: Senhor, vejo que és um profeta. Aqui, Ele a elevou a um nível superior.

Nossos pais adoraram neste monte. Disse-lhe Jesus: não será mais neste monte nem em Jerusalém, mas os verdadeiros adoradores adorarão em espírito e verdade. Exercitava-lhe, portanto, na perfeição, e a instrui na vocação dos gentios. E para mostrar que não era uma terra estéril, ela testemunhou, mediante o feixe que lhe ofereceu, que a sua semente tinha frutificado o cêntuplo: Sei que o Messias vai chegar. Quando Ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas. Disse-lhe Jesus: Sou Eu, que estou falando contigo. Mas se Tu és rei, por que me perguntou sobre a água?

Jesus revelou-Se progressivamente a ela, primeiro como judeu, depois como um profeta e, por fim, como o Cristo. Ela O convence que está com sede, ao judeu tinha aversão, interrogou o sábio, foi corrigida pelo profeta, e adorou o Cristo.” (1)

Um dos diálogos mais belos que encontramos nas páginas dos Evangelhos: o encontro e o diálogo de Jesus com a samaritana.

Contemplamos o caminho de fé feito pela samaritana: num primeiro momento reconhece Jesus tão apenas no aspecto humano, como um judeu. Depois como um Profeta, e por fim como o Cristo, acompanhado da adoração.

Depois disto, torna-se uma discípula missionária, anunciando a todos o encontro que transformou sua vida.

Vejamos o que nos falou o Papa Bento XVI sobre o ser cristão:

“Ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo” (Deus Caritas Est 1).

Verdadeiramente, Jesus é a Fonte de Água viva para nossa sede, e voltando para o Pai, nos foi enviado o Espírito, para saciar nossa sede de amor vida e paz.

Concluímos com as palavras do Prefácio da Missa do terceiro domingo da Quaresma, quando se proclama esta passagem do Evangelho:

“...Ao pedir a samaritana que lhe desse de beber, Jesus lhe dava o dom de crer. E, saciada sua sede de fé, lhe acrescentou o fogo do amor...”



(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp.61-62

A Samaritana e a sede da humanidade... (IIIDTQA)

A Samaritana e a sede da humanidade...

No terceiro domingo da Quaresma (ano A), ouvimos a passagem do Evangelho de João (Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42), que nos apresenta o encontro de Jesus com a samaritana na beira do poço de Jacó.

É oportuna para refletirmos sobre consumismo, sexo, liberdade desenfreada, droga, poder, dinheiro, ciência sem ética nem limites, facilidades…, e a certeza de que nada disso sacia de modo definitivo o nosso coração!

Há sedes e sedes: sedes que geram vida e outras que  matam...

Retomemos as palavras do Papa Bento em sua Mensagem para a Quaresma de 2011:

"O pedido de Jesus à Samaritana: «Dá-Me de beber» (Jo 4, 7), que é proposto na Liturgia do III Domingo, exprime a paixão de Deus por todos os homens e quer suscitar no nosso coração o desejo do dom da «água a jorrar para a vida eterna» (v. 14): é o dom do Espírito Santo, que faz dos cristãos «verdadeiros adoradores» capazes de rezar ao Pai «em espírito e verdade» (v. 23).

Só esta água pode extinguir a nossa sede do bem, da verdade e da beleza! Só esta água, que nos foi doada pelo Filho, irriga os desertos da alma inquieta e insatisfeita, «enquanto não repousar em Deus», segundo as célebres palavras de Santo Agostinho”.

Completando:

“Deus está apaixonado pelo ser humano, tem sede do pobre amor dos nossos corações. Nós pedimos de beber a alguém que afirma claramente que tem sede. Essa sede de Deus por cada pessoa humana ficou claramente expressada naquele grito que somente o evangelista João conservou no Evangelho: 'Tenho sede' (Jo 19,28).

Deus tem sede de que nós tenhamos sede do Seu Espírito, da Sua vida, da Sua graça, da Sua glória. Ele tem água abundante, mas tem sede de que nós a bebamos...

É no Coração de Deus que nós encontramos o nosso descanso, a nossa paz, os nossos prazeres, a nossa felicidade, a nossa bem-aventurança.

Distanciarmo-nos d’Ele é sair do caminho da felicidade, é correr pelos prados da insensatez, é viver uma vida que só pode levar à escuridão mais profunda e ao pior absurdo da vida humana, não ser feliz.”

O Bispo Santo Agostinho referindo-se a este momento tão singular do Evangelho disse: “Veio uma mulher. Esta mulher é a figura da Igreja, ainda não justificada, mas já a caminho da justificação... Faz parte do simbolismo da narração que esta mulher, figura da Igreja, tenha vindo de um povo estrangeiro; porque a Igreja viria dos pagãos, dos que não pertenciam à raça judaica... Pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-Se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros. Se tu conhecesses o Dom de Deus, diz Ele. O Dom de Deus é o Espírito Santo. Jesus fala ainda veladamente à mulher, mas pouco a pouco entra em seu coração, e vai lhe ensinando. Que haverá de mais suave e bondoso que esta exortação?...”

De fato, Jesus é Água que sacia nossa sede com o Dom do Espírito, em nós, derramado. Somente Deus é capaz de saciar as sedes mais profundas e autênticas de nossa existência. Sem Ele o deserto de nossa alma ficaria estarrecido, insuportável e os prados de nossa insensatez nos consumiriam sem perspectivas, com cansaços que exauririam todas as nossas forças; nada suportaríamos e nada encontraríamos a não ser o nosso nada, o vazio, a escuridão, o pecado, a secura da alma, e numa palavra, a morte!

Assim diz parte do Prefácio da Missa, quando é proclamado este Evangelho:

– “Ao pedir à Samaritana que lhe desse de beber, Jesus lhe dava o Dom de crer. E saciada sua sede de fé, lhe acrescentou o fogo do amor”.

A Samaritana fez o seu itinerário, e tornou-se Discípula Missionária do Senhor, abandonando o cântaro, começando uma nova etapa em sua vida. Quem o coração pleno de amor tem, de que mais precisa?

Oremos:

Tenho sede, Senhor, 
sacia minha sede. 
Dai-me o Vosso Espírito! 
Fazei-me nova criatura 
para que seja inflamado por Teu amor, 
e viva com alegria 
a missão de Discípulo do Senhor!

O abandono do “cântaro” (IIIDTQA)

                                                         

O abandono do “cântaro”

O encontro de Jesus com a Samaritana, ao meio dia, na beira do poço... (Jo 4,5-15.19b-26.39a.40-42), possibilita inesgotáveis possibilidades de reflexão.

Por exemplo, quando o Evangelista diz que “A mulher abandonou o cântaro, foi à cidade...” (Jo 4,28) o que significa este abandono?

Um dos sentidos é o rompimento com todos os esquemas de procura de felicidade, egoístas, para abraçar a verdadeira e única proposta de vida plena trazida por Jesus. 

Ele é a fonte de vida nova, e estabelece com a Samaritana um novo modo de relacionamento.

Certamente ela foi amada como nunca fora antes; com um amor que faz enaltecer o esplendor da dignidade que todos possuímos, porque feitos à imagem e semelhança de Deus.

Também significa e representa o abandono de tudo aquilo que nos dá acesso a propostas limitadas, falíveis, incompletas de felicidade; marca um novo começo...

Se o coração está pleno do Amor de Deus, não há necessidade de “cântaros”, haja vista que o coração humano é o grande "cântaro" de Deus, onde Ele quis habitar e cumular de graças, ternura, bondade, misericórdia, sabedoria, compaixão...

O cântaro abandonado junto ao poço leva-nos a pensar que o mesmo perdera sua importância. O cântaro seria para a Samaritana um empecilho que dificultaria na ânsia de levar a boa nova da acolhida aos seus amigos. Sem ele estaria livre para correr.

Reflitamos:
- Estamos dispostos a abandonar o caminho da felicidade egoísta, parcial, incompleta, e a abrir o nosso coração ao Espírito que Jesus nos oferece e que exige uma vida nova?

- Quais são os “cântaros” que devemos abandonar para que com maior disponibilidade possamos vivenciar alegre e prontamente a missão de Discípulos Missionários do Senhor?

- Num mundo em que nos encontramos com pessoas procurando um sentido para vida, às vezes vazias de espiritualidade, de compromissos solidários, somos capazes de apontar Àquele que dá sentido a nossa vida?

- Onde e como enchemos o “cântaro” do coração para não voltarmos a procurar velhos e indesejáveis cântaros?

Concluindo, é sempre tempo de abandonar “o velho cântaro”; de esvaziar o coração de quaisquer ressentimentos, mágoas, indiferenças etc.

É sempre tempo de abertura e predisposição para acolher o que de melhor Deus tem para nos conceder, por meio do Seu Filho, a Divina Fonte, que nos assegura a Água Viva do Espírito.

Tenhamos a alma irrigada pela Água Cristalina do Senhor, para que em Seus prados divinos e viçosos, sombras, flores e frutos, possamos contemplar e saborear.

Façamos nossas passagens, nossos abandonos necessários, que são imprescindíveis para verdadeiros encontros santificantes e santificadores, pascais:

Do cântaro da vida vazia ao deleite do encontro com a Vida plena, Jesus.
Do cântaro da vida amarga vivida ao novo momento pela Misericórdia Divina concedida.

Do cântaro da mesmice, do vácuo de perspectivas à alegria da Missão de Discípulos Missionários.

Do cântaro ao cântaro do Coração de Jesus.
Do cântaro antigo ao novo cântaro, o Coração de Jesus, pleno de Amor...

Não mais o cântaro, mas o coração em sintonia com o Coração Fornalha Ardente de Amor, Jesus!

Não mais o cântaro do provisório, 
mas o Cântaro que nos ama e nos introduz na eternidade. 
Amém!

Somente Deus mata nossa sede (IIIDTQA)

Somente Deus mata nossa sede

“Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. 
Mas quem beber da Água que Eu lhe darei, 
esse nunca mais terá sede.
E a água que Eu lhe der 
se tornará nele uma Fonte de Água
que jorra para a vida eterna” (Jo 4, 13-14).

A Liturgia do 3º Domingo da Quaresma (Ano A), traz como tema: O Senhor Jesus, e somente Ele, sacia a nossa sede de amor, vida e paz, damos mais um passo no Itinerário Quaresmal rumo à Páscoa do Senhor.

A Liturgia da Palavra nos revela que Deus está sempre presente na caminhada do Seu Povo, e o conduz à realização plena, na perfeita felicidade rumo à eternidade.

Na passagem da primeira Leitura (Ex 17, 3- 7), Deus presente na caminhada do povo hebreu pelo deserto do Sinai, apesar de provocado, suportando toda murmuração e contestação, infidelidade e pecado de Seu povo, não lhe nega a fidelidade, o Amor e a possibilidade da liberdade e felicidade.

O tema da água aparece tanto na Leitura como no Evangelho: água que sacia a sede como sinal da vida que Deus pode oferecer do rochedo. Este rochedo, depois, na releitura cristã, será o coração trespassado do Senhor, do qual jorrou Sangue e Água para nos fazer renascer, e também do mesmo lado o Alimento que nos redime, fortalece e nos salva (Jo 19,34).

Assim como o Povo de Deus, precisamos descobrir a presença e fidelidade do Senhor, que não nos abandona nunca, tão pouco nos momentos das dificuldades e sofrimentos, que são ocasiões propícias para o nosso crescimento e amadurecimento e fortalecimento na fé.

À medida que se avança, irmanados na fé, renovamos e nos transformamos, alargarmos horizontes, firmamos os passos, tornamo-nos mais responsáveis, conscientes, adultos e mais Santos, superando todo indesejável infantilismo espiritual, que também podemos incorrer, como aconteceu com o Povo de Deus na travessia do deserto.

Na passagem da segunda Leitura (Rm 5,1-2.5-8), o Apóstolo reforça a mensagem de que Deus é sempre presente e pronto para nos perdoar, apesar de todo pecado e infidelidade que possamos cometer. Assim como na primeira Leitura, o Apóstolo nos garante que Deus nunca abandona o Seu Povo em caminhada pela história.

Deus está sempre ao nosso lado, em cada passo que damos, oferecendo-nos por meio de Seu Filho e de Seu Espírito, gratuitamente, com pleno amor, a Água que mata a nossa sede de vida e felicidade.

Somente em Cristo nos tornamos criaturas novas, e é Ele quem nos plenifica de todos os bens e dons: paz, esperança e o Seu imprescindível Amor.

Contemplemos o Amor de Deus, que jamais desistiu de nós, e, por meio de Jesus, a máxima expressão de Sua presença e Amor por nós, vindo pessoalmente ao nosso encontro, para conosco caminhar, em tudo semelhante a nós, exceto no pecado, para dele nos libertar – “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Na passagem do Evangelho (Jo 4, 5-42), no encontro de Jesus com a samaritana à beira do poço de Jacó, acolhemos a alegre mensagem: somente Jesus sacia nossa sede de vida eterna; acolher e aceitar o Dom de Deus, Jesus, o Salvador do mundo, nos faz homens novos.

Jesus é o “novo poço” no qual encontramos a água cristalina que sacia a sede da humanidade de vida plena e felicidade autêntica.
A água que Jesus tem a nos oferecer é a “Água do Espírito” que o é o grande dom de Jesus, derramado sobre toda a Igreja com Sua Paixão, Morte e Ressurreição.

Este Espírito, quando acolhido no mais profundo do coração do homem, impresso como um selo, renova, transforma e o torna capaz de amar a Deus acima de tudo, vivendo na paz e na concórdia com o próximo.

O diálogo de Jesus com a samaritana nos revela qual a missão de Jesus, que consiste em comunicar ao homem o Espírito Santo que dá vida. Seu Espírito desenvolve e fecunda o coração daquele que O acolhe, capacitando para viver um amor como Ele, Jesus, ama, um Amor imensurável.

Somente de Jesus, com Sua Palavra e Seu Espírito, água viva para a humanidade, é que nasce a comunidade dos Homens Novos, filhos de Deus que têm por missão ser a presença de Deus, com palavras e ação, em todos os âmbitos do mundo.

Esta saciedade que a samaritana encontrou em Jesus a fez discípula missionária, e nos leva a nos questionar sobre o tempo presente, sobre a inquieta busca da felicidade, e o seu não encontro:

“A modernidade criou-nos grandes expectativas. Disse-nos que tinha a resposta para todas as nossas procuras e que podia responder a todas as nossas necessidades.

Garantiu-nos que a vida plena estava na liberdade absoluta, numa vida vivida sem dependência de Deus; disse-nos que a vida plena estava nos avanços tecnológicos, que iriam tornar a nossa existência cômoda, eliminar a doença e protelar a morte; afirmou que a vida plena estava na conta bancária, no reconhecimento social, no êxito profissional, nos aplausos das multidões, nos “cinco minutos” de fama que a televisão oferece…

No entanto, todas as conquistas do nosso tempo não conseguem calar a nossa sede de eternidade, de plenitude, dessa “mais qualquer coisa” que nos falta para sermos, realmente, felizes.

A afirmação essencial que o Evangelho de hoje faz é: só Jesus Cristo oferece a Água que mata definitivamente a sede de vida e de felicidade do homem”. (1)

Reflitamos:

- Onde e em quem buscamos a nossa felicidade?
- Sentimos a presença de Deus amante, atuante, que nos ama e conosco caminha?

- Nosso encontro pessoal com o Senhor, ou nosso encontro com Ele na Ceia Eucarística, tem saciado nossa sede de vida plena e feliz?

- A samaritana, saciando sua sede de eternidade em Jesus, tornou-se uma alegre discípula missionária. Assim também acontece conosco?
- Como e onde comunicar este encontro com o Senhor e a Sua Boa Nova que sacia a sede de humanidade?

- Quais são os poços que o mundo oferece para saciar nossa sede existencial?

- Sendo a Quaresma tempo favorável de nossa conversão, é possível que procuremos nossa felicidade na água que o mundo oferece, em vez da água pura e cristalina que o Senhor tem a nos oferecer?

Encerro com as palavras do Papa Bento XVI:

“Aqui, no poço de Jacó, encontramos Jacó como antepassado que tinha oferecido com o poço a água como elemento fundamental da vida.

Mas no homem encontra-se uma sede maior, que vai mais além da água da fonte, porque ele procura uma vida que está para além da esfera biológica”. (2)


(1) Citação extraída do site:
(2) Papa Bento XVI – in Jesus de Nazaré – p. 210

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG