sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O necessário silêncio fecundo (IIDTQA)

                                                     

O necessário silêncio fecundo

“Imerso no Amor para fazer emergir a vida...”

Viver o Batismo é graça e missão, e precisamos ter sempre a coragem e a abertura para a revisão e o revigoramento da nossa fé e fidelidade ao Senhor, configurados a Ele com renúncias necessárias para carregarmos a nossa cruz de cada dia rumo à Páscoa definitiva, pois se com Ele vivemos e morremos, com Ele também Ressuscitamos.

Retomando as palavras do Papa Bento XVI na Mensagem Quaresmal 2011, detenhamo-nos nesta afirmação: “A Transfiguração é o convite a distanciar-se dos boatos da vida cotidiana para se imergir na presença de Deus...”.  

Indubitavelmente, não são poucos os “boatos da vida quotidiana” que podem nos afastar dos fatos que clamam a nossa solicitude, na fidelidade ao Cristo Bom Pastor, no exercício de nosso ministério.

Convém ressaltar  que “boatos” não são meramente fofocas, como se possa pensar, mas ruídos que interferem na escuta dos clamores do rebanho, por Deus, confiado.

Por “boatos” também podemos entender a ditadura do relativismo que o Papa tanto denunciou, onde as verdades se tornam transitórias, valores se tornam relativos, esvaziando de sentido os princípios que deveriam nortear a existência da humanidade.

Também podem ser as propostas satânicas que nos desviam no Projeto Divino, na realização de nossa vocação, quer Presbíteros ou não. São as tentações que Jesus venceu no deserto: ter, ser, poder – abundância, prestígio e domínio, respectivamente.

Ceder a elas nos afastaria da graça de sermos instrumentos de Deus na construção do Reino, pois como bem disse o Bispo Santo Irineu (séc. I): “a nossa glória é perseverar e permanecer no serviço de Deus”.

Evidentemente, muitos outros “boatos” podem seduzir e enfraquecer a missão. Portanto, é sempre bom lembrar que somos anunciadores da Boa-Nova e não ouvintes e multiplicadores de “boatos” que esvaziam o existir, destruindo a vida em todos os níveis, de modo que não viveríamos a vocação como dom divino e resposta nossa a Deus.

Sem ouvidos a “boatos”, com distanciamentos necessários destes, façamos a imersão na presença de Deus. Quanto mais mergulharmos nos Mistérios de Deus, mais místicos o seremos, mais encarnada e densa de conteúdo será nossa espiritualidade no compromisso com os empobrecidos desfigurados pelo caminho.

A imersão no Amor Divino é diretamente proporcional à emersão que somos chamados a realizar com toda a comunidade.

Imersos no Amor, fazemos que surja uma nova Igreja, um Planeta mais bem cuidado e, consequentemente, mais amado.

Urge que nos coloquemos na presença de Deus, para que nosso coração seja configurado ao coração do Cristo  Bom Pastor, no cuidado do rebanho.

Todo o discípulo missionário precisa ser pessoa de imersão quotidiana e constante; em constante oração, no silêncio e na contemplação dos Mistérios Divinos que se manifestam na história.

Urge que a luz divina ilumine a caverna escura de nossa existência, enfim, um homem imerso neste mar de misericórdia e luz; somente assim poderá ajudar a comunidade a fazer e viver a mesma experiência e realidade.

Urge também que estejamos imersos no Mistério do Amor de Deus, pois só assim conseguiremos encontrar luz para os sombrios caminhos a serem trilhados como Igreja em permanente travessia do mar.

O cristão é alguém que a Deus encontrou na Pessoa de Jesus Cristo, por Ele vive uma paixão que se renova em cada instante de sua vida, deixando-se guiar pela luz do Santo Espírito.
  
Reflitamos:

- Como deve ser o discipulado, à luz da Transfiguração do Senhor?
- O que podemos compreender por “distanciar-se dos boatos da vida quotidiana”?

- O que é “imergir na presença de Deus”?

A comunidade, mais do que nunca, precisa de Presbíteros que sejam homens do deserto e do oásis revigorante e que sacia a sede de amor, vida e paz.

Presbíteros que sejam homens do céu e da terra, simultaneamente; da montanha e da planície, corajosamente; da imersão e da emersão, incansavelmente...

Numa palavra: homens itinerantes e Pascais, que sabem recolher-se no silêncio mais profundo para a voz de Deus ouvir, e com coragem e fidelidade ao mundo anunciar e testemunhar, conduzindo, animando o rebanho pela Igreja a ele confiado.

Em poucas palavras... (IIDTQA)

                                                


A perfeição cristã

“«Todos os cristãos [...] são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade» (Lumen Gentium 40).

«A perfeição cristã só tem um limite: o de não ter nenhum» (São Gregório de Nissa).” (1)

 

(1)              Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 2028

Transfiguração do Senhor: da tribulação à glória celestial (IIDTQA)

                                                       

Transfiguração do Senhor: da tribulação à glória celestial

Sejamos enriquecidos com um parágrafo do Catecismo da Igreja Católica sobre a Transfiguração do Senhor.

No limiar da vida pública, o Batismo; no limiar da Páscoa, a transfiguração. Pelo Batismo de Jesus ‘foi declarado o Mistério da (nossa) primeira regeneração’ – o nosso Batismo; e a Transfiguração ‘est sacramentum secundae regenerationis – é o Sacramento da (nossa) segunda regeneração’ – a nossa própria ressurreição.

Desde agora, nós participamos na Ressurreição do Senhor pelo Espírito Santo que atua nos Sacramentos do Corpo de Cristo. A transfiguração dá-nos um antegozo da vinda gloriosa de Cristo, ‘que transfigurará o nosso corpo miserável para o conformar com o Seu corpo glorioso’ (Fl 3, 21). Mas lembra-nos também que temos de passar por muitas tribulações para entrar no Reino de Deus’ (At 14, 22)”. (1)

No mesmo parágrafo, cita Santo Agostinho, como que o Senhor falando a Pedro na montanha:

“‘Pedro ainda não tinha compreendido isso ao desejar viver com Cristo sobre a montanha. Ele reservou-te isto, Pedro, para depois da morte. Mas agora Ele mesmo diz: Desce para sofrer na terra, para servir na terra, para ser desprezado, crucificado na terra. A Vida desce para fazer-Se matar; o Pão desce para ter fome; o Caminho desce para cansar-Se da caminhada; a Fonte desce para ter sede; e tu recusas sofrer?’” (2)  

Nisto também consiste nossa caminhada quaresmal rumo à Páscoa do Senhor, como discípulos missionários que somos.

Não podemos fixarm moradas na montanha, mas, com coragem, descermos à planície do cotidiano, renovando fidelidade ao Senhor, Caminho, Verdade e Vida, carregando nossa cruz, até que um dia sejamos merecedores da eternidade. 

Por ora, há um mundo desfigurado, marcado pela fome, enfermidades, desesperança, insegurança, refugiados, aflitos, dependentes químicos, e quanto mais possamos dizer.

Há um mundo, nossa casa comum, que está sendo vilipendiado, destruído, por ambições desmedidas e cuidados não vivenciados.

Nossa casa comum está desfigurada, e transfigurá-la, torná-la mais habitável, é responsabilidade de todos nós, como nos exorta a Campanha da Fraternidade deste ano (2025) com o Tema: “Fraternidade e Ecologia Integral"; e o Lema: "Deus viu que tudo era  muito bom” (Gn 1,31.

É tempo de consolidarmos nossa fé, fazendo a mesma experiência que os discípulos fizeram no Monte Tabor, contemplando o Cristo Transfigurado, com credíveis testemunhas, Moisés e Elias, porque Ele, Jesus, é a plena realização da Lei e da profecia, nestes simbolizados.

Por ora, o combate, o antegozo das alegrias do Reino, até que possamos vivê-las plenamente, com toda intensidade.



(1) (2) Catecismo da Igreja Católica n.556 - Santo Agostinho – Sermão 78,6; PL 38,492-493.

Transfiguração do Senhor e a nossa participação na Ceia Eucarística (IIDTQA)

                                                                

Transfiguração do Senhor e a nossa participação na Ceia Eucarística

No segundo Domingo da Quaresma (ano A), contemplemos Jesus transfigurado no Monte Tabor, e o Monte “...é um lugar de todo especial: demasiado rude ser habitação do homem, mas também demasiado terreno para ser a morada de Deus, é um meio-termo em que Deus e o homem se encontram, o homem com uma subida penosa, e Deus com uma descida humilde. Só quem aposta a sua vida n’Aquele que é fiel (Sl 32) pode chegar ao cume” (1).

Dirigindo-se da Galileia para Jerusalém, Jesus, com a Sua Transfiguração, concede aos discípulos uma antecipação da maravilhosa luz da Ressurreição que alcançará, mas passando, inevitavelmente, pelo Mistério da Paixão e Morte na Cruz.

Com a Transfiguração, o Senhor introduz gradualmente os discípulos (nas presenças de João, Pedro e Tiago) no Mistério do sofrimento, mas ao mesmo tempo da glória do Filho do Homem que é Ele próprio, Jesus.

Neste acontecimento, em que Jesus é envolvido numa grande luz, Ele Se revela como o novo Moisés e ali, no Monte Tabor,  um novo Sinai (onde Moisés recebeu a Tábula da Lei).

A Transfiguração é uma “...breve revelação da luz divina encarnada na opacidade da natureza humana, não é momento de autoexaltação, mas é dádiva feita aos discípulos chamados a serem, por sua vez, anunciadores.

É ingenuidade o desejo de reservar para si mesmo essa luz (v.4); não é felicidade da visão, mas a fadiga da ‘escuta’ é o que resta aos discípulos na sequela de Cristo.

Só Ele, Palavra de Deus, permanece quando o êxtase cessa e volta o temor da majestade pressentida (v. 6-8). E Jesus volta a descer, com os Seus discípulos, para cumprir uma caminhada dolorosa, através da qual, somente, a luz triunfará” (2)

Urge que escutemos a Palavra que Se fez Carne, Jesus:

"'Palavra’ única do Pai, e também única ‘tenda’, a única morada de Deus entre os homens, ‘Palavra’ dura também, que da doçura do monte, embora necessária para aliviar na Oração, nos volta a impelir para um caminho de serviço...

Chamados a seguir o Ressuscitado, também nós, como os Apóstolos, devemos compreender que a contemplação não é evasão da vida, nem condução de uma vida paralela: a sequela de Cristo reconduz-nos à aridez da nossa terra de serviço, embora não estejamos já sozinhos, porque Ele desce do monte conosco, e o nosso caminho é transfigurado porque é marcado pela experiência de Cristo...

O rosto transfigurado de Cristo está escondido no rosto desfigurado do irmão pobre ou enfermo, mas nós próprios somos chamados a demonstrar aos irmãos, através do nosso rosto ferido pela vida, a luz do Ressuscitado” (3).

A experiência vivida pelos discípulos na Transfiguração também podemos vivê-la cada vez que subimos à Montanha, celebramos a Eucaristia e sentimos a presença de Deus em nosso meio, nos alimentando com o Seu Filho, que Se faz Comida e Bebida, e nos fortalecemos com a presença do Espírito Santo.

Revigorados no Banquete Eucarístico, saímos com o Senhor da Montanha Sagrada, a Igreja, descemos à planície para sermos alegres e corajosas testemunhas do Ressuscitado, num vigoroso e autêntico testemunho da fé, redimensionados na esperança e fortalecidos na caridade, para que vivamos sagrados compromisso com a construção do Reino de Deus.

Nisto consiste a Transfiguração: subidas e descidas com o Senhor. Lá na Montanha, ouvir Sua Palavra; na planície, vivê-la.



(1) Lecionário Comentado - Volume Quaresma/Páscoa - Editora  Paulus - Lisboa  p. 94.
(2) Idem pp. 93-94
(3) Idem p. 95

Atentos à voz do Filho amado, na vida de fé jamais recuar (IIDTQA)

                                                     

Atentos à voz do Filho amado, na vida de fé jamais recuar

No 2º Domingo da Quaresma, dando mais um passo em nosso itinerário Quaresmal, refletimos o momento fundamental na vida dos discípulos: a Transfiguração do Senhor.

É necessário revigorar nossas forças no carregar da cruz, renovando e fortalecendo compromissos com os desfigurados, na escuta do Filho Amado do Pai, transfigurando a realidade pessoal, familiar, eclesial e social, na qual estamos inseridos.

Precisamos reavivar sempre a chama, que em cada coração foi acesa no dia do Batismo (2Tm 1,6), de quem O encontrou, O ouviu e por Ele foi amado para viver a tríplice missão da Igreja e do Pastor: santificar, ensinar e governar a Igreja.

É tempo de percebermos o que está bom ou não, e não medir esforços para melhorar, corrigir, aperfeiçoar, avançar. Naquilo que está bom, recuar jamais e, no que nos desafia, avançar, buscar saídas.

Como afirmou o Papa Bento XVI em uma de suas mensagens para a Quaresma, “na vida de fé, quem não avança, recua”.

Com a força do Espírito, é tempo de nos empenharmos na transformação dos sinais de morte em sinais de vida, uma vez que, mais do que nunca, a cidade e seus inúmeros desafios estão em nossa mente e coração.

Como Igreja em estado permanente de missão, sair e ir ao encontro dos que estão indiferentes ou até mesmo afastados.

Continuemos em direção à cruz, carregando-a com coragem, com imprescindíveis renúncias, despojamentos, amadurecimentos, somente assim alcançaremos a glória da eternidade.

Há um mundo desfigurado, triste, enfermo, mergulhado no pecado, que precisa ser transfigurado. Que a experiência do Monte Tabor, a contemplação do Cristo Glorioso, Transfigurado, d’Aquele que deu pleno cumprimento à Lei e à Profecia (Moisés e Elias), seja um momento de esplendor da luz divina.

Que toda a Igreja, na atenta escuta da Palavra do Filho Amado do Pai, na montanha do recolhimento, silêncio e Oração, na planície do cotidiano a coloquemos em prática, pois “nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor! entrará no Reino dos Ceús...” (Mt 7,21). 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

“Nunc Dimittis”

                                                          


“Nunc Dimittis”

A Igreja reza à noite, todos os dias, a Oração das Completas, e nela está contido o “Nunc Dimittis” - "agora deixe partir",  rezado por Simeão, homem justo e piedoso, quando da apresentação do Senhor no Templo (Lc 2,29-32).

Cristo, Luz das nações e glória de Seu povo, é um cântico evangélico que pode também ser rezado por quantos puderem nas orações da noite, ao terminar um dia de intensas atividades, preocupações e eventual cansaço, para um bom descanso e um novo dia bem iniciado:

“Antífona: Salvai-nos, Senhor, quando velamos, guardai-nos também quando dormimos! Nossa mente vigie com o Cristo, nosso corpo repouse em Sua paz!

“–29 Deixai, agora, Vosso servo ir em paz,
conforme prometestes, ó Senhor.

30 Pois meus olhos viram Vossa salvação
31 que preparastes ante a face das nações:

32 uma Luz que brilhará para os gentios
e para a glória de Israel, o Vosso povo.”

– Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo. 
Como era no princípio, agora e sempre. Amém.

Antífona: Salvai-nos, Senhor, quando velamos, guardai-nos também quando dormimos! Nossa mente vigie com o Cristo, nosso corpo repouse em Sua paz!

Antes que seja tarde demais

 


Antes que seja tarde demais


Como um rio escuro, podem ser algumas páginas

Da história de alguém, eminente ou não.

 

E desafia para, com coragem, uma decisão necessária:

Varrer doces lembranças para resgate da luz perdida.

 

Visitar, sem medo, cada página, e assumi-la tal qual,

Escurecida pela solidão, abandona, derrota, decepção.

 

Antes que seja tarde demais, luminosa aurora irromperá;

Então, olhar fixo no horizonte de novos tempos.

 

Alargado porque não sucumbido na autossuficiência,

ou na mediocridade da falta de salutar humildade.

 

Coração humano com o Coração Sagrado, sintonizado,

Nova página, e a sede em rio de água cristalina saciado.

 

Pouse sobre nós o Santo Espírito a nos iluminar,

E em águas tranquilas repousar, forças refeitas, avançar.

Amém.

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG