sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Em poucas palavras... (IIDTQA)

 


A finalidade da Transfiguração de Cristo

“A Transfiguração de Cristo tem por fim fortalecer a fé dos Apóstolos em vista da Paixão: a subida à «alta montanha» prepara a subida ao Calvário. Cristo, cabeça da Igreja, manifesta o que o Seu Corpo contém e irradia nos Sacramentos: «a esperança da Glória» (Cl 1, 27) (Papa São Leão Magno  séc. V).” (1)

 

 

(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 568

Peregrinar iluminados pela Transfiguração do Senhor (IIDTQA)

                                          


             Peregrinar iluminados pela Transfiguração do Senhor

Aprofundemos sobre a nossa missão de discípulos missionários do Senhor, como peregrinos da esperança, à luz de Sua Transfiguração, retomando a Sagrada Escritura, o Magistério e a Tradição da Igreja.

O Apóstolo Pedro nos fala da Transfiguração em uma de suas Cartas:

“Não foi seguindo fábulas habilmente inventadas que vos demos a conhecer o poder e a vida de nosso Senhor Jesus Cristo, mas sim, por termos sido testemunhas oculares da sua grandeza.

Efetivamente, Ele recebeu honra e glória da parte de Deus Pai, quando do seio da esplêndida glória se fez ouvir aquela voz que diz: ‘Este é o meu Filho amado, n’Ele está o meu agrado. Esta voz, nós a ouvimos, vinda do céu, quando estávamos com Ele no santo monte.” (1)

Assim lemos no Catecismo da Igreja Católica:

“...Finalmente, retomando o caminho do deserto em direção ao lugar onde o Deus vivo e verdadeiro Se revelou ao Seu povo, Elias recolheu-se, como Moisés, «na cavidade do rochedo», até «passar» a presença misteriosa de Deus (1 Rs 19, 1-14; Ex 33, 19-23).

Mas será somente no monte da transfiguração que Se mostrará sem véu Aquele cuja face eles procuravam (Lc 9, 30-35): o conhecimento da glória de Deus está na face de Cristo, crucificado e ressuscitado (2 Cor 4, 6).” (2)

Com o diácono Efrém (séc. IV), contemplemos a Transfiguração do Senhor:

“Ele (Jesus) os levou até a montanha para mostrar-lhes a glória de Sua divindade, e lhes ensinar que Ele era o Redentor de Israel, tal como já tinha revelado por Seus profetas; e também para prevenir todo escândalo à vista dos sofrimentos que livremente iria sofrer por nós em Sua natureza humana.” (3)

Com o papa São Leão Magno (séc. V), reflitamos sobre a finalidade da Transfiguração do Senhor:

“O Senhor manifesta a Sua glória na presença de testemunhas escolhidas, e de tal modo fez resplandecer o Seu corpo, semelhante ao de todos os homens, que Seu rosto se tornou brilhante como o sol e Suas vestes brancas como a neve.

A principal finalidade dessa transfiguração era afastar dos discípulos o escândalo da Cruz, para que a humilhação da Paixão, voluntariamente suportada, não abalasse a fé daqueles a quem tinha sido revelada a excelência da dignidade oculta de Cristo”. (4)

Com Santo Agostinho, vemos que, assim como Pedro, na fidelidade a Jesus, precisamos descer do monte da Transfiguração para o desafiador combate da fé e testemunho na planície:

“Pedro ainda não tinha compreendido isso ao desejar viver com Cristo sobre a Montanha. Ele reservou-te isto, Pedro, para depois da morte. 

Mas agora Ele mesmo diz: Desce para sofrer na terra, para servir na terra, para ser desprezado, crucificado na terra.

A Vida desce para fazer-Se matar; o Pão desce para ter fome; o Caminho desce para cansar-Se da caminhada; a Fonte desce para ter sede; e tu recusas sofrer?” (5)  

Que Deus nos conceda a graça de rezar e viver o quarto Mistério Luminoso, a Transfiguração do Senhor, e como os discípulos Pedro, João e Tiago (6):

Subamos à montanha sagrada;

Contemplemos a glória do Senhor Transfigurado;

Escutemos o que o Filho amado tem a nos dizer;

Desçamos a montanha da contemplação;

Peregrinemos e testemunhemos as virtudes divinas (fé, esperança e caridade).

Cremos que a glória celestial passa necessariamente pela coragem e renúncias necessárias no tempo presente, no seguimento de Jesus. Amém.

 

(1) 2 Pd 1,16-18

(2)Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n.2583

(3) Sermão do Diácono Santo Efrém (séc. IV)

(4) Papa São Leão Magno (séc .V)

(5) Catecismo da Igreja Católica n.556 - Santo Agostinho – Sermão 78,6; PL 38,492-493.

(6) Mt 17,1-9; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36

Quaresma: edifiquemos tendas de transfiguração (IIDTQA)

                                                          

Quaresma: edifiquemos tendas de transfiguração

Senhor Jesus, contemplando Vossa Transfiguração no Monte Tabor, somos desinstalados e enviados em missão como discípulos missionários na planície, nos diversos espaços em que vivemos e nos relacionamos, e rostos tão desfigurados, com marcas da violência de incontáveis nomes, encontramos; edificando tendas para edificar e santificar a vida de Vossos filhos e filhas, nossos irmãos e irmãs.

Senhor Jesus, ainda que queiramos, não podemos fixar tendas no Monte Tabor, livrai-nos da tentação de evadirmos do mundo, sem jamais nos omitirmos em nossas responsabilidades de transformá-lo, construindo uma cultura de paz, com laços mais fraternos, e que esta paz seja fruto da justiça, sinal de um mundo novo e reconciliado.

Senhor Jesus, afastai-nos desta tentação de fixar tendas no Monte Tabor, que seria como uma pedra de tropeço no árduo testemunho e combate da fé, e assim fecharíamos os olhos ao Mistério Pascal; esvaziando-o de todo o sentido e conteúdo, porque não viveríamos a autenticidade da fidelidade e seguimento, com renúncias necessárias, carregando a nossa cruz cotidiana.

Senhor Jesus, iluminai-nos para a compreensão da efemeridade do resplendor da Transfiguração neste mundo, necessariamente efêmero, a fim de não desejarmos nos  instalar no “alto monte”, pois ainda não chegou este tempo,  nem para os cristãos nem para a Vossa Igreja que somos.

Senhor Jesus, conduzi-nos neste tempo da fé e da esperança sem esplendor. Com a certeza de que caminhais conosco, podemos nos apoiar firmemente, porque Vosso Pai, com o Vosso Espírito, é fiel e nunca falta às Suas promessas, assim como foi com Abraão, nosso pai na fé, pronto para o sacrifício de seu filho.

Senhor Jesus, ajudai-nos a viver este Tempo da Quaresma, tempo favorável de nossa Salvação, marcado por reconciliações convosco e com nosso próximo, vivendo os exercícios que a Igreja nos propõe (oração, jejum e esmola), a fim de que possamos celebrar, em breve, o transbordamento da alegria Pascal, quando a Igreja cantará, solenemente, o Aleluia!



Fonte de pesquisa: Missal Quotidiano, Dominical e Ferial – 2010 - Editora Paulus – Lisboa - p.329

Contemplemos o Quarto Mistério Luminoso: a Transfiguração do Senhor (IIDTQA)

                                                        

Contemplemos o Quarto Mistério Luminoso: a Transfiguração do Senhor

“Este é o meu Filho amado. Escutai o que Ele diz! (Mc 9,7)

A Liturgia Quaresmal nos propõe no segundo Domingo da Quaresma bem como no dia 6 de agosto, a reflexão sobre a Transfiguração do Senhor no alto da montanha, no Monte Tabor – o quarto Mistério da Luz que o então Papa São João Paulo II nos presenteou.

Sejamos iluminados pelo Sermão, do Papa Leão Magno (séc. V), neste dia, em que somos convidados a subir a montanha para escutar o que o Filho amado tem a dizer:

“O Senhor manifesta a Sua glória na presença de testemunhas escolhidas, e de tal modo fez resplandecer o Seu corpo, semelhante ao de todos os homens, que Seu rosto se tornou brilhante como o sol e Suas vestes brancas como a neve.

A principal finalidade dessa transfiguração era afastar dos discípulos o escândalo da Cruz, para que a humilhação da Paixão, voluntariamente suportada, não abalasse a fé daqueles a quem tinha sido revelada a excelência da dignidade oculta de Cristo.

(...) aos Apóstolos que deviam ser confirmados na fé e introduzidos no conhecimento de todos os Mistérios do Reino, esse prodígio ofereceu ainda outro ensinamento.

Moisés e Elias, isto é, a Lei e os Profetas, apareceram conversando com o Senhor, a fim de cumprir-se plenamente na presença daqueles cinco homens (incluindo Pedro, João e Tiago), o que fora dito:

Será digna de fé toda palavra proferida na presença de duas ou três testemunhas (cf. Mt 18,16). Que pode haver de mais estável e mais firme que esta Palavra?

Para proclamá-la, ressoa em uníssono a dupla trombeta do Antigo e do Novo testamento, e os testemunhos dos tempos passados concordam com o ensinamento do Evangelho.

(...) Porque, como diz João, por meio de Moisés foi dada a Lei, mas a graça e a verdade nos chegaram através de Jesus Cristo (Jo l, 17).  N’Ele cumpriram-se integralmente não só a promessa das figuras proféticas, mas também o sentido dos preceitos da Lei; pois pela Sua presença mostra a verdade das profecias e pela Sua graça, torna-se possível cumprir os Mandamentos.

Sirva, portanto, a proclamação do Santo Evangelho para confirmar a fé de todos, e ninguém se envergonhe da Cruz de Cristo, pela qual o mundo foi redimido.

Ninguém tenha medo de sofrer por causa da justiça ou duvide da recompensa prometida, porque é pelo trabalho que se chega ao repouso, e pela morte, à vida.

O Senhor assumiu toda a fraqueza de nossa pobre condição e, se permanecermos no amor e na proclamação do Seu nome, venceremos o que Ele venceu e receberemos o que Ele prometeu.

Assim, quer cumprindo os Mandamentos ou suportando a adversidade, deve sempre ressoar aos nossos ouvidos a voz do Pai, que se fez ouvir, dizendo: Este é o meu Filho amado, no qual pus todo meu agrado. Escutai-O (Mt 17,5)”.(1)

Contemplar a glória de Jesus e descer à planície para testemunhar o que ouvimos. Na planície, no compromisso com a paz, transfigurar a realidade de tantos rostos marcados e desfigurados pela fome, abandono, droga, desamor, desemprego, falta de sentido para a vida, ilhados pela falta da esperança, enfraquecidos pela fraqueza da fé, sem o ardor que queima da chama da caridade...

Subamos ao alto da montanha com o Senhor, e escutemos atentamente o que Ele tem a nos dizer, encorajando-nos para descer à planície, de cada dia, para testemunhar nosso amor e fidelidade à Sua Palavra, ao Seu Evangelho, esperançosos da glória futura, mas corajosamente carregando a cruz do tempo presente.

A subida na montanha, por mais esplêndida que seja a experiência, é apenas um momento provisório daquilo que será nos céus, antes é preciso enfrentar os desafios na planície.

A Transfiguração, enfim, é o pleno cumprimento de toda Profecia e da Lei. É convite para que vivamos nossa vocação profética na prática incondicional da Lei do Amor: a Caridade, que é a Plenitude da Lei, seu pleno cumprimento (Rm 13,10).

Não nos custa contemplar o Transfigurado, pelo contrário, difícil é reconhecê-Lo desfigurado na Cruz e reconhecê-Lo nos desfigurados na planície.

“Transfiguração: Na Montanha escutar o filho amado,
na Planície compromisso com o Reino, vida plena e feliz...”.

(1) cf. Liturgia das Horas, Vol II, pp.130-132

Transfiguração: o olhar da fé foi purificado (IIDTQA)

                                                                     

Transfiguração: o olhar da fé foi purificado
                                                                           
No 2º Domingo da Quaresma (ano A), ouvimos as seguintes passagens: Gn 12,1-4a; 2 Tm 1,8b-10; Mt 17,1-9.

Façamos uma breve reflexão à luz da primeira Leitura e do Evangelho, para que vivamos frutuosamente a Quaresma:

“Chamando-nos à conversão, a Igreja nos chama, na realidade, a repetir e tornar nossa a expressão de Abraão e aquela dos apóstolos no Tabor: sair, descer, ir. Sair da rotina da vida – de nossa Ur da Caldeia – na qual estamos confortavelmente instalados, a mente cheia de projetos e de desejos terrenos. Ir ‘para a terra que o Senhor nos indica’, isto é, para o futuro da fé, abrindo-nos às promessas que Deus nos faz e às obras que nos pede” (1).

Voltemo-nos mais uma vez para Abraão, nosso pai da fé:

“Abraão foi chamado a desenraizar-se de um passado sereno e de um presente certo, para ir para um futuro indeterminado, para uma terra que jamais apertará nas suas mãos, para uma inumerável descendência, paradoxal para um velho marido de uma esposa anciã estéril. Daí em diante, só o ponto de partida será certo” ( 2).

Também temos a nossa história marcada por luzes e sombras, certezas e dúvidas, decisões a serem tomadas; estabilidades e instabilidades; seguranças e medos; turbulências pelos ventos contrários e a serenidade pelas brisas suaves que também nos acompanham.

E sejam favoráveis ou adversos, é tempo de nos deixarmos conduzir pelas virtudes divinas que nos acompanham: fé, esperança e caridade.

Concluo apresentando uma súplica para nos ajudar neste santo propósito, que renovamos a cada Quaresma que celebramos e vivenciamos intensamente com toda a Igreja.

Supliquemos:

Senhor Deus, concedei-nos a coragem de “sair, descer e ir” para onde quiserdes nos enviar e a Vossa divina vontade realizar, sem fixar âncoras nas aparentes seguranças que já tenhamos alcançado.

Concedei-nos também a graça de não cairmos na tentação de nos instalarmos num passado sereno, ou presente tão certo e seguro, mas termos a coragem de nos levantarmos, descermos e partirmos para o indeterminado, tão apenas confiando em Vosso Projeto, sem sombras de dúvidas ou de medo, guiados pelo Vosso Espírito, na fidelidade ao Vosso Amado Filho.

“Sair, descer e ir”, não fixando em nossa Caldeira de Ur, tão pouco fixando moradas no Monte Tabor, como desejaram Vossos Apóstolos, mas com os olhos da fé devidamente purificados, descermos à planície ao encontro dos desfigurados, Vossos pobres prediletos, até que mereçamos a visão da Trindade Santa e Eterna, plenitude de amor e luz: céu.

Senhor Deus, ainda que o Mistério da Cruz se faça presente em nossa vida, a experiência do Tabor pelos Apóstolos vivida, conosco compartilhada e nela acreditada, seja a força que nos impulsione a caminhar adiante, colocando nossa vida inteiramente ao Vosso dispor, para que renovemos sagrados compromissos com Vosso Reino.

Oremos:

“Ó Deus, que nos mandastes ouvir o Vosso Filho amado, alimentai nosso espírito com a Vossa Palavra, para que, purificado o olhar de nossa fé, nos alegremos com a visão de Vossa glória. Por N.S.J.C. Amém."

  
(1) O Verbo Se faz Carne - Raniero Cantalamessa - Editora AVe Maria - 2013 p.55
(2) Lecionário Comentado - Editora Paulus -Lisboa - p.91

Presbítero: homem da imersão e da emersão... (IIDTQA)

                                                          

Presbítero: homem da imersão e da emersão...

“Imerso no Amor para fazer emergir a vida...”

Em todo tempo, mas de modo especial na Quaresma, vivemos, como Igreja, o Tempo da graça e reconciliação; tempo de revisão e revigoramento de nossa fé na fidelidade ao Senhor, configurados a Ele, com renúncias necessárias, para carregarmos a nossa cruz de cada dia, rumo à Páscoa.

Eis o Itinerário que Presbíteros e fiéis são chamados a percorrer, tendo como meta a Ressurreição, pois se com Ele vivemos e morremos, com Ele também Ressuscitaremos.

Retomando as palavras do Papa Bento XVI, na Mensagem Quaresmal 2011, detenhamo-nos nesta afirmação:

 “A Transfiguração é o convite a distanciar-se dos boatos da vida quotidiana para se imergir na presença de Deus...”.  

Indubitavelmente, não poucos são os “boatos da vida quotidiana”, que podem nos afastar dos fatos que clamam a nossa solicitude, na fidelidade ao Cristo Bom Pastor, no exercício de nosso ministério. 

Convém ressaltar, que boatos aqui não são meramente fofocas, como se possa pensar, mas ruídos que interferem na escuta dos clamores do rebanho por Deus confiado.

Por “boatos”, também podemos entender a ditadura do relativismo, que o Papa tanto denunciou, onde as verdades se tornam transitórias, valores se tornam relativos, esvaziando de sentido os princípios, que deveriam nortear a existência da humanidade.

No início do Itinerário Quaresmal com o Senhor, vimos que “boatos” podem ser as propostas satânicas, que nos desviam do Projeto Divino, na realização de nossa vocação, quer Presbíteros ou não. 

São as tentações que Jesus venceu no deserto: ter, ser, poder – abundância, prestígio e domínio, respectivamente. 

Ceder a elas nos afastaria da graça de sermos instrumentos de Deus na construção do Reino, pois como bem disse o Bispo Santo Irineu (séc. I): “a nossa glória é perseverar e permanecer no serviço de Deus”.

Evidentemente, muitos outros “boatos” podem seduzir e enfraquecer a missão. Portanto, é sempre bom lembrar que somos anunciadores da Boa-Nova e não ouvintes e multiplicadores de “boatos”, que esvaziam o existir, destruindo a vida em todos os níveis.

Sem ouvidos a “boatos”, com distanciamentos necessários dos mesmos, o Papa nos convida para a imersão na presença de Deus. 

Quanto mais mergulharmos nos Mistérios de Deus, mais místicos o seremos, mais encarnada e densa de conteúdo será nossa espiritualidade, no compromisso com os empobrecidos desfigurados pelo caminho.

Como Presbíteros, com toda a comunidade, urge que nos coloquemos na presença de Deus, para que nosso coração seja configurado ao coração do Cristo  Bom Pastor, no cuidado do rebanho.

A imersão no Amor Divino é diretamente proporcional à emersão que somos chamados a realizar com toda a comunidade.

Imersos no Amor para fazer emergir a vida, vir à tona uma nova existência, uma nova Igreja, um Planeta mais bem cuidado e, consequentemente, mais amado.

Mais do que nunca, o Presbítero precisa ser o homem da imersão cotidiana e constante; o homem da Oração, do silêncio, da contemplação. 

Um homem que permita que a luz divina ilumine a caverna escura de sua existência, enfim, um homem imerso neste mar de misericórdia e luz; somente assim poderá ajudar a comunidade a fazer e viver a mesma experiência e realidade.

Uma das exigências que o povo tem para conosco, mais do que perceptível, é que sejamos homens imersos no Mistério do Amor de Deus, pois só assim conseguiremos ajudá-lo a encontrar luz também para sua existência.

O Povo de Deus não quer respostas prontas, mas quer ter a certeza de que o Presbítero é um homem que a Deus encontrou na pessoa de Jesus Cristo, por Ele vive uma paixão que se renova em cada instante de sua vida, deixando-se guiar pela luz do Santo Espírito. Que seja um homem de Deus e do povo, sem separação, distanciamentos e dicotomias.

Reflitamos:

- Em que consiste o Ministério Presbiteral, à luz da transfiguração do Senhor?
O que podemos compreender por “distanciar-se dos boatos da vida quotidiana”?

Como Presbíteros, o que é “imergir na presença de Deus”?

Homem do deserto e do oásis revigorante e saciador; homem do céu e da terra simultaneamente; homem da montanha e da planície corajosamente; homem da imersão e da emersão incansavelmente... Numa palavra: homem itinerante e Pascal.


PS: Texto escrito quando exercia o Ministério Presbiteral na Diocese de Guarulhos-SP

Quaresma: sejamos transformados por Jesus Cristo (IIDTQA)

                                                         

Quaresma: sejamos transformados por Jesus Cristo

Enriquecedora a reflexão do Frei Raniero Cantalamessa sobre o Mistério da Transfiguração do Senhor, que nos convida a conhecer, imitar e viver em Comunhão com Cristo, como veremos.

O Conhecimento de Cristo:
"O exemplo mais claro da paixão pelo conhecimento de Cristo é o mesmo Apóstolo Paulo. Não tendo conhecido Jesus ‘segundo a carne’, ele concebeu um desejo ainda mais ardente para descobrir o Mistério do Mestre que lhe aparecera ressuscitado.

Em um trecho escreve: Mas tudo isso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. Na verdade, julgo como perda todas as coisas em comparação com este bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por Ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo (Fl 3,7-8); Paulo se aprofundou no conhecimento de Cristo ficando sempre mais surpreso pelas ‘suas insondáveis riquezas’.

Nós também deveríamos conceber uma nova paixão para conhecer Jesus, uma vontade ardente de ouvir falar d’Ele, julgar – como dizia São Bernardo – sem sabor o que não é condimentado com Jesus. Isto nos deveria levar a um relacionamento pessoal vivo e verdadeiro com o Mestre: Jesus visto não mais como uma memória histórica ou personagem, mas como uma pessoa para nós, amigo, como nós somos amigos d’Ele. Dentro do coração deveria nascer o orgulho de ser reconhecidos, no mundo de hoje, como discípulos de Jesus de Nazaré.

Mas como conseguir tal conhecimento vivo de Jesus? Um meio é o da leitura e da escuta assídua de testemunhos apostólicos na Igreja (magistério dos Bispos, teologia); depois o estudo, sobretudo o estudo da Sagrada Escritura: ‘a Lei’ (isto é, o AT), dizia Santo Agostinho, ‘está grávida de Cristo’; de outra parte, Jesus é a chave para compreender toda a Bíblia; sem Ele, ela permanece como coberta por um véu (cf. 2 Cor 3,15ss)." (1) 

A Imitação de Cristo:
"O conhecimento de Jesus é em vista da imitação de Jesus; o próprio Pai no Evangelho de hoje (Lc 9,28b-36) nos convida a seguir Jesus dizendo: Escutai-O! A Cruz ocupa um lugar muito especial neste caminho de imitação; é a chave de tudo e há uma relação direta entre ela e nossa transfiguração em Cristo: Estou pregado à cruz de Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. (Gl 2,19-20). Tornar-se ‘conformes a Jesus na morte’ é o caminho para ‘alcançar a ressurreição dos mortos’, isto é, nossa transfiguração n’Ele (Fl 3,10-11).

A imitação de Jesus deve ser espiritual, não literal; deve chegar até a intimidade de Jesus, até ter os mesmos sentimentos que estavam em Cristo Jesus (cf. Fl 2,5): tornar-se alguém que seja como Jesus, que permanece diante do Pai em humildade e obediência como Jesus: Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração (cf. Mt 11,29)." (2) 

A Comunhão com Cristo:
"Qual é o sentido do esforço que fazemos para conhecer e imitar Jesus Cristo? Talvez aquele de conseguir, desse modo, por nosso mérito, a transformação em Cristo? Absolutamente, não! Mas eu me empenho em conquistá-la – diz Paulo -, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo (Fl 3,12). Nosso esforço é necessário porque Deus quer construir com nossa liberdade; não quer nos salvar sem nossa colaboração, como Ele nos criou sem nossa colaboração.

Todavia não é a nossa vontade de nos salvar que nos salva, mas a vontade de Deus; em outras palavras, a graça: Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus (Ef 2,8); É Ele que nos reveste com o manto da Salvação (cf. Is 61,10), como revestiu o filho pródigo com a veste nova, com o anel no dedo e sandálias nos pés.

Com nossas forças, apenas ficamos nus e descalços. Nós só podemos encher as talhas de água; só Jesus Cristo, com Seu Espírito, pode transformar a água em vinho, isto é, o esforço da imitação em comunhão de vida com Ele.

Tal comunhão de vida com Cristo encontra seu ápice num Sacramento: a Eucaristia. Ela é o Sacramento por excelência de nossa transfiguração em Cristo. Aparentemente, somos nós que, na Eucaristia, recebemos a Cristo e o assimilamos em nós; na realidade, é Ele que assimila a nós n’Ele: Assim como o Pai que me enviou vive, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim (Jo 6,57). É o princípio vital mais forte que assimila o mais fraco: o vegetal assimila o mineral, o animal assimila o vegetal, o espiritual – divino – assimila o humano. ‘O efeito da Eucaristia é nos tornar aquilo que comemos’ (São Leão Magno); ‘Não é tu que me assimilarás – diz o Senhor – mas Eu que assimilarei a ti’ (Santo Agostinho).” (3)

Reflitamos:

Ser transformado por Jesus Cristo é amar os irmãos e dar a própria vida por eles: o próprio tempo, o afeto, a competência, os bens materiais.

Ser por Ele transformado é deixar-se envolver e seduzir apaixonadamente pelo Reino; de modo que nada coloca acima do Reino.

Ser por Ele transformado é estar disposto a doar tudo sem exigir nenhuma recompensa, a não ser a pura e simples amizade com Ele.

Ser por Ele transformado é não ter atitude de mercenário sempre à espera de um pagamento ou recompensa; porque vive a gratuidade naquilo que faz bem ao próximo.

Para ser por Jesus transformado é preciso conhecê-Lo, imitá-Lo e estar em comunhão com Ele.

Seja a Quaresma este Tempo favorável de graça, reconciliação e conversão, para que vivendo o Mistério da Paixão e Morte do Senhor, a Ele perfeitamente configurados e unidos pela fé, tenhamos a graça e a alegria de celebrar a Sua Gloriosa Ressurreição.


(1); (2); (3) O Verbo Se Faz Carne – Raniero Cantalamessa - Editora Ave Maria – 2013 – p.535-536

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG