sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
Contemplo a ação divina a partir do gerúndio de Deus
Contemplo a ação divina...
Deus está sempre me amando, acompanhando,
Assistindo, iluminando, em todos os momentos.
Em todas as circunstâncias sinto Sua amável presença.
Não há porque temer tempestades e fortes ventos.
Contemplo a ação divina...
Na família, os laços conjugais revitalizando, reforçando.
Novos rumos apontando, quando desaparecem as perspectivas.
Nos momentos de dúvida, a certeza no coração inaugurando
Para que se concretizem as belas e santas iniciativas.
Contemplo a ação divina...
Através dos pais, no coração dos filhos
A Semente da Palavra Divina semeando,
Em vigilante oração, amor, carinho, cuidado.
O melhor para eles, com Deus desejando.
Contemplo a ação divina...
Naqueles que não se curvam diante das tentações
Do ter, poder, e ser que esvaziam nossas vidas.
Em constante combate da fé se empenhando,
Pois para quem crê não há batalhas perdidas.
Contemplo a ação divina a partir do gerúndio de Deus
Deus, um eterno Gerúndio de Amor, sempre me amando
Deus, um eterno Gerúndio de Perdão, sempre me perdoando
Deus, um eterno Gerúndio de Compaixão e Solidariedade
Minha cruz cotidiana no carregar está me ajudando...
Deus, eterno gerúndio, questiona os meus gerúndios:
Ao Seu amor estou correspondendo?
Ao Seu perdão, meu coração estou abrindo?
A Sua compaixão e solidariedade com o outro o mesmo fazendo?
Deus pacientemente está esperando
Minha resposta sincera de amor,
A Ele rendamos toda honra e glória,
A Ele pertence todo louvor!Do “gerundismo” ao Gerúndio de Deus
Do “gerundismo” ao Gerúndio de Deus
Há o belo gerúndio e o “gerundismo”.
Gerúndio, como sabemos, é a forma nominal do verbo que indica uma ação em andamento - amando, perdoando, aprendendo... e não futuro como muitos pretendem.
E foi talvez esta ideia equivocada que deu origem ao chamado “gerundismo”, um vício medonho que foi se incorporando aos poucos ao nosso modo de falar até as coisas mais simples e belas, tornando-as, muitas vezes, desagradáveis aos ouvidos e até criando mal estar em relacionamentos pela sua insuportabilidade.
Além do que usado de forma errônea e excessiva muitas vezes parece o nada querer resolver, o nada poder fazer. Esta é a sensação que tenho e que pode não ser exata, irrefutável, mas é o que sinto sempre que ouço expressões do tipo: “vou estar enviando”, “vou estar encaminhando”, “vou estar comunicando”, “ vou estar pedindo”, e por aí vai.
Por que não usar o verbo no futuro do presente de forma simples explorando a beleza da nossa língua: “Enviarei, encaminharei, repassarei...”?
Vale ressaltar que o gerúndio nada tem de abominável, e se bem empregado nos traz belas lições. Veja esta possibilidade que a música popular nos presenteia: “Caminhando e cantando e seguindo a canção. Somos todos iguais braços dados ou não.”
E no aspecto da espiritualidade não tenho dúvida de que: “Ainda que pequemos e continuemos a pecar. Ainda que estejamos pecando, Deus jamais deixará de nos amar”.
Do “gerundismo” sejamos libertos, de belos gerúndios, enriquecidos e envolvidos pelo Amor de Deus, que está sempre nos olhando nos olhos e nos chamando para que sejamos Seus discípulos missionários no mundo.
Carregando a cruz de cada dia, renunciando o que for preciso, sigamos o Senhor onde Ele está glorioso, reinando eternamente porque é Nosso Deus, Rei e Senhor. Amém.
“Encontramos o Messias”
“Foram, pois, ver onde Ele morava e,
nesse dia, permaneceram com Ele.
Era por volta das quatro da tarde”
(Jo 1, 39)
Não pode ficar contida, retida, aprisionada, a experiência pessoal do encontro com o Senhor, que nos chamou pelo nome, a cada um de um modo, e a cada um em uma determinada hora, como vemos na passagem do Evangelho de João (Jo 1,35-42).
Nisto consiste a vida do discípulo missionário do Senhor: tendo encontrado o Senhor, torna-se intermediário de um novo encontro para outra pessoa.
Mais uma vez, volto às palavras do Papa Bento XVI:
«No início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo. (...) Dado que Deus foi o primeiro a amar-nos (cf. 1 Jo 4, 10), agora o amor já não é apenas um “mandamento”, mas é a resposta ao dom do amor com que Deus vem ao nosso encontro» (Deus Caritas Est, 1).
Ter encontrado com o Senhor é ter feito a experiência do encontro com a misericórdia feito Carne; Alguém que Se fez próximo de nós, muito mais que possamos compreender, e quer conosco caminhar e fazer-nos discípulos missionários Seus.
Num dos “Odes de Salomão” assim lemos:
“O Senhor deu-Se me a conhecer na Sua simplicidade, na Sua benevolência tornou pequena a Sua grandeza. Tornou-Se semelhante a mim para que eu O acolha, fez-Se semelhante a mim para que eu O revista. Não me espantei ao vê-Lo, porque Ele é a misericórdia! Ele tomou a minha natureza para que O possa compreender, a minha figura para que não me afaste d’Ele” (1).
“O Senhor deu-Se me a conhecer na Sua simplicidade, na Sua benevolência tornou pequena a Sua grandeza. Tornou-Se semelhante a mim para que eu O acolha, fez-Se semelhante a mim para que eu O revista. Não me espantei ao vê-Lo, porque Ele é a misericórdia! Ele tomou a minha natureza para que O possa compreender, a minha figura para que não me afaste d’Ele” (1).
Nisto consiste o discipulado: encontrar e permanecer com o Divino Mestre, Jesus, deixar-se guiar, permanentemente, por Ele, para que que Ele nos conduza:
“Aos poucos, o rosto de Jesus revela-Se em todo o Seu mistério luminoso, como Cordeiro imolado que redime o pecado do mundo, como Mestre e como Cristo-Messias, que instaura o Reino de Deus na história dos Homens.
Mas também o rosto do discípulo se ilumina progressivamente, e cada um conhece o seu mistério e sua verdade. Perante o Senhor, que vê no fundo dos corações, cada um recebe de fato, na Sua Palavra, a identidade mais verdadeira e o sentido da sua vida: ‘Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas que quer dizer ‘Pedro’” (2).
Os primeiros discípulos deram sua resposta, agora é o nosso tempo, a oportunidade de também nos tornamos autênticas testemunhas do Messias, d’Aquele que veio ao nosso encontro.
Elevemos a Deus orações, de modo especial, pelos cristãos leigos e leigas, para que, tendo feito este encontro com Jesus, sejam corajosos intermediários, levando muitos ao encontro com o Senhor, sendo no mundo um instrumento e sinal de esperança, fé e caridade, para que a luz de Deus se irradie mais forte e ilumine os cantos sombrios de nossa história, marcado ainda, pelo pecado, sofrimento, dor e tantos sinais de morte.
(1) Lecionário Comentado – Vol. Tempo Comum - Editora Paulus - Lisboa 2011 – p.57
(2) Idem p.69
“Amor Líquido” (Prefácio)
“Amor Líquido” (Prefácio)
A modernidade líquida nos apresenta homens e mulheres desesperados por terem sido abandonados aos seus próprios sentidos e sentimentos facilmente descartáveis, ansiando pela segurança do convívio e pela mão amiga com que possam contar num momento de aflição, desesperados por “relacionar”, segundo Zygmunt Bauman (cf. p.8).
As relações são virtuais: “Ao contrário dos relacionamentos antiquados (para não falar daqueles com ‘compromisso’, muito menos dos compromissos de longo prazo), elas parecem feitas sob medidas par ao líquido cenário da vida moderna, em que se espera e se deseja que as ‘possibilidades românticas’ (e não apenas românticas) surjam e despareçam numa velocidade crescente em volume cada vez maior, aniquilando-se mutuamente e tentando impor aos gritos a promessa de ‘ser mais satisfatória e a mais completa’. Diferentemente dos ‘relacionamentos reais’, é fácil entrar e sair dos ‘relacionamentos virtuais’” (p. 12-13).
Conclui dedicando o livro aos riscos e ansiedades de se viver junto e separado, em nosso líquido mundo moderno.
"Amor Líquido" (Introdução)
“Amor Líquido”
Uma dos desafios na missão evangelizadora da Igreja é a criação, fortalecimento de laços verdadeiramente fraternos e duradouros, na mais pura expressão do Mandamento do Amor a Deus e ao próximo, como nos falam os Evangelhos.
Neste sentido, ofereço uma síntese, acompanhada da minha reflexão pessoal, do livro “Amor Líquido”, de Zigmunt Bauman (nascido 19/11/1925 e falecido 9/1/2017), que retrata o tema da fluidez da existência contemporânea, assim como a fragilidade dos laços humanos.
Na era da modernidade, vemos num mundo repleto de sinais confusos, que se transformam com rapidez e forma nunca antes vistas.
Segundo Bauman, a modernidade líquida é um mundo sem forma, de incertezas, de medos, de ausência da concepção de progresso e de fragilidade nas relações sociais.
Isto tem influência em todos os sentidos: na nossa capacidade amar o próximo, o parceiro e até a nós mesmos, e é esta colaboração do autor: ajuda-nos a investigar de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais flexíveis, menos duradouras, acompanhadas de inseguranças cada vez maiores.
Há a priorização dos relacionamentos em “redes”, com mais facilidade de serem mantidas, suprimidas ou excluídas (deletadas), com o desaprendizado de relacionamentos duradouros.
Assim, como em tempo de modernidade líquida a produção de lixo produzido pela humanidade é assustadora, devido ao consumismo e a cultura do descarte e da “última novidade”, também determina a forma com que os relacionamentos se dão: o descarte.
Na modernidade líquida, o amor vivido (“amor líquido’) também determina o rumo da própria humanidade, na forma de se ver o estranho, com o crescente medo, quando o autor analisa a realidade da Europa, mas que podemos estender a todo o mundo (como vemos os estrangeiros, refugiados).
PS: Os “posts” abaixo dão início à síntese do livro (prefácio e mais quatro partes)
“Amor Líquido” (Capítulo I)
“Amor Líquido”
“Apaixonar-se e desapaixonar-se” – capítulo I
Bauman, neste capítulo, nos ajuda a refletir sobre a liquidez do amor, no líquido mundo moderno não há lugar para relações duradouras:
“Afinal, a definição romântica do amor como ‘até que a morte nos separe’ está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas de parentesco, às quais costumava servir e de onde extraía seu vigor e sua valorização...
Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados. Como resultado, o conjunto de experiências às quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de ‘fazer amor’” (p. 19).
Ao falar da natureza do amor, afirma que o amor é afim à transcendência; possui impulso criativo e como tal carregado de riscos, pois o fim de uma criação nunca é certo. Também porque em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro (p.21).
Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo, numa amálgama irreversível.
Deste modo, esta abertura é a admissão a liberdade no ser, uma liberdade que se incorpora no outro, o companheiro no amor.
Citando Erich Fromm, diz – “A satisfação no amor individual não pode ser atingida... sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras” (p.21), porque “sem humildade e coragem não há amor.
Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não mapeada. É a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos” (p. 22).
Para Bauman, o amor pode ser, e frequentemente é, tão atemorizante quanto a morte. A diferença é que o amor encobre essa verdade com a comoção do desejo e do excitamento:
“Assim, a tentação de apaixonar-se é grande e poderosa, mas também o é a atração de escapar. E o fascínio da procura de uma rosa sem espinhos nunca está muito longe, e é sempre difícil de resistir” (p. 23).
Neste sentido, o amor é a vontade de cuidar, e de preservar o objeto amado: “Um impulso centrífugo, ao contrário do centrípeto desejo. Um impulso de expandir-se, ir além, alcançar o que ‘está lá fora’. Ingerir, absorver e assimilar o sujeito no objeto, e não vice-versa, como no caso do desejo.
Amar é contribuir para o mundo, cada contribuição sendo o traço vivo do eu que ama. No amor, o eu é, pedaço por pedaço, transplantado par ao mundo.
‘’O eu que ama se expande doando-se ao objeto amado. Amar diz respeito à autossobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um estímulo a proteger, alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a -ciumentamente – guardar, cercar, encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode significar expropriar e assumir a responsabilidade. Domínio mediante renúncia, sacrifício resultante em exaltação. O amor é irmão xifópago da sede de poder – nenhum dos dois sobreviveria à separação” (p. 24).
Mas no líquido mundo moderno, que detesta tudo o que é sólido e durável, tudo que não se ajusta ao uso instantâneo, não há lugar para amor duradouro, sólido, como nos fará compreender nas páginas seguintes ao abordar novas formas de relacionamentos como nas redes virtuais, “chats”, em que se entra e sai quando se deseja, mantem-se enquanto se quiser determinado relacionamento; relacionamentos como “livro de bolso” (relações que são guardadas no “bolso’ e podemos nos utilizar delas quando for preciso); CSS – casais semisseparados.
Permite-nos ver como os relacionamentos refletem o líquido mundo moderno, com relações descartáveis, liquefazendo a solidez também do amor, daí a consequência da fragilização dos laços humanos.
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