quarta-feira, 2 de abril de 2025
A Quaresma e o Sacramento da Penitência
Do pecado da concupiscência, livrai-nos, Senhor
Do
pecado da concupiscência, livrai-nos, Senhor
“Não ameis o mundo, nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, não
está nele o amor do Pai. Porque tudo o que há no mundo – o desejo da carne, o
desejo dos olhos e a ostentação da riqueza, não vem do Pai, mas do mundo. Ora,
o mundo passa, e também o seu desejo, mas aquele que faz a vontade de Deus,
permanece para sempre” (1 Jo 16-17)
Vivendo o Tempo da quaresma,
somos convidados a refletir sobre o pecado da concupiscência, que consiste na inclinação para o pecado a que todos
estamos submetidos.
O Catecismo da Igreja, em
diversos parágrafos, nos enriquece neste aprofundamento (1).
Como vimos na citação acima, São
João distingue três espécies de cupidez ou concupiscência:
-A
concupiscência da carne;
- A
concupiscência dos olhos;
- A soberba
da vida.
Vejamos
como compreender esta inclinação para o pecado?
- “No batizado permanecem, no
entanto, certas consequências temporais do pecado, como os sofrimentos, a
doença, a morte, ou as fragilidades inerentes à vida, como as fraquezas de
carácter, etc., assim como uma inclinação para o pecado a que a Tradição chama concupiscência ou, metaforicamente,
a «isca» ou «aguilhão» do pecado («fomes
peccati»)...” (n. 1264);
- “...No entanto,
a vida nova recebida na iniciação cristã não suprimiu a fragilidade e a
fraqueza da natureza humana, nem a inclinação para o pecado, a que a tradição chama concupiscência, a qual persiste nos
batizados, a fim de que prestem as suas provas no combate da vida cristã,
ajudados pela graça de Cristo (Concílio de Trento). Este combate é o da conversão, em vista da santidade e
da vida eterna, a que o Senhor não se cansa de nos chamar (Concílio de Trento).”
(n. 1426);
-“Em sentido etimológico,
«concupiscência» pode designar todas as formas veementes de desejo humano. ...
Desregra as faculdades morais do homem e, sem ser nenhuma falta em si mesma,
inclina o homem para cometer pecado (Concílio de Trento).” (n.2515);
Assim compreendemos a tradição
catequética católica, que no nono mandamento proíbe a concupiscência carnal; e
no décimo, a cobiça dos bens alheios, e como batizados recebemos a graça da purificação
de todos os pecados.
No entanto, o batizado tem de
continuar a lutar contra a concupiscência da carne e os desejos desordenados,
contando com a graça divina no combate aos movimentos da concupiscência que não
cessam de nos arrastar para o mal (n.978):
- Pela virtude e pelo dom da
castidade, pois esta permite amar com um coração reto e sem partilha;
– Pela pureza de intenção, que
consiste em ter em vista o verdadeiro fim do homem: com um olhar simples, o
batizado procura descobrir e cumprir em tudo a vontade de Deus (Rm 12,2; Cl
1,10);
– Pela pureza do olhar, exterior
e interior; pela disciplina dos sentidos e da imaginação; pela rejeição da
complacência em pensamentos impuros que o levariam a desviar-se do caminho dos mandamentos
divinos: «a vista excita a paixão dos insensatos» (Sb 15, 5);
– Pela oração – vejamos o que
nos diz Santo Agostinho nas Confissões:
«Eu pensava que a continência dependia
das minhas próprias forças, forças que em mim não conhecia. E era
suficientemente louco para não saber [...] que ninguém pode ser continente, se
Tu lho não concederes. E de certo Tu o terias concedido, se com gemido interior
eu chamasse aos teus ouvidos e se com fé sólida lançasse em Ti o meu cuidado»”
Ainda sobre o pecado, afirma o
Catecismo: “... o pecado torna os homens
cúmplices uns dos outros, faz reinar entre eles a concupiscência, a violência e
a injustiça. Os pecados provocam situações sociais e instituições contrárias à
Bondade divina; as «estruturas de pecado» são expressão e efeito dos pecados
pessoais e induzem as suas vítimas a que, por sua vez, cometam o mal.
Constituem, em sentido analógico, um «pecado social» (Papa São João Paulo II).”
(n.1869).
Como vemos, a
inclinação para o pecado pode favorecer situações de pecado, que ultrapassam as
relações humanas, provocando situações sociais de pecado, ou até mesmo em sua
máxima expressão – “estruturas de pecado”:
desestruturação de famílias, fome, miséria, destruição planetária, dominações e
morte de vidas humanas e de toda a Casa Comum, como a Campanha da Fraternidade
tanto nos ajuda a compreender e nos compromete, com seu tema – “Fraternidade e Ecologia Integral”, e
lema – “A esperança não decepciona”
(Rm 5,5).
Do pecado da
concupiscência, livrai-nos, Senhor. Amém.
Afastemo-nos do mal, amemos a paz!
Quaresma: O amor de Deus presente em nosso discipulado
terça-feira, 1 de abril de 2025
Sábado Santo: celebremos a vitória do amor divino
Que nossas comunidades sejam mais fraternas!
Quaresma: contemplemos o indizível amor de Deus
Quaresma: contemplemos o indizível amor de Deus
Reflexão à luz da passagem do Evangelho de João (Jo 3,14-21), tendo como fonte de aprofundamento, o Catecismo da Igreja Católica, que nos fala sobre o amor de Deus: o Verbo que Se fez Carne e por amor na Cruz, por amor a nós foi morto.
1 - Para nos
salvar, reconciliando-nos com Deus:
"«Foi Deus que nos amou e enviou o Seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 10). «O Pai enviou o Filho como salvador do mundo» (1 Jo 4, 14). «E Ele veio para tirar os pecados» (1 Jo 3, 5)”;
2 - Para que assim conhecêssemos o amor de
Deus:
“«Assim se manifestou o amor de Deus para conosco: Deus enviou ao mundo o Seu Filho Unigênito, para que vivamos por Ele» (1 Jo 4, 9). «Porque Deus amou tanto o mundo, que entregou o Seu Filho Unigênito, para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça, mas tenha a vida eterna» (Jo 3, 16) »;
3 - Para ser o nosso modelo de santidade:
“«Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim [...]» (Mt 11, 29). «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim» (Jo 14, 6). E o Pai, na montanha da Transfiguração, ordena: «Escutai-O» (Mc 9, 7). De fato, Ele é o modelo das Bem-Aventuranças e a norma da Lei nova: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15, 12). Este amor implica a oferta efetiva de nós mesmos no Seu seguimento.
4 - Para nos tornar «participantes da natureza divina» (2 Pd 1, 4):
“«Pois foi por essa razão que o Verbo Se fez homem, e o Filho de Deus Se fez Filho do Homem: foi para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a adoção divina, se tornasse filho de Deus». «Porque o Filho de Deus fez-Se homem, para nos fazer deuses», como afirmou o Presbítero São Tomás de Aquino:
«O Filho Unigênito de Deus, querendo que fôssemos participantes da Sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses».
Encarnou-Se para que fôssemos participantes da natureza divina, e para que vivamos na santidade, em total correspondência de amor a Deus, na mais íntima e profunda amizade. Que mais Ele poderia nos oferecer?
O Bispo São Gregório de Nissa (séc. IV) assim
se expressou:
“«Doente, nossa natureza precisava de ser curada; decaída, ser reerguida; morta, ser ressuscitada.
Havíamos perdido a posse do bem; era preciso no-la restituir. Enclausurados nas trevas, era preciso trazer-nos à luz; cativos, esperávamos um salvador; prisioneiros, um socorro; escravos, um libertador. Essas razões eram sem importância? Não eram tais que comoveriam a Deus, a ponto de fazê-Lo descer até à nossa natureza humana para visitá-la, uma vez que a humanidade se encontrava em estado tão miserável e infeliz»?”.
Um pouco mais tarde, afirmaria o Bispo Santo Agostinho:
“«... Deus Se fez homem para que o homem se tornasse Deus. Para que o homem comesse o Pão dos Anjos, o Senhor dos Anjos Se fez homem...
O homem pecou e tornou-se culpado; Deus nasceu como homem para libertar o culpado. O homem caiu, mas Deus desceu. O homem caiu miseravelmente, Deus desceu misericordiosamente; o homem caiu por orgulho, Deus desceu com a Sua graça...
Só nasceu sem pecado Aquele que não foi gerado por homem nem pela concupiscência da carne, mas pela obediência do Espírito»”.
Que também nós desçamos misericordiosamente ao encontro do outro, pois somente quando vivenciamos a misericórdia é que percorremos um fecundo itinerário quaresmal, e nos preparamos para bem celebrar a Páscoa do Senhor.
PS: Catecismo da Igreja Católica - parágrafos 457-460







