Quando a vida se esvai, quando tudo parece o fim...
“Menina, levanta-te!”
Na Liturgia da quarta
terça-feira do Tempo Comum, ouvimos a passagem do Evangelho de Marcos (Mc
5,21-43), em que Jesus cura uma menina que estava nas últimas, e também uma
mulher com hemorragia há doze anos.
Oportuno que nos
voltemos para a passagem do Livro da Sabedoria (Sb 1,13-15; 2,23-24), composto
um pouco antes da vinda de Jesus.
Trata-se de uma doutrina
mais serena em relação aos mais antigos, e nos convida a contemplar o rosto de
Deus, que ama a vida, e não é autor da morte – “Deus não fez a morte,
nem tem prazer com a destruição dos vivos” (Sb 1,13).
Ele, ao contrário, cria
a vida e a entrega à humanidade, modelada à Sua imagem, e pronto a restaurá-la
quando se encontra em perigo ou a se apagar – “Deus não criou o homem para
que caísse na espiral do nada” (1).
Retomando a reflexão sobre
a passagem do Evangelho, contemplemos, a partir da ação de Jesus, a ação de
Deus que nos ama, cura, liberta e salva a humanidade, pois jamais se alegra com
nosso sofrimento e morte.
Acima de tudo,
manifesta-se a ação divina, por meio de Jesus, o Verbo encarnado, a pleníssima
revelação da onipotência e bondade de Deus para com quem se sente
impossibilitado de viver, vendo a vida se esvair no sangue derramado daquela
mulher ou nas forças exauridas daquela criança... Afinal, é próprio do Amor de
Deus vir ao encontro de nosso sofrimento, fraqueza, limitações. É próprio do
Amor de Deus intervir e tudo mudar, quando nada mais parece ter outra
possibilidade.
A cura da mulher,
meditada na perspectiva da fé: o sangue propriamente dito é a vida; a
hemorragia, por sua vez, consiste na perda do sangue, logo, a perda da vida.
Entretanto,
o Sangue do Senhor que jorrou no alto da Cruz, com Sua Ressurreição,
tornou-se plenitude de vida para todo aquele que crê. Sangue jorrado que redime
e nos devolve a vida.
Aquela mulher é a imagem
de todos nós que, sem a intervenção divina, vemos nossa vida se esvair, nossas
forças sendo subtraídas, nossos sonhos diminuídos, nossos propósitos
retrocedidos, nossas utopias amareladas e ultrapassadas porque não mais mantêm
e sustêm nossa fome de novos horizontes.
É também a imagem de
todo aquele que somente em Deus tem a cura, o resgate, o reencontro, a
redefinição de rumos, o revitalizar dos passos, o revigorar das forças, o
renascimento dos compromissos com a vida, o imprescindível cultivar das
virtudes que nos movem e nos direcionam, as delicadas e indescritíveis sementes
da fé, esperança e caridade.
Aquela criança, que tida
como morta, diante da Palavra do Senhor recupera a vida – “Menina, Eu
te digo, levanta-te”. Diante do Senhor a morte se curvou, tudo se
dobrou diante de Sua presença. Deus tem sempre a última Palavra, porque Ele é a
Palavra.
A menina que nunca vimos
somos nós mesmos que a cada dia escutamos Deus falar no mais profundo de nós as
mesmas palavras...
Quantas vezes, vimos
sonhos morrerem para novos e melhores nascerem. Quantas vezes projetos
desmoronados para outros, de qualidade incomparável, aparecer.
Quantas vezes, quando
tudo parecia nada, redução de cinzas fúnebres, a semente da fé brotou para que
visse a esperança se transfigurar e se materializar em atos indispensáveis de
amor!
Assim é o amor de Deus:
devolve-nos vida, porque é a Fonte da Vida e vida Plena (Jo 10,10), e nos
chama, constantemente à vida, do princípio ao fim, na Sagrada Escritura – “...
quem participa do Cristo, participa da vida. Por Cristo e pela Sua
Ressurreição, quem crê, mesmo sabendo que deve morrer, vê a morte como um
momento para passar a uma vida sem fim. A morte se torna ‘passagem’. Assume
assim o caráter pascal de vitória.” (2)
Oportunas as palavras de
São Francisco de Assis – “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã
morte corporal, da qual nenhum homem vivo pode escapar”. (3)
Coloquemo-nos no lugar
da mulher e da criança e não seremos mais os mesmos, pois é próprio do Amor de
Deus não nos permitir encurvados, derrotados, inertes, mórbidos, mortos.
Deste modo, Deus pode
realizar maravilhas em nossa vida, mas é preciso que tenhamos fé na onipotência
divina, e, também, ressalte-se, que não podemos transferir para Ele nossa
responsabilidade, cuidando e promovendo a vida, com recursos necessários, bem como
o acesso para todos, sobretudo para os mais vulneráveis.
A fé cristã jamais
dispensa nossos sagrados compromissos no amor e cuidado com a vida, tanto das
pessoas como de nosso planeta, nossa Casa Comum.
Deus por Seu amor, pela
prática de Jesus, nos recria, para vivermos como templos do Seu Espírito.
Coloquemo-nos no lugar
da mulher e da criança, e não mais os mesmos seremos. Pois, é próprio do Amor
de Deus não nos permitir encurvados, derrotados, inertes, mórbidos, mortos... É
próprio de Seu Amor nos recriar, reviver a cada instante, e nada pode se
antepor ao amor de Deus por nós.
Oremos:
“Ó Deus,
pela Vossa graça, nos fizestes filhos da luz. Concedei que não sejamos
envolvidos pelas trevas do erro, mas brilhe em nossas vidas a luz da Vossa
verdade. Por N.S.J.C. Amém.”
(1) Missal
Dominical – Editora Paulus – 1995 – p.945
(2) (3) idem – p.946


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