sábado, 7 de fevereiro de 2026

Se você quiser ser feliz...

                                                              


Se você quiser ser feliz...

Se você quiser ser feliz,
Abra-se à ação da graça divina e reconheça a presença de Jesus, que jamais se afasta de você, porque o carrega em Seu Dulcíssimo Coração, e nos ombros do Bom Pastor. Ele que disse:

"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve". (Mt 11, 28-30)

Se você quiser ser feliz,
Aceita de bom coração a presença de Jesus, e O acolha, sobretudo no Tempo do Advento, em que preparamos Seu Nascimento, e caminhe com Ele, vivendo intensamente cada dia de sua vida, em mais um ano que se anuncia.

Abra à ação do Espírito Santo de modo que, conduzido por Ele, renuncie à sabedoria do mundo como um fim em si, e aberto a Verdadeira Sabedoria do Espírito, conduza cada pensamento, palavra e ação sem o pecado indesejável de omissão.

Se você quiser ser feliz,
Aceita o Mistério que nos abre para as realidades eternas e imutáveis, acolhendo o invisível que Se fez visível no Menino Deus, tocável por nossas mãos, e perpetuado para sempre na Palavra e na Eucaristia, que contemplamos com o novo olhar da fé.

Se você quiser ser feliz,
Sinta-se amado por Deus que, a partir da Revelação que nos veio por meio de Jesus, nos permitiu viver conscientemente aqui na terra as realidades do céu, crendo n’Ele, que reina gloriosamente, e nos convida a buscar, incansavelmente, as coisas do alto, onde habita.

Se você quiser ser feliz,
Caminhemos juntos, ajudemo-nos mutuamente no carregar da cruz, e não esmoreçamos no testemunho da fé, para que guardemos a necessária esperança, acompanhada de pequenos e grandes gestos de caridade, até que mereçamos a eternidade.

PS: Passagem bíblica inspiradora desta reflexão: Lc 10, 21-24; Mc 6,30-34

Sejamos testemunhas da compaixão divina

                                                            

Sejamos testemunhas da compaixão divina

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Marcos (Mc 6,34-44, sobre  Amor e a solicitude de Deus para com o Seu rebanho, verdadeiramente, uma compaixão incomparável, na Pessoa e ação de Jesus Cristo, o Bom Pastor esperado.

Deus mesmo é quem promete ser o próprio Pastor, conforme anunciara o Profeta Jeremias (Jr 23,1 -6).

O Profeta Jeremias foi uma voz incompreendida que clamou pela conversão e fidelidade do Povo a Deus e ao Seu Divino Projeto Libertador. Por isto é considerado o “Profeta da desgraça”.

Ele denunciou a ação dispersiva dos pastores do seu tempo, e anunciou a pertença do Povo a Deus.

Falou da intervenção divina através da repatriação dos exilados (a volta do exílio); a escolha de pastores exemplares e a vinda do Messias.

Já não mais ficariam perdidos e abandonados ao sabor dos ventos e dos mares, dos interesses inescrupulosos de seus pastores, de suas autoridades.

Com Jeremias, aprendemos a confiar em Deus mantendo, nas adversidades, a alegria, a serenidade, a esperança e a paz, e, de modo muito especial, a não usar o povo que nos foi confiado em benefício próprio.

Retomando a passagem do Evangelho, refletimos sobre o regresso dos discípulos que foram enviados em missão, entusiasmados pelos resultados, mas cansados, naturalmente.

Jesus compreende e os convida ao recolhimento, a gozar da intimidade com Ele, recuperando as forças, para não caírem num ativismo que esvazia a vida de sentido e dinamismo.

É preciso estar sempre refeito e disposto para colocar-se com alegria a serviço do rebanho sofrido do Senhor, e nisto consiste a essência de toda atividade pastoral. De modo que podemos dizer tal Cristo, tal cristão.

Reflitamos:

- Vivemos num ativismo descontrolado?
- Nossas atividades não são, por vezes, de funcionários eficientes tão apenas?

- Nossas atividades são revigoradas por uma genuína espiritualidade?
- Qual o perigo da fadiga, cansaço, desânimo, diante dos muitos desafios e das respostas que devemos dar diante do povo?

- Diante do rebanho, temos a humanidade e a sensibilidade de Jesus?
- Nosso coração e consciência doem diante dos clamores que brotam da vida do povo simples de nossas comunidades?

- O que procuramos fazer em resposta a estes clamores?
- Como acolhemos e vivemos a proposta de Jesus no cuidado daqueles que nos foram confiados, dentro e fora da Igreja?

- Nossa comunidade deixa-se transformar pela proposta amorosa de Deus?

Deste modo, como discípulos de Jesus, o Bom Pastor, somos continuadores da Missão do Senhor, unidos por amor, sem barreiras e divisões, porque estas foram superadas pela vida e missão do Senhor Jesus.

Nisto consiste o eterno ciclo na vida do discípulo missionário do Senhor por força de seu Batismo: envio, missão, cansaço, descanso, renovação, continuidade.

Começar e recomeçar sempre, sem desânimo, revigorados no Banquete da Palavra e da Eucaristia, a serviço do Reino, até que alcancemos a glória da eternidade, e então brilharemos com os  justos, conforme o Senhor nos assegurou.

Nada façamos sem Deus...

                                                  


Nada façamos sem Deus...

“Porque, sem o Criador, a criatura se reduz a nada”

A luz da A Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” (Vaticano II), sobre a Igreja no mundo de hoje, reflitamos sobre a concepção da atividade humana nas construções de um mundo mais humano, solidário e fraterno.

“A atividade humana origina-se no homem e para o homem se ordena. De fato, ao trabalhar, o homem não apenas modifica os seres e a sociedade, mas aperfeiçoa-se a si também. Aprende muitas coisas, desenvolve suas faculdades, sai de si mesmo e se supera.

Este crescimento, se bem entendido, vale muito mais que toda a riqueza que possa ajuntar. O homem vale mais pelo que é do que pelo que tem.

Igualmente, tudo quanto os homens fazem para obter maior justiça, fraternidade mais larga e uma ordem mais humana nas relações sociais, tem maior valor do que os progressos técnicos. Estes podem proporcionar base material para a promoção humana, mas, por si sós, não conseguem realizá-la.

Esta é, pois, a norma da atividade humana: que corresponda ao genuíno bem da humanidade, de acordo com o desígnio de Deus, e permita ao homem, como indivíduo ou como membro da sociedade, a plena realização de sua vocação.

Contudo, muitos contemporâneos parecem temer um vínculo muito estreito entre a atividade humana e a religião. Veem nisso um perigo para a autonomia das pessoas, das sociedades e das ciências.

Se por autonomia das realidades terrenas entendemos que toda criatura e as sociedades gozam de leis e de valores próprios, que o homem deve gradualmente reconhecer, utilizar e organizar, tal exigência de autonomia é plenamente legítima.

Não só é exigida pelos homens de hoje, mas concorda com a vontade do Criador. Em virtude mesmo da criação todas as coisas possuem consistência própria, verdade, bondade, leis e ordens específicas. Deve o homem respeitá-las reconhecendo os métodos próprios de cada ciência e técnica.

Seja-nos, portanto, permitido deplorar certas atitudes existentes mesmo entre cristãos, insuficientemente advertidos da legítima autonomia da ciência, que levaram, pelas tensões e controvérsias suscitadas, muitos espíritos a julgar que a fé e a ciência se opõem.

Se, porém, por ‘autonomia das realidades temporais’ se entende que as criaturas não dependem de Deus e que o homem pode usar delas sem qualquer referência ao Criador, quem reconhece a Deus não pode deixar de perceber a que ponto é falsa esta afirmação. Porque, sem o Criador, a criatura se reduz a nada.” (1)

Para aprofundar, retomo a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 5,1-11) em que Jesus faz de Pedro e toda Igreja “pescadores de homens”, naquele dia da pesca milagrosa, depois de uma enfadonha e decepcionante  noite sem nada pescar, e que somente no amanhecer, em atenção a Palavra do Divino Mestre, o êxito é alcançado – “assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes que as redes se rompiam” (v. 6).

Nisto consiste a missão da Igreja, avançar para águas mais profundas e lançar as redes, testemunhando que a Onipotência Divina não dispensa a ação humana.

A Igreja nos ensina que toda atividade/trabalho humano é uma forma do homem participar da obra da criação.  

Embora Deus não prescinda da atividade humana, para que ao nada não sejamos reduzidos, é imprescindível que a mesma corresponda aos desígnios divinos.

Oportunas são também estas palavras do Missal Dominical sobre esta passagem do Evangelho:

“A a humanidade se encontra à beira de um abismo, basta pouco para nele precipitar-se, tal é o seu egoísmo e seu gosto de poder.

Hoje, ser pescador de homens significa participar de todos os empreendimentos que querem livrar o homem dessa perdição e que concorrem para arrancar a humanidade do perigo que a ameaça, através de maior igualdade, paz mais estável, mais ampla possibilidade de promoção para os pequenos...  

A Igreja só pode revelar o Amor de Deus partilhando este Amor com os homens”.  (2)

Portanto, como criaturas, unamo-nos ao Criador de todas as coisas, para com Seu Filho Redentor, confiando na ação e presença do Santo Espírito, desenvolver tudo quanto possamos para que a vida humana brilhe em esplendor e dignidade.

(1) Constituição Pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano II - n.35-36) - Liturgia das Horas - Volume Tempo Comum - I - pp. 142-143
(2) Missal Dominical - Editora Paulus - p.1110

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

“Misericordia et misera” (síntese n.1)

 


 

“Misericordia et misera” (síntese n.1)
 
Ao encerrar o Jubileu Extraordinário da Misericórdia (novembro de 2016), o Papa Francisco nos agraciou com a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, com vistas a continuar os propósitos e iniciativas surgidas ao longo de sua realização: “Termina o Jubileu e fecha-se a Porta Santa. Mas a porta da misericórdia do nosso coração permanece sempre aberta de par em par” (n.16)
 
Iniciou a referida Carta “Misericordia et misera”, referindo-se às duas palavras que Santo Agostinho utilizou para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11), em alusão ao amor de Deus que vem ao encontro do pecador.
 
A a misericórdia não pode ser reduzida a um parêntese na vida da Igreja, mas deve se constituir na sua própria existência, por se tratar da verdade profunda e visível do próprio Evangelho.
 
Fundamentou-se na passagem do Evangelho, em que uma pecadora, num banquete na casa de um fariseu (cf. Lc 7, 36-50), ungiu com perfume os pés de Jesus, banhando-os com as suas lágrimas e os enxugando com os seus cabelos, e muito foi perdoada, porque muito amou.
 
Outra referência do Evangelho é o perdão dado por Jesus no alto da Cruz: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34), de modo que, nada que um pecador arrependido coloque diante da misericórdia de Deus pode ficar sem o abraço do Seu perdão.
 
Sendo assim, a misericórdia é a ação concreta do amor, que transforma e muda a vida de cada um de nós através do perdão, e não é um parêntese na vida da Igreja.
 
O perdão experimentado pelas duas mulheres (a adúltera e a pecadora) faz brotar alegria no coração.
 
Não podemos ficar na indiferença e, uma vez acolhido o sopro vital do Espírito, há a menção de algumas ações concretas na Carta:.
 
1 - Viver a necessária “conversão pastoral”, a fim de não entristecermos o Espírito, com a força renovadora da Misericórdia levando a todos a Boa- Nova da Salvação (n.5).
 
2 - Celebrar a misericórdia, que se encontra presente na oração da Igreja: no Ato Penitencial; no tempo quaresmal; na Oração Eucarística; depois do Pai Nosso; na oração antes do abraço da paz. De fato, cada momento da Celebração Eucarística faz referência à misericórdia de Deus (n.5).
 
3 - Valorizar, de modo especial, os Sacramentos de Cura: Penitência e Unção dos Enfermos, favorecendo a experiência da misericórdia de Deus.
 
4 - Continuar a iniciativa das 24 horas para o Senhor, nas proximidades do IV Domingo da Quaresma, como forte apelo pastoral para vivermos intensamente o Sacramento da Confissão (n.11).
 
5 - Todos os Sacerdotes se empenhem para oferecer oportunidade de confissão a quantos precisarem, acolhendo assim os pecadores na misericórdia de Deus.
 
6 - Valorizar a Palavra de Deus na Catequese e Homilias, sendo esta última a expressão da verdade que anda de mãos dadas com a beleza e o bem, fazendo vibrar o coração dos crentes. Por isto a necessária preparação pelo Sacerdote (Evangelii Gaudium n.142).
 
7 - Acentuar cada vez mais a importância da Bíblia, que narra as maravilhas da misericórdia de Deus: «Toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça» (2 Tm 3, 16)
 
8 - Valorizar o Dia da Bíblia, num domingo do Ano Litúrgico, ressaltando a importância da Palavra de Deus, pois ela é a revelação da misericórdia de Deus.
 
9 - Incentivar a Leitura Orante como fonte de espiritualidade, e de modo especial sobre as Obras de Misericórdia à luz da Palavra de Deus e da Tradição espiritual da Igreja, levando a gestos e obras concretas de caridade (n.7).
 
10 - Todos os sacerdotes podem dar o perdão de Deus para quem pedir perdão para o pecado do aborto (um grave pecado, reitera o Papa), até que se diga algo em contrário:“Em virtude desta exigência, para que nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto. Aquilo que eu concedera de forma limitada ao período jubilar fica agora alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário...” pois todo pecado, pressupondo o arrependimento pode ser destruído pela misericórdia divina.
 
11 - Conceder a recepção válida e lícita da absolvição sacramental dos pecados dos que frequentam as Igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X (n.12).
 
12 - Favorecer para que a alegria do amor que se vive nas famílias se intensifique, pois esta alegria é também o júbilo da Igreja, como mencionada em sua Exortação (Amoris Laetitiae n.17), em meio às dificuldades, provações, pelas quais passa, mas a família constitui num lugar privilegiado para se viver a misericórdia (Amoris Laetitiae n.291-300). A necessidade de acompanhá-las, solidificá-las na experiência viva da misericórdia.
 
13 - A importância da presença do sacerdote no momento difícil que passa a família, a hora da morte de um de seus membros, sobretudo numa cultura em que se banaliza a morte, até mesmo a reduzindo a ficção ou a ocultando, de modo que a oração das exéquias seja um mento forte de esperança para a alma da pessoa falecida e para dar consolação à família que sofre a separação da pessoa amada.
 
14 - Construir da cultura de misericórdia, com base na redescoberta do encontro com os outros: uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos. (n.20). Deste modo é preciso intensificar a oração assídua, na abertura dócil à ação do Espírito, na familiaridade com a vida dos Santos e na solidariedade concreta para com os pobres (n.20) na construção da cultura da misericórdia
 
15 – Que seja celebrado no 33º Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres, fazendo deste momento um modo mais digno para a preparação e vivência da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, que Se identificou com os pequeninos e os pobres e nos há de julgar sobre as obras de misericórdia (cf. Mt 25, 31-46).
 
Concluindo, o Papa exorta que, a continuidade da experiência do Jubileu, faça chegar a todos a carícia de Deus, através do testemunho dos crentes (n.21), confiando-nos à ajuda materna de Maria, a Mãe da Misericórdia, que nos acompanha no testemunho do amor, pois ela nos indica o perene olhar para Jesus, “o rosto radiante da misericórdia de Deus” (n. 22).



 

“Misericordia et misera” (síntese n. 2)

 


“Misericordia et misera”

Por ocasião do encerramento do Jubileu Extraordinário da Misericórdia (novembro de 2020), o Papa Francisco nos agraciou com a Carta Apostólica “Misericordia et misera”, com vistas a continuar os propósitos e iniciativas surgidas ao longo de sua realização, e ora destaco alguns trechos.

“Misericordia et misera”, as duas palavras que Santo Agostinho utilizou para descrever o encontro de Jesus com a adúltera (cf. Jo 8, 1-11), em alusão ao amor de Deus que vem ao encontro do pecador: “Ficaram apenas eles dois: «a mísera e a misericórdia» Johannis 33,5), um ícone de tudo que celebramos no Ano Santo.

A misericórdia não pode ser reduzida a um parêntese na vida da Igreja, mas deve se constituir na sua própria existência, tornando visível e palpável a verdade profunda do Evangelho, pois tudo se revela na misericórdia; tudo se compendia no amor misericordioso do Pai, ressaltou o Papa.

No encontro de Jesus com a pecadora, não se encontram o pecado e o juízo em abstrato, mas uma pecadora e o Salvador. Jesus ao fixar nos olhos daquela mulher, leu o seu coração, com desejo de ser compreendida, perdoada e libertada:

– “A miséria do pecado foi revestida pela misericórdia do amor... ajuda-a a olhar para o futuro com esperança, pronta a recomeçar a sua vida; a partir de agora, se quiser, poderá «proceder no amor» (Ef 5, 2)”. (n.1)

Mencionou a passagem do Evangelho em que uma pecadora, num banquete na casa de um fariseu (cf. Lc 7, 36-50), ungiu com perfume os pés de Jesus, banhando-os com as suas lágrimas e os enxugando com os seus cabelos, e muito foi perdoada, porque muito amou.

Falou-nos do perdão dado por Jesus no alto da Cruz: «Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem» (Lc 23, 34), de modo que, nada que um pecador arrependido coloque diante da misericórdia de Deus pode ficar sem o abraço do Seu perdão.

Sendo assim, a misericórdia é a ação concreta do amor, que transforma e muda a vida de cada um de nós através do perdão.

O perdão experimentado pelas duas mulheres (a adúltera e a pecadora) faz brotar alegria no coração: 

As lágrimas da vergonha e do sofrimento transformaram-se no sorriso de quem sabe que é amado. A misericórdia suscita alegria, porque o coração se abre à esperança duma vida nova. A alegria do perdão é indescritível, mas transparece em nós sempre que a experimentamos. Na sua origem, está o amor com que Deus vem ao nosso encontro, rompendo o círculo de egoísmo que nos envolve, para fazer também de nós instrumentos de misericórdia (n.3)

Não podemos permitir que a misericórdia experimentada, a alegria que ela nos dá, seja roubada devido às várias aflições e preocupações, por isto precisa estar bem enraizada no coração, para olharmos o dia-a-dia com serenidade.

Numa cultura marcada pela tecnologia, acompanhada da tristeza e solidão, urge que sejamos testemunhas da esperança e da alegria verdadeira, não nos enganando com felicidade fácil com “paraísos artificiais”, uma vez que a alegria verdadeira é sempre no Senhor (Fl 4, 4; cf. 1 Ts 5, 16) (cf n.3).

O vento impetuoso e salutar do Ano Santo é um desafio que não permite indiferentes e, uma vez acolhido o sopro vital do Espírito, continuarmos o que foi iniciado.

Ele acenou para as novas sendas a serem percorridas, levando a todos o Evangelho da Salvação, com a necessária “conversão pastoral”, a fim de não entristecermos o Espírito, com a força renovadora da Misericórdia. (n.5)

Exortou a continuuidade da celebração da misericórdia, porque ela está presente na oração da Igreja: no Ato Penitencial; no tempo quaresmal; na Oração Eucarística; depois do Pai Nosso; na oração antes do abraço da paz. De fato, cada momento da Celebração Eucarística faz referência à misericórdia de Deus (n.5).

Destacou, de modo especial, os Sacramentos de Cura: Penitência e Unção dos Enfermos, que favorecem a experiência da misericórdia de Deus, pois o amor de Deus nos precede, acompanha e permanece conosco, não obstante nossos pecados (n.5, n.8):

O Sacramento da Reconciliação precisa de voltar a ter o seu lugar central na vida cristã; para isso requerem-se sacerdotes que ponham a sua vida ao serviço do «ministério da reconciliação» (2 Cor 5, 18), de tal modo que a ninguém sinceramente arrependido seja impedido de aceder ao amor do Pai que espera o seu regresso e, ao mesmo tempo, a todos seja oferecida a possibilidade de experimentar a força libertadora do perdão (n.11).

Renovou a iniciativa das 24 horas para o Senhor, nas proximidades do IV Domingo da Quaresma, que goza já de amplo consenso nas dioceses e continua a ser um forte apelo pastoral para vivermos intensamente o Sacramento da Confissão (n.11).

Expressou gratidão aos Missionários da Misericórdia pelo valioso serviço oferecido para tornar eficaz a graça do perdão (n.9), de modo que todos os Sacerdotes devem se empenhar para oferecer oportunidade de confissão a quantos precisarem, vivendo a misericórdia de Deus de modo especialíssimo no Sacramento da Confissão.

É preciso que o sacerdote seja magnânimo de coração, ciente de que cada penitente lhe recorda a sua própria condição pessoal: pecador, mas ministro da Misericórdia (n.10).

Acenou para a importância da Catequese, da Palavra de Deus proclamada, da homilia, que deve ser a expressão da verdade que anda de mãos dadas com a beleza e o bem, fazendo vibrar o coração dos crentes. Daqui decorre a necessária preparação pelo Sacerdote, como nos falou na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium n.142.

Cada vez mais deve ser acentuada a importância da Bíblia, que narra as maravilhas da misericórdia de Deus: «Toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça» (2 Tm 3, 16)

Enfatizou a importância da Leitura Orante como fonte de espiritualidade, assim como a valorização do Dia da Bíblia, num domingo do Ano Litúrgico.

Urge favorecer a “Lectio divina” sobre as Obras de Misericórdia à luz da Palavra de Deus e da Tradição espiritual da Igreja, levando a gestos e obras concretas de caridade (n.7).

Uma questão que merece toda a atenção está no parágrafo número 12, sobre o pedido de perdão para o pecado do aborto:

“Em virtude desta exigência, para que nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto. Aquilo que eu concedera de forma limitada ao período jubilar fica agora alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário.

Quero reiterar com todas as minhas forças que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente; mas, com igual força, posso e devo afirmar que não existe algum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai. Portanto, cada sacerdote faça-se guia, apoio e conforto no acompanhamento dos penitentes neste caminho de especial reconciliação”

Também concede a recepção válida e lícita da absolvição sacramental dos pecados dos que frequentam as Igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X (n.12).

No parágrafo seguinte, acenou para o rosto da consolação que a misericórdia também possui «Consolai, consolai o meu povo» (Is 40, 1: “Enxugar as lágrimas é uma ação concreta que rompe o círculo de solidão onde muitas vezes se fica encerrado.

Todos precisamos de consolação, porque ninguém está imune do sofrimento, da tribulação e da incompreensão. Quanta dor pode causar uma palavra maldosa, fruto da inveja, do ciúme e da ira! Quanto sofrimento provoca a experiência da traição, da violência e do abandono! Quanta amargura perante a morte das pessoas queridas! E, todavia, Deus nunca está longe quando se vivem estes dramas. Uma palavra que anima, um abraço que te faz sentir compreendido, uma carícia que deixa perceber o amor, uma oração que permite ser mais forte... são todas expressões da proximidade de Deus através da consolação oferecida pelos irmãos” (n.13).

Grande ajuda também pode ser o silêncio; porque em certas ocasiões não há palavras para responder às perguntas de quem sofre: “O próprio silêncio pertence à nossa linguagem de consolação, porque se transforma num gesto concreto de partilha e participação no sofrimento do irmão” (n.13).

Também nos falou da família, da alegria do amor que se vive nas famílias, que é também o júbilo da Igreja, como mencionada em sua Exortação (Amoris Laetitiae n.17), em meio às dificuldades, provações, pelas quais passa, mas a família constitui num lugar privilegiado para se viver a misericórdia (Amoris Laetitiae n.291-300). A necessidade de acompanhá-las, solidifica-las na experiência viva da misericórdia.

Acenou para a importância da presença do sacerdote no momento difícil que passa a família, a hora da morte de um de seus membros, sobretudo numa cultura em que se banaliza a morte, até mesmo a reduzindo a ficção ou a ocultando:

“Nós vivemos a experiência das exéquias como uma oração cheia de esperança para a alma da pessoa falecida e para dar consolação àqueles que sofrem a separação da pessoa amada”(n. 15).

O término do Jubileu e o fechar da Porta Santa exigem que a porta da misericórdia do nosso coração permaneça sempre aberta.

A misericórdia renova e redime, porque é o encontro de dois corações: o de Deus que vem ao encontro do coração do homem. Experimentada a misericórdia, não há como recuar.

Daqui decorre a necessidade de dar espaço à imaginação a propósito da misericórdia para dar vida a muitas obras novas, fruto da graça (n.17).

Volta à prática das obras de misericórdia (corporais e espirituais), que continuam a tornar visível a bondade de Deus, num mundo marcado por sinais de pecado, morte, sofrimento, pobreza e muito mais (n.18):

“...as obras de misericórdia corporal e espiritual constituem até aos nossos dias a verificação da grande e positiva incidência da misericórdia como valor social. Com efeito, esta impele a arregaçar as mangas para restituir dignidade a milhões de pessoas que são nossos irmãos e irmãs, chamados conosco a construir uma «cidade fiável»” (n.18).

...O mundo continua a gerar novas formas de pobreza espiritual e material, que comprometem a dignidade das pessoas. É por isso que a Igreja deve permanecer vigilante e pronta para individuar novas obras de misericórdia e implementá-las com generosidade e entusiasmo” (n.19).

“... ponhamos todo o esforço em dar formas concretas à caridade e, ao mesmo tempo, entender melhor as obras de misericórdia. Com efeito, esta possui um efeito inclusivo pelo que tende a difundir-se como uma nódoa de azeite e não conhece limites. E, neste sentido, somos chamados a dar um novo rosto às obras de misericórdia que conhecemos desde sempre. De fato a misericórdia extravasa; vai sempre mais além, é fecunda. É como o fermento que faz levedar a massa (cf. Mt 13, 33), e como o grão de mostarda que se transforma numa árvore (cf. Lc 13, 19) (n.19).

“...O caráter social da misericórdia exige que não permaneçamos inertes mas afugentemos a indiferença e a hipocrisia para que os planos e os projetos não fiquem letra morta. Que o Espírito Santo nos ajude a estar sempre prontos a prestar de forma efetiva e desinteressada a nossa contribuição, para que a justiça e uma vida digna não permaneçam meras palavras de circunstância, mas sejam o compromisso concreto de quem pretende testemunhar a presença do Reino de Deus” (n.19).

O Papa nos interpelou para a construção da cultura de misericórdia, com base na redescoberta do encontro com os outros: uma cultura na qual ninguém olhe para o outro com indiferença, nem vire a cara quando vê o sofrimento dos irmãos. (n.20):

Esta cultura da misericórdia forma-se na oração assídua, na abertura dócil à ação do Espírito, na familiaridade com a vida dos Santos e na solidariedade concreta para com os pobres (n.20).

Concluindo, o Papa exortou que a continuidade da experiência do Jubileu faça chegar a todos a carícia de Deus através do testemunho dos crentes (n.21).

Vivemos o tempo da misericórdia, sentindo a presença de Deus, experimentando a sua ternura, de modo especial na solidariedade para com os pobres e buscando o perdão de Deus, como pecadores que somos, a fim de sentirmos a mão de Deus Pai que nos acolhe e nos abraça (n.21).

Como sinal concreto, o Papa exortou para que seja celebrado no 33º Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres, fazendo deste momento um modo mais digno para a preparação e vivência da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, que Se identificou com os mais pequenos e os pobres e nos há de julgar sobre as obras de misericórdia (cf. Mt 25, 31-46):

“Será um Dia que vai ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21).

Além disso este Dia constituirá uma forma genuína de nova evangelização (cf. Mt 11, 5), procurando renovar o rosto da Igreja na sua perene ação de conversão pastoral para ser testemunha da misericórdia” (n.21).

Finalizou nos confiando à ajuda materna de Maria, a Mãe da Misericórdia que nos acompanha no testemunho do amor, pois ela nos indica o perene olhar para Jesus, “o rosto radiante da misericórdia de Deus” (n. 22).




Leia a Carta na íntegra acessando: 

Em poucas palavras...

                                                 


A grandeza de Maria...”

“A grandeza de Maria construiu-se em sua contínua disponibilidade em mudar seus planos diante de Deus.” (1)

 

(1) Missal Cotidiano – Editora Paulus – p. 1365

Compromisso com um mundo novo

                                                                

Compromisso com um mundo novo

Retomemos o parágrafo 39 da Constituição Pastoral “Gaudium et spes” sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano II (séc. XX), que retrata a prefiguração de um mundo novo:

“Não conhecemos o tempo em que se consumirão a terra e a humanidade nem o modo por que se transformará o mundo. Na verdade, passa a figura deste mundo deformada pelo pecado, porém, Deus nos revelou preparar nova habitação e nova terra onde mora a justiça; e sua felicidade cumulará e superará todo desejo de paz que sobe ao coração dos homens.

Então, vencida a morte, ressuscitarão os filhos de Deus em Cristo, e aquilo que foi semeado na fraqueza e na corrupção, se revestirá de incorrupção; sempre vivas a caridade e suas obras, toda a criação, que para o homem Deus criou, será liberta da escravidão da vaidade.

Recebemos a advertência de que nada adiantará ao homem lucrar o mundo inteiro se vier a perder-se a si mesmo. Todavia a expectativa da nova terra não deve enfraquecer, mas, ao contrário, estimular o interesse pelo desenvolvimento desta terra, onde cresce o corpo daquela nova família humana, que já pode mostrar algo como sombra do novo mundo.

Por conseguinte, embora distinguindo com cuidado o progresso terreno e o aumento do reino de Cristo, na medida em que a sociedade humana for mais bem ordenada, influirá sobremaneira no Reino de Deus.

Pois os bens da dignidade da pessoa, da comunhão fraterna e da liberdade, todos os bens, frutos da natureza e do esforço humano, depois que pelo Espírito do Senhor e a seu mandado os propagarmos pela terra, de novo os reencontraremos, mais limpos de toda mancha.

Luminosos e transfigurados, quando Cristo entregar ao Pai o Reino eterno e universal: 'Reino de verdade e de vida, Reino de santidade e de graça, Reino de justiça, de amor e de paz’. Este Reino já está aqui na terra, em Mistério; com a vinda do Senhor, será perfeito”.

Oremos:

Senhor Deus, não conhecemos o tempo em que se consumirão a terra e a humanidade nem o modo por que se transformará o mundo, mas nos colocamos confiantes em Vossas mãos, e queremos por Vós ser conduzidos e participar de Vossa inacabada obra da criação.

Senhor Deus, apenas sabemos que passa a figura deste mundo, deformada pelo pecado, porém, Vós nos revelastes a preparação de uma  nova habitação e nova terra onde more a justiça; e Vossa felicidade cumulará e superará todo desejo de paz que sobe ao coração da humanidade.

Senhor Deus, vencida a morte, ressuscitarão os Vossos filhos em Cristo, e aquilo que foi semeado na fraqueza e na corrupção, se revestirá de incorrupção; sempre vivas a caridade e as obras que as acompanham, toda a criação, que para o homem criastes, liberta da escravidão da vaidade.

Senhor Deus, de Vosso amado Filho, recebemos a advertência de que nada adiantará ao homem lucrar o mundo inteiro se vier a perder-se a si mesmo; todavia a expectativa da nova terra não deve enfraquecer, mas, ao contrário, estimular o interesse pelo desenvolvimento desta terra, onde cresce o corpo daquela nova família humana, que já podeis mostrar algo como sombra de um novo mundo.

Senhor Deus, ajudai-nos no cuidado do progresso terreno como sinal do crescimento do Vosso Reino por Jesus Cristo anunciado e inaugurado; construindo assim uma sociedade humana mais bem ordenada, marcada pela justiça, solidariedade e paz.

Senhor Deus, cremos que deste modo os bens da dignidade da pessoa, da comunhão fraterna e da liberdade, todos os bens, frutos da natureza e do esforço humano, depois que pelo Espírito do Senhor por Vós enviado, os reencontraremos por toda a terra, limpos de toda mancha.

Senhor Deus, ajudai-nos, para que sejamos luminosos e transfigurados, quando Vosso Filho, o Cristo, Vos entregar o Reino eterno e universal: “Reino de verdade e de vida, Reino de santidade e de graça, Reino de justiça, de amor e de paz”; este Reino já aqui na terra, presente em Mistério; e com a vinda do Senhor gloriosamente, será, enfim, perfeito.

“Pai Nosso que estais no céus...”

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG