sábado, 20 de dezembro de 2025

O Sim de Maria ilumina o nosso sim de cada dia

                                                                           

O Sim de Maria ilumina o nosso sim de cada dia

Reflexão em preparação ao Natal do Senhor, em pleno tempo do Advento, ouvimos a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 1,26-38).

Sejamos enriquecidos por uma trecho do Sermão do Abade São Bernardo (séc. XII), meditando sobre os Mistérios da Salvação que nos veio pela Encarnação do Verbo, Jesus Cristo.

“O Santo, que nascer de ti, será chamado Filho de Deus (cf. Lc 1,35), fonte de sabedoria, o Verbo do Pai nas alturas! Este Verbo, através de ti, Virgem santa, Se fará Carne, de modo que Aquele que diz: Eu no Pai e o Pai em mim (cf. Jo 10,38), dirá também: Eu saí do Pai e vim (Jo 16,28).

No princípio, diz João, era o Verbo. Já borbulha a fonte, mas por enquanto apenas em si mesma. Depois, e o Verbo era com Deus (cf. Jo 1,1), habitando na luz inacessível.

O Senhor dizia anteriormente: Eu tenho pensamentos de paz e não de aflição (cf. Jr 29,11). Mas teu pensamento está dentro de ti, ó Deus, e não sabemos o que pensas; pois quem conheceu a mente do Senhor ou quem foi seu conselheiro? (cf. Rm 11,34).
  
Desceu, por isto, o pensamento da paz para a obra da paz: O Verbo Se fez Carne e já habita em nós (cf. Jo 1,14). Habita totalmente pela fé em nossos corações, habita em nossa memória, habita no pensamento e chega a descer até a imaginação.

Que poderia antes o homem pensar sobre Deus, a não ser talvez fabricando um ídolo no coração? 

Era incompreensível e inacessível, invisível e inteiramente impensável; agora, porém, quis ser compreendido, quis ser visto, quis ser pensado.

De que modo, perguntas? Por certo, reclinado no presépio, deitado ao colo da Virgem, pregando no monte, pernoitando em Oração; ou pendente da Cruz, pálido na morte, livre entre os mortos e dominando o inferno; ou ainda ressurgindo ao terceiro dia, mostrando aos Apóstolos as marcas dos cravos, sinais da vitória, e, por último, diante deles subindo ao mais alto do céu.

O que não se poderá pensar verdadeira, piedosa e santamente disto tudo? Se penso algo destas realidades, penso em Deus e em tudo Ele é o meu Deus. 

Meditar assim, considero sabedoria, e tenho por prudência renovar a lembrança da suavidade que, em essência tão preciosa, a descendência sacerdotal produziu copiosamente, e que, haurindo do alto, Maria trouxe para nós em profusão.”

Temos, em breves palavras, um itinerário da Encarnação do Verbo feito criança até a Sua glorificação no céu, onde reina glorioso junto de Deus.

Pelo “sim” de Maria, nos veio do alto o Verbo para nos redimir, e por isto tão bem expressou o Abade:  Aquele que “era incompreensível e inacessível, invisível e inteiramente impensável; agora, porém, quis ser compreendido, quis ser visto, quis ser pensado.”

Silenciemo-nos e contemplemos Jesus:

“... reclinado no presépio, deitado ao colo da Virgem, pregando no monte, pernoitando em oração; ou pendente da Cruz, pálido na morte, livre entre os mortos e dominando o inferno; ou ainda ressurgindo ao terceiro dia, mostrando aos Apóstolos as marcas dos cravos, sinais da vitória, e, por último, diante deles subindo ao mais alto do céu”.

Com Maria, renovemos o nosso sim aos desígnios e Projeto divino, para que tenhamos vida plena e feliz, como ela nos ensinou naquele dia memorável das Bodas de Caná (cf. Jo 2,1-12).

De modo especial, nestes dias em que nos preparamos para celebrar o nascimento do seu amado Filho, o Menino Jesus, contemplemos o presépio e fixemos o olhar em Maria, a Mãe que jamais fecha seus olhos à nossa realidade.

Em poucas palavras...

                                                               



Rainha da Paz, rogai por nós!

Maria, no Mistério da Encarnação do Verbo é a humilde serva do Senhor que, pelas palavras do Arcanjo Gabriel, recebeu o anúncio e concebeu no seio Virginal o Príncipe da Paz, Jesus Cristo, Aquele que nos restituiu a paz, reconciliando em Si a terra e os céus (cf. Lc 1,26-38).


Com Maria, sejamos sim para Deus

                                                               

Com Maria, sejamos sim para Deus

À luz da passagem do Evangelho de Lucas (Lc 1,26-38), refletimos sobre o Projeto de Salvação que Deus tem para todos os povos, a ser realizado por meio de Jesus Cristo, como nos fala o Apóstolo Paulo (Rm 16,25-27), com o Sim de Maria para a sua Encarnação.

Com Jesus Cristo, por Sua vida, com Suas palavras, gestos, sobretudo com Sua Morte e Ressurreição, nos tornamos partícipes da herança.

No diálogo do anjo Gabriel com Maria, contemplamos o sim de uma jovem para a realização deste Projeto de Salvação.

De uma aldeia, de um lugar insignificante, Deus quis nascer e inaugurar uma nova história, contando com a participação de uma simples jovem, desconhecida do povo. Ele não nasceu em palácios nem de notáveis.

Jesus nascendo de Maria por obra do Espírito Santo, contando também com a participação de José, Deus lhe confere a descendência real da estirpe de Davi.

Voltemo-nos para Maria: Ela é cheia de graça, segundo o anjo, porque é objeto da predileção divina. “O Senhor está contigo”, significa que é vocacionada pelo Pai e conta com a ação e assistência do Espírito Santo. Maria é amada, escolhida, e tem papel fundamental no Projeto Divino.

Contemplemos a forma como Maria vai acolhendo em seu coração a vontade de Deus: diálogo sincero, aberto, sem máscaras, coloca nas mãos do anjo mensageiro de Deus suas dúvidas, medos, incertezas.

Maria embarca numa aventura de amor, consciente, confiante e totalmente disponível, mais ainda, em disponibilidade incondicional.

Maria é simplesmente um sim incondicional ao Projeto de Deus, com confiança plena e incontestável.

O diálogo com o Anjo possibilita, também, a contemplação da onipotência divina que conta, paradoxalmente, com a fragilidade humana, sintetizada de modo muito especial na figura de Maria.

Reflitamos:

-   Qual é a minha disponibilidade de participação neste Projeto Divino de Salvação?
-   Deus pode contar comigo em Seu projeto de Salvação?

-   Qual a intensidade de esperança, alegria e gratidão por ser participante deste Projeto?
-   Como tem sido a minha preparação para acolhida do Verbo?

-   Qual é a profundidade da comunhão e sintonia com Deus e a Sua vontade em minha vida?
-   Dou um sim incondicional para que a vontade de Deus se cumpra?

Pelo sim de pessoas tão humildes e pobres, atentas à vontade de Deus, Jesus entra na História da Salvação da humanidade.

Como Igreja, tenhamos a fecundidade do Espírito, a exemplo de Maria, que acolheu o Verbo e exultou de alegria, como mãe de uma geração santa e irrepreensível na concretização da vontade divina, como instrumentos do Seu Reino.

Contemplemos a presença do “Senhor Onipotente” em nosso meio, contando conosco, mesmo com nossas imperfeições, fraquezas, como servos inúteis que o somos.

Que o Sim de Maria ressoe no mais profundo de nós:
Eis aqui a serva do Senhor, faça-se
em mim conforme Sua Palavra”.

Em poucas palavras...

                                                   


Acolhida e hospitalidade fecunda

“Tendo acreditado em Deus (Gn 15,6) caminhando na sua presença e em Aliança com Ele (Gn 17,1-2), o patriarca está pronto para acolher na sua tenda o Hóspede misterioso: é a admirável hospitalidade de Mambré, prelúdio da Anunciação do verdadeiro Filho da promessa (Gn 18,1-5; Lc 1,26-38).

Desde então, tendo-lhe Deus confiado o seu desígnio, o coração de Abraão fica em sintonia com a compaixão do seu Senhor pelos homens e ousa interceder por eles com uma confiança audaciosa (Gn 18,16-33).” (1)

 

 

(1)               Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 2571

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Precipitados em Adão, restabelecidos em Cristo

 


Precipitados em Adão, restabelecidos em Cristo
 
Em pleno Tempo do Advento, sejamos enriquecidos pelo comentário sobre o Livro do Profeta Miqueias, escrito por São Cirilo de Alexandria (séc. V).
 
“Realmente o Mistério de Cristo nos enche de assombro, e a excelência de sua bondade para conosco supera toda a capacidade de admiração. Por isso, o profeta Habacuc, estupefato ante a economia da Encarnação, se expressa com toda a clareza: Senhor, ouvi sobre Tua fama, e Tua obra me impressionou. Pois o Unigênito, igual a Deus Pai por natureza, de rico que era como Deus Se fez pobre, para enriquecer-nos com Sua pobreza: para salvar o que estava perdido, fortalecer o débil, enfaixar as feridas, dar vida ao morto, purificar a impureza e honrar com a adoção filial aos que eram servos por natureza.
 
Que todos O aclamem: Quem como Tu, ó Deus? Sim, Ele é bom até o ponto de não recordar as injúrias e perdoar os pecados do resto de Sua herança, sob cujo nome há que se incluir os crentes de Israel, já que a grande maioria foi para a ruína completa por negar-se a crer.
 
E Ele não conteve Sua ira como um memorial. Fomos precipitados em Adão, porém restabelecidos em Cristo. Se pela transgressão de um, diz, morreram todos, assim pela justiça de um só viverão muitos. Ele cessou de encolerizar-Se: porque Deus é misericordioso. No momento da conversão, isto é, da Encarnação ou, o que vem a ser o mesmo, da assunção da natureza humana, precipitou simbolicamente ao mar os pecados de todos. E como, diz, prometeu aos santos pais Abraão e Jacó multiplicar sua descendência como as estrelas do céu, lhes dará o que lhes prometeu. Serão chamados pais de muitas nações, isto é, não somente dos descendentes de Israel segundo a carne, mas também daqueles que são chamados filhos segundo a promessa.
 
Estes são os que, procedentes da incircuncisão ou da circuncisão, formam pela fé uma só unidade espiritual. Pois está escrito: Nem todos os descendentes de Israel são povo de Israel; é o gerado em virtude da promessa o que conta como descendência. Os homens de fé são os que recebem a bênção com Abraão, o fiel. E por bênção pode entender-se a graça de Cristo, pela qual e na qual seja dada glória a Deus Pai em união com o Espírito Santo pelos séculos. Amém.” (1)
 
Vivamos intensamente o Tempo do Advento, preparando-nos para bem celebrar o Natal do Senhor.
 
Oremos:
 
Ó Deus Pai, aguardamos vigilantes a vida de Vosso Filho, que veio, vem e virá sempre ao nosso encontro, sem jamais desistir da humanidade.
 
Ele, Jesus, o Verbo que Se fez Carne, por natureza, rico como Vós Se fez pobre, para enriquecer-nos com Sua pobreza.
 
Veio para salvar o que estava perdido, fortalecer o débil, enfaixar as feridas, dar vida ao morto, purificar a impureza e honrar com a adoção filial aos que eram servos por natureza.
 
Ele que veio restabelecer o que fora perdido em Adão, para nos reconciliar convosco, que Sois Pai de Amor e Ternura, na comunhão com o Santo Espírito. Amém.
 
 
 
 
(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes - pp. 280-281
 

Contemplamos quatro nascimentos...

                                                            


Contemplamos quatro nascimentos...

O primeiro e maior de todos os nascimentos, que estamos nos preparando para celebrar: o nascimento do Menino Jesus, o Verbo que Se fez Carne e habitou entre nós, e nós vimos a Sua glória, como nos falou o Evangelista João (Jo 1,1-14).

Jesus é a luz dos povos, nossa paz, o Redentor da humanidade, o caminho, a verdade e a vida: “Mas, vindo à plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam debaixo da Lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gl 4,4-5).

O segundo é o nascimento de Sansão, filho de Manué, cuja mulher era estéril. De fato, Deus manifesta a sua força e onipotência pela escolha de instrumentos frágeis ou incapazes (a esterilidade da mãe de Sansão). O menino foi consagrado a Deus desde o seio materno, exercendo a função de libertador do povo eleito dos filisteus – “Ela deu à luz um filho e deu-lhe o nome de Sansão. O menino cresceu e o Senhor o abençoou. O Espírito do senhor começou a agir nele no Campo de Dã” (Jz 13,2-7.24-25a).

O terceiro nascimento é de João Batista, filho de Zacarias e Isabel, ambos também em idade avançada, somada à esterilidade de Isabel. João Batista, aquele que, mais tarde, iria para o deserto para ser uma voz a gritar que se preparasse a chegada do Messias. João não era a Palavra, era a voz; não era a Luz, mas testemunha da Luz; não era o caminho, mas apontava e exortava para a preparação do caminho; Àquele que viria e que seria o Caminho, a Verdade e a vida, Jesus (Lc 1,5-25).

O quarto nascimento é o nosso, que fomos pensados e predestinados por Deus para sermos santos e irrepreensíveis sob o Seu olhar de amor. De Deus viemos, n’Ele nos movemos e somos, e para Ele haveremos de voltar, crendo e vivendo n’Aquele que Ressuscitou e nos alcançou a eternidade: Jesus Cristo Ressuscitado, a quem damos toda a honra, glória e poder.

O Tempo do Advento é o tempo favorável para revermos nossa história, as linhas que estamos escrevendo, o legado que estamos deixando. Tempo favorável de nos prepararmos para que, ao celebrar o Natal do Senhor, renasça dentro de cada um de nós, o melhor de Deus.

Tempo de fazermos de nosso coração a verdadeira e desejada manjedoura, o lugar preferido para que o Menino Deus possa nascer e acolhido ser, e nossa vida um novo sentido ganhar, e no mundo, Seu amor, vida, Palavra e missão, testemunhar.

Cremos no Deus do impossível

                                                            

Cremos no Deus do impossível

A passagem do Evangelho de Lucas (Lc 1,5-25) nos fala do nascimento de João Batista (Deus é doador da graça) anunciado pelo Anjo Gabriel.

O Missal Cotidiano nos apresenta, em seu comentário, uma citação enriquecedora do Cardeal J. Suenens:

“Felizes os que sabem auscultar em profundidade, porque ouvirão a Deus! A nós parece incrível que Deus nos fale, entretanto Ele o faz ininterruptamente. Por que então não lhe ouvimos a voz? Simplesmente porque não estamos à escuta. A frequência de suas ondas é captada por quem pede e ouve em silêncio”.

O Anjo Gabriel (a força e o poder de Deus)  faz duas comunicações: o nascimento extraordinário de João Batista, filho de um casal que prepara a anunciação de outro nascimento, e o nascimento divino: Jesus (Lc 1,26-38).

De fato, para Deus nada é impossível, e o Seu poder tem começo exatamente onde a fraqueza humana revela seus limites de possibilidades. Cremos no Deus do impossível!

“Todo o Amor suscitado pelo Espírito de Deus permanece para sempre e não há ventre estéril que o Espírito não possa tornar fecundo, porque ‘a Deus nada é impossível’” (Lc 1,37).

Bem afirmou o Cardeal que é preciso estar sempre vigilantes e em total sintonia com a voz de Deus que nos fala ao coração, e nos quer inseridos em Seu plano de Salvação.

Importa ouvir e acolher os Projetos de Deus, sem jamais atrapalhar, ou até mesmo atrapalhar quem deseja a este Projeto de Amor corresponder.

A felicidade que possamos alcançar é diretamente proporcional à capacidade de sintonia e escuta da voz de Deus que fala diretamente conosco, ou por intermédio de Seus bons “Anjos”, com quem convivemos, que são as pessoas de boa vontade que procuram viver em perfeita e plena sintonia com o querer de Deus, como fizeram Zacarias (o Senhor Se lembrou), Isabel (O meu Espírito jurou – Deus é plenitude), Maria (a amada de Deus), José (homem justo e piedoso), o próprio Jesus, o Emanuel, o Messias, Nosso Salvador, e todos aqueles que, pela fé, se colocaram em mesma atitude.

Como o próprio Apóstolo Paulo que ouviu a voz do Senhor lhe dizer em resposta à sua súplica, diante das dificuldades enfrentadas: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder”; e aos Coríntios, ele assim se expressou: “Prefiro gabar-me das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim, pois quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12, 9-10).

É sempre tempo de maior atenção à Palavra Divina e, a partir de sua escuta e vivência, acolhê-la em nosso coração; é sempre tempo de experimentar em nossa fragilidade humana, a onipotência do Amor Divino, que veio, vem e virá sempre ao nosso encontro. 

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