segunda-feira, 1 de setembro de 2025

A Palavra do Senhor é luz para o meu caminho

                                                     

A Palavra do Senhor é luz para o meu caminho

Ressoem em nós, as palavras do Apóstolo:

“E não só isso, pois nos gloriamos também de nossas tribulações,
sabendo que a tribulação gera a constância, A constância leva a uma virtude provada E a virtude provada desabrocha em esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,3-5).

Quando a Palavra de Deus é anunciada com ardor e zelo,
E encontra um coração que a acolhe com fé pura e fecunda,
Comunica a alegria que é dom do Espírito e fruto desta fé.

Quando a Palavra de Deus é anunciada com mesmo ardor e zelo,
E encontra um coração que a acolhe com pouca fé e entusiasmo,
Não se consegue enxergar, para além dos fatos dolorosos, a Manifestação da força e ação do Espírito.

Quando a Palavra de Deus é anunciada com ardor e zelo,
E encontra um coração que a acolhe com fé comprovada,
Edifica-se uma Igreja peregrina e profética.

Quando a Palavra de Deus é assim anunciada,
A Igreja torna-se verdadeiramente a Igreja do
Crucificado Ressuscitado, aberta e enriquecida pela graça divina.

Quando a Palavra de Deus é anunciada com ardor e zelo,
E encontra um coração que a acolhe com fé,
Os dias de sofrimentos, crise e contestações ganham novo sentido. Amém.

Sementes da Primavera do Reino, Dom Joaquim semeou entre nós!

Sementes da Primavera do Reino,
Dom Joaquim semeou entre nós!

Em setembro de 2013, dedicaríamos a Edição do Jornal da Paróquia Santo Antônio Gopoúva - Diocese de Guarulhos,  à Sagrada Escritura, pois o mês de setembro é especialmente a ela dedicado, por sua importância, em todos os dias do ano, para iluminar nossa fé, sustentar a nossa caminhada cristã, para que a chama da caridade jamais se apague e a esperança não se reduza a uma espera passiva, sem maiores compromissos com o Reino de Deus, em total fidelidade ao Senhor.

Porém, um fato marcou a história de nossa Diocese: a morte de nosso querido Bispo Dom Joaquim (01/09/13). 

Mudar a temática central do jornal devido a isto? Indubitavelmente não. Pois é impossível falar de Dom Joaquim sem relacionarmos a sua vida com a paixão que tinha pela Palavra de Deus, e ao quanto nos incentivou, em tão pouco tempo de convivência, à prática da Leitura Orante, para uma espiritualidade mais autêntica e comprometida com a vida, com os valores do Evangelho.

Sua presença em nosso meio nos fez entender melhor o que há séculos disse o Bispo Santo Agostinho: “A Sagrada Escritura é para nos ajudar a decifrar o mundo; para nos devolver o olhar da fé e da contemplação, e transformar a realidade numa grande revelação de Deus”.

Em suas visitas pastorais pelas comunidades de nossa Diocese, revelou um senso aguçado para compreensão da realidade, e propunha que voltássemos à essência de nosso Batismo: ser sal da terra, luz do mundo e fermento na massa. Era preciso que rompêssemos uma eventual acomodação e instalação em que pudéssemos nos encontrar, para que fôssemos ao encontro de situações extremamente desafiadoras: o mundo da política, shoppings, escolas, universidades, favelas, cortiços.

Sempre à luz da Palavra Divina, pela qual pautava sua vida e ação de zeloso pastor, nos acenava para o amor de Deus, que nos criou para a felicidade alcançar fazendo feliz o outro.

Não poupou motivação para que nós, padres, não descuidássemos, junto às comunidades, do tríplice múnus de santificar, ensinar e governar as Paróquias que nos foram confiadas, para que o rebanho fosse melhor evangelizado,e todos tivéssemos vida mais digna e plena.

Assim como o Evangelista Lucas, cujo Evangelho aprofundamos neste ano, repetia insistentemente a importância do hoje para a prática do bem, que não pode ser jamais adiado, pois só temos o hoje para o bem fazer.

Como afirmou o Apóstolo Paulo, ele combateu o bom combate, completou a corrida e guardou a fé, na proximidade da primavera, como a bela estação das flores que desabrocham. 

Que a morte de Dom Joaquim seja para nós um momento de revisão, e de fazer brotar e florescer as sementes que ele plantou no chão do coração de todos, quer diocesanos ou não.

Assim como chegará a primavera, cremos que sua presença em nosso meio foi fundamental, verdadeiramente um lançar de sementes do Verbo, para que floresça a primavera do Reino. 

“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele fica só. Mas, se morre, produz muito fruto.” (Jn 12, 24). Dom Joaquim foi também um grão de trigo que morreu para não ficar só, desabrochou na eternidade com a promessa da imortalidade do Senhor para todo aquele que n’Ele crê.

Por ora, é preciso renovar compromissos com a primavera do Reino, sempre inspirados e nutridos pela Palavra Divina, e que a memória de nosso querido Bispo nos ajude a viver uma fé mais luminosa, crendo que uma nova Igreja, um mundo novo são possíveis. 

Trevas ou luz, pecados capitais e os dons do Espírito, como ele escreveu em seu livro, a escolha está em nossas mãos. Somente acolhendo e vivendo os dons do Espírito, que a Sagrada Escritura nos apresenta, é que a primavera do Reino de Deus se tornará uma realidade em pequenos sinais já contemplados: um mundo mais justo, solidário e fraterno. 

Dom Joaquim, que os Anjos e Santos te recebam nos céus

Dom Joaquim, que os Anjos e Santos te recebam nos céus

Primeiro de setembro de dois mil e treze, presidi a primeira Celebração Eucarística na Catedral de Guarulhos, de corpo presente, do 3º Bispo Diocesano de Guarulhos – SP, Dom Joaquim Justino Carreira.

Tínhamos uma Assembleia numerosa: Padres, Diáconos, Seminaristas, Religiosos e Religiosas, e o Povo de Deus; todos unidos na mesma Fé para a Celebração do Mistério da Eucaristia.

Foram proclamadas as Leituras deste dia: 1 Ts 4,13-18;  Sl 95/96;  Lc  4,16-30).

Na introdução, falei da graça e responsabilidade a mim confiada na presidência da Santa Missa.

Em seguida, refleti brevemente a Palavra, começando pelo Evangelho, acenando para a Missão de Jesus de evangelizar os pobres, anunciar a Boa Nova do Evangelho, solidarizar-Se com os empobrecidos, e proclamar o Ano da Graça do Senhor. Esta é a missão de Jesus e de todos aqueles que O seguem.

O Salmo, com seu refrão, afirma que o Senhor vem julgar a nossa terra, em perfeito cumprimento do que nos falou o Apóstolo Paulo, na primeira leitura:

“Irmãos, não queremos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para que não vos entristeçais, como os outros homens que não têm esperança.

Se cremos que Jesus morreu e Ressuscitou, cremos também que Deus levará com Jesus os que n’Ele morreram”.

Cremos que aqueles que viverem com fidelidade, ardor e zelo a missão não morrem para sempre, de modo que também cremos que Dom Joaquim está vivo na glória de Deus, pelo zelo com que viveu a missão de Pastor da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Referindo-me propriamente ao Bispo, acentuei sete pontos:

1 – Dom Joaquim afirmava com insistência, em suas pregações e escritos, que Deus nos criou por amor e com amor para sermos felizes fazendo os outros felizes. Nisto crendo, não apenas repetia, mas procurava tornar esta afirmação uma verdade em sua vida. Agora cabe a nós fazermos o mesmo.

2 – O livro de sua autoria: “Trevas ou Luz” – sete pecados capitais e os sete dons do Espírito Santo – temos que ser sal da terra, luz do mundo e fermento na massa...

3 – Insistiu, no pouco tempo à frente da Diocese, sobre o tríplice múnus que não podemos jamais olvidar: santificar, ensinar e governar a Igreja que o Senhor nos confiou.

4 – Era um homem profundamente atento aos desafios da cidade e do tempo em que vivemos: crianças nas ruas, escolas, universidades, presídios, shoppings, juventude, meios de comunicação social. Como a Igreja pode e deve se fazer presente nestes espaços? Esta interrogação o acompanhava e com todos compartilhava, questionando, desinstalando, provocando a busca de caminhos...

5 - O testemunho inesquecível que deu ao suportar a enfermidade nestes últimos meses, a sua  breve passagem na Missa dos Santos Óleos e no Envio dos peregrinos da JMJ. Apesar de enfermo, fragilizado, fez-se presente, por instantes apenas, mas que ficarão marcados para sempre em nossa mente e coração.

6 – Seu Lema Episcopal  – “Pax vobis” – tendo comunicado e se comprometido com a Paz, hoje está na plenitude da paz: céu!

7 – Tinha o nosso Bispo um amor indiscutível à Igreja. E, assim, convidei a todos a rezar o Creio, que tantas vezes ele professou, e pelas verdades que na vida o acompanhou: “Creio em Deus Pai todo Poderoso...”

Dom Joaquim é mais um sol a brilhar no Reino do Pai, como homem piedoso e justo que foi – “Os justos brilharão como o sol no Reino do meu Pai” (Mt 13, 43).

Encerrando a Missa, antes da Bênção final, motivei uma Ave Maria dizendo:
“Dom Joaquim tinha por Maria grande devoção, levava-a em seus lábios e nas entranhas de seu coração. Hoje contempla nos céus a face terna de Maria. Ó admirável e desejável contemplação!”.

Motivei e ouvimos uma calorosa salva de palmas como expressão de carinho e reconhecimento de sua presença amorosa em nosso meio.

Que Dom Joaquim descanse em paz! Quanto a nós, vamos continuar nosso combate, até que um dia tenhamos a graça de nos encontrarmos nos céus.

Que o Senhor lhe conceda a Coroa da Glória reservada para aqueles que combateram o bom combate, completaram a corrida e guardaram a fé (1 Tm 4, 7-8).

Dom Joaquim, tendo passado pela morte, agora participa do Banquete Eterno que Deus lhe preparou, juntamente com todos os Anjos e Santos, e de modo especial com a Mãe de Deus.

Ave Maria, cheia de graça...

domingo, 31 de agosto de 2025

Exigências para a participação do Banquete do Reino (XXIIDTCC)

                                          



Exigências para a participação do Banquete do Reino

“Porque quem se eleva será humilhado e
quem se humilha será elevado” (Lc 14, 11)

A Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum (ano C) nos convida a refletir sobre o Banquete do Reino e a necessária revisão: se estamos, verdadeiramente, credenciados para dele participar, com as exigências que o Senhor nos ensina e vive.

Na primeira Leitura, ouvimos uma passagem do Livro do Eclesiástico (Eclo 3,19-21.30-31), que nos convida a refletir sobre a humildade, como caminho para sermos agradáveis a Deus e, ao mesmo tempo, para termos êxito e sermos felizes, colocando-nos, por amor e alegremente, a serviço do outro, sobretudo quando este outro é o que mais precisa.

O aprofundamento sobre a Sabedoria Divina e a sua vivência é certeza do viver bem e feliz. A Sabedoria Divina somente pode ser saboreada por quem viver a humildade, ou seja, quem assumir com simplicidade o próprio lugar, pondo a render os talentos, sem jamais humilhar o outro com uma eventual superioridade, mas colocando os próprios dons a serviço de todos, com simplicidade e amor.

Bem diferente é o soberbo, que permite crescer nas entranhas de seu coração a árvore da maldade, com suas raízes tão profundas.

A vida cristã será sempre o desafio de não sermos soberbos, mas humildes servidores, não pelo nosso mérito, mas pela graça de Deus, porque tudo é dom de Deus.

Na passagem da segunda Leitura, o autor da Carta aos Hebreus (Hb 12,18-19.22-24) nos exorta a viver maior proximidade e intimidade com o Senhor, fortalecendo a humildade, a gratuidade e o amor desinteressado, como Ele por excelência viveu.

Trata-se de um convite à superação de uma fé cômoda e sem grandes resistências, redescobrindo a novidade e a exigência do cristianismo: comunhão, proximidade e intimidade maior com Deus. Um amor autêntico que se faz dom, doação, entrega, serviço.

É preciso que a comunidade volte à fidelidade de sua vocação, desinstalando-se, rompendo a preguiça e enfrentando com coragem a perseguição, com uma conduta consequente daquele que abraçou a fé: amor e serviço.

Com isto, supera-se a morna conduta cristã, sem jamais recuar, revelando ao mundo um rosto do Deus vivo e verdadeiro que nos consome e inflama nosso coração de amor.

O Senhor nos precedeu, agora é a hora da comunidade. É preciso revisitar a História do Povo de Deus e reencontrar o entusiasmo.

Ontem, como hoje, quantas coisas nos acontecem e, se não mantivermos a fé, poderemos perder o entusiasmo, a chama acesa do primeiro amor!

É preciso que trilhemos, como discípulos missionários do Senhor, o caminho da humildade, que é diferente do caminho da humilhação.

Na passagem do Evangelho (Lc 14,1.7-14), vemos que bem diferentes são os critérios para participar do Banquete do Reino em relação ao banquete farisaico.

A lógica divina contrapõe a humildade à superioridade, a simplicidade ao orgulho, o serviço à ambição, o ocupar o último lugar ao invés dos primeiros, a solidariedade para com os últimos e não se servir do próximo.

São dois banquetes totalmente diferentes: o primeiro é o Banquete do Amor, serviço e inclusão; o segundo, do egoísmo, indiferença, mera exclusão.

O banquete farisaico é marcado pelo complexo de superioridade, orgulho, ambição. Há a procura dos primeiros lugares.

De outro lado, as credenciais para participação do Banquete do Reino são: humildade, simplicidade, serviço por amor desinteressado, colocando-se no lugar dos últimos para serviço dos últimos.

De fato, a competição é necessária, desde que não leve à destruição do outro, mas à busca de maior qualificação para melhor servir. Esta deve ser a marca daqueles que se põem a caminho com o Divino Mestre Jesus: amor vivido com autenticidade edifica e fortalece a comunidade.

Iluminadora a citação do Missal Dominical (p.1223): “Para todos, em qualquer plano da hierarquia social que se encontrem, escolher o último lugar significa usar o próprio lugar para o serviço dos últimos e não para o domínio sobre eles”.

Deste modo, a conversão é um apelo constante em nossa caminhada cristã. Cremos e professamos a fé em Jesus Cristo que, com Sua morte, assumida livremente na Cruz, nos apresentou um Deus cuja Sabedoria é imprevisível e impensável; tão distante da sabedoria humana que ninguém poderia encontrá-la.

Assim afirma o Missal Dominical (pp.1222-1223): “Jesus seria um entre os muitos mestres de virtude, se não tivesse vivido até o fim Sua Palavra, e se Sua Pessoa, Sua Palavra, Sua vida não fossem a revelação definitiva de Deus.

A Cruz é Sua Sabedoria, Seu Livro, Sua Palavra reveladora. A morte de Jesus não é o fim de uma tentativa de instaurar um novo Reino; é o Seu ato de nascimento;... Converter-se à Sabedoria de Deus é ver na Cruz que a verdade do Amor tem na morte o seu teste. Quem entra no Reino começa uma nova sabedoria.”

Reflitamos:

- Quais são os convidados de nossos banquetes?
- Participamos com todo o zelo do Banquete do Reino que o Senhor nos convida ou nos sentimos familiarizados no banquete farisaico?

- Quanto há de humildade, gratuidade e amor autêntico em nossa prática pastoral?

- Qual é o entusiasmo que temos na fidelidade ao Senhor, como Seus discípulos missionários?

Oremos:

Senhor, livrai-nos do banquete farisaico, e ensinai-nos a viver a lógica do Banquete do Reino de Deus, vivendo com humildade, gratuidade, amor e solicitude com os últimos, os Vossos preferidos.

Senhor, dai-nos a sabedoria para nos colocarmos como últimos, a serviço de todos. Amém.



PS: Fonte de pesquisa: www.Dehonianos.org/portal

Ensinai-nos, Senhor, a prática da caridade inteligente (XXIIDTCC)

                                                                   


  Ensinai-nos, Senhor, a prática da caridade inteligente

Deus Se revela como misericórdia e compaixão para com os pequenos e pobres, os excluídos de toda ordem, de toda forma, de todo tempo, e em todo tempo.

A misericórdia de Jesus com os poderosos Se manifesta ao abrir-lhes a mente e o coração, para que não se prevaleçam de uma pretensa sabedoria e religiosidade sem compromissos sinceros e concretos com a vida humana, com a dignidade de cada pessoa que carrega em si a imagem real divina.

Religião agradável a Deus é a prática da caridade inteligente que se manifesta na:

- Humildade,
- Procura da verdade,
- Paciência em ouvir,
- Sabedoria em dialogar,
- Fortaleza nas decisões desagradáveis,
- Promoção da vida, acima de toda lei, pelo seu valor inviolável e sagrado,
- No Amor e serviço a Cristo em cada irmão e irmã…

Oremos:

Fazei-nos crescer, Senhor, em caridade e em sabedoria, pois repletos do Vosso Amor saberemos nos colocar a serviço de Vós em cada irmão e irmã, em todos os momentos da vida.

Dai-nos a graça de crescer em sabedoria e conhecimento para descobrir Vossos desígnios e bem realizá-los em nossas vidas e na vida de nossos irmãos.

Conceda-nos não apenas crescer na caridade, mas numa caridade inteligente, que promove, liberta, edifica, ilumina.

Permita-nos, Senhor, a prática da caridade inteligente, que coloca a lei a serviço da vida, a pessoa acima dos próprios interesses, a sinceridade em tudo o que se faz.

Sejamos impregnados, Senhor, de Vosso Amor, para que multipliquemos as obras de misericórdia e possamos ser de Vós resplandecentes luzes.

Saibamos agradecer a Deus Seu Amor por nós e finalmente supliquemos: “Ó Deus, dai-nos resistência na tentação; paciência na tribulação e gratidão na prosperidade. Amém!”

Finalizo com as palavras de William Shakespeare:  “A gratidão é o único tesouro dos humildes”.

Senhor, que nosso tesouro, a nossa riqueza seja o sentimento de eterna gratidão por Vosso Amor.

“O Verbo Se fez humildade, e encarnou entre nós”(XXIIDTCC)

                                                   

“O Verbo Se fez humildade, e encarnou entre nós”

Um ensinamento do Divino Mestre sobre a humildade que refletimos com a passagem do Evangelho (Lc 14,1.7-14), proclamado do 22º Domingo do Tempo Comum (ano C).

Assim nos disse o Senhor: “Todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado”.

Em Jesus, encontramos a verdadeira humildade, porque Ele Se abaixou, desceu: “quando encontrando-Se na condição divina, não considerou Sua igualdade com Deus como um tesouro a ser conservado ciosamente, humilhou-Se e foi obediente até a morte (Fl 2,6-8).

Durante a vida, depois, foi sempre coerente com esta escolha: Ele o Mestre, abaixa-Se para lavar os pés dos discípulos, comporta-Se como ‘Aquele que serve’; desce, desce, desce até que – tendo chegado ao ponto mais baixo, no túmulo – chega o Pai para O apanhar, O eleva acima dos céus e o estabelece chefe do universo, colocando tudo sob os Seus pés. Eis como Deus mesmo realizou Sua Palavra: ‘aquele que se humilhar será exaltado. Doravante, ser humilde, significa algo muito simples: ter os mesmos sentimentos de Cristo Jesus (Fl 2,5), comportando-se como Jesus Se comportou” (1).

Voltemo-nos para algumas definições de humildade que encontramos no livro “O Verbo Se faz carne” , de Raniero Cantalamessa, acima citado:

- “A humildade é antes de tudo uma questão de fatos, de escolhas, de atitudes concretas, não uma maneira de sentir e de falar de si.”

- “É a disponibilidade a descer de nós mesmos, abaixar-se para os irmãos, é vontade de servir, e de servir por amor, não por algum cálculo ou vantagem ou glória que possam advir para nós mesmos.”

- “A humildade é gratuidade.”

- “A humildade é uma manifestação do ágape, isto é, do amor de doação, do qual fala São Paulo no famoso hino (1 Cor 13,4); dizer que ‘a caridade é paciente, não se ostenta, não guarda rancor’, significa dizer que a caridade é humilde e que a humildade é caridade.”

- “Ser humilde, segundo modelo de Jesus, significa perder-se, gastar-se gratuitamente; significa ‘não viver para si mesmo’, mas para os outros, isto é, procurando levar os outros para si (reduzindo-os, quem sabe, a escravos ou a objetos para nossas vantagens pessoais), mas procurando ir ao encontro dos outros.”

- “’Humildade é verdade’. Santa Tereza escreve: ‘Perguntava-me uma vez por que o Senhor ama tanto a humildade e me veio à mente de improviso, sem nenhuma reflexão, que isto deve ser porque Ele é suma verdade e a humildade é verdade.”

- “A humildade em estado puro é a que se observa em Deus, na Trindade. Deus é humildade.”

- “Pentecostes – a ‘descida’ do Espírito – é um ato de humildade. Cada vez que Deus vem a nós e nos visita com sua graça Ele se torna ‘condescendente’ e faz atos de humildade.”

- “A água é, então, o melhor símbolo de humildade porque, da posição em que está, tende sempre a ir para baixo, descer, ocupar o lugar mais baixo: ‘Louvado seja meu Senhor, pela irmã água, a qual é muito últil e humilde e preciosa e casta’ (São Francisco)."

- “Ser humildes diante de Deus – no-lo dizem tantos textos dos profetas, dos salmos e, sobretudo, do Evangelho – é ser: ‘os pobres de Javé’, isto, abandonados a Ele, sem pretensões, mas confiantes diante d’Ele; é ser como crianças em seus braços.”

- “A humildade é um equilíbrio entre o modo de ser com Deus (a humildade do coração) e o modo de ser com os homens (humildade dos fatos). Não se pode ter humildade sem passar, de alguma maneira, através da humilhação.”

- “Na família: acho que a humildade foi inventada por Deus também para salvar os matrimônios. O orgulho, a obstinação, o individualismo são os inimigos mortais do amor, os que levam ao divórcio, antes no coração e depois na vida. Eu digo que a humildade é como lubrificante que dissolve na raíz a ferrugem, os atritos; ela impede que se forme incrustações de ressentimentos e muros de silêncio que depois são muito difíceis de superar...”

- “...muitas vezes um matrimônio é salvo pela humildade.... o matrimônio nasce da humildade! Enamorar-se de outra pessoa é o ato mais radical de humildade que se possa imaginar; significa sair de si mesmo, descer para o outro em atitude de quem implora, de mendigo, dizendo-lhe, com os fatos, mais ou menos assim: ‘Dá-me também o teu ser porque o meu não me basta!’. É admitir com todas as fibras do próprio ser que o homem não basta a si mesmo, mas se completa doando-se...

É preciso, porém ficar atentos: pode acontecer, com efeito, que com o passar dos anos, e esfriando-se o amor, se tente fazer pagar ao próprio cônjuge aquele ato inicial de humildade, infligindo-lhe toda espécie de humilhações como para se vingar do fato de ter tido e de ter ainda necessidade dele; são os sinais de nossa espantosa miséria e da desordem que há dentro de nós depois do pecado. No início não era assim.”

- “Quanto mais alto queres que suba o edifício da santidade, tanto mais profundo precisa que ponhas o fundamento da humildade” -  (Santo Agostinho).

- “A humildade é o sal da santidade porque preserva toda virtude do perigo de se desgastar pela vanglória”

“A humildade desarma as pessoas... A humildade desarma; a melhor autodefesa não vale tanto quanto o menor ato de humildade.”

O autor também nos fala de uma disparidade entre a lógica evangélica da humildade em relação ao mundo: na vida social e na vida familiar.

Depois de percorrido o caminho, meditando em cada afirmação sobre a humildade, faz-se necessário, rever o quanto a humildade se faz presente em nossa vida. Uma vida marcada pela humildade nos faz cada vez mais identificados com o Senhor, em pensamentos, palavras e ação, sem omissões no melhor que possamos fazer pelos últimos.

A humildade vivida é condição indispensável, para que participemos verdadeira e frutuosamente do Banquete do Senhor, ouvindo Sua Palavra e nos alimentando de Seu Corpo e Sangue.

De fato, Jesus é a encarnação da humildade, e nós haveremos de ser, pela nossa vida, sinais desta humildade, quanto mais a Ele nos configurarmos.

Parafraseando o Evangelista São João, no início de seu Evangelho, podemos dizer que Deus, ao Se encarnar na segunda Pessoa da Santíssima Trindade, possibilitou-nos a contemplação da encarnação da humildade, da pura humildade, naquela frágil, indefesa criança, amparada por José e Maria, na singela gruta de Belém: “O Verbo Se fez humildade, e encarnou entre nós”.

(1) “O Verbo Se faz carne” - Raniero Cantalamessa – Editora Ave Maria  - 2013 - pp.715-720 
Apropriado para o quarto sábado do Tempo da Páscoa, quando se proclama a passagem do Evangelho de João (Jo 14,7-14).

Caridade e humildade no seguimento do Senhor (XXIIDTCC)

                                                      

Caridade e humildade no seguimento do Senhor

“Por este caminho se corre com dois pés,

o da humildade e o da caridade”

Sejamos enriquecidos pelo Sermão do Bispo São Cesário de Arles (Séc. VI), que nos apresenta duas exigências no seguimento de Jesus Cristo.

“Parece duro, irmãos caríssimos, e considera-se um peso quase insuportável o que mandou o Senhor no Evangelho, ao dizer: ‘Se alguém quiser seguir-me, renuncie a si mesmo’. Mas não é duro o que mandou Aquele que ajuda a cumprir o que mandou.

Renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga a Cristo. Para onde se deve seguir a Cristo senão para onde Ele foi? Sabemos que ressuscitou e subiu ao Céu: para aí deve ser seguido.

De modo algum se deve perder a esperança, porque foi Ele que o prometeu e não porque o homem O possa conseguir por si mesmo. O Céu estava longe de nós antes de Ele ter subido ao Céu. Porque não temos a esperança de lá chegar, se somos membros da Sua Cabeça? Portanto, porque sofremos muitas aflições e dores na terra, sigamos a Cristo, onde está a suma felicidade, a suma paz, a suma segurança. 

Mas quem quiser seguir a Cristo, deve escutar o que diz o Apóstolo: Quem diz que permanece em Cristo, deve caminhar como Ele caminhou.

Queres seguir a Cristo? Sê humilde, como Ele foi humilde. Não desprezes a humildade, se queres subir à altura sublime para onde Ele subiu.

O caminho tornou-se escabroso quando o homem pecou; mas tornou-se plano quando Cristo o calcou pela Ressurreição, transformando a vereda estreita em senda real. Por este caminho se corre com dois pés, o da humildade e o da caridade.

A sua altura excelsa agrada a todos; mas a humildade é o primeiro degrau. Por que adiantas o pé para além de ti? Queres cair, não subir. Começa pelo primeiro degrau, isto é, pela humildade, e subirás. 

O nosso Senhor e Salvador não disse apenas: ‘Renuncie a si mesmo’, mas acrescentou: ‘Tome a sua cruz e siga-Me’. Que quer dizer: ‘Tome a sua cruz’? Suporte o que é molesto: siga-Me assim.

Quando começar a seguir no meu modo de proceder e nos meus Mandamentos, terá muitos que se lhe opõem, muitos que o querem impedir; terá não só muitos zombadores, mas também muitos perseguidores. E isso o farão não só os pagãos, que estão fora da Igreja, mas também os que parecem estar dentro do Corpo, embora estejam fora pelas suas ações perversas, e perseguem continuamente os bons cristãos porque se gloriam apenas do nome cristão. Estes estão entre os membros da Igreja como os maus tumores no corpo. Portanto, se queres seguir a Cristo, não hesites em levar a sua cruz: suporta os maus, não sucumbas.

Portanto, se queremos cumprir o que disse o Senhor: ‘Se alguém quiser seguir-Me, tome a sua cruz e siga-Me’, com a ajuda de Deus devemos esforçar-nos por cumprir o que diz o Apóstolo: Se temos que comer e que vestir, já estaremos contentes; não aconteça que, se procuramos mais do que convém à natureza terrena e queremos ser ricos, caiamos na tentação e na cilada do diabo e nos muitos desejos inúteis e nocivos, que submergem os homens na morte e na perdição. O Senhor, com a Sua proteção, Se digne livrar-nos desta tentação”.

Como discípulos missionários do Senhor, precisamos fazer nossas renúncias cotidianas, para que com liberdade O sigamos, carregando nossa cruz com plena confiança em Sua presença e força em todo o caminho.

No entanto, é preciso que, a cada dia, a humildade e a caridade sejam elementos constitutivos de nossa identidade e espiritualidade cristã, a fim de que a luz de Deus brilhe mais forte através de nossas boas obras.

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