segunda-feira, 14 de julho de 2025

Exigências para o discipulado

                                                               

Exigências para o discipulado

Na segunda-feira da 15ª Semana do Tempo Comum, ouvimos passagem do Evangelho de Mateus (Mt 10,34-11,1).

Nela temos uma espécie de “manual do missionário cristão”, com alguns aspectos que devem marcar a vida do Discípulo Missionário do Senhor:

- Trilhar o caminho do amor e entrega da vida;
- Viver na graça, com constantes renúncias ao pecado;
- Abandonar as obras das trevas, comunicar a luz divina;

- Ser uma credível testemunha da Boa-Nova que proclama;
- Ter confiança total em Deus que jamais o abandona na missão:
- Ter consciência de que é enviado como missionário do Reino, como homem de Deus;

- Uma vez acolhido, ser canal da comunicação das graças e bênçãos para aquele que acolhe.

- Colaborar com Deus em Sua obra (e não ficará sem recompensa);

- Viver a gratuidade na missão como enviado de Deus;

- Com as limitações próprias da condição humana, permitir-se modelar pela mão divina;

- Ter consciência que deve dar o melhor de si para levar o outro a descobrir o fascínio da Boa-Nova e da presença de Deus;

- Ter seu coração seduzido pelo Amor Divino, verdadeiramente configurado a Cristo Bom Pastor;

- Pelo Batismo, enxertado em Cristo, viver no amor, na partilha, em total dom de si mesmo, rompendo com as amarras do pecado num empenho constante de vida na graça;

- Carregar a cruz – o seguimento de Jesus não é um caminho fácil e consensual, acompanhado por aplausos. É um caminho radical, que muitas vezes leva a rupturas e opções exigentes, em posturas éticas contrastantes ao mundo que nos cerca;

- Ser anunciador e seguidor de Jesus, que jamais Se apresentou como um demagogo com promessas fáceis;

- Não fixar âncoras na quantidade, mas na qualidade, na prática da misericórdia, mas sem nenhuma conivência com o pecado;

Como homens e mulheres de Deus, se assim o formos, encontraremos no coração do outro um quarto feito no terraço do coração (2Rs 4,8-11.14.16a).

Renovemos a graça de sermos autênticos Discípulos Missionários do Reino do Senhor, sinais e instrumentos de um Amor exigente, porque se funda e se nutre no Amor Trinitário, que se expressa na misericórdia, com feições de amor, testemunhado em gestos incontáveis de caridade.

Não sejamos discípulos de um amor conivente que nada questiona e nada muda, porque antes falam os interesses mesquinhos e egoístas.

Como discípulos missionários do Senhor, 
vivamos um Amor Exigente, 
jamais coniventes com o pecado!

Como seguidores do Senhor que somos,
um só caminho é possível,
mais do que evidente.

O Caminho do amor que ama o pecador,
que elimina todo pecado, 
porque puro e verdadeiro.
Assim ama o Senhor! 
Amém. 

Desprendimento e acolhida

                                                          

Desprendimento e acolhida

A Liturgia, da segunda-feira da 15ª Semana do Tempo Comum, nos apresenta a passagem do Evangelho (Mt 10,34-11,1), em que  refletimos sobre dois temas: o desprendimento exigido do discípulo e a sua acolhida ou rejeição na missão.

Para bem realizar o discipulado, precisamos do desprendimento (liberdade de laços familiares, e até mesmo desprendimento de si mesmo, da própria vida); renúncias necessárias para carregarmos a cruz cotidiana; confiança total na graça divina e incondicional disponibilidade.

Quanto ao acolhimento, também implica em renúncia, disponibilidade, gratuidade, superação de toda sombra de desconfiança e suspeita e não extinguir o sopro do Espírito que nos fala pela Igreja, e de outras tantas formas.

O senso de acolhimento se constitui num dos sinais mais expressivos para mensurar a verdadeira fidelidade de nossas comunidades cristãs ao Evangelho.

Quanto mais acolhedoras nossas comunidades o forem (não me restrinjo ao acolhimento na porta da Igreja, refiro-me ao que Jesus mesmo nos falou em Mateus 25, sobre o julgamento final), mais testemunhas da presença do Cristo Vivo e Ressuscitado serão.

O discípulo missionário, como nos diz o Apóstolo Paulo (Rm 6,3-4), deve viver o Batismo, consciente de que é chamado à vida nova dos filhos e filhas de Deus:

- Morrer para o pecado, para o egoísmo, à carne que são expressão do homem velho que em nós habita;
- Ressurgir para uma vida nova de amor e graça, voltada para o Espírito, como expressão do homem novo.

Ser batizado é, portanto, morrer para o pecado e viver para Deus. No seguimento de Jesus, haveremos de viver um cristianismo verdadeiramente pascal, que não é, jamais, sinônimo de facilidades e de fuga do sofrimento.

Não há cristianismo sem cruz, logo, não há discipulado sem o carregar corajoso e confiante da cruz, contando sempre com a graça divina que nos é abundantemente derramada.

O discípulo de Jesus sabe que o esplendor da manhã da Páscoa é sempre precedido pelas trevas da Sexta-feira Santa. Sabe que o caminho de Jesus é uma via sacra levando ao Calvário. Mas também sabe que este não é a última etapa do caminho. Trilha passos corajosos, porque acredita que tudo culmina na glória da Ressurreição, experimentada na manhã de Páscoa.

Oremos:

Ó Deus, o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, 
que oferecemos em sacrifício e recebemos em comunhão 
nos transmitam uma vida nova, 
para que unidos a Vós pela caridade que não passa, 
possamos produzir frutos que permaneçam.
Por Cristo, nosso Senhor. Amém!”

São Camilo servia o Senhor nos enfermos

                                                               

São Camilo servia o Senhor nos enfermos

Celebramos no dia 14 de julho a memória de São Camilo de Léllis (séc. XVII) que, com ardor e zelo servia o Senhor, sobretudo nos irmãos enfermos.

São Camilo é padroeiro dos enfermos, dos profissionais da saúde e hospitais.

Sobre ele, um de seus companheiros assim escreveu:

“Começarei pela santa caridade, raiz de todas as virtudes e dom familiar a Camilo mais do que qualquer outro. Ele vivia sempre inflamado pelo fogo desta santa virtude, não só para com Deus, mas também para com o próximo, especialmente os doentes. Bastava vê-los para que se enchesse de ternura e se comovesse no mais íntimo do coração, a tal ponto que esquecia completamente todas as delícias, prazeres e afetos terrenos.

Quando tratava de algum doente, parecia doar-se com tanto amor e compaixão que, de bom grado, tomaria sobre si toda doença, para aliviar-lhe as dores ou curar as enfermidades.

Contemplava nos doentes, com tão sentida emoção, a pessoa de Cristo que, muitas vezes, quando lhes dava de comer, pensando serem outros Cristos, chegava a pedir-lhes a graça e o perdão dos pecados.

Mantinha-se diante deles com tanto respeito, como se estivesse realmente na presença do Senhor. De nada falava com mais frequência e com mais fervor do que da santa caridade. O seu desejo era imprimi-la no coração de todos os homens.

Para incutir em seus irmãos religiosos esta santa virtude, costumava recordar-lhes aquelas dulcíssimas palavras de Jesus Cristo: Eu estava doente e cuidastes de mim (Mt 25,36). Parecia que ele tinha estas palavras verdadeiramente gravadas em seu coração, tal era a frequência com que as dizia e repetia.

Camilo era um homem de tão grande caridade, que tinha piedade e compaixão não somente dos doentes e moribundos, mas também, de modo geral, de todos os outros pobres e miseráveis. Seu coração era tão cheio de bondade para com os indigentes, que costumava dizer: ‘Ainda que não se encontrassem pobres no mundo, os homens deveriam andar a procurá-los e desenterrá-los, para lhes fazerem o bem e praticar a misericórdia para com eles’”.

Nesta breve apresentação de São Camilo, vemos quão apreço tinha pelos pobres, enfermos, e que muito tem a nos ensinar, para que tenhamos a mesma atitude e apreço por eles, como assim deseja o Senhor, e nos apresentou como um dos critérios no dia do julgamento final.

Elevemos orações por todos os enfermos, e, a quantos pudermos, uma palavra, a presença, o cuidado; e quando não for possível, o façamos em nossas orações cotidianas, dando a eles especial lugar em nosso coração.

Oremos:

“Ó Deus, que inspirastes a São Camilo de Léllis extraordinária caridade para com os enfermos, dai-nos o Vosso Espírito de amor, para que, servindo-Vos em nossos irmãos e irmãs, possamos partir tranquilos ao Vosso encontro na hora de nossa morte. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo”. Amém.

domingo, 13 de julho de 2025

A Igreja do Bom Samaritano (XVDTCC)

                                                                     

A Igreja do Bom Samaritano

“Mestre, que devo fazer para
receber em herança a vida eterna?”

Com a Liturgia do 15º Domingo do Tempo Comum (Ano C), aprofundamos o caminho para o encontro da Vida Eterna, o caminho da felicidade presente e eterna; tendo como mensagem central: somente o amor a Deus e ao próximo é que nos dará vida em plenitude.

A passagem da primeira Leitura (Dt 30,10-14) é uma Catequese sobre o Amor a Deus, escutando a Sua voz no íntimo do coração e percorrendo o caminho dos Seus Mandamentos, em adesão total e incondicional.

A Lei de Deus não é posta fora de nosso alcance; é inscrita em nosso coração e em nossa mente, proclamada pela nossa boca, mas principalmente com a nossa vida.

Vivendo o contexto do final do exílio da Babilônia, o autor remete a parte final do terceiro discurso de Moisés, quando conduzia o Povo de Deus.

Ressoa como forte alerta para que o Povo de Deus tome consciência da sua infidelidade, e volte à fidelidade original para ter vida.

Reflitamos:

- Qual a qualidade de nossa escuta, adesão e fidelidade a Deus e aos Seus Mandamentos?
- O que nos impede de ouvir a voz de Deus, que nos fala e nos propõe vida em plenitude?
- Quais são as vozes que tentam calar a voz de Deus, hoje?

Na passagem da segunda Leitura (Cl 1,15-20), o Apóstolo Paulo nos fala da centralidade de Jesus em nossa vida: Ele é o centro a partir do qual tudo se constrói.

É preciso escutá-Lo atentamente, e viver Seu Mandamento, exigência fundamental para quem quiser segui-Lo.

Nada pode nos salvar a não ser Cristo Jesus e a Sua Palavra de Salvação. Ele é a “imagem de Deus invisível”; “o primogênito de toda criatura”, e “n’Ele, por Ele e para Ele foram criadas todas as coisas”.

Deus é visível em Jesus, que tem por sua vez a supremacia e autoridade do Pai, e deve ocupar a centralidade em nossa vida. Ele não pode ser reduzido a um visionário, idealista, e humanista por excelência, pois tem a soberania no Mistério da redenção: Ele é “cabeça”, “princípio” e “n’Ele habita toda plenitude”.

Reflitamos:

- Jesus Cristo é verdadeiramente o centro de nossa vida?
- Quem é Cristo para nós?

A passagem do Evangelho (Lc 10,25-37) nos apresenta a Parábola do bom samaritano. Refere-se a um herege, um infiel, segundo os critérios judaicos (por longos séculos assim foi se caracterizando), mas foi aquele que tudo deixou para ser solidário ao irmão caído à beira da estrada, e o Senhor no-lo apresenta como exemplo a ser imitado: Fazer-se próximo de quem mais precisa – “Vai e faz o mesmo”.

Na Parábola são citados os levitas e sacerdotes que passam ao lado, sem nada fazer; talvez por medo de ficarem impuros, por pressa, indiferença, ou por viverem uma religião sem misericórdia.

Ao contrário, o samaritano, herege, excomungado, tem o coração cheio de amor, e nos dá o verdadeiro sentido da religião: ter um coração pleno de amor a Deus, que se concretiza no amor ao próximo, em gestos de partilha e solidariedade.

Conclui-se que a vida eterna somente se alcança quando não se separa o amor a Deus do amor ao próximo.

Este próximo é qualquer um que necessite de nós, amigo ou inimigo, conhecido ou desconhecido; e todo aquele que se encontra à beira do caminho e precisa de nosso amor e de nossas mãos para se levantar e se pôr a caminho.

Nisto consistirá a missão da Igreja do Bom Samaritano, em todos os tempos, na fidelidade ao Senhor Jesus: viver um amor sem limites, sem fronteiras, sem rotulações.

Reflitamos:

- Qual a missão que O Senhor confia a nossas comunidades à luz desta parábola?
- Somos sensíveis e solidários aos clamores dos pobres?

- Como nossas comunidades podem ser mais parecidas com o bom samaritano?
- Quem se encontra à beira do caminho e precisa de nossas mãos e ação solidária?

- Como estamos vivendo a verdadeira religião, que nos permite experimentar a proximidade divina, para uma maior proximidade humana, em gestos de comunhão fraterna?
- Qual é a diretriz de minha vida: leis, ritos ou o amor concreto?

Concluindo, quando Cristo é o centro de nossa vida e de nossa comunidade, abrimo-nos ao outro, fazemo-nos próximos daqueles que estão à beira do caminho, no amor, misericórdia, compaixão e solidariedade.

Lembremos as palavras do Papa Bento XVI, na Encíclica – Deus Caritas Est” – 2005 – n. 15.16:

O Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo:
no mais pequenino, encontramos o próprio Jesus e,
em Jesus, encontramos Deus... o amor ao próximo
é uma estrada para encontrar também a Deus, e que
o fechar os olhos diante do próximo torna cegos
também diante de Deus.”

PS: apropriado para refletimos sobre a passagem do Evangelho proclamada na segunda-feira da 27ª semana do Tempo Comum.

“Sejamos primeiros para os outros” (XXVDTCB)

                                                      

“Sejamos primeiros para os outros”

Para aprofundamento da Liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum (ano B):

A verdadeira autoridade não está em estar acima dos outros, oprimir os outros, na afirmação de si mesmos reduzindo os outros a escravos, clientes ou aduladores; está em ‘ser primeiros para os outros’. Em colocar o que se tem de bom a serviço de todos.

Isto cria a nova grandeza evangélica, que é verdadeira grandeza, porque, se é verdade que ‘os primeiros serão os últimos’, é verdade também que ‘os últimos’ (estes últimos dos quais nos falou o Evangelho serão os primeiros (Mt  20,16)”. (1)

Parece pequena a diferença, mas na verdade é de imensa: é preciso antes “ser primeiro que os outros”, “ser primeiro para os outros”.

Quantas vezes, vemos disputas para ver quem é o melhor, quem chega primeiro, quem tem mais acesso, mais ibope... A lista é interminável.

Na verdade deve ser colocada a questão: primeiro, para dominar ou para servir melhor?

Primeiro que o outro em tudo, para enriquecimento pessoal ou para enriquecimento do outro?

A busca do primeiro que o outro só tem sentido se for movido pelo amor doação, serviço, para que todos tenham vida e vida plena.

Sejamos os primeiros a:

- nos colocar alegremente no carregar da cruz, em solidariedade com os crucificados.

- carregar nossa cruz de cada dia, com renúncias, coragem e fidelidade, testemunhando e ajudando o próximo no carregar de sua cruz, como “Cirineus”, que o mundo tanto precisa...

- promover o bem, a verdade, a justiça, a ética, os valores que, se vividos, tornam o mundo mais belo.

Sejamos os primeiros a estender a mão a quem mais precisa. Primeiro, para amar e servir. Eis a grande lição que Jesus nos dá na passagem do Evangelho (Mc 9, 30-37).


(1) O Verbo Se faz Carne - Raniero Cantalamessa - Editora   Ave Maria - 2013 - p.438

PS: Oportuno para reflexão sobre a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 17,22-27; Mc 9,30-37)

O Senhor carregou sobre Si nossa humanidade ferida (XVDTCC)

                                                                 


O Senhor carregou sobre Si nossa humanidade ferida

Uma reflexão sobre a “A Doutrina Social da Igreja à luz da misericórdia divina”, e da passagem do Evangelho sobre o Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). 

Vejamos o que nos dizem os Padres da Igreja, e também o Papa Francisco, para melhor vivermos as obras de misericórdia corporais e espirituais:

Orígenes (séc. III):

“Para que entendas que este samaritano descia por disposição de Deus para cuidar do que foi atacado pelos ladrões, deves observar que já trazia consigo as faixas, o vinho e o azeite, isto me parece que ocorreu não somente em atenção a este homem meio-morto, mas por todos aqueles que, feridos, necessitam de Suas faixas, de Seu vinho e Seu azeite.

Carregou o ferido sobre o jumento, sobre Seu próprio corpo, o que somente significa que Se dignou assumir a nossa humanidade. Este samaritano lavou os nossos pecados, sofreu por nós, carregou o homem meio-morto, levou-o para a pousada, isto é, a Igreja, que recebe a todos e que não nega o seu auxílio a ninguém, e à qual nos convoca Jesus, dizendo: Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados, que Eu vos aliviarei.

Tendo-o levado à pousada, não foi embora imediatamente, mas ficou com ele um dia inteiro, cuidando-o dia e noite... Quando chegou a manhã seguinte quer partir, dá de Seu bom dinheiro dois denários e encarrega ao posseiro, aos Anjos de Sua Igreja, que cuidem e levem ao céu aquele que ele tinha cuidado nas angústias deste tempo” (1)

Clemente Alexandrino (séc. III):

“Quem poderia ser este próximo senão o próprio Salvador? Quem mais do que Ele teve piedade de nós que estávamos para ser mortos pelos dominadores deste mundo de trevas com as muitas feridas, os medos, as paixões, as iras, as dores, os enganos, os prazeres?

De todas estas feridas o único médico é Jesus. É Ele que derrama sobre nossas almas feridas o vinho que é sangue da videira de Davi, é Ele que doa copiosamente o óleo que é a piedade do Pai” (2)

O Bispo e Doutor da Igreja, Santo Ambrósio (séc. IV):

“Enquanto descia, pois, este samaritano – quem é este que desceu do céu, senão o que sobe ao céu, o Filho de Deus que está no céu –, tendo visto a um homem semimorto, ao qual ninguém quis curar – o mesmo que aquela que padecia do fluxo de sangue e que tinha gastado em médicos toda a sua renda-, aproximou-Se dele, ou seja, compadecido de nossa miséria, tornou-Se nosso íntimo e nosso próximo para exercitar Sua misericórdia conosco.

E enfaixou suas feridas untando-as com óleo e vinho. Este médico tem uma infinidade de remédios, mediante os quais alcança, ordinariamente, suas curas. Medicamento é a Sua Palavra; esta, algumas vezes, enfaixa as feridas, outras, serve de óleo, e outras atua como vinho; enfaixa as feridas quando expressa uma ordem de dificuldade mais exigente; suaviza perdoando os pecados, e atua como o vinho anunciando o juízo” (3)

São Severo de Antioquia (séc. VI):

“Sobre as nossas chagas derramou vinho, o vinho da Palavra, e, como a gravidade dos ferimentos não suportava toda a Sua força, misturou-o com o óleo da Sua ternura e do Seu amor pelos homens. Em seguida, conduziu o homem à estalagem.

Chama estalagem à Igreja, que se tornou o lugar de morada e de refúgio de todos os povos. Chegados à estalagem, o Bom Samaritano teve para com aquele que tinha salvo uma solicitude ainda maior; o próprio Cristo ficou na Igreja, concedendo-lhe todas as graças... E, ao partir, isto é, ao subir ao céu, deixou ao dono da estalagem – símbolo dos apóstolos, dos pastores e dos doutores que lhe sucederam – duas moedas de prata, para que ele cuidasse do enfermo.

Estas duas moedas são os dois Testamentos, o Antigo e o Novo, o da Lei e dos Profetas, e aquele que nos foi dado pelos Evangelhos e pelos escritos dos Apóstolos... No último dia, os pastores das Igrejas santas dirão ao Senhor que há de vir: Senhor, confiastes-me dois talentos, aqui estão outros dois que ganhei, através dos quais fiz aumentar o rebanho. E o Senhor irá responder-lhes: Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel no pouco, muito te confiarei. Entra no gozo do teu Senhor”. (4)

Retomemos as reflexões acima, e sejamos fortalecidos em nossa fidelidade ao Senhor, para que edifiquemos uma Igreja mais samaritana, que se aproxime dos que mais precisam, porque são sinais visíveis e tangíveis da presença de Deus em nosso meio.

Finalizo com o parágrafo n.15 da Bula “Misericordiae Vultus”, escrita pelo Papa Francisco para o Ano Santo extraordinário da Misericórdia (8/12/2015 à 26/11/2016):

“Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática.

Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos.

Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas.

Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói.

Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade.

Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo”.

(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes - pp.678-679
(2) O Verbo Se faz Carne – Editora Ave Maria - p. 676
(3) Lecionário Patrístico Dominical - pp.675-676
(4) idem - p . 677  

Da empatia à compaixão e solidariedade (XVDTCC)

                                                                                 


Da empatia à compaixão e solidariedade 

“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34)

Compreendamos empatia como a ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias; também, como a aptidão para identificação com o outro, de modo que se pode sentir o que ele sente. 

Como discípulos missionários do Senhor, somos chamados a viver esta empatia, que nos levará a sentimentos e compromissos mais elevados, como vemos na passagem da parábola do bom samaritano (Lc 10,29-37). 

Três verbos, destacamos na parábola: “ver”, Sentir compaixão” e “cuidar”. Deste modo, todos somos chamados à compaixão e solidariedade, no genuíno testemunho cristão, como nos lembrou a Campanha da Fraternidade deste ano. 

Não nos é permitido, em situação alguma, a omissão da solidariedade, porque amamos e seguimos Jesus Cristo, o Bom Samaritano, que veio ao nosso encontro, em expressão de amor e compaixão para conosco, a fim de que todos tenhamos vida plena e feliz, como Ele mesmo nos falou na passagem do Evangelho de São João (Jo 10,10). 

Na vivência do Mandamento do amor a Deus, seja expresso concretamente no amor ao próximo, fazendo este caminho: da empatia à compaixão, e da compaixão à solidariedade e proximidade permanente.

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