terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

“Eu era forasteiro, e me recebestes em casa”

Eu era forasteiro, e me recebestes em casa”

No Santuário Boa Viagem – Belo Horizonte – MG, celebramos a Missa de acolhida de migrantes venezuelanos.

Na homilia, referi-me ao Santuário como casa dedicada à Mãe, e como toda a mãe, acolhe hoje seus filhos migrantes.

Estando o Santuário em reforma, me veio à mente a Homilia escrita pelo Bispo São João Crisóstomo (séc. IV), sobre o Evangelho de São Mateus, sobre o cuidado do templo e os templos de Deus; quando afirmei – “é preciso cuidar do templo, mas também dos templos vivos de Deus, como a Igreja assim está fazendo neste momento.”

“Queres honrar o corpo de Cristo? Não O desprezes quando nu, não O honres com vestes de seda e abandones fora no frio e na nudez o aflito.

Pois aquele que disse: Isto é o meu Corpo (Mt 26,2) e confirmou com a Palavra, é o mesmo que falou: Tu Me viste faminto e não Me alimentaste (Mt 25,35); e: O que não fizeste a um destes mais pequeninos, não o fizeste a mim (Mt 25,45). Este não tem necessidade de vestes, mas de corações puros, aquele, porém, precisa de grande cuidado...

Aprendamos, portanto, a raciocinar e a reverenciar a Cristo como lhe agrada... Assim, honra-O tu com a honra prescrita em lei, distribuindo tua fortuna com os pobres. Deus não precisa de vasos de ouro, mas de almas de ouro.

Que proveito haveria, se a Mesa de Cristo está coberta de taças de ouro e Ele próprio morre de fome? Sacia primeiro o faminto e, depois, do que sobrar, adorna sua mesa.

Fazes um cálice de ouro e não dás um copo de água? Que necessidade há de cobrir a mesa com véus tecidos de ouro, se não lhe concederes nem mesmo a coberta necessária? Que lucro haverá? Diz-me: se vês alguém que precisa de alimento e, deixando-o lá, vais rodear a mesa, de ouro, será que te agradecerá ou, ao contrário, se indignará? Que acontecerá se ao vê-lo coberto de andrajos e morto de frio, deixas de dar as vestes, mandas levantar colunas douradas, declarando fazê-lo em sua honra? Não se julgaria isto objeto de zombaria e extrema afronta? Pensa também isto a respeito de Cristo, quando errante e peregrino vagueia sem teto.

Não O recebes como hóspede, mas ornas o pavimento, as paredes e os capitéis das colunas, prendes com cadeias de prata as lâmpadas, e a Ele, preso em grilhões no cárcere, nem sequer te atreves a vê-Lo.

Torno a dizer que não proíbo tais adornos, mas que com eles haja também cuidado pelos outros. Ou melhor, exorto a que se faça isto em primeiro lugar. Daquilo, se alguém não o faz, jamais é acusado; isto porém, se alguém o negligencia, provoca-lhe a geena e fogo inextinguível, suplico com os demônios.

Por conseguinte, enquanto adornas a casa, não desprezes o irmão aflito, pois ele é mais precioso que o templo”

Esta é uma Homilia profundamente questionadora, na indispensável necessidade de cuidar da beleza do templo e de tudo que ao culto se refira, sem deixar de lado o essencial do Evangelho, o cuidado e a promoção dos pobres.

Reflitamos

- De que modo cuidamos da Casa do Senhor e de tudo quanto esteja relacionado?

- Quanto de recurso financeiro e de tempo investimos no cuidado do Senhor, na pessoa dos pobres que nos interpelam, como Sua real presença?

- A preocupação que temos com o esplendor de nossos templos e liturgia é a mesma que temos com o resgate do esplendor do brilho dos olhos de nossos irmãos empobrecidos? 

Concluindo: O zelo pela casa do Senhor e o amor pelos Seus templos vivos, os pobres, são inseparáveis.

Oremos:  
Senhor, que eu cuide de Ti em cada irmão e irmã empobrecido, com o mesmo amor com que cuido do culto e de Tua casa;

Senhor, que o zelo, a promoção da vida e da dignidade dos pobres me consuma como me consome o zelo pela Tua casa.

Senhor, que este zelo inseparável, irrenunciável e inadiável, por nós seja vivido, porque para Vós agradável e louvável.

Senhor, não permita que caiamos em omissões execráveis,  detestáveis e lamentáveis, porque por Vós inadmissíveis e impensáveis. Amém.

PS: Celebrada dia 18 de fevereiro de 2019, no Santuário da Boa Viagem - Belo Horizonte - MG

Eucaristia: partilha e a solidariedade (17/02)

                                                         

Eucaristia: partilha e a solidariedade 

“Ainda não entendeis?” (Mc 8,21) 

Este foi o inquietante questionamento de Jesus aos Seus discípulos depois de multiplicar os pães e, ainda assim eles não terem entendido o que significou tal sinal, não compreenderem Sua ação, e tampouco Sua pessoa, Sua missão.

Também nós, muitas vezes, podemos encontrar dificuldade para compreender os acontecimentos, sobretudo, quando marcados pela tragicidade (uma perda súbita, a morte, um acidente).

Porém, por vezes, não somos capazes de ler e compreender os sinais da bondade de Deus nas vitórias, na superação, num desatar de uma situação, no descortinar dos véus de um acontecimento.

A vida tem seus mistérios, que muitas vezes só serão compreendidos na exata medida da fé, quando nos entregamos nas mãos d'Aquele que é fonte de todo nosso ser.

Na fidelidade ao Divino Mestre, como discípulos que o somos, haveremos de aprender as mais belas lições que de Seus lábios emanaram e que no Evangelho encontramos; compreendendo os fatos e a história com os olhos e a lógica de Deus. Somente assim, teremos um olhar profundo, capacidade de escuta e, de modo especial, um coração aberto a todos.

Na Barca/Igreja de Jesus nos refazemos de nossos cansaços em cada Eucaristia que celebramos e bem participamos. No Banquete Eucarístico renovamos nossas forças para que a fadiga da labuta pelo Reino e o enfrentar das dificuldades não nos fragilizem e não nos condenem ao fracasso e à derrota. Bem disse o Apóstolo: “Em Cristo somos mais que vencedores!” (Rm 8, 37).

É preciso que sejamos levedados pela Lógica de Sua Palavra e do Banquete Eucarístico que Ele celebrou com os Seus, prefigurados na partilha dos pães e peixes. Levedados pela “Lógica Eucarística” que se traduz em partilha e solidariedade para com o próximo.

Levedados pela “Lógica Eucarística”, as situações de ódio serão vencidas pela prática do Mandamento do Amor; as cobiças em gestos alegres de partilha; os pesadelos tornar-se-ão sonhos, pelos quais nos empenharemos sem esmorecimentos. 

Levedados por esta tão bela lógica, a cruz carregada é prenúncio da glória eterna, vitória anunciada e já celebrada, porque não sucumbimos e não desistimos de nossas quedas tantas.

As metas não serão tão apenas ponto de chegada, mas no Mistério da Páscoa, um novo começo, pois elas devem se subordinar a lógica maior e infinita do Reino, que consiste no melhor de Deus para cada um de nós.

Sejamos levedados pela Lógica Eucarística, vivendo o amor, a partilha e a solidariedade.

 

PS: Passagem do Evangelho de Marcos  (Mc 8,14-21)

 

Em poucas palavras...

                                         


Bem-Aventuranças: o  cartão de identidade do cristão

“As Bem-aventuranças são de algum modo o cartão de identidade do cristão, que o identifica como seguidor de Jesus. 

Somos chamados a ser bem-aventurados, seguidores de Jesus, enfrentando os sofrimentos e angústias do nosso tempo com o espírito e o amor de Jesus.

Neste sentido, poderíamos assinalar novas situações para as vivermos com espírito renovado e sempre atual: felizes os que suportam com fé os males que outros lhes infligem e perdoam de coração; felizes os que olham nos olhos os descartados e marginalizados fazendo-se próximo deles; felizes os que reconhecem Deus em cada pessoa e lutam para que também outros o descubram; felizes os que protegem e cuidam da casa comum; felizes os que renunciam ao seu próprio bem-estar em benefício dos outros; felizes os que rezam e trabalham pela plena comunhão dos cristãos...

Todos eles são portadores da misericórdia e ternura de Deus, e d’Ele receberão sem dúvida a merecida recompensa.”

 

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2016/documents/papa-francesco_20161101_omelia-svezia-malmo.html

 

 

PS: Passagens do Evangelho - (Lc 6,17.20-26; Mt 5,1-12)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Jesus, nosso Senhor e nosso Deus

                                                                    

Jesus, nosso Senhor e nosso Deus

“Por que pede esta geração um sinal? Em verdade vos digo:
jamais lhe será dado um sinal” (Mc 8,12)

Senhor Jesus, libertai-nos da cegueira incredulidade farisaica, que não nos permite Vos reconhecer como presença da Salvação de Deus para toda a humanidade.

Senhor, libertai-nos da presunção da exigência das provas de Vosso amor por nós, de tal modo que jamais venhamos impor normas e condições para amá-Lo e segui-Lo.

Senhor Jesus, que não sejamos incrédulos, insensíveis e duros de coração, a ponto de arrancar de Vós “suspiros profundos”, Vós que sois a plenitude de mansidão e humildade.

Senhor Jesus, que jamais nos fechemos à Salvação, que nos veio alcançar por Sua Paixão, Morte e Ressurreição, vivendo e crendo em Vós, Ressurreição e Vida.

Senhor Jesus, Bom Pastor, jamais nos fechemos à vontade e desígnios divinos, que nos pensa e cuida com todo o carinho, para que felizes sejamos, vida plena tenhamos.

Senhor Jesus, ajudai-nos a acolher Vossa mensagem em profundidade num coração fecundo, em que a semente de Vossa Palavra produza os frutos por Deus esperados.

Senhor Jesus, concedei-nos a necessária abertura de mente e coração, humildade, confiança, serenidade e adesão livre a Vós, à Vossa Palavra e Projeto do Reino.

Senhor Jesus, conduzi Vossa Igreja com Vosso Espírito, na fidelidade ao Pai de amor, abrindo nosso coração, numa busca humilde e sincera do bem, da verdade, justiça, comunhão e fraternidade. Amém.


Fonte de inspiração: Missal Cotidiano - Editora Paulus – p.769 (Mc 8,11-13)

Peregrinar conduzidos pela Sabedoria Divina

                                                        

Peregrinar conduzidos pela Sabedoria Divina 

“Se de fato é feliz o homem que encontra a sabedoria,
também é feliz, e mais ainda, 
o homem que permanece firme na sabedoria: 
isto refere-se certamente à abundância”


Em um de seus Sermões, o Abade São Bernardo (séc. XII) nos fala da necessária busca da sabedoria.

“Trabalhemos pelo alimento que não se perde. Trabalhemos na obra de nossa salvação. Trabalhemos na vinha do Senhor, para merecermos receber o salário de cada dia. Trabalhemos na sabedoria, pois esta diz: Quem trabalha em mim, não pecará. O campo é o mundo, diz a Verdade. Cavemos nele, pois aí está um tesouro escondido. Vamos desenterrá-lo! É assim a sabedoria, que se extrai de coisas ocultas. Todos nós a buscamos, todos nós a desejamos.

 

Foi dito: se quereis procurá-la, procurai. Convertei-vos e vinde! Queres saber do que te converter? Afasta-te de tuas vontades. Mas se não encontro em minhas vontades, onde então encontrarei a sabedoria? Minha alma deseja-a ardentemente; se vier a encontrá-la, isto não me basta. Cumpre pôr em meu seio uma medida boa, apertada, sacudida e transbordante. Tens razão. Feliz é o homem que encontra a sabedoria e que está cheio de prudência. Procura-a, pois, enquanto podes encontrá-la; e enquanto está perto, chama-a!

 

Queres saber como está perto a sabedoria? Perto está a palavra, no teu coração e na tua boca; mas somente se a procurares de coração reto. No coração encontrarás a sabedoria, e a prudência fluirá de teus lábios. Cuida, porém, de tê-la em abundância e que não te escape como num vômito.

 

Na verdade, se encontraste a sabedoria, encontraste mel. Não comas demasiado, para que, saciado, não o vomites. Come de modo a sempre teres fome. A própria sabedoria o diz: Aqueles que me comem, ainda têm fome. Não julgues já teres muito. Não te sacies para que não vomites e te seja retirado aquilo que pareces possuir, por teres desistido de procurar antes do tempo. Pelo fato de a sabedoria poder ser encontrada enquanto está perto, não se deve deixar de buscá-la e invocá-la. De outro modo, como disse ainda Salomão: assim como não faz bem a alguém tomar o mel em demasia, assim quem perscruta a majestade, sente-se oprimido pela glória.

 

Feliz o homem que encontra a sabedoria. Feliz, ou, antes, muito mais feliz quem mora na sabedoria. Talvez Salomão queira aqui significar a superabundância. São três as razões de fluírem em tua boca a sabedoria e a prudência: se houver nos lábios primeiro a confissão da própria iniquidade; segundo a ação de graças e o canto de louvor; terceiro a palavra de edificação. Na verdade pelo coração se crê para a justiça, pela boca se confessa para a salvação. De fato, começando a falar, o justo se acusa. Depois, engrandece ao Senhor. Em terceiro, se até este ponto transborda a sabedoria, deve edificar o próximo”. 

Nesta busca pela Sabedoria, sejamos atentos ao que nos disse o Abade: confessemos nossa iniquidade; tenhamos sempre em nossa boca um canto de louvor e ação de graças a Deus, e tenhamos sempre palavras para a edificação no relacionamento com o outro. 

Peregrinos de esperança, amemos a Sabedoria mais do que a saúde e a beleza, e a prefiramos mais que a luz do sol, uma vez que todos os bens que possuímos vêm juntamente com ela: Amá-la e procurá-la desde sempre, apaixonados por sua indescritível beleza, e por ela conduzidos em todos os momentos.

Que nosso testemunho de fé revele o quanto ela age em nossos pensamentos, palavras e ações. Amém.

Nada se sobreponha à Lei do Amor

                                                    

Nada se sobreponha à Lei do Amor
 
Na passagem da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios (1Cor 10,31-11,1), o Apóstolo nos apresenta Jesus Cristo, modelo de obediência, doação, amor e serviço em favor da libertação de todos.
 
Com o Apóstolo, aprendemos que, como discípulos missionários do Senhor, o mesmo devemos fazer.
 
Vemos quão livre é o cristão em tudo aquilo que não atenta contra a sua fé e contra os valores do Evangelho, mas poderá prescindir de direitos para um bem maior, que é o amor aos irmãos.
 
A Lei do Amor se sobrepõe a tudo, inclusive aos direitos de cada um, e assim não nos tornamos obstáculos nem para a glória de Deus, nem para a salvação de nossos irmãos.
 
Pouco mais adiante, em sua Carta (1 Cor 13,1-13), o Apóstolo nos apresentará o Hino à Caridade, e a hierarquia dos carismas:
 
“Ainda que eu falasse línguas, as dos homens e as dos anjos, se eu não tivesse a caridade, seria como bronze que soa ou como címbalo que tine” (1 Cor 13,1).
 
Ao amor tudo deve ser subordinado, fazendo de nossa própria vida um dom, uma oferenda agradável a Deus. 

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Em poucas palavras... (VIDTCC)

                                                        


“As bem-aventuranças retratam o rosto de Jesus”

“As bem-aventuranças retratam o rosto de Jesus Cristo e descrevem-nos a sua caridade: exprimem a vocação dos fiéis associados à glória da Sua Paixão e Ressurreição; definem os atos e atitudes características da vida cristã; são as promessas paradoxais que sustentam a esperança no meio das tribulações; anunciam aos discípulos as bênçãos e recompensas já obscuramente adquiridas; já estão inauguradas na vida da Virgem Maria e de todos os santos” (1) 

 

(1)Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 1717

PS: Passagens do Evangelho - (Lc 6,17.20-26; Mt 5,1-12)

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