sábado, 15 de fevereiro de 2025

A superação da violência e a construção da cultura da paz

A superação da violência e a construção da cultura da paz

Uma reflexão sobre a temática da Campanha da Fraternidade 2018 – “Fraternidade e superação da violência”; com o lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), à luz da Doutrina Social da Igreja(DSI).

Na Encíclica Sollicitudo rei socialis (n.38), o Papa São João Paulo II, afirma: “Não é possível amar o próximo como a si mesmo e perseverar nesta atitude sem a firme e constante determinação de empenhar-se em prol do bem de todos e de cada um, porque todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos”.

Para tanto se torna necessária a graça que Deus oferece a todas as pessoas para ajudar na superação de suas falhas, arrancando-nos da voragem da mentira e da violência, sustentando e incentivando a tecer de novo, com espírito sempre renovado e disponível, a rede das relações verdadeiras e sinceras com os seus semelhantes (Catecismo da Igreja Católica – CIC - n. 1889).

Neste sentido, todos devemos nos empenhar na construção de uma sociedade reconciliada na justiça e no amor, com dupla responsabilidade: anúncio e denúncia.

- Enquanto anúncio: uma visão global do homem e da humanidade, no nível teórico e prático – “A doutrina social, com efeito, não oferece somente significados, valores e critérios de juízo, mas também as normas e diretrizes de ação que daí decorrem. Com a sua doutrina social, a Igreja não persegue fins da estruturação e organização da sociedade, mas de cobrança, orientação e formação das consciências” (Compêndio da Doutrina Social – n. 81);

- Enquanto denúncia: denúncia do pecado de injustiça e de violência que de vários modos atravessa a sociedade e nela toma corpo – “tal denúncia se faz juízo e defesa dos direitos ignorados e violados, especialmente dos direitos dos pobres, dos pequenos e dos fracos, e tanto mais se intensifica quanto mais as injustiças e as violências se estendem, envolvendo inteiras categorias de pessoas, amplas áreas geográficas do mundo, e dão lugar a questões sociais, ou seja, a opressões e desequilíbrios que conturbam as sociedades” (idem n.81).

Esta dupla missão funda-se no princípio que é a raiz dos direitos do homem e da mulher, que há de ser buscada em sua dignidade que lhe pertence – “A fonte última dos direitos humanos não se situa na mera vontade dos seres humanos, na realidade do Estado, nos poderes públicos, mas no próprio homem e em Deus seu Criador. Tais direitos são ‘universais, invioláveis e inalienáveis’... Inalienáveis, enquanto ‘ninguém pode legitimamente privar destes direitos um seu semelhante, seja ele quem for, porque nisto significaria violentar a sua natureza’” (idem n. 153).

Portanto, eis a nossa missão: colaborar na construção e promoção da fraternidade, promovendo a cultura da paz.

É preciso, portanto, compreender que a paz é muito mais que um dom de Deus para a humanidade; e um projeto conforme o desígnio divino, ela é um atributo essencial de Deus (Jz 6,24) – “A criação, que é um reflexo da glória divina, almeja a paz. Deus cria todas as coisas, e toda a criação forma um conjunto harmônico, bom em todas as suas partes (Cf. Gn 1,4.10.12.18.21.25.31)”.  (idem n. 498).

A paz exige a superação na violência, pois se funda na relação primária entre cada ser humano e Deus mesmo, uma relação caracterizada pela retidão (cf Gn 17,1) – “em seguida ao ato voluntário com que o homem altera a ordem divina, o mundo conhece o derramamento de sangue e a divisão: a violência se manifesta nas relações interpessoais (cf Gn 4,1-16) e sociais (cf Gn 11,1-9). A paz e a violência não podem habitar na mesma morada, onde há violência aí Deus não pode estar (cf.1 Cr 22,8-9)” (idem n. 488).

A paz, segundo a Revelação Bíblica, é muito mais que a ausência de guerra, antes é a plenitude da vida (cf. Mt 2,5). Ela é efeito da bênção de Deus sobre o seu povo (cf.Nm 6,26), e ela gera fecundidade (cf. Is 48,19), bem estar (cf is 48,18), ausência de medo (cf. Lv 54,6) e alegria profunda (cf. Pr 12,20) (idem n. 489).

A DSI é clara sobre a violência: ela nunca se constitui numa resposta justa – “A Igreja proclama, com a convicção da sua fé em Cristo e com a consciência de sua missão ‘que a violência é má, que a violência como solução para os problemas é inaceitável, que a violência é indigna do homem. A violência é uma mentira, pois que é contrária à verdade da nossa fé, à verdade da nossa humanidade. A violência destrói o que ambiciona defender: a dignidade, a vida, a liberdade dos seres humanos’” (idem n. 496 ).

O mundo atual necessita do testemunho de profetas não armados, infelizmente objeto de escárnio em toda época (idem n. 496).

A DSI nos ensina que uma verdadeira paz só é possível através do perdão e da reconciliação: “Não é fácil perdoar diante das consequência da guerra e dos conflitos, porque a violência, especialmente quando conduz ‘até aos abismos da desumanidade e da desolação’, deixa sempre como herança um pesado fardo de dor, que pode ser aliviado somente por uma reflexão profunda, leal e corajosa, comum aos contendores, capaz de enfrentar as dificuldades do presente com uma atitude purificada pelo arrependimento. O peso do passado, que não pode ser esquecido, pode ser aceito somente na presença de um perdão reciprocamente oferecido e recebido: trata-se de um percurso longo e difícil, mas não impossível” (idem n. 517).

Evidentemente que o perdão recíproco não deve anular as exigências da justiça nem, tampouco, bloquear o caminho que leva à verdade: justiça e verdade apresentam, pelo contrário, os requisitos concretos da reconciliação – “...é necessário promover o respeito do direito á paz: tal direito ‘favorece a construção duma sociedade no interior da qual as relações de força são substituídos por relações de colaboração em ordem ao bem comum” (idem n. 518).

Urge, portanto, empenharmos todos e tudo que pudermos (pessoas e recursos) na realização do objetivo geral da Campanha da Fraternidade, que é missão de todos nósConstruir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”, e isto se dará como também realizarmos os objetivos específicos:

01 – Anunciar a Boa-Nova da fraternidade e da paz, estimulando ações concretas que expressem a conversão e a reconciliação no espírito quaresmal;

02 – Analisar as múltiplas formas de violência, considerando suas causas e consequências na sociedade brasileira, especialmente as provocadas pelo tráfico de drogas;

03 – Identificar o alcance da violência nas realidades urbana e rural de nosso país, propondo caminhos de superação a partir do diálogo, da misericórdia e da justiça, em sintonia com o Ensino Social da Igreja;

04 – Valorizar a família e a escola como espaços de convivência fraterna, de educação para a paz e de testemunho do amor e do perdão;

05 – Identificar, acompanhar e reivindicar políticas públicas de superação da desigualdade social e da violência;

06 – Estimular as comunidades cristãs, pastorais, associações religiosas e movimentos eclesiais ao compromisso com ações que levem à superação da violência;

07 – Apoiar os centros de direitos humanos, comissões de justiça e paz, conselhos paritários de direitos e organizações da sociedade civil que trabalham para a superação da violência.

Concluindo, é preciso dizer que a Igreja luta pela paz com a oração:

“A oração abre o coração não só a uma profunda relação com Deus, como também ao encontro com o próximo sob o signo do respeito, da confiança, da compreensão, da estima e do amor.

A oração infunde coragem e dá apoio a todos ‘os verdadeiros amigos da paz’, os quais procura promove-la nas várias circunstâncias  em que se encontrar a viver. A oração litúrgica é ‘o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, é a fonte donde emana toda a sua força, em particular a celebração eucarística, ‘fonte e convergência de toda a vida cristã’, é nascente inesgotável de todo autêntico compromisso cristão pela paz” (idem n. 519).

Sejamos, por fim, iluminados pelas palavras do Papa São Paulo VI: - “A paz impõe-se somente com a paz, com aquela paz que nunca disjunta dos deveres da justiça, mas alimentada pelo sacrifício próprio, pela clemência, pela misericórdia e pela caridade” (idem n. 520).


Fonte de pesquisa: Compêndio da Doutrina Social da Igreja - 
Editora Paulinas 2006

Escrito em fevereiro de 2018

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Amizade perdida e reencontrada

                                                         

Amizade perdida e reencontrada

 “Onde estás?”
“Por que fizeste isso?”(cf. Gn 3,9-15.20)


Nas primeiras páginas do Livro de Gênesis, temos o chamado amoroso de Deus a Seus primeiros filhos:

“Mas o Senhor Deus chamou o homem e perguntou: ‘Onde estás?’.

Ele respondeu:
‘Ouvi Teu ruído no jardim. Fiquei com medo, porque estava nu, e escondi-me’.

Deus perguntou:
‘E quem te disse que estavas nu?’ Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi comer?’

O homem respondeu:
‘A mulher que me deste por companheira, foi ela que me fez provar do fruto da árvore, e eu comi’.

Então o Senhor Deus perguntou a mulher:
‘Por que fizeste isso?’

E a mulher respondeu:
‘A serpente enganou-me, e eu comi’”. (1)

Como que num longo tempo de espera, na plenitude dos tempos, o Filho Único, Jesus, ao entrar no mundo, fazendo doação e entrega da Sua vida por amor à humanidade, assumindo nossa condição humana, igual a nós, exceto no pecado, deu a resposta:

“Por esta razão, ao entrar no mundo, Cristo declara: ‘Não quiseste vítima nem oferenda, mas formaste um corpo para mim. Não foram do Teu agrado holocaustos nem sacrifícios pelo pecado. Então Eu disse: ‘Eis que Eu vim, ó Deus para fazer a Tua vontade, como no livro está escrito a meu respeito’” (Hb 10, 5-7).

Se de um lado nossos primeiros pais se afastaram de Deus, através do pecado, da desobediência, da infidelidade, de outro lado, Jesus com Sua vida nos ensina como viver na graça, obediência e fidelidade a Deus.

Se de um lado nossos primeiros pais se esconderam de Deus, com a perda da amizade e intimidade, Jesus vem para nos reconciliar com Deus na mais bela e puríssima amizade conosco, nos mergulhando na profunda intimidade e amizade com Deus, porque, Se encarnando em nosso meio, encarnou-se a Misericórdia Divina, que veio ao encontro da miserável condição de nossa humanidade.

Se de um lado nossos pais foram seduzidos pela serpente, Jesus, no deserto, nos ensinou a vencê-la, em total adoração e obediência à vontade do Pai.

Se de um lado nossos pais colocaram seu querer e vontade acima do querer de Deus, quiseram ser como deuses, Jesus veio, e Se apresentou diante do Pai, colocando sempre em primeiro plano a vontade do Pai, para que reaprendêssemos a viver como o Criador concebeu, e recuperássemos o que havíamos no Paraíso perdido, e agora, com renovados compromissos, o Paraíso a ser construído.

Respondamos à pergunta que Deus fez aos nossos pais: 

“Onde estás e o que fizeste?”

Digamos como o Filho amado: 

Aqui estamos, ó Deus, com Vosso Filho, e com a força do Vosso Espírito, para cumprir Vossos desígnios de santidade, para que, tão somente assim, reencontremos a verdadeira felicidade. Amém!”


(1) Bíblia Sagrada – Tradução da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil –
Catecismo da Igreja Católica – n.2568

O Paraíso é possível

                                                          

O Paraíso é possível

Como se pudéssemos visitar o Paraíso nos primeiros dias da criação, e acompanhar atentamente a obra do Criador, por meio do qual tudo foi criado, na plena comunhão com o Espírito, por um momento apenas.

Veríamos os primeiros dias se sucedendo, e cada criatura, espaço, tudo criado na mais perfeita harmonia, e a obra completa, quando criado o primeiro homem, do barro e com o sopro divino, e a mulher tirada do seu lado, osso dos ossos do homem criado, ambos imagem do Criador, acompanhado da exultação do Criador vendo que tudo era muito bom.

Como se pudéssemos ainda lá permanecer, não repetiríamos o primeiro pecado de nossos pais, que quiseram ser como deuses, comendo do fruto da árvore proibida?

Não seríamos devorados de inveja como o primeiro fratricida, derramando sangue de um inocente?

Muito mais do que uma realidade plausível, as primeiras páginas do Livro Sagrado nos desafiam a reinventar a condição humana, repensar e rever as relações entre nós, para que voltemos a gozar da alegria, da harmonia, da amizade, da perfeição do início da criação.

Não fincar âncoras no passado do Paraíso, como estéril lembrança, mas lançar nosso barco em águas mais profundas, com a certeza de que o Senhor nele se encontra, para que avancemos, apesar de ventos contrários, ao encontro da alegria plena, da vida, e, por fim, da eternidade.

A melhor concepção de Paraíso que podemos ter, é como um projeto que nos desafia e que requer de nós todos empenho incansável, sem perda de tempo, dado que este é irreversível.

O Paraíso é possível quando  renovamos nossa fidelidade, amizade e intimidade com Deus Uno e Trino, que nos criou para nos amar, e deliciosamente conosco se relacionar, dialogar, e por que não, brincar, ainda que pareça estranha esta possibilidade, talvez porque vivemos num mundo marcado pela maldade, insano mal humor, que um dia há de ser varrido das páginas escritas no cotidiano.

O Paraíso é possível quando, de fato, o Senhor for nosso Caminho que nos conduz ao Pai, e que, inevitavelmente, nos conduz também ao encontro do outro, como Ele próprio expressou no maior Mandamento do Amor a Deus, sem divorciá-lo do amor ao próximo.

O Paraíso é possível quando não fugirmos por atalhos que nos distanciam de Deus, pois este distanciamento é o encontro com a própria infelicidade, a não realização; vazio absurdo, escuridão e desolação.

O Paraíso é possível quando não trocarmos a via estreita da cruz, pelas largas estradas que o mundo oferece das felicidades ilusórias, verdades transitórias, porque relativas, prazeres sem compromisso que não emanam da autêntica fonte da felicidade, do consumismo que não preenche, ao contrário, nos consome, nos esvaziando do belo, do brilho, do encantamento; das inúmeras estradas que fomentam o individualismo, arrivismo, inveja, competição, fundamentalismos, fanatismos, preconceitos, atitudes prometéicas...

O Paraíso é possível quando enveredamos não por ruas estreitas da desesperança, insalubres, funestas, violentas, manchadas de sangue, mas pelas alamedas da fé, com raízes fincadas nas entranhas de nosso coração.

Deste modo se abrirão avenidas largas da esperança com horizontes bem próximos de maior comunhão, amizade, fraternidade, sem quaisquer resquícios e sombra da maldade, que turva e polui as águas límpidas que banham a alma de quem tem fé.

Nossa esperança, nutrida pela Seiva do Espírito que conduz e ilumina a história, possibilitará que floresçam e frutifiquem saborosos frutos que nos fazem acreditar no gosto indizível do amor, que nossos pais trocaram pelo fruto proibido, da ciência, do bem e do mal, mas tão longe e vazios do mais pleno, belo e verdadeiro Amor: o Amor de Deus.

O Paraíso é possível, sem saudades estéreis, mas com renovados, sagrados e incansáveis compromissos com a Boa-Nova do Reino que o Senhor veio semear em nossos corações, chão fértil, assim o seja, abertos ao Divino Semeador e Sua Sagrada Semente: Sua Palavra.

A Sagrada Escritura, do primeiro Livro (Gênesis) até o último (Apocalipse), lida, meditada, fonte de Oração, acompanhada da contemplação, nos levará a humanas e, por que não, sagradas ações, para que o novo céu e a nova terra sejam alcançadas.

Peregrinamos reinventando o Paraíso em busca de novos céus e nova terra porque temos fé; cultivamos a esperança e tornamos tudo isto credível pelo empenho em viver a maior de todas as virtudes que jamais passará: a caridade, como nos falou o Apóstolo Paulo (1 Cor 13, 1-13).

Curados pelo Senhor para comunicar Sua Palavra (13/02)

                                               

     
Curados pelo Senhor para comunicar Sua Palavra


“Olhando para o céu, suspirou e disse:
 “Effatha!”, que quer dizer “abre-te!”

Na sexta-feira da 5ª semana do Tempo Comum, ouvimos a passagem do Evangelho de Marcos (Mc 7,31-37), em que Jesus cura um surdo-mudo.

Nela contemplamos Jesus, Aquele que, em comunhão com o Pai, cura, liberta, toca-nos com Seu ser e Sua Palavra, e contemplemos o querer de Deus: a vida e a felicidade da humanidade.

Contemplamos a salvação de Deus que se destina a todos os povos. A pessoa do surdo, que falava com dificuldade, representa aquele que estava à margem da salvação no mundo judaico. 

Curando aquele homem, contemplamos a ação de Jesus que cura, liberta e integra a pessoa na vida da comunidade. Esta cura é uma catequese sobre a missão de Jesus que faz nascer em nós o Homem novo.

O Encontro com Jesus transforma a vida da pessoa que O acolhe. Abre os ouvidos à Palavra, abre os lábios para o anúncio. Cura de toda “surdez” que possamos conceber.

O Encontro com Cristo tira-nos da mediocridade e nos desperta para o compromisso, empenho e testemunho. Saímos de nosso isolamento empobrecedor, estabelecemos laços íntimos e fortes com Deus e fraternos com todos os nossos irmãos.

Encontrar-se com o Senhor implica em acolher, acreditar, converter, anunciar e testemunhar a Sua Palavra de Vida Eterna. A Evangelização será autêntica quando a Igreja sentir-se tocada pela Palavra de Jesus, e d’Ele se tornar fiel comunicadora.

A Igreja é comunicadora do grande “éffathá” do Senhor, ou seja, tem a missão de levar cada pessoa a sair do seu comodismo, fechamento e egoísmo, abrindo os olhos, ouvidos, boca, coração e todo o ser. 

Acolhendo com fé a Palavra de Deus nossos olhos se abrirão e na planície do deserto do desespero, das provações, nascerá, com certeza, a fina flor da esperança no coração da humanidade.

Em cada Eucaristia que celebramos, Jesus vem ao nosso encontro, nos toca com Sua Palavra e Sua Presença. Cada Eucaristia é uma passagem do Cristo Ressuscitado que nos toca e nos cura. 

Reflitamos:

- De que modo se dá o nosso encontro amoroso e libertador com Jesus?
- De qual surdez precisamos ser curados?
- Como temos levado a cura de Jesus ao outro?
- Somos comunicadores de Sua Palavra?

Urge Profetas curados pela Palavra do Senhor e fortalecidos pelo Seu Pão, Seu Corpo, a Eucaristia, para que, em tempo de desolação e desânimo, comuniquem a aurora de Deus.

Após o sol poente, cremos que há a escuridão da noite e que ao amanhecer a esperança se renovará.

Entre o sol poente e o sol nascente, entre o sol nascente e o sol poente, é o tempo contínuo, ininterrupto da acolhida e vivência da Palavra do Senhor, para que, como criaturas novas, construamos relações de amor, fraternidade, bondade.

Curados pela Palavra, possibilitemos como discípulos missionários, que outros também alcancem esta graça, pois a cura e a libertação, a vida e a felicidade é o que Deus quer para todos nós.

“O que está acontecendo contigo?”

                                                           

“O que está acontecendo contigo?”

“Não vos inquieteis com nada! Em todas as circunstâncias apresentai a Deus as vossas preocupações, mediante a Oração, as súplicas e a ação de graças"
(Fl 4, 6)

“O que está acontecendo contigo?”
Alguém, com lágrimas vertentes, poderá me responder:
“Já não tenho mais o emprego ;
Somarei a tantos milhões que amargam sua falta;
Terei que reinventar um novo modo de sobreviver,
Sem na fé vacilar, jamais na esperança esmorecer”.

“O que está acontecendo contigo?”
Outro, neste momento, poderá me responder:
“Vi alguém partir para ficar para sempre, com a inevitabilidade da morte.
Está difícil recomeçar meu caminho, mas sei que é preciso.
Ainda que a ausência e a saudade me consumam vorazmente,
Crer na Ressurreição até que um dia nos encontremos novamente”.

“O que está acontecendo contigo?”
Alguém talvez nem forças terá para responder, mas dirá:
“Roubaram meus sonhos, pisotearam minhas utopias,
Escureceram meu horizonte do inédito que buscava,
Dizendo que não passavam de ilusórias fantasias.
Mas preciso revigorar minhas forças, a força da profecia”.

“O que está acontecendo contigo?”
Apontando para o chão em que pisamos responde:
“Veja o chão que pisamos; o céu que nos cobre.
Estenda teu olhar para o planeta Terra, nossa casa comum.
Estou em silêncio, ouvindo do Planeta seus gemidos e clamores.
O que fazer para recriar e cuidar melhor de nossa casa comum?”

“O que está acontecendo contigo?”
Também preciso dar minha resposta com sinceridade:
“Refletindo sobre a vida, nossa humana condição,
E o que fazer para elevar e qualificar a condição humana.
Que pães e peixes tenho para oferecer?
Que posso fazer para um novo amanhecer?”

“O que está acontecendo contigo?”
Dê ao Senhor neste momento a tua resposta:
Dê tuas respostas: se bem,  diga a Ele com sinceridade
E com toda simplicidade: estou bem, em paz, porque contigo.
Do contrário, abra teu coração e, antes mesmo de falares,
Ele bem saberá, e com certeza uma Boa-Nova te dirá”.

Em poucas palavras...

                                                 


Viver e transmitir com fidelidade o Evangelho

"Quem evangeliza não procura camuflar a força do Evangelho em fórmulas modernas, mais agradáveis. Procura unicamente vivê-Lo de modo mais transparente e transmiti-Lo como recebeu." (1)

 

 

 

(1)Missal Cotidiano – Editora Paulus – pág. 1244 – Comentário sobre a passagem da Primeira Carta de Paulo aos Colossenses (Cl 1,1,24-2,3)

Lírios manchados... até quando?

Lírios manchados... até quando?

"A voz do sangue do teu irmão 
está clamando por mim, da terra" (Gn 4,10)

Até quando:

- Lírios manchados pela violência doméstica e intrafamiliar por meio dos membros de uma família ou que ocupam o mesmo espaço, com intolerância, abusos, agressão e dominação de modo especial contra a mulher, criança, jovens e idosos?

Lírios manchados pela violência criminal, que é pratica de agressão grave às pessoas; pelo atentado à vida e aos seus bens?

Lírios manchados pela multiplicação do ódio e intolerância entre as pessoas, levando à morte por agressões corporais, armas brancas ou de fogo?

Lírios manchados pela violência da exploração do trabalho escravo,  infantil e juvenil?

Lírios manchados pelo tráfico de pessoas, drogas e armas que proliferam e crescem absurdamente?

Lírios manchados pela violência estrutural e sistêmica, gerando uma sociedade injusta e desigual, entre culturas, gêneros, faixas etárias e grupos étnicos?

Lírios manchados pela violência institucional por meio de suas regras, normas de funcionamento, com relações burocrática e políticas, perpetuando estruturas e comportamentos injustos?

Lírios manchados pela miséria, fome, submissões, exploração e repressões com faces diferenciadas?

Lírios manchados pela violência interpessoal para a superação de conflitos expressos em atitudes de prepotência, intimidação, discriminação, raiva, vingança e inveja?

Lírios manchados pelos danos morais, psicológicos e físicos, e por meio de ameaça, insultos, chantagens, constrangimentos, humilhação, manipulação, vigilância permanente, ridicularização, perseguição e tantas outras formas, causando danos e doenças emocionais e psíquicas, chegando à sua máxima expressão que é a morte?

Lírios manchados pela violência autoinfligida, com seus atos suicidas, automutilações, que crescem cada dia, e de modo acentuado, entre a juventude?

Lírios manchados pela violência étnico-racial, contra pessoas negras, indígenas, migrantes e refugiados?

Lírios manchados pela violência de gênero, multiplicado por atitudes de opressão e crueldade pelo fato do outro ser mulher, homem ou de outra orientação sexual?

Lírios manchados pela violência sexual, que leva alguém a presenciar, manter ou participar de relação sexual não desejada por meio da intimidação, ameaça, coação ou uso da força, como o assédio sexual, estupro, prostituição forçada, tráfico de pessoas para fins de exploração sexual?

Lírios manchados pela violência praticada por redes de exploração sexual, que agem vitimando crianças e adolescentes no mundo inteiro?

Lírios manchados pela violência simbólica, por meio de diferentes modos: arte, religião, mídia e outros sistemas simbólicos, reforçando relações assimétricas e hegemônicas, desqualificações, preconceitos?

Lírios manchados pela violência cultural, expressa por meio de valores, crenças, mitos, práticas, reproduzidos e naturalizados, com preconceitos que prejudicam e oprimem, por vezes, os diferentes?

Lírios machados pela mentira difundida, palavras impronunciáveis, pensamentos execráveis, olhares condenatórios ou de indiferença?

Lírios manchados por sentimentos cultivados, que são incompatíveis com a beleza e sacralidade da vida, e de modo especial, com os ensinamentos da Sagrada Escritura?

Lírios manchados pela violência religiosa, motivada pela intolerância e fanatismo, fundamentalismo, que não geram a comunhão e a fraternidade, a religação das pessoas entre si e com Deus?

Lírios manchados por causa da violação do Planeta Terra, nossa casa comum, por causa da depredação, ambição, consumo sem escrúpulos e destruição?

Lírios manchados por violências de tantos outros nomes:

Lírios manchados desde os primeiros momentos, a partir do pecado de nossos pais no Paraíso, em atitude autossuficiência, e rompimento da amizade divina.

Lírios manchados pelo sangue de Abel derramado, vítima da inveja de seu irmão, que ontem e hoje se repete, clamando aos céus.

Lírios manchados dos profetas e mártires de todos os tempos.

Divino Lírio manchado, Jesus, chagado, sangue derramado, na Cruz crucificado.

Divino Lírio manchado, Jesus, com Seu Sangue derramado, mundo novo reconciliado, nós amados e perdoados.

Divino Lírio manchado, Jesus, crucificado para crucificar e acabar com toda morte e violência, que atente contra a vida da humanidade.

Até quando os lírios serão manchados pelas lágrimas e sangue por causa da violência?

O que fazemos para que os lírios da paz floresçam no jardim que Deus nos colocou?

Ressoe em nosso coração o que o Senhor nos disse, e haveremos de, definitivamente, aprender: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8).

Basta de lírios manchados, lírios manchados de lágrimas e sangue!
Não manchemos os lírios com nossas palavras, pensamentos, omissões e atitudes!

Fraternidade e superação da violência; cultura de vida e de paz.


Fontes de pesquisa:
Texto base da Campanha da Fraternidade 2018;
“Fraternidade e a superação da violência, um caminho de justiça e misericórdia” - Ir. Eurides Alves de Oliveira - Revista Convergência n.508 - janeiro/fevereiro 2018- ano LIII

Para reflexão da passagem do Livro de Gênesis (Gn 4,1-15.25)


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