quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Fidelidade e perseverança no carregar da cruz

                                           

Fidelidade e perseverança no carregar da cruz

“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo,tome sua cruz de cada dia e siga-me" (Lc 9,23)


Retomo uma parte do Sermão do Bispo e Doutor Santo Agostinho (séc. V), para refletirmos sobre a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 14,25-33).

“Siga-lhe (Jesus), pois, a totalidade da Igreja única, esta pomba e esposa redimida e enriquecida com o Sangue do Esposo. Nela encontra o seu lugar a integridade virginal, a continência das viúvas e o pudor conjugal.

Todos estes membros que encontram nela o seu lugar, de acordo com as suas funções próprias, sigam a Cristo; neguem-se, ou seja, não se vangloriem; carreguem a sua cruz, ou seja, suportem no mundo por amor de Cristo tudo o que no mundo vos aflija.

Amem Àquele que é o único que não atraiçoa, o único que não é enganado nem engana; amem-Lhe, porque é verdade o que promete.

Tua fé vacila porque suas promessas tardam. Mantém-te fiel, persevera, tolera, aceita a demora: tudo isso é carregar a cruz”. (1)

Algumas exigências para a vivência da fé:

1 – Ser discípulo é pôr-se atrás do Mestre, como aprendiz. Seguimento incondicional e trilhar seus caminhos e ter mesmo horizonte e destino;

2 – É preciso negar-se a si mesmo, com renúncias necessárias: desprendimento, despojamento, tendo Jesus e Sua Palavra como valores absolutos em nossa vida: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça...” (Mt 6,33);

3 – Tomar a cruz de cada dia, pois não há discipulado sem cruz, e inevitavelmente a glória passa pela cruz, martírio silencioso ou em sua expressão máxima (sangue derramado), numa vida marcada pela doação, entrega, serviço, disponibilidade em favor do próximo, na mais genuína expressão de misericórdia, para que sejamos misericordiosos como o Pai (Lc 6,36);

4 – Manter uma aliança indissolúvel de amor com o Senhor e a Sua Igreja: assumir na carne os sofrimentos e paixão por amor de Cristo e Sua Igreja, como falou o Apóstolo Paulo (Cl 1,24);

5 – Confiar plenamente no Senhor e em Sua promessa, pois Sua Palavra é vida e verdade. Somente Ele tem Palavra de Vida Eterna;

6 – Jamais vacilar na fé, ainda que tardem a realização das Suas promessas;

7 – Fidelidade incondicional ao Senhor, vivendo o Mistério Pascal – Paixão, Morte e Ressurreição;

8 – Perseverança dando razão da esperança em todas as circunstâncias;

9 – Tolerar e aceitar a demora do alcance da vitória no bom combate da fé: mantendo a serenidade em todos os momentos;

10 – Carregar a cruz, sem lamentações, confiantes na força que nos vem do alto, e pôr-se sempre a caminho buscando as coisas do alto, contando com a força do Espírito Santo que jamais nos deixa órfãos.

As exigências citadas não se separam, mas se completam e se dão em nosso cotidiano.

Entretanto, tudo isto somente é possível se criarmos e mantivermos momentos de profunda intimidade e comunhão com Deus, tanto na oração pessoal, como na Oração Maior, que é a Santa Missa, na qual nos fortalecemos pelo Pão da Palavra e o Pão da Eucaristia.


(1) Lecionário Patrístico Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp.713-714.

Fortaleçamos os “pilares” da comunidade

                                                        

Fortaleçamos os “pilares” da comunidade

Uma passagem que voltamos em nossas orações, é a Carta de Paulo aos Romanos (Rm 16,3-9.16.22-27), em que o Apóstolo Paulo saúda a comunidade com o beijo santo, em atitude de gratidão, delicadeza pessoal e estima de toda a Igreja no apostolado realizado, como colaboradores em Cristo.

Nota-se um tom familiar na longa série de saudações pessoais, não se tratando de nostalgia de “belos tempos passados”, pois bem mais profundas e intensas devem ser as dimensões da Igreja em sua ação evangelizadora.

No entanto, a Igreja, sobretudo nossas Paróquias, na missão de ser uma “comunidade de comunidades”, precisa intensificar as relações de seus membros, a fim de que sejam mais acolhedoras e fraternas.

A lista dos nomes mencionados na passagem evidencia uma Igreja apostólica, ministerial, solidária e firmada sobre a participação dos cristãos leigos e leigas, como denominamos hoje todas as lideranças e agentes de nossas comunidades.

Caminhando para o final de mais um ano Litúrgico, é oportuno que nossas comunidades façam as revisões necessárias dos trabalhos realizados, em sua missão de anunciar e testemunhar a Boa-Nova de Jesus Cristo.

Reflitamos:
- Qual a vitalidade e profundidade dos vínculos fraternos de nossas comunidades?
- De que modo nossas comunidades expressam gratidão e estima por todos os que dela participam e colaboram, como vemos na passagem bíblica?
- Nossas Paróquias são, de fato, “comunidade de comunidades”?
- Qual tem sido a atuação dos cristãos leigos e leigas dentro e fora de nossas comunidades?

Roguemos a Deus para que nossas comunidades façam progressos maiores ainda, e para tanto, é preciso que, conduzida e aberta ao Espírito, faça não apenas a revisão dos trabalhos realizados, mas elabore um Planejamento Pastoral, para que sejam cada vez mais evangelizadoras; e os pilares da Palavra, do Pão da Eucaristia, da Caridade e da ação Missionária, sejam cada vez mais fortalecidos.

Fonte: Missal Cotidiano, Editora Paulus -  1997 – pp.1468-1469

Rezando com os Salmos - Sl 44(45)

                                  


Espera vigilante para o encontro com o Rei Glorioso


“1 Ao maestro do coro. Na melodia ‘Os lírios’.

Dos filhos de Coré. Poema. Cântico de amor.
=2 Transborda um poema do meu coração;
vou cantar-vos, ó Rei, esta minha canção;
minha língua é qual pena de um ágil escriba.

=3 Sois tão belo, o mais belo entre os filhos dos homens!
Vossos lábios espalham a graça, o encanto,
porque Deus, para sempre, vos deu sua bênção.

–4 Levai vossa espada de glória no flanco,
herói valoroso, no vosso esplendor;
–5 saí para a luta no carro de guerra
em defesa da fé, da justiça e verdade!

= Vossa mão vos ensine valentes proezas,
6 Vossas flechas agudas abatam os povos
e firam no seu coração o inimigo!
=7 Vosso trono, ó Deus, é eterno, é sem fim;
vosso cetro real é sinal de justiça:
8 Vós amais a justiça e odiais a maldade.

= É por isso que Deus vos ungiu com seu óleo,
deu-vos mais alegria que aos Vossos amigos.
9 Vossas vestes exalam preciosos perfumes.

– De ebúrneos palácios os sons vos deleitam.
10 As filhas de reis vêm ao vosso encontro,
– e à vossa direita se encontra a rainha
com veste esplendente de ouro de Ofir.

–11 Escutai, minha filha, olhai, ouvi isto:
'Esquecei vosso povo e a casa paterna!
–12 Que o Rei se encante com vossa beleza!
Prestai-lhe homenagem: é vosso Senhor!

–13 O povo de Tiro vos traz seus presentes,
os grandes do povo vos pedem favores.
–14 Majestosa, a princesa real vem chegando,
vestida de ricos brocados de ouro.

–15 Em vestes vistosas ao Rei se dirige,
e as virgens amigas lhe formam cortejo;
–16 entre cantos de festa e com grande alegria,
ingressam, então, no palácio real'.

–17 Deixareis Vossos pais, mas tereis muitos filhos;
fareis deles os reis soberanos da terra.
–18 Cantarei vosso nome de idade em idade,
para sempre haverão de louvar-vos os povos!” 
 

O Salmo 44(45) é um cântico sobre as núpcias do Rei:

“Cerimônia nupcial no palácio. Aplicado ao rei ideal. O texto ganhou sentido messiânico e é referido a Cristo (Hb 1,8s) – Divisão: 2: apresentação do poeta; 3-8: alocução ao rei; 9-10: o rei ao lado da rainha-mãe; 11-13: alocução à escolhida; 14-16: entrada da nova rainha; 17-18: conclusão do poeta (dirigida ao rei).” (1)

Este Salmo também nos remete à passagem do Evangelho de Mateus sobre a parábola das dez virgens, que nos convida a viver a vigilância necessária na espera do Senhor que vem (Mt 25,1-13).

Peregrinos da esperança que somos, precisamos estar pontos para a segunda vinda do Senhor, assim como as damas para um cortejo nupcial, ainda que o noivo demore (Parusia).

Seja nosso discipulado expressão de apaixonamento pelo Senhor, em total fidelidade à Sua Pessoa e Palavra, como Igreja que somos, a serviço do Reino. Amém.

 

(1) Comentário da Bíblia Edições CNBB – pág. 764


PS: apropriado para a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 12,35-40)


Cristãos leigos e leigas perseverantes no amor

                                                        

          Cristãos leigos e leigas perseverantes no amor
 
Reflitamos sobre a graça da missão realizada pelos cristãos leigos e leigas na obra da evangelização à luz da passagem do Evangelho de Lucas (Lc 14,25-33).
 
Para que tenhamos na Igreja, alegres e convictas testemunhas do Ressuscitado, são necessárias renúncias até de si mesmo, acompanhados de separação, radicalidade e realismo.
 
Tudo isto se faz na vivência dos desapegos de toda a ordem, na radicalidade própria do amor que sabe elencar o que é prioritário, num realismo inadiável, de modo que, sem renúncias, jamais haverá fidelidade no seguimento ao Senhor.
 
A fé cristã será, portanto, movida pela virtude da esperança enraizada no chão da caridade que é o próprio coração do homem e da mulher.
 
Somente assim, cristãos leigos e leigas serão discípulos missionários do Reino, sem medo, mas com muita alegria, procurando ter do Senhor Jesus os mesmos sentimentos, em total e incondicional fidelidade, com a presença e ação do Espírito Santo (Fl 2,5).
 
Cumpra-se, portanto, a Palavra Divina, para que na fidelidade ao Senhor progridamos: “Aqueles que perseverarem no amor ficarão junto de Deus, porque a graça e a misericórdia são para Seus eleitos”, já nos dizia o autor do Livro da Sabedoria (Sb 3,9).
 
Como Igreja sinodal, ponhamo-nos todos a caminho, firmados nos pilares da Palavra, Pão da Eucaristia, Caridade e Missão, vivendo a graça do batismo recebido, com o coração ardente e os pés a caminho.
 

Fé, vigilância e sabedoria (XXXIIDTCA)

                                                               

Fé, vigilância e sabedoria


“Portanto, ficai vigiando, pois não
sabeis qual será o dia, nem a hora” (Mt 25, 13)

Na Liturgia, do 32º Domingo do Tempo Comum, ouvimos a passagem do Evangelho em que Jesus nos fala do Reino de Deus a partir da Parábola das dez virgens (Mt 25, 1-13).

Assim lemos no Missal Cotidiano:

“Jesus descreve a Bem-Aventurança eterna como uma festa de núpcias, em que o esposo é o Cristo. Mas a Parábola põe a tônica sobre as insensatas que encontram a porta fechada, porque não chegaram a tempo.

A Palavra que Jesus dirige a essas jovens é uma das mais terríveis de toda a Bíblia: ‘Não vos conheço’. Trata-se da separação total, se nos lembrarmos de que ‘conhecer’ implica na Bíblia um elemento afetivo.
Ser ‘repelido’ é o resultado da falta de ‘fé vigilante’. É terrível pensar que muitas vezes é salva a fachada, porém dentro está morto o amor, e com ele a esperança.

Continua-se por hábito, cansadamente, por comodismo ou por capricho, mas perdeu-se do ‘convite às bodas’. Falta no íntimo a espera vigilante e ativa (ter óleo) do encontro com Cristo, cuidadosamente preparado”. (1)

Como discípulos missionários, na prática de uma fé vigilante, não podemos deixar faltar o azeite da esperança, da justiça, da solidariedade, da confiança, do amor, da alegria: 

“As comunidades cristãs não devem permitir-se distrações ou superficialidades, mas são chamadas a alimentar a fé com o azeite da esperança e da paciência, que jamais podem abrandar em quem espera a sabedoria verdadeira e fecunda” (2).

E como afirmou o Pe. José Carlos Pereira:

 “Acordar com o propósito de ser melhor, de agir melhor, de não dar tanta importância às pequenas coisas que nos desgastam por qualquer motivo, de sorrir mais, de ajudar mais o próximo, de cuidar mais da vida, pois, agindo assim, estaremos vigilantes e preparados”. (3)

Oremos:

Senhor Deus, concedei-nos o dom da sabedoria que vem do Vosso Espírito, para acolhermos e vivermos a Palavra do Vosso Filho, para que um dia tenhamos a graça de participarmos do Banquete da Eternidade.

Concedei-nos, também, a graça de acrescentar cada vez mais o azeite em nossas lâmpadas, para que não se apague na espera, quando Vosso Filho vier gloriosamente pela segunda vez, e que o fogo do Espírito esteja crepitando em nossos corações, e assim, sejamos dignos de correr ao mais desejado e esperado encontro. Amém. (4)


(1) Missal Cotidiano – p.1211
(2) Lecionário Comentado – Editora Paulus - p. 221
(3) Liturgia da Palavra I – reflexões para os dias da semana – Editora Paulus – p.253
(4) Livre adaptação Lecionário Comentado - Editora Paulus p.223 

Vigilantes para um fecundo testemunho (XXXIIDTCA)

                                                          

Vigilantes para um fecundo testemunho

Ouvimos, no 32º domingo do Tempo Comum, a passagem do Evangelho em que Jesus nos convida a uma atitude de vigilância na espera de Sua vinda gloriosa, à luz da parábola das dez virgens: cinco insensatas e cinco prudentes (Mt 25, 1-13).

A vigilância, na Sagrada Escritura, atinge o máximo de sua expressão, pois é uma atitude para que sigamos Jesus, como discípulos missionários: estar presente quando passar o Esposo e participar de Seu cortejo, da festa de Suas núpcias.

É preciso, como Igreja, estarmos sempre prontos para a Sua volta,  sobretudo nos tempos atuais, uma “época de fermentação contínua, de dinamismo e de evolução” (1), quando “no passado dominava uma concepção estática da história” (2).

Daqui decorre a mais do que necessária vigilância ativa na fé, para que nossa esperança ande de mãos dadas com a caridade criativa e inauguradora de novas realidades.

Esta vigilância nos coloca numa expectativa ativa, operante, que não nos permite o cruzar dos braços, nem omissões, ainda que difíceis sejam as realidades em que nos encontremos.

É preciso preparar, a cada instante, esta chegada e encontro com o Senhor, de modo que vigilância pode ser assim compreendida:

- lutar contra toda insensibilidade, indiferença, apatia moral,  negligência e atitudes de prostração, para que alcancemos a meta e estarmos prontos para quando Jesus chegar;

- a luta contínua contra o mal e a tentação, a cada dia, como rezamos na Oração que o próprio Senhor nos ensinou;

- viver como “filho da luz”, permanentemente desperto e resistente às trevas e suas seduções, como expressão do mal que possa nos seduzir e nos desviar do Caminho, da Verdade, da Vida e da Luz que é o próprio Senhor;

- saber discernir as “visitas” que o Senhor nos faz em cada momento, batendo em nossas portas, ou mesmo nos interpelando nos fatos da história, notícias, que se multiplicam e chegam até nós de formas múltiplas;

- saber ler os sinais dos tempos, indo ao encontro do Senhor que vem, que passa ao nosso lado nas pessoas, nos acontecimentos, nos fatos, e procurar caminhos de compromisso e solidariedade, de modo especial para com os que mais precisam;

- como Igreja, saber discernir o desafio que o mundo apresenta (fome, guerras, conflitos, desigualdades sociais, questão socioambiental...), procurando, à luz da Palavra e da Tradição, novas mentalidades, posturas e atitudes;

- não instalar-se nas aparentes seguranças do já alcançado e conhecido, abrindo-se ao sopro do Espírito, que age e faz, iluminando as realidades mais sombrias e desafiadoras.

Oremos:

“Fortalecidos por este Alimento sagrado, nós vos damos graças, ó Deus, e imploramos vossa clemência; fazei que perseverem na sinceridade do vosso amor aqueles que fortalecestes pela infusão do Espírito Santo. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.”



Fonte inspiradora: Missal Dominical – Editora Paulus - pp. 852-853

Permaneçamos vigilantes (XXXIIDTCA)

                                                       

Permaneçamos vigilantes

Com a Liturgia, do 32º Domingo do Tempo Comum (Ano A), refletimos sobre a necessária vigilância ativa na espera do Senhor que virá gloriosamente, Ele que veio, vem e virá.

O discípulo missionário do Senhor aguarda vigilante a Sua segunda vinda, pois ela se encontra presente no horizonte final da história humana, e, portanto, a necessidade de estarmos com o coração preparado para acolhê-Lo e com Ele caminhar.

Não podemos nos instalar em nosso egoísmo e autossuficiência, fechando nossos ouvidos aos apelos que o Senhor nos faz, de vigilância e espera de Sua chegada.

Na primeira Leitura, ouvimos uma passagem do Livro da Sabedoria, o Livro mais recente do Antigo Testamento, que apresenta a sabedoria como dom gratuito e incondicional de Deus para a humanidade, para conduzi-la à realização e felicidade (Sb 6,12-16).

Dois objetivos do autor do Livro: primeiro, ao dirigir-se aos seus compatriotas judeus (mergulhados no paganismo, na idolatria, na imoralidade), faz um convite para a redescoberta da fé dos pais e os valores judaicos; o segundo, ao dirigir-se aos pagãos para constatar o absurdo da idolatria, exortando a adoração e a adesão ao Senhor, o verdadeiro e único Deus.

A mensagem é explícita: somente Deus garante a verdadeira sabedoria e a verdadeira felicidade, no entanto pressupõe disponibilidade para acolhê-la e vivê-la.

Ouvimos, na segunda Leitura, a passagem da Carta de Paulo aos Tessalonicenses (1 Ts 4,13-18), na qual o Apóstolo Paulo fortalece a esperança na vinda gloriosa do Senhor, Ele  que virá novamente para concluir a história humana, inaugurando a realidade do mundo definitivo.

Importa que a comunidade fique vigilante e plenamente unida e identificada com o Senhor, para ir ao Seu encontro e com Ele permanecer para sempre.

Embora a Comunidade fosse entusiasta, ainda precisava de um amadurecimento catequético, e um dos temas era a questão da parusia, ou seja, o regresso de Jesus, no final dos tempos.

Daí o motivo do Apóstolo escrever aos tessalonicenses (entre o ano 50 ou 51), encorajando-os na fé e respondendo às suas dúvidas.

O Apóstolo confirma o que, provavelmente, já antes havia ensinado: “que Cristo virá para concluir a história humana; e que todo aquele que tiver aderido a Cristo e se tiver identificado com Ele, esteja morto ou esteja vivo, encontrará a salvação (vers. 14). Se Cristo recebeu do Pai a vida que não acaba, quem se identifica com Cristo está destinado a uma vida semelhante; a morte não tem poder sobre Ele… Isto deve encher de esperança o cristão, mantendo-o alegre, sereno e cheio de ânimo”. (1)

Deste modo, a certeza da ressurreição garante-nos que Deus tem um Projeto de salvação e de vida para todos nós; e que este está se realizando continuamente em nós até à sua concretização plena, quando nos encontrarmos definitivamente com Deus.

A comunidade que crê na Ressurreição e na vinda gloriosa do Senhor deve eliminar todo o medo e acomodação; o anúncio da Ressurreição implica o compromisso pela justiça e paz; compromisso com o mundo novo; uma caminhada confiante, ainda que no sofrimento e na dor.

Na passagem do Evangelho (Mt 25,1-13), somos exortados a nos preparar para acolher o Senhor que vem, vivendo na fidelidade aos Seus ensinamentos, com renovados compromissos com os valores do Reino, para participarmos do grande Banquete.

Trata-se da parábola das dez virgens, sendo cinco jovens “insensatas”, que não levaram azeite suficiente para manter as suas lâmpadas acesas enquanto esperavam a chegada do noivo, e as cinco ”prudentes”: “O Reino de Deus é, aqui, comparado com uma das celebrações mais alegres e mais festivas que os israelitas conheciam: o banquete de casamento. As dez jovens, representam a totalidade do Povo de Deus, que espera ansiosamente a chegada do Messias (o noivo)… Uma parte desse Povo (as jovens previdentes) está preparada e, quando o Messias finalmente aparece, pode entrar a fazer parte da comunidade do Reino; outra parte (as jovens descuidadas) não está preparada e não pode entrar na comunidade do Reino” (2).

Lembremos o contexto em que Mateus escreveu: finais do séc. I (década de 80): já tinha passado a “febre escatológica” e os cristãos já não esperavam a vinda iminente de Jesus, e uma vez passado o entusiasmo inicial, “a vida de fé dos crentes tinha arrefecido e a comunidade tinha-se instalado na rotina, no comodismo, na facilidade… Era preciso algo que abanasse os discípulos e os despertasse de novo para o compromisso com o Evangelho”.   (3).

Vigilantes na espera do Senhor, enquanto Ele não vem,  a comunidade precisa viver a sua fé com coerência e entusiasmo, na fidelidade aos ensinamentos de Jesus e comprometidos com a construção do Reino: escutar Suas Palavras, acolhê-las no coração e viver de forma coerente com os valores do Evangelho; viver na fidelidade aos projetos do Pai, amando os irmãos, até mesmo com o dom da vida, em todos os momentos.

A comunidade, portanto, não pode descuidar da vigilância, o que levaria ao enfraquecimento do compromisso com os valores do Reino, levando ao comodismo, instalação, adormecimento e o descuido, reduzindo a uma fé sem compromisso e pouco coerente.

Importa ser uma “Igreja em saída”, como insistia o Papa Francisco, uma Igreja em estado permanente de missão, que se alimenta da Palavra e da Eucaristia, e se coloca a serviço do Reino, com irrenunciáveis e sagrados compromissos.

Estejamos preparados para a chegada do Senhor, que vem ao nosso encontro todos os dias, e espera que nos empenhemos e nos comprometamos na construção de um mundo novo – o mundo do Reino:

“Ele faz ecoar o seu apelo na Palavra de Deus que nos questiona, na miséria de um pobre que nos interpela, no pedido de socorro de um homem escravizado, na solidão de um velho carente de amor e de afeto, no sofrimento de um doente terminal abandonado por todos, no grito aflito de quem sofre a injustiça e a violência, no olhar dolorido de um imigrante, no corpo esquelético de uma criança com fome, nas lágrimas do oprimido” (4).

Reflitamos:

- Estamos vigilantes e preparados para a  vinda gloriosa do Senhor?
- Estamos preocupados com o imediato, o visível, o efêmero (o dinheiro, o poder, a influência, a imagem, o êxito, a beleza, os triunfos humanos…), negligenciando os valores autênticos do Reino?

- Estamos abertos à sabedoria divina, dom que nos é dado para bem conduzirmos nossa vida, em fecunda e ativa vigilância na espera do Senhor que vem?

Caminhando para o final de mais um ano Litúrgico, à luz da Liturgia da Palavra, é tempo favorável de revermos o caminho que fizemos; se, ao longo do ano, na espera do Senhor, vivemos uma caridade esforçada, uma fé atuante e uma firme esperança em ver o Reino de Deus acontecendo.

É tempo de avaliar de que modo conduzimos e orientamos a nossa vida, iluminados pela Sabedoria divina, que deve ser procurada desde a aurora e ir sempre à frente de nossas decisões, para que nossas “lâmpadas” estejam sempre acesas para quando o “noivo chegar”, o Senhor Jesus, que virá, gloriosamente, numa segunda vinda.

Quando? Não importa. Antes, importa que estejamos verdadeiramente vigilantes e ativos na ansiosa espera de Sua chegada.

(1) (2) (3) (4): www.Dehonianos.org/portal

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG