domingo, 11 de outubro de 2026

Somente Deus nos concede a verdadeira riqueza (XXVIIIDTCB)

                                                             

Somente Deus nos concede a verdadeira riqueza

No 28º Domingo do Tempo Comum (ano B), somos convidados a refletir sobre o essencial e o efêmero em nossa vida; quais são as nossas verdadeiras riquezas, quais são as escolhas que fazemos. É preciso aprender a renunciar a certos valores perecíveis, a fim de adquirir os valores da vida verdadeira e eterna.

Na passagem da primeira Leitura (Sb 7,7-11), o Livro mais recente do Antigo Testamento tem uma mensagem clara: apresentando o jovem Salomão como modelo de homem sábio, nos mostra que a verdadeira sabedoria é mais valiosa que ouro, riqueza, saúde, e consiste em acolher as propostas de Deus com humildade e disponibilidade. 

Há nesta passagem um ensinamento fundamental: somente Deus garante a verdadeira sabedoria e a verdadeira felicidade. A sabedoria consiste em escolher as coisas certas; tomar as corretas decisões para o alcance do êxito, da felicidade. É preciso ter ouvidos e coração abertos à sabedoria de Deus que é dom para todos.

A sabedoria é dom de Deus e garante o alcance da liberdade diante de todos os bens.

A passagem da segunda Leitura (Hb 4,12-13) nos exorta: é preciso acolher a sabedoria de Deus, revelada em Jesus Cristo, como nossa maior e mais valiosa riqueza, pois a vida de quem crê é marcada pelo sacrifício de louvor e entrega de amor.  
                                        
Num contexto de monotonia e mediocridade, o autor tem a preocupação de levar a comunidade a viver uma fé comprometida, coerente, empenhada com a construção do Reino, numa acolhida frutuosa da Palavra de Deus. É preciso retomar, reavivar o entusiasmo inicial.

A Palavra de Deus quando acolhida com sinceridade transforma sentimentos, pensamentos e orienta nossos valores, opções e atitudes. Ela é força decisiva, dá conteúdo salutar à história e comunica a vida e a Salvação, portanto é preciso confrontar sempre a nossa vida diante das exigências da Palavra de Deus.

Ela questiona, transforma, indica os caminhos para a realização da vontade de Deus, para que possamos alcançar a vida eterna, dando passos em patamares sucessivos:

- Viver de acordo com as propostas de Deus – é preciso disponibilidade e abertura para escutar a Deus e por Ele ser desafiado;

- Integrar-se à comunidade do Reino que toca o coração de todos para a abertura à Comunidade do Reino;

- Viver as exigências de quem se coloca a serviço do Reino, não centrando sua vida nos bens que passam; viver a partilha e solidariedade; seguir Jesus Cristo no caminho de amor e entrega.

A passagem do Evangelho (Mc 10,17-30) tem como mensagem: escutar, acolher e viver a proposta de Jesus, numa autêntica resposta de amor marcada por uma vida de doação, partilha, solidariedade, entrega, fidelidade, para além de toda perseguição e incompreensão.

A opção por Jesus não nos empobrece, muito pelo contrário, nos enriquece e nos garante a verdadeira felicidade a caminho da eternidade. O Caminho do Reino é exigente e garante a vida eterna.

A opção de seguir Jesus tem seu preço, mas tem também seus ganhos/recompensas: uma vida plena e feliz e por fim a eternidade. 

A vida eterna é, portanto, dom de Deus e compromisso nosso, e ela começa já, numa vida marcada, inevitavelmente, pelo amor, doação e serviço.

Ser cristão não é ser um pobre coitado condenado a passar ao lado da vida e da felicidade, mas é, sobretudo, ser alguém que renunciou a certas propostas falíveis, passageiras, parciais de felicidade, encontrando em Jesus e na Boa Nova do Reino a sua grande riqueza.

Deste modo, a Palavra de Deus é para nós fonte inesgotável de sabedoria e vida, sobretudo quando somos transformados por Ela.

Reflitamos:

- Com nossa vida e testemunho, provocamos o encantamento por Jesus diante daqueles com quem convivemos?
- Como correspondemos à proposta amorosa que Jesus conosco renova em cada Eucaristia?

- O que nos impede de viver a sabedoria de Deus, assumindo com coragem o Projeto Divino?
- Há algo que ainda nos escraviza e nos torna autossuficientes diante da proposta de Jesus?

- De que modo acolho a sabedoria divina e de que modo oriento minha existência por ela?
- Quais são os valores efêmeros e eternos de minha vida?

- Qual é a hierarquia de valores em minha vida?
- Qual é a eficácia da Palavra de Deus em minha vida?

Oremos:

Senhor, que tão amados por Vós,
Saibamos corresponder ao Vosso Amor.
Dai-nos a liberdade de coração para segui-Lo,
Ouvindo e acolhendo Vossa Palavra.

Libertai-nos de nossas aparentes riquezas,
para que Vós sejais nossa mais bela e imensurável riqueza,
que não se corrói, que não se estraga, que não se rouba,
que nos garante a felicidade no tempo presente
e a glória da imortalidade. Amém!

Graça, gratidão e gratuidade (XXVIIIDTCC)

                                                               


Graça, gratidão e gratuidade  

“...Um deles, ao perceber que estava curado,
voltou glorificando a Deus em alta voz;
atirou-se aos pés de Jesus, com o
 rosto por terra, e lhe agradeceu.”

A Liturgia da Palavra do 28º Domingo do Tempo Comum (ano C) - (2 Reis 5,14-17; 2 Tm 2,8-13; Lc 17,11-19) -  retrata de modo especial a cura que Deus propicia a todos, além das fronteiras de um determinado povo. Não há limites geográficos para a ação curativa de Deus.

Não há dúvida que o Amor, a bondade e o Projeto de Salvação de Deus destinam-se a todos os povos.

O que Deus espera de nós é a acolhida, com alegria, abertura, confiança, amor e gratidão.

E este é o grande questionamento que a Liturgia nos propicia: rever nossa abertura à Graça Divina, acompanhada pela gratidão por tudo que Ele realiza em nosso favor.

Se de um lado a gratidão é uma virtude que enobrece, por outro nada é mais desagradável do que conviver com pessoas ingratas, nada é mais empobrecedor do que o cultivo da autossuficiência, sobretudo da relativização da presença divina.

Viver como se de Deus não precisássemos é mergulhar no vazio de si mesmo, com perda de sentido, e horizontes restritos; é condenar-se a não realização; é o sequestrar-se de si mesmo quase que sem preço de resgate...

Somente em Deus o resgate, logo, sem voltar-se para Ele, não há alternativa, não há caminho, somente dor, desolação, vazio, sofrimento – caos jamais superável!

Como configurados a Cristo que devemos ser (segunda Leitura), jamais nos faltará Sua graça, portanto a gratidão e a gratuidade serão maneiras de fazermos com que O vejam em nós.

A passagem da primeira Leitura nos apresenta o rosto e o ser de Deus: Ele é único, dá a vida, salva a todos, pois a salvação carrega em si a marca da universalidade, espera a gratidão e não se deixa manipular por ninguém...

A Espiritualidade genuinamente Eucarística leva-nos a dizer “obrigado a Deus” e ao nosso próximo por tantos bens e graças recebidas.

Pode ocorrer que a cegueira, o desejo desmedido do dinheiro, do poder, da fama, dos privilégios, nos levem a uma secura diante do Mistério do Amor Divino, que nos inebria com o mais Sublime dos Vinhos, com o mais precioso dos pães, o Pão da Imortalidade.

Pessoas eucarísticas sabem dar graças a Deus em todas as circunstâncias, como nos disse o Apóstolo Paulo:
“Em todas as circunstâncias dai graças…” (1Ts 5, 18).

E como o escritor romano Sêneca:
 “Só os espíritos bem formados são capazes de cultivar a gratidão!”

Palavras de William Shakespeare:
“A gratidão é o único tesouro dos humildes.”

O grande Bispo Santo Agostinho, sobre a gratidão, já nos dizia:
“Que coisa melhor podemos trazer no coração,
pronunciar com a boca, escrever com a pena,
do que estas palavras: ‘graças a Deus’?  

Não há nada que se possa dizer com maior brevidade,
nem ouvir com maior alegria, nem sentir com maior
elevação, nem realizar com maior utilidade.”

Agradecer sempre pelo que somos e pelo que temos sem nos tornarmos reféns de nossa ingratidão. Temos uma fertilidade de memória, para as nossas necessidades e carências, maior do que para os nossos bens de Deus recebidos.

Assim completa Santo Agostinho:

“Nada é nosso, a não ser o pecado que possuímos.
Pois que tens tu que não tenhas recebido? (1Cor 4, 7).”

Finalizando, agradeçamos a alguém pelo que significa em nossa vida. E, diante de Deus, também elevar nosso infinito “muito obrigado, Senhor!”.

A acolhida da graça, acompanhada da gratidão,
leva-nos a viver cada vez mais
intensamente na gratuidade:
De graça recebemos, de graça
devemos dar, disse-nos o Senhor!

PS: Apropriado para a quarta-feira da 32ª Semana do Tempo Comum.

sábado, 10 de outubro de 2026

Por uma autêntica devoção Mariana... (N.Sra. Aparecida)

                           

Por uma autêntica devoção Mariana...

“Mais do que rezar à Maria, rezar como Maria”

Toda devoção deve levar a uma vida cristã mais profunda: compromisso de amor a Deus e ao próximo, e com isto levar inevitavelmente a uma vida cristã mais conforme a vontade de Deus, revelada pelo Seu Amado Filho, sob a ação e inspiração do Espírito Santo.

Sem dúvida, a devoção a Maria é fonte de vida cristã profunda, com a imitação das virtudes daquela que melhor que ninguém soube viver a fidelidade a Deus, na acolhida e seguimento do Verbo que nela Se fez Carne, porque nela o Espírito encontrou espaço para ação e fecundação, por isto ela é chamada de primeiro sacrário vivo da Eucaristia.

A devoção Mariana não pode ser uma estéril prática de Oração. Deste modo, mais do que rezar a Maria, é rezar como Maria rezou. 

De nada adianta dizer-se devoto de Maria se não houver absoluta confiança na Palavra de seu Filho, e todo empenho e esforço de realizá-La em nossa vida.

Fazer o que Ele diz é certeza de que jamais nos faltará o Vinho Novo do amor, da alegria, da vida e da paz (Jo 2,1-11). Mas o vinho só foi possível por causa de sua intercessão, por isto ela é a onipotência suplicante, enquanto Jesus é a onipotência por essência.

Reflitamos sobre a devoção à Nossa Senhora da Conceição Aparecida, a Padroeira do Brasil.

A Imagem de Nossa Senhora Aparecida nos leva a refletir algumas verdades presentes em todo seu simbolismo e traços marcantes.

O encontro da imagem no rio Paraíba (1717),  em partes, cabeça e corpo separados, leva-nos a refletir sobre a necessária ligação e relação de Cristo com Sua Igreja. É impensável amar Cristo e não amar Sua Igreja. Há que superar todas as divisões inclusive entre as próprias Igrejas que se afirmam cristãs.

Por ser mãe de Jesus Cristo, Maria torna-se para nós Mãe da Igreja. Trazida na rede, leva-nos a refletir sobre a missão da Igreja no lançar das redes em águas mais profundas, para resgate da vida e certeza de pesca abundante (Lc 5,1-11), o que aconteceu logo após sua retirada do rio.

A imagem foi encontrada no rio por três pescadores (Filipe, João e Domingos), homens simples do povo, trabalhadores incansáveis. Somente os simples acolhem a novidade do Reino inaugurado por Jesus, acolhendo juntamente Sua mãe.

Posta na barca e levada para a Oração...
A barca = Igreja de Jesus

Pôde a Igreja contar com sua valiosa e indispensável presença.
O que seria da Igreja sem a figura de Maria, o traço do feminino?

Grávida: 

Deus nos envia, por meio de Maria, o Redentor da humanidade, Jesus. Aquele que nos garante que a Vida é vocacionada à Festa, ao casamento/relacionamento amoroso de Deus conosco, onde há vida em abundância prefigurando a eternidade.

Refletimos sobre a sacralidade da vida, desde sua concepção até seu declínio natural, valor e beleza da dignidade presentes em cada pessoa humana.

Olhos abertos:
Olhos abertos para a sede do povo;
Sede de justiça e paz, que por Deus serão para sempre saciados.
Olhos abertos, sem se esquivar de toda e qualquer realidade.
Assim como Deus não dorme, nossa Mãe querida também noite e dia nos acompanha e nos envolve com seu carinho e olhar materno.

Mãos postas em Oração:
Convidam-nos a mesma atitude: imagens e semelhanças de Deus que o somos desde a criação, a colocarmo-nos em atitude de intimidade e confiança n’Aquele que nela e em nós pôde realizar maravilhas.

Em resumo: confiança, súplica, louvor, abertura, disponibilidade...

Lábios em ligeiro movimento de sorriso:
Acenando à alegria, à pureza dos lábios de uma criança, que louva e glorifica a Deus e canta um eterno Magnificat, o canto da alegria e da esperança dos pobres...

Abre Senhor meus lábios e minha boca anunciará o Vosso louvor... Quem a Deus ama e serve reflete Deus sorrindo no mais profundo e íntimo de si mesmo.

A cor negra:
A cor da imagem foi vista como identificação da realidade de escravidão pela qual passava o Brasil (séc. XVIII).

Aparição que anuncia a liberdade e dignidade de toda pessoa. É para a liberdade que o Senhor nos libertou, como nos falou o Apóstolo Paulo (Gl 5,1).

“Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida,
Salve a Virgem Imaculada, ó Senhora Aparecida...”

Em poucas palavras...

                                                           


“Jesus convida os pecadores para a mesa do Reino...”

"Jesus convida os pecadores para a mesa do Reino: «Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores» (Mc 2, 17).

Convida-os à conversão sem a qual não se pode entrar no Reino, mas por palavras e atos, mostra-lhes a misericórdia sem limites do Seu Pai para com eles e a imensa «alegria que haverá no céu, por um só pecador que se arrependa» (Lc 15, 7).

A prova suprema deste amor será o sacrifício da Sua própria vida, «pela remissão dos pecados» (Mt 26, 28)."

 

(1) Catecismo da Igreja Católica – parágrafo n. 545

Maria, perfeita ouvinte e praticante da Palavra do Senhor

                                                          

Maria, perfeita ouvinte e praticante da Palavra do Senhor

“Muito mais felizes são aqueles que ouvem a
Palavra de Deus e a põem em prática!” (Lc 11,28)

Reflexão sobre a passagem do Evangelho de Lucas (Lc 11,27-28), à luz do Sermão escrito pelo Bispo Santo Agostinho (Séc. V).

"Prestai atenção, rogo-vos, naquilo que Cristo Senhor diz, estendendo a mão para Seus discípulos: 

Eis minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de meu Pai que me enviou, este é meu irmão, irmã e mãe (Mt 12,49-50).

Acaso não fez a vontade do Pai a Virgem Maria, que creu pela fé, pela fé concebeu, foi escolhida dentre os homens para que dela nos nascesse a salvação e que foi criada por Cristo antes que Cristo nela fosse criado?

Sim! Ela o fez! Santa Maria fez totalmente a vontade do Pai e por isto mais valeu para ela ser discípula de Cristo do que mãe de Cristo; maior felicidade gozou em ser discípula do que mãe de Cristo. Assim Maria era feliz porque, já antes de dar à luz o Mestre, trazia-O na mente.

Vede se não é assim como digo. O Senhor passava acompanhado pelas turbas, fazendo milagres divinos, quando certa mulher exclamou: Bem-aventurado o seio que te trouxe. Feliz o ventre que te trouxe! (Lc 11,27).

O Senhor, para que não se buscasse a felicidade na carne, que respondeu então? Muito mais felizes os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam (Lc 11,28). 

Por conseguinte, também aqui é Maria feliz, porque ouviu a Palavra de Deus e a guardou. Guardou a verdade na mente mais do que a carne no seio.

Verdade, Cristo; Carne, Cristo; a Verdade-Cristo na mente de Maria; a Carne-Cristo no seio de Maria. É maior o que está na mente do que o trazido no seio.

Santa Maria, feliz Maria! Contudo, a Igreja é maior que a Virgem Maria. Por quê? Porque Maria é porção da Igreja, membro santo, membro excelente, membro supereminente, mas membro do corpo total.

Se ela pertence ao corpo total, logo é maior o corpo que o membro. A cabeça é o Senhor; e o Cristo total, é a cabeça e o corpo. Que direi? Temos cabeça divina, temos Deus por cabeça!

Portanto, irmãos, dai atenção a vós mesmos. Também vós sois membros de Cristo, também vós sois corpo de Cristo. Vede de que modo o sois. Diz: Eis minha mãe e meus irmãos (Mt 12,49).

Como sereis mãe de Cristo?  Todo aquele que ouve e faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão e irmã e mãe (cf. Mt 12,50).

Pensai: entendo irmão, entendo irmã; é uma só a herança, e é essa a misericórdia de Cristo que, sendo único, não quis ficar sozinho; quis que fôssemos herdeiros do Pai, coerdeiros seus”. (1)

Reflitamos sobre a pureza e singeleza desta Mulher ímpar que a história conheceu, e outra maior jamais conhecerá.

Renovemos o desejo e compromisso de aprender com Ela, a Mãe do Salvador, a sermos mais autênticos discípulos Missionários do Seu Filho, ouvindo e pondo em prática a Sua Palavra, empenhados em fazer a vontade do seu Filho, como ela bem nos disse nas Bodas de Caná, para que Família do Senhor sejamos.

Exultemos de alegria em saber que ela, Assunta aos céus, e coroada com a coroa da glória, como Rainha, nos acompanha e nos assiste, enquanto peregrinamos pela fé também rumo ao céu.

Silenciando-nos diante de Maria, estaremos falando imediatamente com Deus, pois a autêntica devoção Mariana jamais nos afasta d'Ele; sobretudo quando quando imitamos suas virtudes, tornamo-nos mais conforme o que Ele espera de cada um de nós.

Assim como Jesus o foi, assim como ela o fez, realizemos sempre e plenamente a vontade de Deus. Amém.

“Salve Rainha, Mãe de Misericórdia...”

(1) Liturgia das Horas - Tempo Comum - Volume IV - Editora Paulus - p. 1466-1467

Renovemos os sagrados compromissos com o Reino

                                                      


Renovemos os sagrados compromissos com o Reino

Sejamos enriquecidos com a Homilia do Papa São Gregório Magno (séc. VI), que trata com propriedade o exercício do ministério no cuidado do rebanho que Deus nos confia.

“Ouçamos o que diz o Senhor aos pregadores enviados: A messe é grande, mas poucos os operários. Rogai, portanto, ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. São poucos os operários para a grande messe (Mt 9,37-38). 

Não podemos deixar de dizer isto com imensa tristeza, porque, embora haja quem escute as boas palavras, falta quem as diga. Eis que o mundo está cheio de sacerdotes. Todavia na messe de Deus é muito raro encontrar-se um operário. Recebemos, é certo, o ofício sacerdotal, mas não o pomos em prática.

Pensai, porém, irmãos caríssimos, pensai no que foi dito: Rogai ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. Pedi Vós por nós para que possamos agir de modo digno de Vós.

Que a língua não se entorpeça diante da exortação, para que, tendo recebido a condição de pregadores, nosso silêncio também não nos imobilize diante do justo juiz.

Com frequência, por maldade sua, a língua dos pregadores se vê impedida. Por sua vez, por culpa dos súditos, muitas vezes acontece que seus chefes os privem da palavra da pregação.

Por maldade sua, com efeito, a língua dos pregadores se vê impedida, como diz o salmista: Deus disse ao pecador: Por que proclamas minhas justiças? (Sl 49,16). Por sua vez, por culpa dos súditos, cala-se a voz dos pregadores.

É o que o Senhor diz por Ezequiel: Farei tua língua aderir a teu palato e ficarás mudo, como homem que não censura, porque é uma casa irritante (Ez 3,26). Como se dissesse claramente: A palavra da pregação te é recusada porque, por me exacerbar com suas ações, este povo não é digno de escutar a verdade que exorta. Não é fácil saber por culpa de quem a palavra se furta ao pregador. Porque se o silêncio do pastor às vezes o prejudica, sempre causa dano ao povo, isto é absolutamente certo.

Há ainda outra coisa, irmãos caríssimos, que muito me aflige na vida dos pastores, mas para não pensardes talvez que vos faz injúria aquilo que vou dizer, ponho-me também debaixo da mesma acusação, embora me encontre neste posto não por minha livre vontade, mas impelido por estes tempos calamitosos.

Vimos a nos envolver em negócios externos. Um cargo nos foi dado pela consagração e, na prática, damos prova de outro. Abandonamos o ministério da pregação e, reconheço-o para pesar nosso, chamam-nos de bispo a nós que temos a honra do nome, não o mérito. Aqueles que nos foram confiados abandonam a Deus e nos calamos. Jazem em suas más ações e não lhes estendemos a mão da advertência.

Quando, porém, conseguiremos corrigir a vida de outrem, se descuramos a nossa? Preocupados com questões terrenas, tornamo-nos tanto mais insensíveis interiormente quanto mais parecemos aplicados às coisas exteriores.

Por isso e com razão, a respeito de seus membros enfraquecidos, diz a santa Igreja: Puseram-me de guarda às vinhas; minha vinha não guardei (Ct 1,6). 

Postos como guardas às vinhas de modo algum guardamos a nossa porque, enquanto nos embaraçamos, com ações exteriores, não damos atenções ao ministério de nossa ação verdadeira”. (1)

Seja nossa reflexão e oração acompanhadas da prática concreta da fé, pois ela sem obras é morta; sendo assim, multipliquemos Orações ao Senhor da Messe, para que nos envie operários que somem conosco na maravilhosa missão de construir o Reino de Deus pelo Filho inaugurado, com a força, ação e sabedoria do Espírito.

Ministros ordenados ou não devem ter o coração pleno de misericórdia como o coração d’Aquele que o chamou para não se omitir no multiplicar de gestos de solidariedade.

Ninguém pode omitir-se no colocar dos carismas a serviço da comunidade, no fortalecimento e florescimento pastoral a serviço da vida e da esperança. 

Na comunidade não há espaço para omissões, recuos, desânimo e indiferença.

Reflitamos: 

- Grande é a messe, poucos são os operários; muitos são os apelos e clamores. Como procuramos dar as devidas respostas?

Peçamos ao Senhor que também nos fortaleça nas dificuldades de nossa caminhada de fé, para que a vivamos com renovado ardor e entusiasmo, e nossa esperança não fique desacompanhada das obras de amor:  

                       "Pai Nosso que estais nos céus..."

(1) Liturgia das Horas - Volume IV - Tempo Comum - p. 317-319

Aprendizes da compaixão divina

                                                        

Aprendizes da compaixão divina

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 9,32-38), em que Jesus Se enche de compaixão pela multidão, pois estavam cansados e abatidos, como ovelhas sem pastor.

Oportuna é a Homilia do Papa São Gregório Magno (séc. VI), que trata com propriedade o exercício do ministério no cuidado do rebanho que Deus nos confia, como discípulos missionários Seus.

“Ouçamos o que diz o Senhor aos pregadores enviados: A messe é grande, mas poucos os operários. Rogai, portanto, ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. São poucos os operários para a grande messe (Mt 9,37-38). Não podemos deixar de dizer isto com imensa tristeza, porque, embora haja quem escute as boas palavras, falta quem as diga.

Eis que o mundo está cheio de sacerdotes. Todavia na messe de Deus é muito raro encontrar-se um operário. Recebemos, é certo, o ofício sacerdotal, mas não o pomos em prática.

Pensai, porém, irmãos caríssimos, pensai no que foi dito: Rogai ao Senhor da messe que envie operários a seu campo. Pedi Vós por nós para que possamos agir de modo digno de Vós.

Que a língua não se entorpeça diante da exortação, para que, tendo recebido a condição de pregadores, nosso silêncio também não nos imobilize diante do justo juiz.

Com frequência, por maldade sua, a língua dos pregadores se vê impedida. Por sua vez, por culpa dos súditos, muitas vezes acontece que seus chefes os privem da palavra da pregação.

Por maldade sua, com efeito, a língua dos pregadores se vê impedida, como diz o salmista: Deus disse ao pecador: Por que proclamas minhas justiças? (Sl 49,16). Por sua vez, por culpa dos súditos, cala-se a voz dos pregadores.

É o que o Senhor diz por Ezequiel: Farei tua língua aderir a teu palato e ficarás mudo, como homem que não censura, porque é uma casa irritante (Ez 3,26). Como se dissesse claramente: A palavra da pregação te é recusada porque, por me exacerbar com suas ações, este povo não é digno de escutar a verdade que exorta. Não é fácil saber por culpa de quem a palavra se furta ao pregador. Porque se o silêncio do pastor às vezes o prejudica, sempre causa dano ao povo, isto é absolutamente certo.

Há ainda outra coisa, irmãos caríssimos, que muito me aflige na vida dos pastores, mas para não pensardes talvez que vos faz injúria aquilo que vou dizer, ponho-me também debaixo da mesma acusação, embora me encontre neste posto não por minha livre vontade, mas impelido por estes tempos calamitosos.

Vimos a nos envolver em negócios externos. Um cargo nos foi dado pela consagração e, na prática, damos prova de outro. Abandonamos o ministério da pregação e, reconheço-o para pesar nosso, chamam-nos de bispo a nós que temos a honra do nome, não o mérito. Aqueles que nos foram confiados abandonam a Deus e nos calamos. Jazem em suas más ações e não lhes estendemos a mão da advertência.

Quando, porém, conseguiremos corrigir a vida de outrem, se descuramos a nossa?

Preocupados com questões terrenas, tornamo-nos tanto mais insensíveis interiormente quanto mais parecemos aplicados às coisas exteriores.

Por isso e com razão, a respeito de seus membros enfraquecidos, diz a Santa Igreja:

Puseram-me de guarda às vinhas; minha vinha não guardei (Ct 1,6). Postos como guardas às vinhas de modo algum guardamos a nossa porque, enquanto nos embaraçamos, com ações exteriores, não damos atenções ao ministério de nossa ação verdadeira”.

Seja a nossa reflexão e oração acompanhadas da prática concreta da fé, pois ela sem obras é morta.

Sendo assim, multipliquemos Orações ao Senhor da Messe, para que nos envie operários que somem conosco na maravilhosa missão de construir o Reino de Deus pelo Filho inaugurado, com a força, ação e sabedoria do Espírito.

Peçamos ao Senhor que também nos fortaleça nas dificuldades de nossa caminhada de fé, para que a vivamos com renovado ardor e entusiasmo, como discípulos missionários Seus, e nossa esperança seja acompanhada das obras de amor, em Sua espera, Ele que veio, vem e virá.

Reflitamos:

- Grande é a messe, poucos são os operários;
- Muitos são os apelos, clamores, e com limites procuramos dar as devidas respostas;

- Ministros ordenados ou não devem ter o coração pleno de misericórdia como o coração d’Aquele que o chamou para não se omitir no multiplicar de gestos de solidariedade;

- Ninguém pode omitir-se no colocar dos carismas a serviço da comunidade, no fortalecimento e florescimento pastoral a serviço da vida e da esperança;
- Na comunidade não há espaço para omissões, recuos, desânimo e indiferença.

Sejamos, portanto, eternos aprendizes da compaixão divina, e não apenas aprendizes, mas verdadeiramente sinais desta a tantos quantos precisarem.

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