quinta-feira, 2 de julho de 2026

Temos sede de Deus

                                                     

Temos sede de Deus

Sejamos iluminados pela Homilia do Presbítero São Jerônimo (séc. V) aos neófitos, à luz do Salmo 41.

“Como o cervo deseja as fontes das águas, assim minha alma te deseja, ó Deus. Como aqueles cervos desejam as fontes das águas, assim os nossos cervos que, afastando-se do Egito e do século, afogaram o faraó em suas águas e mataram todo o seu exército no batismo, depois da morte do diabo, desejam as fontes da Igreja, isto é, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Que o Pai seja dito fonte, encontramos em Jeremias: Afastaram-me a Mim, fonte de água viva, e cavaram para si cisternas rachadas que não podem reter as águas. Sobre o Filho, lemos em certo lugar: Abandonaram a fonte da sabedoria. E sobre o Espírito Santo: Quem beber da água que Eu lhe der, dele brotará uma fonte de água que jorra para a vida eterna, que logo o Evangelista explica tratar-se do Espírito Santo nesta Palavra do Salvador. Prova-se assim claramente que as três fontes da Igreja são o mistério da Trindade.  

A esta Trindade aspira o fiel, aspira o batizado que diz: Minha alma tem sede de Deus, fonte viva. Não quer ver a Deus apenas de leve, mas com todo o ardor, todo abrasado em sede. Com efeito, antes do Batismo, os futuros cristãos falavam entre si e diziam: Quando irei e me apresentarei diante da face de Deus? Agora obtiveram o que pediam: vieram e ficaram diante da face de Deus, apresentaram-se ante o altar, perante o mistério do Salvador.

Admitidos no Corpo de Cristo e renascidos na fonte da vida, proclamam com confiança: Entrarei no lugar do admirável tabernáculo, até a casa de Deus. A casa de Deus é a Igreja, é ela o admirável tabernáculo, nele mora a voz da exultação e do louvor, o ruído dos convivas.

Dizei, portanto, vós que agora, guiados por nós, vos revestistes de Cristo, fostes retirados pela Palavra de Deus do mar deste mundo como um peixinho preso pelo anzol. Em nós, porém, a natureza se transformou, pois enquanto os peixes morrem, quando retirados das águas, a nós os Apóstolos nos tiraram e pescaram do mar deste mundo para que de mortos passemos a vivos. Enquanto estávamos no século, com os olhos nas profundezas, nossa vida se passava no lodo. Depois de erguidos das ondas, começamos a ver o sol, começamos a olhar a verdadeira luz; e deslumbrados pela imensa alegria dizemos a nossa alma: Espera em Deus porque O louvarei, a Ele, salvação de minha face e meu Deus”.

Oremos:

Ó Eterna Trindade Santa, Vos glorificamos,
Vós que sois a fonte genuína e inesgotável da Igreja,
A Divina Fonte de amor, alegria, vida, luz e paz,
E quanto mais precisamos para o encontro da felicidade,
E do sentido para o existir, no tempo presente e
Também para o tempo futuro, o desabrochar da eternidade: céu.

Desejamos ardentemente contemplar Vossa divina face,
Com o coração abrasado de sede, diante de Vosso altar,
Contemplando na Eucaristia Vossa divina presença,
Assim como no silêncio do sacrário,
Pois estais presente no tão sublime Sacramento,
Que adoramos e contemplamos,
Os joelhos dobramos, com nossos lábios, louvamos e suplicamos.

Suplicamos que nos tireis sempre do mar deste mundo,
Atraídos por Vós e por Vossa Palavra e Projeto de Vida,
Aconteça em nós o que dissestes ao Vosso servo:
Fomos retirados pela Palavra de Deus do mar deste mundo,
Como um peixinho preso pelo anzol, e de fato, em nós
A natureza se transformou: “pois enquanto os peixes morrem,
Quando retirados das águas, a nós os Apóstolos nos tiraram e pescaram do mar deste mundo para que de mortos passemos a vivos”.

Então, retirados do mar deste mundo,
Abrasados de sede de modo especial do amor,
Do qual sois, Trindade Santíssima e Eterna,
A única e insubstituível Fonte,
Animados e iluminados pela Vossa presença no Pão Palavra,
Alimentados e revigorados 
pela mesma presença no Pão da Eucaristia,
Viveremos a graça da vocação que nos concedestes:
Reis, sacerdotes e profetas seremos,
Irradiando Vossa luz onde quer que estejamos. Amém.


(1) Liturgia das Horas – Editora Paulus - pp. 392-393.

A Teofania em nossas noites escuras

A Teofania em nossas noites escuras

Teofania: termo que vem da língua grega, composto por dois vocábulos: “Theós” - Deus e “phaneroô” - aparecer.

Deste modo, Teofania é o termo teológico utilizado para descrever alguma manifestação visível e temporária de Deus na forma que Ele quiser. Diferentemente da Encarnação, que é a manifestação permanente.

Deus pode aparecer na forma humana ou através de fenômenos da natureza grandiosos e impressionantes, manifestando às Suas criaturas o Seu Amor, bondade, ternura, compaixão, poder…

Elias experimentou a Teofania na passagem do murmúrio da leve brisa. Deus não estava no furacão que fendia as montanhas, nem no terremoto, nem no fogo (1Rs 19,9-12).

Com Pedro, a Teofania se deu naquela noite em que os discípulos viram o Senhor andando sobre as águas e ficaram cheios de medo.

Naquela noite o Senhor foi confundido com um fantasma (o medo cria fantasmas), mas Pedro ouviu Sua voz dizendo: “Vem”, e com medo se pôs a afundar merecendo do Senhor a advertência:

“Homem fraco na fé, porque duvidaste”, até que diante da presença segura do Senhor arrancasse do profundo de seu coração uma bela profissão de fé” – “Verdadeiramente, Tu és Filho de Deus” (Mt 14,22-33).

Em nossas vidas, podemos experimentar verdadeiras Teofanias, sobretudo nos momentos que nos parecem mais adversos, como se uma eterna noite escura se anunciasse, Deus sempre manifesta Sua presença amorosa, confortadora...

Cremos que o amor e a luz de Deus nos acompanham, de modo que  a noite da escuridão foi iluminada com a aurora da madrugada da Ressurreição!

Como Paulo, enfrentando cada dificuldade com a força do Espírito Santo: “Nós nos gloriamos também nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a perseverança, e a perseverança produz a virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança. E a esperança não desaponta, porque o Amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." (Rm 5, 3-5).

Viver é se colocar sempre a caminho, captando a Teofania em nosso cotidiano, noite e dia; captando o murmúrio da leve Brisa de Deus, que comunica Sua presença e nos garante o “andar sobre as águas”, enfrentando o mar da vida.

Nada pode nos paralisar

                                                  

Nada pode nos paralisar

Com a passagem do Evangelho da quinta-feira da 13ª semana do Tempo Comum (Mt 9,1-8), refletimos sobre o  poder que Jesus tem, não somente de perdoar os pecados da humanidade, bem como de libertá-la das possíveis paralisias físicas, e também de outras com maiores consequências: a paralisia espiritual.

Jesus é a manifestação da misericórdia de Deus que pode ser experimentada de diversos modos, e um deles é através do Sacramento da Penitência com uma sincera, válida, e frutuosa confissão junto a um Presbítero da Igreja.

Há aqueles que não gostam de se confessar, por vezes pela dificuldade de como e o que confessar. Evidentemente, que podemos confessar diretamente com Deus, mas não podemos prescindir e ignorar a forma salutar da confissão individual; quando o penitente reconhece a sua miséria, com seus limites e imperfeições, e curva-se diante da misericórdia de Deus.

Confessar é no mínimo um ato de humildade e de coragem; de colocar-se diante de si mesmo, do outro e de Deus, numa abertura necessária para reconhecer os pecados cometidos, as faltas que possam ter prejudicado os relacionamentos com Deus e com o outro.

Há uma forma de paralisia que brota da ausência do perdão, matando amizades, amores, convivências, lares, projetos, sonhos, conquistas...

Reflitamos sobre a misericórdia de Deus e a nossa realidade incontestável de pecadores que somos, assim como sobre as paralisias das quais temos que ser libertos.

Quanto ao paralítico curado, como não pensar nas múltiplas manifestações de paralisias das quais podemos estar acometidos?

Muitos pelas dificuldades enfrentadas, e a maior delas, a morte de um ente querido, são levados até mesmo à perda do sentido e da razão de viver.

Não podemos paralisar nem mesmo diante da morte de um ente querido, ainda que esposo/esposa, mãe/pai, filho/filha, irmão/irmã, e mesmo um amigo que tenhamos apreço como a um irmão.

Os Apóstolos não ficaram paralisados diante da morte de Jesus, ao contrário, fazendo a experiência de Sua Ressurreição, contemplando Sua nova presença, redimensionaram e reorientaram os passos da Igreja nascente.

A fé na Ressurreição, a força do Ressuscitado rompe as portas fechadas do medo que nos paralisa, fragiliza, e nos faz sucumbir em possíveis mediocridades dos recuos.

Oremos:

Ó Deus, fonte de Misericórdia,
Suplico Vosso perdão,
Reconheço meus pecados, em pensamentos,
palavras, atos e omissão.

Coloco-me em Vossas mãos,
Que Vossa misericórdia penetre as fibras mais íntimas do meu ser.
Renovai-me, Senhor, revesti-me com Vosso Amor.
Fazei-me uma nova criatura, para a Vossa imagem melhor refletir.

Libertai-me, Senhor, de toda e qualquer paralisia,
Que me impeça sinceros compromissos com o Vosso Reino.
Que Vossa Palavra ressoe no mais profundo de mim,
Para que a vocação profética do Batismo se reacenda.

Que me alegre ser Vossa presença, Vossa voz,
A tantos que precisarem de Vossa Palavra ouvir.
Quero tão apenas, Senhor, por Vós ser perdoado e liberto.
E a quem precisar ser um sinal de Vossa misericórdia e poder. Amém! 

Em poucas palavras...

                                                             


Fidelidade e justiça são inseparáveis

“Deus odeia esse egoísmo coletivo, tanto quanto o individual. Ele faz causa comum com os pobres e oprimidos.

A oração destes vai direto a Ele. Não é por acaso que se dão certos desabamentos humanamente imprevisíveis, insuspeitáveis.

Mas atenção! Isso não atinge somente os ‘poderosos’, os ‘grandes’, porém a todos. Ninguém pode explorar impunemente um irmão e acreditar ser fiel a Deus” (1)

 

(1) Comentário da passagem do Missal Cotidiano sobre a passagem do Livro de Amós (Am 8,4-6;9-12)- p. 981

Em poucas palavras...

                                              


O necessário cuidado das pessoas em apuros

“Um irmão perguntou a um ancião: ‘Existem dois irmãos: um deles vive em hesychia, jejuando seis dias seguidos e entregando-se ao duro trabalho, e o outro cuida das pessoas em apuros. Deus aceitará mais prontamente a tarefa de qual deles?’

O ancião lhe disse: ‘Mesmo que aquele que jejua por seis dias se pendurasse pelas narinas, não pode ser igual àquele que cuida das pessoas em apuros’.” (1)

 

(1)   Ditos anônimos dos Pais do Deserto – Editora Vozes – 2023 – n. 355 – p. 235

        (hesychia: silêncio, quietude, paz...)

Medos paralisantes?! Jamais!

                                        

                                                              

Medos paralisantes?!

Jamais!


Medos que nos submetem à inércia.

Medos que nos fazem inoperantes,

Longe daquilo que mais ansiamos: a própria liberdade,

Por falta de objetivos, submersos na mediocridade.

 

Medos paralisantes?!

Jamais!


Medo do congelamento da ética e dos bons princípios,

Que faz sucumbir vorazmente humanidade e planeta.

Medo que rarefaz as mais belas utopias;

Que faz naufragar belos sonhos e fantasias.

 

Medos paralisantes?!

Jamais!


Medos mórbidos que enfraquecem a luta.

Medos sórdidos que fazem perder o brilho da alma.

Medos que nos apequenam e nos fazem decrépitos.

Medos a serem vencidos, se formos intrépidos.

 

Medos paralisantes?!

Jamais!


Medos que desde o ventre nos acompanham,

Enfrentados, cotidianamente, permitem crescimento,

Com a virtude da fé, divina virtude por Deus concedida,

Exorciza o que nos paralisa, tornando bela a vida.

 

Medos paralisantes?!

Jamais!


Medos existem para serem enfrentados.

Se presente a virtude da fé, última palavra, medo, não será!

Se presente a esperança, mais do que superável;

Concretiza-se a caridade mais que desejável: indispensável!

 

Medos paralisantes?!

Jamais!

Com Ele a Palavra, a última Palavra:

“Não tenhais medo!”

(Mt 10,26-33). 



PS: apropriado para reflexão da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 10, 24-33; Mt 14,22-33; Mc 4,35-41; Lc 21,5-19; Jo 6,16-21; Jo 20,19-31) 

Em poucas palavras...

 


Revestidos de Cristo

“Se fosse viva em nós a consciência de estarmos ‘revestidos’ de Cristo, de sermos filhos como ‘o Filho’ (Gl 3,26-27), compreender-nos-íamos melhor a nós mesmos.

Compreenderíamos  a nossa vida como liberdade: liberdade de colocar sobre os nossos ombros a nossa cruz e a cruz dos nossos irmãos, de perdermos também a nossa vida como resposta de amor Àquele que nos ama e deu a vida por nós.” (1)

 

(1)Lecionário Comentado – Editora Paulus – Lisboa – 2011 – pág. 573

 

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