quinta-feira, 2 de julho de 2026

Paraíso: saudade ou compromisso?

                                                             

Paraíso: saudade ou compromisso?

Nas primeiras páginas da Sagrada Escritura, ao refletir sobre o paraíso, perguntamo-nos:

Nostalgia de um passado ou profecia do futuro, ou dom de Deus já concedido ou a ser conquistado?

Quais as intenções do autor bíblico ao escrever estas páginas, ao descrever a obra da criação feita por Deus:

- descreve um mundo diferente, que é exatamente o oposto à realidade conhecida e vivida, ou seja, acena para como deveria ser o mundo conforme o desejo de Deus;

- o "paraíso" é como se fosse o projeto do mundo, cuja realização Deus continua a esperar, confiando-a a livre decisão do homem;

- olhando em torno de si, tem aguda consciência dos males que afligem a vida familiar e social, não podem ser aceitos como situação normal da humanidade;

- pelo realismo de sua fé, está convencido, como toda a Bíblia, de que Deus é bom e justo, quer o bem dos homens e não sua condenação;

- Deus não pode ter querido o mundo assim como é: o homem, sobretudo o homem de fé, não pode dizer: "Paciência, aguentemos! A vida é assim. Deus a quer assim! ".

Retomando a questão acima, creio que a única resposta é que o Paraíso é uma profecia do futuro e algo a ser conquistado.

Relendo as primeiras páginas da Sagrada Escritura, vemos que está em nossas mãos a criação, para o aperfeiçoamento e não a degradação, como vemos em notícias e acontecimentos multiplicados.

Deus coloca em nossas mãos todas as possibilidades de recriarmos um mundo novo. No entanto, não podem falar mais alto o egoísmo, a ganância e o lucro a qualquer preço.

Mais do que nunca, é tempo de retomar a Encíclica "Laudato S'i” escrita pelo Papa Francisco (2015), em que nos apresenta a necessária ecologia integral, que garantirá o devido cuidado de nossa casa comum, com vida plena para todos, no tempo presente e garantindo também para as gerações que hão de vir.



Fonte: Missal Cotidiano – Editora Paulus – p.747

Perdoados e libertos pelo Senhor

                                                               

Perdoados e libertos pelo Senhor

A Liturgia da Palavra, da Sexta-feira da 1ª Semana do Tempo Comum, nos apresenta a passagem do Evangelho (Mc 2,1-12).

Reflitamos sobre o Projeto de Salvação que Deus tem para toda a humanidade, e que se viu realizado na Pessoa de Jesus, que deve ser acolhido como Caminho, Verdade e Vida (Jo 14,6). 

Reflitamos, também,  sobre o perdão dos pecados, a verdadeira doença da humanidade que Jesus combate e derrota ao cuidar da pessoa humana em sua totalidade.

Através d’Ele, a humanidade pode se voltar novamente para Deus (reconciliação), sobretudo se considerarmos que em cada um de nós existe uma profunda necessidade de libertação do exílio de nós mesmos, das nossas múltiplas paralisias, do nosso afastamento de Deus (pecado).

Deste modo, Jesus é a manifestação da bondade, da misericórdia e do Amor divino que liberta o homem de toda paralisia, de todo pecado. Começa a ser desenhado um conflito que o levará à Cruz, por ação e rejeição das autoridades constituídas.

Lembramos que Marcos não faz uma reportagem jornalística, mas uma autêntica catequese sobre a pessoa e a missão de Jesus, que deverá ser por sua vez a missão de todo aquele que O seguir.

Um paralítico é levado por quatro homens e introduzido pelo telhado na casa onde Jesus Se encontrava. Ele será liberto e perdoado manifestando o poder que Jesus possuía, pelo Pai confiado.

Quatro homens significa a humanidade solidária com quem sofre, e vai ao encontro d'Aquele que tem a última Palavra, a resposta, a libertação.

O paralítico sem nome é a mesma humanidade sedenta de vida, liberdade, movimento, dinamismo, enfim, de uma nova possibilidade.

Também revela que a Salvação de Jesus não é somente para a comunidade judaica, mas para a humanidade inteira. Os esforços feitos para que o paralítico chegasse até Jesus retratam os esforços que devemos fazer para chegarmos até Jesus.

Nada pode impedir nosso encontro com a Fonte da Vida e da Liberdade. Tudo se torna nada, para conhecê-Lo, encontrá-Lo. Os esforços são a revelação da ânsia por libertação. Normalmente Jesus Se revela precisamente em nossas fraquezas, temores, cansaços, incertezas.

Ele tem a Palavra e a resposta. Ele é a própria Palavra que cura, liberta, perdoa, porque a plena manifestação do Amor de Deus.

O perdão que Jesus nos concede é a oportunidade do começo de uma nova vida, ao mesmo tempo revela o poder divino que possui, pois é Deus, e somente Deus pode perdoar (aqui o grande conflito: as autoridades reagem dizendo tratar-se de blasfêmia).

A grande mensagem catequética do Evangelista: Jesus tem autoridade para trazer a vida em plenitude. N’Ele, Deus Se revelou como misericórdia, bondade, amor e perdão.

A humanidade que percorre diariamente as estradas de sofrimento e angústia encontra em Jesus uma resposta, uma palavra de Libertação e Vida plena. Somente Ele pode colocar a humanidade numa órbita de vida nova. Sem Ele nada pode ser feito.

O pecado redimido deixa a lembrança no coração do pecador perdoado, não para imobilizá-lo, mas para que relembre sempre a história de um amor vivenciado, de uma nova oportunidade encontrada. 

Recorda-se como uma História de Salvação, como que um sigilo de um amor que foi e continua a ser maior do que qualquer enfermidade, qualquer pecado, quaisquer deslizes ou infidelidades.

O perdão purifica e renova. No coração de quem foi perdoado, por um pecado cometido, fica a  lembrança do amor vivido; força impulsionadora para um novo modo de ser e agir, para a não repetição indesejável das mesmas faltas.

Reflitamos:

- Como testemunhamos Jesus e Seu poder?
- Quem nós conduzimos até Jesus?
- Quem recebe da Igreja a solidariedade necessária para o encontro da vida digna e plena?

- Procuramos superar a cada instante o perigo de uma forma de vida cômoda, instalada, medíocre?

- Testemunhamos nossa fé com coragem para a transformação em todos os níveis?

- Quais são as paralisias que nos roubam o compromisso com a construção do Reino?

- Quais são os pecados assumidos, para que confessados diante da misericórdia de Deus mereçam o perdão?

- Antes de nosso pedido de perdão chegar até Deus, quais são os esforços que fazemos para alcançá-lo?

Deste modo, por meio de palavras e gestos, Jesus ama, salva, perdoa, liberta.

Concluindo:
A Face misericordiosa de Deus Se revela em Sua ternura, solidariedade, fidelidade, perdão, liberdade e vida plena para todos.

PS: Passagem paralela - Evangelho de Mateus (Mt 9,1-8)

“Ó abismo de indizível caridade!”

                                                              

“Ó abismo de indizível caridade!”


Sejamos enriquecidos por este trecho do “Diálogo sobre a Divina Providência”, escrito por Santa Catarina de Sena (séc. XIV):

“Meu dulcíssimo Senhor, volta complacente Teus misericordiosos olhos para este povo e para o Corpo místico de Tua Igreja; porque maior glória advirá a Teu santo nome por perdoar a tamanha multidão de Tuas criaturas do que só a mim, miserável, que tanto ofendo a Tua majestade.

Como poderei eu consolar-me, vendo-me possuir a vida, se Teu povo está na morte? E vendo em Tua diletíssima Esposa as trevas dos pecados brotadas de minhas faltas e das outras criaturas Tuas?

Quero, pois, e para cada um peço aquela inestimável caridade que Te levou a criar o ser humano à Tua imagem e semelhança. Que coisa ou pessoa foi o motivo de colocares o ser humano em tão grande dignidade? Sem dúvida, só inapreciável amor que Te fez olhar em Ti mesmo Tua criatura de quem Te enamoraste. Mas reconheço abertamente que pela culpa do pecado com justiça perdeu a dignidade que lhe deras.

Tu, porém, movido pelo mesmo amor, desejando por graça reconciliar contigo o gênero humano, nos deste a Palavra de Teu Filho Unigênito. Verdadeiro reconciliador e mediador entre Ti e nós e também nossa justiça, que castigou e carregou em si todas as nossas injustiças e iniquidades, em obediência ao que Tu, Pai eterno, lhe ordenaste, ao determinar-lhe assumir nossa humanidade.

Ó abismo de indizível caridade! Que coração há tão duro que continue impassível sem se partir por ver a máxima sublimidade descer à máxima baixeza e abjeção, que é a nossa humanidade?

Nós somos Tua imagem e Tu, nossa imagem, pela união que realizaste com o ser humano, velando a eterna Divindade com a mísera nuvem e infecta matéria da carne de Adão.

Donde vem tudo isto? Unicamente Teu inefável amor está em causa. É, pois, por este inestimável amor que humildemente imploro Tua majestade, com todas as forças de minha alma, que concedas gratuitamente às Tuas miseráveis criaturas Tua misericórdia.”

Com a Doutora da Igreja, contemplamos o abismo de indizível caridade a nós revelado por Jesus que vive na plena comunhão Trinitária de amor, com o Pai e o Espírito Santo.

Não apenas contemplamos, mas por meio de Jesus, nosso Senhor, também fomos inseridos e mais que isto, mergulhados neste mar infinito de misericórdia, por Sua Morte e Ressurreição, e por meio desta nos foi comunicando Seu Espírito, com aquele sopro que nos descreve o Evangelista João.

Contemplamos e suplicamos, que Deus nos conceda, a nós reconhecidamente miseráveis criaturas, a infinita misericórdia, porque tão somente por esta enriquecidos e envolvidos, poderemos também sermos misericordiosos como o Pai (Lc 6,36).

Oportuno para que também aprofundemos sobre as obras de misericórdia corporais (Dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar pousada aos peregrinos; assistir aos enfermos; visitar os presos; enterrar os mortos); espirituais(Dar bom conselho; ensinar os ignorantes; corrigir os que erram; consolar os aflitos; perdoar as injúrias; sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo; rogar a Deus por vivos e defuntos.).

Num mundo marcado por guerras, conflitos, violências, é preciso redescobrir, anunciar e estabelecer relações de misericórdia, para que, como miseráveis criaturas, reaprendamos sempre a construir a civilização da misericórdia, que se notabilizará concretamente em relações expressivas de amor e respeito à vida humana e de todo o planeta. 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A Palavra e as fibras mais íntimas do nosso ser...

                                                             

A Palavra e as fibras mais íntimas do nosso ser...

A Liturgia da quarta-feira da 13ª Semana do Tempo Comum nos apresentará a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 8,28-34), e refletimos sobre o itinerário da Palavra de Deus:

“A Palavra de Deus pede para entrar em nossa vida até às fibras mais íntimas do nosso ser, e para se exprimir em amor e procura do bem.

Ela chama-nos a nos entregarmos a isso com todas as nossas forças e com a humildade de sabermos que não temos pretensões a alegar, mas só misericórdia a receber. [...]

O difícil texto do Evangelho descreve o confronto da Palavra da Salvação, que é Jesus, com o mundo das trevas, que manifesta todo o seu poder destruidor. [...]

Jesus está em terra pagã, e não chegou ainda o momento para os pagãos O receberem. Nós podemos ser hoje esses pagãos: está o nosso coração como a terra deles, hostil à Palavra?” (1)

Nisto consiste o itinerário da Palavra lida, ouvida, acolhida, meditada e na vida encarnada: penetrar até as fibras mais íntimas do nosso ser, somente assim ela volta para Deus produzindo os frutos que Ele tanto espera.

A vida é breve, a Palavra proclamada abundante. A sua penetração nas fibras mais íntimas de nosso ser, dependerá de cada um e cada uma.

Oremos:

“Ó Deus, a Vossa Palavra é luz verdadeira para os nossos passos, alegria e paz para os nossos corações; concedei que, iluminados pelo Vosso Espírito, a acolhamos com fé viva, para descobrirmos na escuridão dos acontecimentos humanos os sinais da Vossa presença. Amém!”


(1) Lecionário Comentado - Editora Paulus - Lisboa - pág. 640. 

A Igreja do Senhor

                                                             

A Igreja do Senhor

Reflexão à luz da passagem da Epístola aos Hebreus (Hb 3,7-14).

Assim lemos no Comentário do Missal Cotidiano:

“A tentação de considerar a fé em Deus como uma espécie de apólice de seguro: contra as desgraças e doenças, contra as injustiças e afrontas, contra as calamidades naturais, contra as próprias enfermidades espirituais.

Deus deve intervir para livrar o mundo das desgraças, punir os maus que não O honram e oprimem os Seus fiéis; deve intervir para livrar das insídias da dúvida e do pecado aqueles que O invocam.

A tentação de considerar a Igreja como um lugar de refúgio seguro, de onde se pode tranquilamente escutar o fragor das ondas que tragam os infelizes que estão ‘fora do porto’”. (1)

Refletindo...

Não se pode conceber a Igreja como uma “apólice de seguro” ou “lugar de refúgio seguro”.

Outra questão importante: como conceber uma Igreja em contínua busca da verdade, que se renova, em contínuo esforço de conversão de suas estruturas, para ser sinal de salvação para toda a humanidade, como assim quis o Senhor?

Retomemos o que nos disse o Papa Francisco, em sua Exortação Evangelii Gaudium:

Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos” (EG n. 49).

Este é o caminho que devemos trilhar, conduzidos e assistidos pelo Espírito do Senhor, que não nos permite sentir qualquer espécie de orfandade divina, na fidelidade a Jesus e à Boa-Nova do Reino de Deus por Ele inaugurado.

Temos plena confiança de que Deus caminha conosco, e que, mesmo nas provações e dificuldades que tenhamos que enfrentar, Ele não Se faz ausente, como experimentaram os discípulos de Emaús (Lc 24), e as primeiras comunidades, em tempos difíceis de perseguição e martírio e ao longo de toda a história da Igreja, e tantos outros exemplos que nos encorajam no bom combate da fé.

Podemos rezar como o Salmista, e afirmar que Deus é nosso rochedo, nossa fortaleza, nosso libertador (Sl 18), mas não nos tira do mundo, não nos infantiliza.

Desde o princípio, quando Jesus chamou os discípulos, exigiu renúncias cotidianas necessárias, acompanhadas do carregar da cruz, para então, com coragem e liberdade, segui-Lo, anunciá-Lo e testemunhá-Lo até os confins do mundo.

Nem apólice de seguro, nem lugar de refúgio, mas uma barca fazendo a travessia no turbulento mar da vida, com coragem, pois com o Senhor não naufragaremos nos mares das adversidades, tristezas, infidelidades, iniquidades.

Portanto, urge que atravessemos o mar, confiantes na Palavra e Presença do Senhor, sobretudo quando d’Ele nos alimentamos no Sacramento dos Sacramentos: a Eucaristia.

(1) Missal Cotidiano - Editora Paulus - p.631

Em poucas palavras...

                                               


A necessária humildade

"Os anciãos costumavam dizer que a coroa do monge é a humildade." (1)

 

 

(1) Ditos anônimos dos Pais do Deserto - Editora Vozes - 2023 - n. 98 - p. 89

Em poucas palavras...

                                          


Atitude exemplar de desapego

“Alguém implorou a um ancião que aceitasse dinheiro para suas próprias necessidades, mas ele não estava disposto a aceitar porque tinha o suficiente com o trabalho de suas mãos.

Como a pessoa persistiu implorando que o aceitasse para as necessidades dos que não tinham o suficiente, o ancião replicou:

‘Esta é uma dupla vergonha: Eu aceito sem necessitar e também me orgulho por doar o que pertence a outro’”. (1)

 

(1) Ditos anônimos dos Pais do Deserto – Editora Vozes – 2023 – n. 258 – p. 183

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