quinta-feira, 18 de junho de 2026

Toda correção deve ser feita à luz da Caridade!

Toda correção deve ser feita à luz da Caridade!

Sejamos iluminados pela reflexão feita pelo Presbítero São Vicente Ferrer, que muito ajudará a quem tenha diante de si pessoas a educar, a corrigir...

“Nas pregações e exortações, utiliza palavras simples, em tom de conversa, quando se tratar de explicar os deveres particulares.

Na medida do possível, serve-te de exemplos, para que o pecador culpado de determinada falta se sinta interpelado como se a pregação fosse só para ele. 

No entanto, na tua maneira de falar deve transparecer claramente que as advertências não procedem de um espírito soberbo ou irascível, mas de sentimentos de caridade e amor patente, como um pai que sofre ao ver um filho que erra, gravemente enfermo ou caído no fundo do poço, e se esforça por salvá-lo e livrá-lo do perigo e cuidar dele como se fosse uma mãe.

Faze sentir ao pecador tua alegria pelo seu progresso e pela glória que o espera no paraíso.

Este modo de proceder costuma ser proveitoso para os ouvintes. Porque falar em geral sobre as virtudes e os vícios não atrai muito o interesse de quem te escuta.

Também nas confissões, quando confortais os fracos com delicadeza ou quando advertes com severidade os obstinados no mal, mostra sempre sentimentos de amor para com o pecador sinta a todo o momento que tuas palavras são ditadas unicamente pelo amor sincero.

Por isso, as palavras carinhosas e mansas antecedam sempre as que atemorizam.

Se desejas, portanto, ser útil ao próximo, recorre primeiro a Deus de todo o coração. Pede-Lhe com simplicidade que digne infundir em ti aquela caridade que é o compêndio de todas as virtudes e a melhor garantia de êxito nas tuas atividades”

Como vimos, nenhuma correção será frutuosa se não brotar de um coração orante e de profunda sintonia com o querer de Deus revelado em Sua Palavra!

Da mesma forma se não for à luz da caridade que, como belamente disse São Vicente, é o compêndio de todas as virtudes e a melhor garantia de êxito em tudo que fazemos...

Sem dúvida ainda temos um longo caminho a percorrer em matéria de educação, reconciliação, correção fraterna...

Por isto a Deus supliquemos sempre Sua ajuda indispensável:

Sabedoria, mansidão, coragem, firmeza...
Ó Luz Eterna! Amém!



PS: Liturgia das Horas pp. 1522-1523 – Vol. II

Ética, por onde andas?

Ética, por onde andas?

De tanto ouvir falar da “ética”, um homem saiu pela cidade a procurá-la. Andou por palácios, casas nobres e outras mais simples; vagueou por ruas e becos, praças e avenidas; visitou igrejas, escolas, universidades, inúmeras ONGs, entidades, enfim, em todos os lugares possíveis.

Inquieto, procurava a tal “ética”. Em alguns lugares a viu mais explicitamente, em outros como que jazendo no leito de morte, em cinzas. Teve ainda lugares que lhe disseram que há muito ela não estava mais ali, porque atrapalhava negociações ilícitas, impedindo os conchavos que possibilitariam lucros ainda maiores.

Em sua procura, um dia foi questionado: - “Não sabemos o que é esta tal de ‘ética’, falam tanto dela, mas nunca a vimos por aqui. Ela existe de fato ou é apenas algo entre tantas coisas que dizem existir, mas não fazem parte do enredo da história da humanidade?”

Instigado, revisitou seus escritos e encontrou uma definição preliminar: “ética é o conjunto de princípios que norteiam, orientam o agir das pessoas, tendo em conta a prática da liberdade, da vontade e responsabilidade.”

Num dicionário, encontrou a seguinte definição: “Ética – grego ethike, de ethikós – que diz respeito aos costumes... Diferentemente da moral, a ética está mais preocupada em detectar os princípios de uma vida conforme a sabedoria filosófica, em elaborar uma reflexão sobre as razões de se desejar a justiça e a harmonia e sobre o meio de alcançá-las” (Japiassú – Ed. Zahar).

Continuou a refletir sobre o conceito de ética e sua presença nas relações entre as pessoas, e concluiu que, sem ética, sem princípios convincentes e autênticos, a justiça e a harmonia jamais poderão ser alcançadas, pois ficam comprometidas a liberdade, as vontades e as responsabilidades, e que, portanto, é preciso uma ética corresponsável, depurada de interesses mesquinhos, do contrário teremos o perigo da desvalorizarão e banalização da vida, e, consequentemente, a promoção da cultura da morte.

Concluiu ainda que é preciso repensar a ética, o conjunto de seus princípios, para que se construa uma civilização do amor, promovendo a cultura da vida e da paz, num permanente aprendizado para humanar as relações entre nós.

Mas como ressuscitar a ética? Como tirar da pauta das discussões e  fundar novas e frutuosas relações? Ele encontrou algumas respostas.

Primeiro, é preciso palmilhar por veredas edificantes da vida, as veredas da esperança, do bem e da solidariedade, impondo silêncio às paixões avassaladoras, normalmente norteadas pelos pecados capitais (soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça).

Segundo, é preciso ter coragem de rever quais os valores que orientam nossas decisões, escolhas, caminhos, passos; rever se estes tornam a vida mais bela, humana, se nos tornam mais fraternos, solidários, promotores da defesa da vida, desde a sua concepção até o seu declínio natural.

Terceiro, professando uma fé ou não, que a ética seja a expressão do pensar, sentir e agir de pessoas de boa vontade, que promovem a paz, sem a violação da vida e o sacrifício de inocentes, sem fundamentalismos e radicalismos.

E depois de refletir as conclusões daquele homem, também nós podemos fazer a nossa própria avaliação, percebendo que assim como o sangue nada pelas veias para que a vida aconteça; assim como a linfa vital é imprescindível para o vigor e êxito da planta com suas flores e frutos; também a ética deve se fazer presente em todas as instâncias (espaços de decisões, campos diversos dos saberes e poderes), para que a vida não seja vilipendiada, mas promovida, amada, dignificada e, deste modo, possamos redescobrir e construir o Paraíso perdido, sem fúnebre saudade, mas com renovado compromisso e esperança.

Aquele homem visitou sim lugares sem conta, mas, por fim, viu que antes de tudo era preciso ter coragem de visitar a si mesmo, e ver de que modo a ética se fazia presente em sua vida, em suas decisões (família, trabalho, comunidade...).

E como cristãos, temos que ter a coragem de nos revisitar, e reconhecer, como morada do Espírito que somos, quais são os princípios éticos que norteiam nossa vida.

Como sal da terra e luz do mundo, há um princípio que não podemos jamais olvidar ou negligenciar: o Mandamento do amor a Deus, que se expressa concretamente no amor ao próximo. E tão somente assim, irradiaremos no mundo, por vezes obscuro e sombrio, um pouco mais de vida e luz, que emanam da fé que professamos e testemunhamos.

A mais bela Oração o Senhor nos ensinou

                                                             

A mais bela Oração o Senhor nos ensinou

Reflexão sobre o Tratado da Oração do Senhor, escrito peloo Bispo e Mártir São Cipriano (Séc. III), oportuno para que melhor rezemos e vivamos a Oração que o Senhor nos ensinou, o "Pai-Nosso".

“Antes do mais, o Doutor da paz e Mestre da unidade não quis que cada um orasse sozinho e em particular, como rezando para si só. De fato, não dizemos: Meu Pai que estais no céu; nem: Meu pão dai-me hoje.

Do mesmo modo, não se pede só para si o perdão da dívida de cada um ou que não caia em tentação e seja livre do mal, rogando cada um para si.

Nossa Oração é pública e universal e quando oramos não o fazemos para um só, mas para o povo todo, já que todo o povo forma uma só coisa.

O Deus da paz e Mestre da concórdia, que ensinou a unidade, quis que assim orássemos um por todos, como Ele em Si mesmo carregou a todos.

Os três jovens, lançados na fornalha ardente, observaram esta lei da Oração, harmoniosos na prece e concordes pela união dos espíritos.

A firmeza da Sagrada Escritura o declara e, narrando de que maneira eles oravam, apresenta-os como exemplo a ser imitado em nossas preces, a fim de nos tornarmos semelhantes a eles.

Então, diz ela, os três jovens, como por uma só boca, cantavam um hino e bendiziam a Deus. Falavam como se tivessem uma só boca e Cristo ainda não lhes havia ensinado a orar.

Por isto a Palavra foi favorável e eficaz para os orantes. De fato, a Oração pacífica, simples e espiritual, mereceu a graça do Senhor.

Do mesmo modo vemos orar os Apóstolos e os discípulos, depois da Ascensão do Senhor. Eram perseverantes, todos unânimes na Oração com as mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e Seus irmãos.

Perseveravam unânimes na Oração, manifestando tanto pela persistência como pela concórdia de sua Oração, que Deus que os faz habitar unânimes na casa, só admite na eterna e divina casa aqueles cuja Oração é unânime.

De alcance prodigioso, irmãos diletíssimos, são os Mistérios da Oração dominical! Mistérios numerosos, profundos, enfeixados em poucas palavras, porém, ricas em força espiritual, encerrando tudo o que nos importa alcançar!

Rezai assim, diz Ele: Pai nosso, que estais nos céus

O homem novo, renascido e, por graça, restituído a seu Deus, diz, em primeiro lugar, Pai!, porque já começou a ser filho. Veio ao que era Seu e os Seus não O receberam. A todos aqueles que O receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, aqueles que creem em Seu nome. 

Quem, portanto, crê em Seu nome e se fez filho de Deus, deve começar por aqui, isto é, por dar graças e por confessar-se filho de Deus ao declarar ser Deus o seu Pai nos céus.” (1)

O “Pai-Nosso”, a Oração que o Senhor nos ensinou, e que em todas as Missas rezamos. 

Vejamos as diferentes opções de motivações proferidas pelo Sacerdote antes de rezá-lo:

- “Rezemos, com amor e confiança, a Oração que o Senhor Jesus nos ensinou: Pai nosso...”

- "Somos chamados filhos de Deus e realmente o somos, por isso, podemos rezar confiantesPai nosso..."

- “O Senhor nos comunicou o Seu Espírito. Com a confiança e a liberdade de filhos e filhas, digamos juntos: Pai nosso...”

- O banquete da Eucaristia é sinal de reconciliação e vínculo de união fraterna. Unidos como irmãos e irmãs, rezamos, juntos, como o Senhor nos ensinou: Pai nosso..."

- “Guiados pelo Espírito de Jesus e iluminados pela Sabedoria do Evangelho, ousamos dizer: Pai nosso...”

- "Guiados pelo Espírito Santo, que ora em nós e por nós, elevemos as mãos ao Pai e rezemos juntos a oração que o próprio Jesus nos ensinou: Pai nosso..."

“Obedientes à Palavra do Salvador e formados por Seu divino ensinamento, ousamos dizer: Pai nosso...”

Como vemos, a Oração do "Pai-Nosso" é pública e universal, de modo que, ao rezá-la, aprofundamos nossa relação de comunhão com Deus e com o próximo.

Sendo assim, seja a nossa Oração a Deus elevada pacífica, simples e espiritual, bem como sejamos perseverantes na Oração como eram os Apóstolos (At 2,42-47).

Todas as motivações nos levam a rezar com a alma, com o coração, com a vida, em plena comunhão com o Espírito, na fidelidade ao que o Senhor Jesus nos ensinou, para a vontade do Pai, na terra e nos céus, realizar, em tudo e acima de tudo. Amém. 


(1) Liturgia das Horas - Vol. III - Tempo Comum - pp. 320-321

Oremos com intensidade e assiduidade

                                                      

Oremos com intensidade e assiduidade

Sejamos enriquecidos pelo Tratado sobre Caim e Abel, escrito pelo Bispo e Doutor da Igreja, Santo Ambrósio (séc. IV), em que nos fala sobre a oração.

“’Oferece a Deus um sacrifício de louvor, cumpre os teus votos ao Altíssimo’. Louvar a Deus é o mesmo que fazer votos e cumpri-los. Por isso, foi-nos dado a todos como modelo aquele samaritano que, ao ver-se curado da lepra juntamente com outros nove leprosos que obedeceram à Palavra do Senhor, retornou ao encontro de Cristo, e foi o único que glorificou a Deus, agradecendo-Lhe. Dele disse Jesus: ‘Somente este estrangeiro voltou para dar glória a Deus?’ E lhe disse: ‘Levanta-te e vai, tua fé te salvou’.

Com isto o Senhor em seu divino ensinamento te mostrou, de um lado, a bondade de Deus Pai e, por outro, te insinuou a conveniência de orar com intensidade e assiduidade: mostrou-te a bondade do Pai, revelando-te como Ele Se compraz em conceder-nos os Seus bens, para que aprendas com isso a pedir bem aquele que é o próprio bem; mostrou-te a conveniência de orar com intensidade e assiduidade, não para que repitas sem cessar mecanicamente fórmulas de oração, mas para que adquiras a virtude de orar frequentemente. Porque, repetidamente, as longas orações vão acompanhadas de vanglória, e a oração seguidamente interrompida tem como companheira a negligência.

Portanto, o Senhor também te exorta a que tenhas o máximo interesse em perdoar os outros quando tu pedes o perdão de tuas próprias culpas; com isso, tua oração se torna recomendável por tuas obras. O apóstolo afirma, também, que se deve orar primeiro afastando as controvérsias e a ira, para que desta forma a oração se encontre acompanhada da paz de espírito e não se misture com sentimentos alheios a oração. Ademais, também nos é ensinado que convém orar em todos os lugares: assim afirma o Salvador, quando diz, falando da oração: ‘Entra no teu quarto’.

Porém, entende-o bem, não se trata de um quarto rodeado de paredes, no qual o teu corpo se encontra fechado, mas sim daquela morada que existe em teu próprio interior, no qual residem os teus pensamentos e moram os teus desejos. Este quarto para a oração vai contigo a todos os lugares, em toda a parte onde te encontres continua sendo um lugar secreto, cujo só e único árbitro é Deus. Te é dito também que deves orar especialmente pelo povo de Deus, ou seja, por todo o corpo, por todos os membros de tua mãe, a Igreja, que vem a ser como um sacramento do mútuo amor. Se somente pedes por ti, tua também serás o único a suplicar por ti. E, se todos suplicam somente por si mesmos, a graça que o pecador alcançará será, sem dúvida, menor que a que obteria do conjunto dos que intercedem se estes forem muitos. Mas, se todos pedem por todos, também se deve dizer que todos suplicam por cada um.

Concluamos, portanto, dizendo que, se rezas somente por ti, serás, como já dissemos, o único intercessor em teu favor. Mas, se tu rezas por todos, também a oração de todos te aproveitará, pois tu também formas parte do todo. Desta maneira, alcançarás uma grande recompensa, pois a oração de cada membro do povo se enriquecerá com a oração de todos os outros membros. Nisto não existe nenhuma arrogância, mas uma grande humildade e um fruto mais copioso.”(1)

Algumas reflexões à luz do Tratado:

- a importância da oração de louvor, gratidão pelas graças e curas que Deus nos concede todos os dias, pois “Louvar a Deus é o mesmo que fazer votos e cumpri-los”;

orar com intensidade e assiduidade, confiante na bondade do Pai;

- Deus não somente nos concede todos os bens, mas o próprio Bem, Seu Filho;

- não podemos repetir mecanicamente fórmulas de oração, mas devemos adquirir a virtude de orar frequentemente;

- a advertência sobre as orações: não devem ser longas orações, pois vão acompanhadas de vanglória; de outro lado, a oração seguidamente interrompida tem como companheira a negligência. Nem longas nem interrompidas seguidamente para que sejam autênticas;

- à luz das palavras do Apóstolo Paulo, exorta para que oremos  primeiro afastando as controvérsias e a ira, para que, desta forma, a oração se encontre acompanhada da paz de espírito e não se misture com sentimentos alheios a oração;

- convém orar em todos os lugares, como afirmou o Salvador, quando diz, falando da oração: “Entra no teu quarto”. Seja entendido o “quarto”, não quarto rodeado de paredes, no qual o corpo se encontra fechado, mas daquela morada que existe no próprio interior, no qual residem os pensamentos e desejos;

- devemos orar por toda a Igreja, como “Sacramento do mútuo do amor” de um pelos outros; e frutos copiosos serão para todos.

Avaliemos a qualidade e autenticidade de nossas orações, e o quanto, de fato, elas expressam sincero e frutuoso relacionamento com Deus, como tão bem nos apresentou o Bispo.

Oremos com intensidade e assiduidade, em todo o tempo e em todo o lugar; ora pedindo, ora agradecendo a Deus por todos os bens que Ele nos concede, de modo especial pelo Bem Maior, Seu Filho, e com Ele, o sopro e a presença do Espírito Santo. Amém.

(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes - p.734

Rezando com os Salmos - Sl 59(60)

 




“Eu venci o mundo”

“–1 Ao maestro do coro. Segundo a melodia
‘O lírio do mandamento’. Poema de Davi. Para ensinar.
- 2 Quando ele partiu contra os arameus da Mesopotâmia
E os arameus de Soba; e quando Joab, na volta,
venceu os edomitas no vale do Sal, doze mil homens. 

=3 Rejeitastes, ó Deus, Vosso povo
e arrasastes as nossas fileiras;
Vós estáveis irado: voltai-vos!
–4 Abalastes, partistes a terra,
reparai suas brechas, pois treme.

–5 Duramente provastes o povo,
e um vinho atordoante nos destes.
–6 Aos fiéis um sinal indicastes,
e os pusestes a salvo das flechas.
–7 Sejam livres os Vossos amados,
Vossa mão nos ajude: ouvi-nos!

=8 Deus falou em Seu santo lugar:
'Exultarei, repartindo Siquém,
e o vale em Sucot medirei.
=9 Galaad, Manassés me pertencem,
Efraim é o meu capacete,
e Judá, o meu cetro real.

=10 É Moab minha bacia de banho,
sobre Edom eu porei meu calçado,
vencerei a nação Filisteia!'

–11 Quem me leva à cidade segura,
e a Edom quem me vai conduzir,
–12 se Vós, Deus, rejeitais Vosso povo
e não mais conduzis nossas tropas?

– Dai-nos, Deus, Vosso auxílio na angústia;
nada vale o socorro dos homens!
–13 Mas com Deus nós faremos proezas,
e Ele vai esmagar o opressor.”

O Salmo 59(60) é uma oração depois de uma derrota:

“O salmista lamenta uma dolorosa derrota nacional e exprime confiança no socorro divino, relembrando um antigo oráculo, no qual Deus Se manifesta como dominador sobre os povos vizinhos.” (1)

Jesus na passagem do Evangelho também nos exorta para que tenhamos coragem, e n’Ele, coloquemos toda nossa confiança e esperança:

“Eu vos disse essas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo tereis aflições, mas tende coragem! Eu venci o mundo! (Jo 16,33).

Nisto consiste a vida cristã: um permanente combate, o bom combate da fé, que o Apóstolo Paulo nos fala na passagem da Carta a Timóteo (cf. 2 Tm 4,5-8;17-18). Amém.

 

(1) Comentário da Bíblia Edições CNBB – p.775

Abertos à novidade do Espírito

 


Abertos à novidade do Espírito

“Não andeis preocupados acerca de vossa vida, com o que haveis de comer ou de beber, nem acerca de vosso corpo, com o que haveis de vestir... Não vos inquieteis... Os pagãos é que se preocupam com estas coisas. O Vosso Pai celeste sabe que precisais de tudo isso” (1)

Assim lemos no Missal Cotidiano sobre a passagem do Livro do Êxodo (2)(Ex 16,1-5.9-15):

“De um lado, o medo do novo, do imprevisto; de outro, o amor à vida calma, o desejo de não mudar as coisas existentes... podem entorpecer nossa fé que, pelo contrário, é movimento, é dinamismo, é procura, porque é vida.

Novas formas de catequese, novos modos de viver a liturgia, novas orientações na comunidade paroquial... tudo pode ser motivo de surpresa, de confusão.

É natural. Mas depois deve vir a reflexão, o diálogo, para se tomar consciência do porquê das coisas e esforçar-se por entrar no novo espírito.

Há risco quando se mudam as coisas, mas é maior o risco quando nada se quer mudar.” (2)

Desta forma, compreendemos a exortação feita pelo Papa Francisco, na Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho, sobre a necessária e inadiável renovação eclesial:

“Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo atual que à auto-preservação.

A reforma das estruturas, que a conversão pastoral exige, só se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais missionárias, que a pastoral ordinária em todas as suas instâncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de «saída» e, assim, favoreça a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade. Como dizia João Paulo II aos Bispos da Oceania, «toda a renovação na Igreja há de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial»” (3)

Oremos:

Senhor Deus, somos Teu povo peregrino da esperança, e diante dos muitos desafios que encontramos na caminhada de fé, dai-nos coragem para enfrentá-los, com abertura necessária ao sopro do Espírito, para que ouçamos e cumpramos Teus desígnios, com a coragem para as mudanças que se fizerem necessárias.

Senhor Deus, cremos na Palavra do Teu Filho, que nos ensina a confiar em Tua divina providência, sem jamais nos omitirmos dos sagrados compromissos que se fizerem presentes, como Igreja que somos, a fim de que ela seja um sopro de vida e esperança, para a toda a humanidade.

Senhor Deus, com o Teu Espírito, vivamos a missão a nós confiada pelo Teu Filho, quando entre nós, Ele que passou fazendo o bem e socorrendo todos os que eram prisioneiros do mal; e ainda hoje,  como bom samaritano, vem ao encontro de todos os que sofrem no corpo ou no espírito, e derrama em suas feridas, o óleo da consolação e o vinho da esperança.

Senhor Deus, derramai em nós a Tua graça, para que quando formos  submergidos na noite da dor, ou se tivermos que a travessia do árido deserto do cotidiano atravessar, vislumbrar a Luz Pascal de Teu Filho morto e ressuscitado por meio de Sua Palavra, que a nós Se dá em Alimento, no Pão da Eucaristia. Amém. 

 

(1) Cf. Mt 6,25-32

(2)Comentário do Missal Cotidiano – Editora Paulus - p.1055

(3)Evangelii Gaudium –(2013) – parágrafo n. 27

Discurso do Santo Padre à Cúria Romana na apresentação de votos natalícios

                                                      

Discurso do Santo Padre à Cúria Romana
na apresentação de votos natalícios

“E o Verbo fez-Se homem e veio habitar conosco
(Jo 1, 14)

Alguns apontamentos, a partir do Discurso do Santo Padre ao apresentar votos natalícios à Cúria Romana, em dezembro de 2019, tendo como inspiração o versículo bíblico acima.

Depois de reconhecimento e algumas saudações, inicia a mensagem falando da oportunidade do encontro para o momento de comunhão e reforço da fraternidade enraizado no amor de Deus que Se revela no Natal.

Citando Matta el Meskin, fala-nos do nascimento de Cristo, como um testemunho mais forte e eloquente de quanto Deus amou o homem, com um amor pessoal; e por isto tomou um corpo humano, ao qual Se uniu e assumiu para sempre. Este nascimento é, em si mesmo, uma “aliança de amor”’, estipulada para sempre entre Deus e o homem.

Completa com a citação de Clemente de Alexandria – Para isto Ele (Cristo) desceu; para isto Se revestiu de humanidade; para isto sofreu voluntariamente o que padecem os homens, para que, depois de Se ter confrontado com a nossa fraqueza que amou, pudesse em troca confrontar-nos com a sua força”.

Segundo o Papa, por causa deste amor, a troca das “Boas-Festas” natalícias é igualmente ocasião para acolhermos de modo novo o seu mandamento: «Que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35)

Lembra o Papa que  Jesus não nos pede para O amarmos em resposta ao Seu amor por nós; mas, sim, para nos amarmos uns aos outros com o Seu próprio amor, como tão bem expressou o Santo Cardeal Newman:

– Oxalá o Natal nos encontre cada vez mais semelhantes Àquele que, neste tempo, Se tornou menino por nosso amor; que em cada novo Natal nos encontre mais simples, mais humildes, mais santos, mais caridosos, mais resignados, mais alegres, mais repletos de Deus... Este é o tempo da inocência, da pureza, da mansidão, da alegria, da paz”

Para isto, é preciso mudanças, buscando a perfeição como resultado de muitas transformações, e não se trata procurar a mudança por si mesma nem de seguir as modas, mas de ter a convicção de que o desenvolvimento e o crescimento são características da vida terrena e humana, enquanto no centro de tudo, segundo a perspectiva do crente, está a estabilidade de Deus; e a mudança implica em conversão, em transformação interior, como afirmava Newman.

Sobretudo quando vivemos um contexto de mudança de época, e não apenas época de mudanças: – “Muitas vezes acontece viver a mudança limitando-se a envergar um vestido novo e, depois, permanecer como se era antes. Lembro-me da expressão enigmática que se lê num famoso romance italiano: «Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude» (Il Gattopardo, de Giuseppe Tomasi de Lampedusa)”.

Retoma a questão sobre a implementação da reforma da Cúria Romana, reiterando que esta reforma nunca teve a presunção de proceder como se nada tivesse existido antes; pelo contrário, procurou-se valorizar quanto de bom se fez na complexa história da Cúria, consciente de que a tradição não é estática, mas dinâmica, como dizia G. Mahler: a tradição é a garantia do futuro e não a custódia das cinzas.

Em encontros anteriores no Natal, o Papa lembra que falou de critérios que inspiraram o trabalho da reforma; algumas novidades da organização da Cúria, como, por exemplo, a Terceira Secção da Secretaria de Estado; as relações entre a Cúria Romana e as Igrejas particulares, lembrando também a prática antiga das Visitas ad limina Apostolorum; ou a estrutura de alguns Dicastérios, nomeadamente o das Igrejas Orientais e os Dicastérios para o diálogo ecumênico e inter-religioso e, de modo especial, com o Judaísmo.

Neste encontro, o Papa se detém sobre outros Dicastérios vistos a partir do coração da reforma, ou seja, da primeira e mais importante tarefa da Igreja: a evangelização.

Em diversos parágrafos, se detém e aprofunda a necessária reforma de alguns Dicastérios da Cúria Romana: a Congregação para a Doutrina da Fé, a Congregação para a Evangelização dos Povos; mas penso também no Dicastério para a Comunicação e no Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

Para estas mudanças, segundo o Papa, não tem fórmulas mágicas nem atalhos; não se pode cair da tentação de retirar-se para o passado como segurança; tão pouco a atitude rigidez frente às necessárias mudanças: – “Aqui é necessário advertir contra a tentação de assumir a atitude da rigidez. Esta nasce do medo da mudança e acaba por disseminar estacas e obstáculos pelo terreno do bem comum, tornando-o um campo minado de incomunicabilidade e ódio. Lembremo-nos sempre de que, por trás de qualquer rigidez, jaz um desequilíbrio. A rigidez e o desequilíbrio nutrem-se, mutuamente, num círculo vicioso. E hoje esta tentação da rigidez tornou-se tão atual”.

Em seguida, lembra o fato de que a Cúria Romana não é um corpo separado da realidade – embora o risco esteja sempre presente –, mas deve ser concebida e vivida no hoje do caminho percorrido pelos homens e as mulheres, na lógica da mudança de época.

Ela não é um palácio ou um armário cheio de roupas, que se hão de vestir para justificar uma mudança, pois se trata de um corpo vivo, e será tanto mais quanto mais viver a integralidade do Evangelho.

Lembra as interpeladoras palavras do Cardeal Martini, em sua última entrevista dada poucos dias antes da sua morte: – “A Igreja ficou atrasada duzentos anos. Como é possível que não se alvorace? Temos medo? Medo, em vez de coragem? No entanto, a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem. (...) Só o amor vence o cansaço”.

Entregando dois livros de presente aos participantes, finaliza com votos de Feliz Natal, reiterando que o Natal é a festa do amor de Deus por nós; e é um amor que inspira, dirige e corrige a mudança e vence o medo humano de deixar o “seguro” para se lançar no “mistério”.



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