sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Contemplemos a Sabedoria divina

                                                                  

Contemplemos a Sabedoria divina

Assim escreveu o Apóstolo Paulo aos Coríntios sobre a sabedoria de Deus, que nos foi revelada pelo Seu Filho, Jesus (1Cor 2,7-10a):

“Falamos da misteriosa Sabedoria de Deus, Sabedoria escondida, que, desde a eternidade, Deus destinou para nossa glória.

Nenhum dos poderosos deste mundo conheceu essa Sabedoria. Pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória.

Mas, como está escrito, o que Deus preparou para os que O amam é algo que os olhos jamais viram, nem os ouvidos ouviram, nem coração algum jamais pressentiu. A nós Deus revelou esse Mistério através do Espírito”.

A nós, como discípulos missionários do Senhor, cabe testemunhar nossa fé, deixando-nos conduzir pela Sabedoria divina, que nos é concedida pelo dom do Espírito que nos foi confiado.

Viver conduzido pela Sabedoria é ter coragem de fazer as renúncias necessárias, para que, tomando nossa cruz a cada dia, sigamos o Senhor, participando da construção do Reino de Deus.

Conceda-nos, Deus, olhos para contemplar, ouvidos para captar e coração para acolher, compreender e sentir a Sua presença entre nós, e abertos plenamente à vontade divina, realizá-la, sem demora, sem adiamentos, sem medos, na mais perfeita e incondicional fidelidade em todo e qualquer lugar, e em qualquer situação.

Oremos: 

"Ó Deus, cuja inefável sabedoria maravilhosamente se revela no escândalo da Cruz, concedei-nos de tal modo contemplar a bendita paixão de Vosso Filho, que confiantes nos gloriemos sempre na Sua Cruz. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém."

Cruz: Fonte de Salvação e Amor para nós

                                              

Cruz: Fonte de Salvação e Amor para nós

O comentário do Missal Cotidiano sobre a passagem do Evangelho proclamada na sexta sexta-feira do Tempo Comum (Mc 8,34-9,1) nos enriquece intensamente.

“Jesus estava plenamente ciente da necessidade de chegar a bom termo em Sua missão, e para isto não havia outra maneira a não ser entregar Sua vida ao Pai, capaz de ressuscitá-Lo.

É evidente que o Pai não quer a morte do Filho: quer somente que Ele ofereça amor ao mundo. Mas esta missão não se poderá cumprir sem a provação e sem a fidelidade à condição mortal do homem.

O amor não pode chegar a terra sem passar pela dor. A sorte do Mestre atinge também a dos discípulos. Estes também deverão ‘tomar a cruz’ e ‘segui-Lo’, ‘perder a própria vida’ para salvá-la.

A salvação não virá pelo sucesso, mas pelo sacrifício oferecido por amor; aceito e reconhecido pelo Pai, que saberá restituir a vida. E Cristo será por isso o responsável diante do Pai, quando ‘vier na glória’”  (1)

Por ora, é preciso que os discípulos abracem três propostas do Mestre, que deverão ser vividas com fidelidade e amor incondicional até o fim, no anúncio e testemunho da Boa-Nova d’Ele acolhida:

a)        Para serem fiéis às suas opções de vida é necessário pagar o preço delas (v. 34b) – “se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me”;

b)        A vida só tem sentido se e quando é oferecida e doada gratuitamente (vv. 36-37) – “com feito, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e arruinar sua própria vida? Pois, que daria o homem em troca da sua vida?”;

c)        Jesus deve ser reconhecido como Messias e Salvador de todos os povos (v. 38) – “Aquele, que nesta geração adúltera e pecadora, se envergonhar de mim e de minhas Palavras, também o Filho do Homem Se envergonhará quando vier na glória com os Santos Anjos”.  (2)

Agora, cabe a cada de um de nós ver de que modo vivemos nossa fidelidade ao Senhor.

É tempo de viver a fé como resposta de amor à proposta que Deus tem a nos oferecer, mas com a coragem do carregar a cruz, fazendo da vida uma história marcada pela doação, por amor vivido e consumido.

É tempo de carregar com coragem nossa cruz, com a esperança de que assumida por amor, como assim o fez o Senhor, caminharemos para a glória da eternidade.

Na fidelidade ao Senhor, a cruz encontra seu sentido quando assumida e carregada com as motivações das virtudes divinas que nos acompanham: fé, esperança e caridade.


(1) Missal Cotidiano – Ed. Paulus. - P.787
(2) Lecionário comentado – Ed. Paulus – Lisboa – pp.294-295

A torre e a Cruz

                                                           


A torre e a Cruz

Viver é sempre uma possibilidade de decidir... Por exemplo, participar da construção da torre de Babel ou carregar a cruz de cada dia construindo a Jerusalém Celeste?

Conhecemos a passagem bíblica em que se quis a construção de uma cidade com uma torre que alcançasse os céus, e a multiplicação de línguas onde ninguém mais se entendia. Conhecemos também uma passagem do Evangelho em que Jesus nos chama a tomar uma decisão, pois para segui-Lo é preciso renunciar a si mesmo, tomar a cruz de cada dia, pôr-se a caminho…

- Qual a nossa escolha: edificar a torre ou carregar a cruz?
- Babel ou a Jerusalém Celeste, do que, de fato, participamos?

Torre e Cruz, sinais fortes embora diferentes; sinais que podem ser vitais ou mortais.

Reflitamos o que nos reporta a torre e, o necessário contraponto, a cruz, que, aos céus, nos conduz:

Erguer a Torre de Babel
Erguer a Cruz de Nosso Senhor
Desejo de ser como Deus
Desejo de servir a Deus
Autossuficiência
Dependência de Deus
Arrogância
Relação de confiança
Soberba
Humildade
Egoísmo/ambição
Partilha/solidariedade
Opressão
Liberdade
Infidelidade a Deus
Fidelidade a Deus
Eliminação do amor
Relação profunda de amor
Multiplicação da iniquidade
Eliminação da maldade
Escravidão
Libertação
Opressão/dominação
Relação de serviço
Autopromoção
Promoção do bem comum
Ódio/ira
Amor
Linguagem apenas humana
Linguagem do Espírito
Reino limitado e parcial
Reino eterno e universal


A continuidade da reflexão nos possibilitará entender alguns “porquês” da não realização do Projeto Divino.

É tempo de reler Gênesis e parar de teimosamente querer erguer as “torres de Babel” de cada dia. Antes, é tempo de tomar nossa cruz de cada dia, nutridos do mesmo Pão que suplicamos na oração que Ele nos ensinou, que recebemos em cada Eucaristia.

Seguindo Cristo Jesus, fixemos nossos passos na caminhada rumo a Jerusalém Celeste, carregando sem medo nossa cruz de cada dia, na alegre e necessária renúncia.

Carreguemos a cruz com seu exato peso, não a cruz de amanhã, apenas a cruz de hoje. A cada dia a cruz, a cada dia o Pão.


PS: Reflexão inspirada em Gn 11,1-9 e Mc 8,34-9,1.

“A esposa é o sol da família”

                                              


“A esposa é o sol da família”

O Papa Pio XII, na metade do século passado, dirigiu, a um grupo de recém-casados, palavras que guardam atualidade.

“A família tem o brilho de um sol que lhe é próprio; a esposa. Ouvi o que a Sagrada Escritura afirma e sente a respeito dela:

A graça da mulher dedicada é a delícia do marido. Mulher santa e virtuosa é graça primorosa. Como o sol que se levanta nas alturas do Senhor, assim o encanto da boa esposa na casa bem-ordenada (Eclo 6,19-21).

Realmente, a esposa e mãe é o sol da família. É sol por sua generosidade e dedicação, pela disponibilidade constante e pela delicadeza e atenção em relação a tudo quanto possa tornar agradável à vida do marido e dos filhos. Irradia luz e calor do espírito.

Costuma-se dizer que a vida de um casal será harmoniosa quando cada cônjuge, desde o começo, procurar não a sua felicidade, mas a do outro...

Embora este nobre sentimento e propósito pertençam a ambos, constitui principalmente uma virtude da mulher.

Por natureza, ela é dotada de sentimentos maternos, de  sabedoria, prudência e coração que a faz responder com alegria as contrariedades; quando ofendida, inspira dignidade e respeito, à semelhança do sol que ao raiar alegra a manhã coberta pelo nevoeiro e, quando se põe, tinge as nuvens com seus raios dourados.

A esposa é o sol da família pela limpidez do seu olhar e o calor de sua palavra. Com seu olhar e sua palavra penetra suavemente nas almas, acalmando-as e conseguindo afastá-las do tumulto das paixões...

A esposa é o sol da família por sua natural e serena sinceridade; sua digna simplicidade; seu distinto porte Cristão;  pela retidão do espírito sem esgotamento, e pela fina compostura com que se apresenta, veste e adorna; mostrando-se ao mesmo tempo reservada e amável.

Sentimentos delicados, agradáveis expressões do rosto, silêncio e sorriso sem malícia e um condescendente sinal de cabeça; tudo isso lhe dá a beleza de uma flor rara, mas simples, que ao desabrochar se abre para receber e refletir as cores do sol.

Ah, se pudésseis compreender como são profundos os sentimentos de amor e de gratidão que desperta e grava no coração do pai e dos filhos semelhante perfil de esposa e de mãe!”

Hoje, mais do que nunca, a mulher desempenha papel fundamental na edificação e santificação do lar, sobretudo o lar cristão, pequenina Igreja Doméstica, onde se vive e se aprofunda a caridade conjugal.

Caridade conjugal vivida como memória do amor fiel e indissolúvel de Deus para com a humanidade e de Cristo pela Sua Igreja; celebrada em cada Eucaristia, no Mistério do Sacrifício de Sua Morte e Ressurreição.

Esta caridade implica em renúncias, serviço generoso movido pelo amor; como profecia, enquanto sinalização do convívio na  eternidade, na família celestial - céu.

Reflitamos:

- Como revitalizar no coração de cada mãe e esposa a graça que Deus lhe concedeu, para que não perca seu calor e nem ofusque seu brilho indispensável?

- O que fazer para que com a cooperação do esposo e pai, tornar realidade estas tão sábias e profundas palavras?

- Como encontrar eco em cada coração de filho e filha, a fim de que possam desfrutar destes raios de calor e luz; aquecidos e iluminados por raios que não se apagam, mas que nos acompanham por toda a vida?

Que a Sagrada Família, que tem Maria, o “sol por excelência”, abençoe todas as famílias!

“Amai-vos, pois, uns aos outros, de coração e com ardor” (VIIIDTCC)

                                                     

“Amai-vos, pois, uns aos outros, de coração e com ardor”

À luz da Primeira Epístola do Apóstolo São Pedro (1Pd 1,22-23), reflitamos sobre o essencial da vida cristã, na fidelidade a Jesus Cristo, Nosso Senhor:

“Pela obediência à verdade, purificastes as vossas almas, para praticar um amor fraterno sem fingimento. Amai-vos, pois, uns aos outros, de coração e com ardor. Nascestes de novo, não de uma semente corruptível, mas incorruptível, mediante a Palavra de Deus, viva e permanente”. 

Purificados pelo Sangue de nosso Redentor, redimidos de nossos pecados, reconciliados com Deus, como discípulos missionários Seus, vivendo em comunidade, precisamos cada vez mais fazer progressos no amor fraterno –“amai-vos, pois, uns aos outros, de coração e com ardor”.

Nossas comunidades haverão de ser sempre espaço de aprendizado do amor mútuo, quando com humildade cada um reconhecer seus pecados e limitações, compreender e aprender a perdoar, em necessárias e contínuas conversões na prática do perdão, contando sempre com a graça e misericórdia divinas.

Este amor vivido e fortalecido, de modo especial, nutrido ao participarmos do Banquete Eucarístico, torna-se missão, de modo que deve chegar aos mais necessitados, aos empobrecidos, a todos que venham a precisar de acolhida, pão, água, liberdade, como o Senhor mesmo nos falou na passagem de Mateus (Mt 25,31-46).

Que Deus nos conceda a graça, fortaleza e sabedoria necessárias, para que edifiquemos uma Igreja em que a perfeição e a santidade sejam buscadas, reconhecendo sempre nossa condição finita, limitada e pecadora, mas sempre abertas às novas e luminosas realidades.

Terra, teto e trabalho para todos!

                                                       



Terra, teto e trabalho para todos!
 
Retomemos a síntese do discurso do Santo Padre Francisco aos participantes do Encontro Mundial de Movimentos Populares, sobretudo quando defrontamos com graves problemas sociais que afligem o mundo.
 
Para o Papa, o encontro de Movimentos Populares é um grande sinal: “Vocês vieram colocar na presença de Deus, da Igreja, dos povos, uma realidade muitas vezes silenciada. Os pobres não só padecem a injustiça, mas também lutam contra ela!”
 
Sobre os movimentos populares, disse: “não se contentam com promessas ilusórias, desculpas ou pretextos. Também não estão esperando de braços cruzados a ajuda de ONGs, planos assistenciais ou soluções que nunca chegam ou, se chegam, chegam de maneira que vão em uma direção ou de anestesiar ou de domesticar”.
 
Sobre a palavra “Solidariedade”, conceitua: ela não é uma palavra e nem alguns atos de generosidade esporádicos.
 
A solidariedade “é pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade de vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns.
 
Também é lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, de terra e de moradia, a negação dos direitos sociais e trabalhistas.
 
É enfrentar os destrutivos efeitos do Império do dinheiro: os deslocamentos forçados, as migrações dolorosas, o tráfico de pessoas, a droga, a guerra, a violência e todas essas realidades que muitos de vocês sofrem e que todos somos chamados a transformar.
 
A solidariedade, entendida em seu sentido mais profundo, é um modo de fazer história, e é isso que os movimentos populares fazem”.
 
Vê no encontro a resposta para um anseio muito concreto, o desejo de que todos tenham terra, teto e trabalho:
 
“Não se entende que o amor pelos pobres está no centro do Evangelho. Terra, teto e trabalho – isso pelo qual vocês lutam – são direitos sagrados. Reivindicar isso não é nada raro, é a Doutrina Social da Igreja.”
 
Sobre cada anseio, discorre brevemente acenando para a gravidade e necessidade de caminhos para superação, em sua defesa e promoção, a fim de que ninguém seja excluído do sagrado direito aos três:
 
1 - A Terra: “Preocupa-me a erradicação de tantos irmãos camponeses que sofrem o desenraizamento, e não por guerras ou desastres naturais.
 
A apropriação de terras, o desmatamento, a apropriação da água, os agrotóxicos inadequados são alguns dos males que arrancam o homem da sua terra natal.
 
Essa dolorosa separação, que não é só física, mas também existencial e espiritual, porque há uma relação com a terra que está pondo a comunidade rural e seu modo de vida peculiar em notória decadência e até em risco de extinção.
 
A outra dimensão do processo já global é a fome. Quando a especulação financeira condiciona o preço dos alimentos, tratando-os como qualquer mercadoria, milhões de pessoas sofrem e morrem de fome. Por outro lado, descartam-se toneladas de alimentos. Isso é um verdadeiro escândalo.
 
A fome é criminosa, a alimentação é um direito inalienável. Eu sei que alguns de vocês reivindicam uma reforma agrária para solucionar alguns desses problemas, e deixem-me dizer-lhes que, em certos países, e aqui cito o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, "a reforma agrária é, além de uma necessidade política, uma obrigação moral" (CDSI, 300).
 
2 – O Teto: uma casa para cada família.
“Hoje há tantas famílias sem moradia, ou porque nunca a tiveram, ou porque a perderam por diferentes motivos. Família e moradia andam de mãos dadas.
 
Mas, além disso, um teto, para que seja um lar, tem uma dimensão comunitária: e é o bairro... e é precisamente no bairro onde se começa a construir essa grande família da humanidade, a partir do mais imediato, a partir da convivência com os vizinhos.”
 
Há eufemismos que escondem a triste realidade (falta de moradia, injustiças, miséria, fome...). Atrás de cada eufemismo há um crime, afirma o Papa.
 
“Vivemos em cidades que constroem torres, centros comerciais, fazem negócios imobiliários... mas abandonam uma parte de si nas margens, nas periferias.
 
Como dói escutar que os assentamentos pobres são marginalizados ou, pior, quer-se erradicá-los! São cruéis as imagens dos despejos forçados, dos tratores derrubando casinhas, imagens tão parecidas às da guerra. E isso se vê hoje.”
 
Exorta que se favoreça para que todas as famílias tenham uma moradia, e para que todos os bairros tenham uma infraestrutura adequada (esgoto, luz, gás, asfalto, escolas, hospitais ou salas de primeiros socorros, clube de esportes (e todas as coisas que criam vínculos e que unem), acesso à saúde; à educação e à segurança, favorecendo a integração autêntica e respeitosa, espaços de sadias convivências).
 
3 – O trabalho:
 
Para o Papa, não existe pior pobreza material do que a que não permite ganhar o pão e, assim, privando da dignidade do trabalho.
 
Menciona o desemprego juvenil, a informalidade e a falta de direitos trabalhistas que não são inevitáveis, porque são o resultado de uma prévia opção social, de um sistema econômico que coloca os lucros acima do homem, se o lucro é econômico, sobre a humanidade ou sobre o homem, são efeitos de uma cultura do descarte que considera o ser humano em si mesmo como um bem de consumo, que pode ser usado e depois jogado fora.
 
Lembra um ensinamento (aproximadamente ano 1200) que merece ser citado:
 
“Um rabino judeu explicava aos seus fiéis a história da torre de Babel e, então, contava como, para construir essa torre de Babel, era preciso fazer muito esforço, era preciso fazer os tijolos; para fazer os tijolos, era preciso fazer o barro e trazer a palha, e amassar o barro com a palha; depois, cortá-lo em quadrados; depois, secá-lo; depois, cozinhá-lo; e, quando já estavam cozidos e frios, subi-los, para ir construindo a torre.
 
Se um tijolo caía – o tijolo era muito caro –, com todo esse trabalho, se um tijolo caía, era quase uma tragédia nacional. Aquele que o deixara cair era castigado ou suspenso, ou não sei o que lhe faziam. E se um operário caía não acontecia nada. Isso é quando a pessoa está a serviço do deus dinheiro...”
 
Em seguida, fala da gravíssima cultura do descarte de crianças, jovens e idosos. 
 
Denuncia a existência de uma terceira guerra mundial em cotas: “Há sistemas econômicos que, para sobreviver, devem fazer a guerra.
 
Então, fabricam e vendem armas e, com isso, os balanços das economias que sacrificam o homem aos pés do ídolo do dinheiro, obviamente, ficam saneados. 
 
E não se pensa nas crianças famintas nos campos de refugiados, não se pensa nos deslocamentos forçados, não se pensa nas moradias destruídas, não se pensa, desde já, em tantas vidas ceifadas. Quanto sofrimento, quanta destruição, quanta dor.
 
Também aborda a questão da Paz e da Ecologia: “não pode haver terra, não pode haver teto, não pode haver trabalho se não temos paz e se destruímos o planeta.
 
São temas tão importantes que os Povos e suas organizações de base não podem deixar de debater. Não podem deixar só nas mãos dos dirigentes políticos.
 
Todos os povos da terra, todos os homens e mulheres de boa vontade têm que levantar a voz em defesa desses dois dons preciosos: a paz e a natureza. A irmã mãe Terra, como chamava São Francisco de Assis.”
 
Hoje, queridos irmãos e irmãs, se levanta em todas as partes da terra, em todos os povos, em cada coração e nos movimentos populares, o grito da paz: nunca mais a guerra!”
 
Denuncia um sistema econômico centrado no deus dinheiro que também precisa saquear a natureza, saquear a natureza, para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente:
 
“As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, o desmatamento já estão mostrando seus efeitos devastadores nos grandes cataclismos que vemos, e os que mais sofrem são vocês, os humildes, os que vivem perto das costas em moradias precárias, ou que são tão vulneráveis economicamente que, diante de um desastre natural, perdem tudo”.
 
Anuncia a preparação de uma Encíclica sobre Ecologia que vai aprofundar questões como estas que não nos permite indiferença:
 
“Falamos da terra, de trabalho, de teto... falamos de trabalhar pela paz e cuidar da natureza...
 
Mas por que, em vez disso, nos acostumamos a ver como se destrói o trabalho digno, se despejam tantas famílias, se expulsam os camponeses, se faz a guerra e se abusa da natureza?
 
Porque, nesse sistema, tirou-se o homem, a pessoa humana, do centro, e substituiu-se por outra coisa. Porque se presta um culto idólatra ao dinheiro. Porque se globalizou a indiferença! Se globalizou a indiferença.
 
O que me importa o que acontece com os outros, desde que eu defenda o que é meu? Porque o mundo se esqueceu de Deus, que é Pai; tornou-se um órfão, porque deixou Deus de lado.”
 
Apresenta um guia de ação, um programa revolucionário: as Bem-Aventuranças, (cf. Mt 5, 1-12; Lc 6, 20; Mt 25, 30-46).
 
É preciso promover a cultura do encontro que é tão diferente da xenofobia, da discriminação e da intolerância, com o necessário aprendizado do “caminhar juntos":
 
A perspectiva de um mundo da paz e da justiça duradouras nos exige superar o assistencialismo paternalista, nos exige criar novas formas de participação que inclua os movimentos populares e anime as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com essa torrente de energia moral que surge da incorporação dos excluídos na construção do destino comum. E isso com ânimo construtivo, sem ressentimento, com amor.”
 
Acena para que não haja mais nenhuma família sem moradia, nenhum agricultor sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhuma pessoa sem a dignidade que o trabalho permite.
 
Finaliza dando a bênção, exortando para que se siga na luta, e entrega uma recordação, alguns rosários que foram fabricados por artesãos, papeleiros e trabalhadores da economia popular da América Latina.
 
Convida-nos à firme esperança, com renovados compromissos, sem desânimo e desilusão, a fim de que todos tenham direito a terra, teto e trabalho.
 
Sejamos, portanto, iluminados pela mensagem e nos unamos com todas as pessoas que não medem esforços para que referidos direitos sejam alcançados, a fim de que tenhamos uma nova realidade, sem marginalizações e exclusões, prefigurando o sinal do Reino de Deus entre nós.


Sedentos do Amor Divino, purifiquemos nossa alma (VIIIDTCC)

Sedentos do Amor Divino, purifiquemos nossa alma

“Já falamos algumas vezes do vazio que deve ser cheio.
Vais ficar repleto de bem, esvazia-te do mal.”

Esta reflexão dos escritos do Bispo Santo Agostinho (séc. V), leva-nos ao necessário reconhecimento de nossas limitações, imperfeições, fazendo renascer um desejo imensurável do encontro com o Amor Deus.

O que nos foi prometido? Seremos semelhantes a Ele porque nós o veremos como é. A língua o disse como pôde. O coração imagine o restante. O que pôde dizer, até mesmo João, em comparação d’Aquele que é? O que poderíamos nós dizer, homens tão longe do valor do próprio João?

Recorramos por isso, para Sua Unção, para aquela Unção que ensina no íntimo o que não conseguimos falar. Já que não podeis ver agora, prenda-vos o desejo. A vida inteira do bom cristão é desejo santo. Aquilo que desejas, ainda não o vês. Mas, desejando, adquires a capacidade de ser saciado ao chegar à visão.

Se queres, por exemplo, encher um recipiente e sabes ser muito o que tens a derramar, alargas o bojo seja da bolsa, do odre, ou de outra coisa qualquer. Sabes a quantidade que ali porás e vês ser apertado o bojo. Se o alargares ele ficará com maior capacidade.

Deste mesmo modo, Deus, com o adiar, amplia o desejo. Por desejar, alarga-se o espírito. Alargando-se, torna-se capaz.

Desejemos, pois, irmãos, porque havemos de ser saciados. Vede Paulo como alarga o coração, para poder conter o que vem depois: Não que já tenha recebido ou já seja perfeito; irmãos, não julgo ter conseguido o prêmio.

Que fazes então nesta vida, se ainda não conseguiste? Uma coisa só, esquecido do que ficou para trás, lanço-me para a frente, para a meta, corro para a palma da vocação suprema. Diz lançar-se e correr para a meta. Sentia-se incapaz de captar o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, nem subiu ao coração do homem.

É esta a nossa vida: exercitamo-nos pelo desejo. O santo desejo nos exercita, na medida em que cortamos nosso desejo do amor do mundo. Já falamos algumas vezes do vazio que deve ser cheio. Vais ficar repleto de bem, esvazia-te do mal.

Imagina que Deus te quer encher de mel. Se estás cheio de vinagre, onde pôr o mel?  É preciso jogar fora o conteúdo do jarro e limpá-lo, ainda que com esforço, esfregando-o, para servir a outro fim.
Digamos mel, digamos ouro, digamos vinho, digamos tudo quanto dissermos e quanto quisermos dizer, há uma realidade indizível: chama-se Deus.

Dizendo Deus, o que dissemos? Esta única sílaba é toda a nossa expectativa. Tudo o que conseguimos dizer, fica sempre aquém da realidade. Seremos semelhantes a Ele; porque O veremos como é.”

Refletindo o “Tratado sobre a Primeira Carta de São João”,  nossa alma é iluminada e nossos passos redirecionados e fortalecidos, para que continuemos perseverantes trilhando o caminho da santidade que Deus nos oferece, conduzidos pela luz Divina acesa em nosso caminhar marcado por luzes e sombras, erros e acertos, perdas e ganhos, pecado e graça.

Saciemos nossa sede de água cristalina que Deus tem sempre a nos oferecer, para fazermos a travessia do deserto que todos temos que passar.

No entanto, é preciso que façamos a purificação de nosso coração de tudo quanto seja desnecessário, e até mesmo incompatível com aqueles que professam a fé no Senhor, voltando-nos mais intensamente para Deus e à Sua Palavra, com o firme propósito de viver as Bem-Aventuranças do Senhor na planície, dia a dia, carregando com fé, esperança e amor a cruz que, com renúncias e coragem, temos que carregar no seguimento do Senhor, até que possamos alcançar a glória da eternidade. 

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