segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

“Santas Inês” de todos os tempos: Paixão incondicional por Cristo! (parte I)(21/01)

                                                                     

“Santas Inês” de todos os tempos:                          
  Paixão incondicional por Cristo!
                                              
Celebramos no dia 21 de janeiro a Memória de Santa Inês, e ela é um dos muitos testemunhos da Igreja que nos levam à reflexão e revigoramento indispensável da fé. 

Reflitamos sobre o seu, conforme o texto que o Bispo Santo Ambrósio (séc. IV) escreveu sobre ela.

“Celebramos o natalício de uma virgem: Imitemos sua integridade; é o natalício de uma mártir: ofereçamos sacrifícios.
É o aniversario de Santa Inês.

Conta-se que sofreu o martírio com a idade dos doze anos. Quanto mais detestável foi a crueldade que não poupou sequer tão tenra idade, tanto maior é a força da fé que até naquela idade encontrou testemunho.

Haveria naquele corpo tão pequeno lugar para uma ferida? Mas aquela que quase não tinha tamanho para receber o golpe da espada, teve força para vencer a espada.

E isto numa idade em que as meninas não suportam sequer ver o rosto zangado dos pais e choram como se uma picada de alfinete fosse uma ferida!

Mas ela permaneceu impávida entre as mãos ensanguentadas dos carrascos, imóvel perante o arrastar estridente dos pesados grilhões. Oferece o corpo à espada do soldado enfurecido, sem saber o que é a morte, mas pronta para ela.

Levada a força até os altares dos ídolos, estende as mãos para Cristo no meio do fogo, e nestas chamas sacrílegas mostra o troféu do Senhor vitorioso.

Finalmente, tendo que introduzir o pescoço e ambas as mãos nas algemas de ferro, nenhum elo era suficientemente apertado para segurar membros tão pequeninos.

Novo gênero de martírio? Ainda não preparada para o sofrimento e já moldura para a vitória! Mal sabia lutar e facilmente triunfa! Dá uma lição de firmeza apesar de tão pouca idade!

Uma recém-casada não se apressaria para o leito nupcial com aquela alegria com que esta virgem corre para o lugar do suplício, levando a cabeça enfeitada não de belas tranças, mas de Cristo, e coroada não de flores, mas de virtudes.

Todos choram menos ela. Muitos se admiram de vê-la entregar tão generosamente a vida que ainda não começara a gozar, como se já tivesse vivido plenamente. Todos ficam espantados que já se levante como testemunha de Deus quem, por causa da idade, não podia ainda dar testemunho de si.

Afinal, aquela que não mereceria crédito se testemunhasse a respeito de um homem, conseguiu que lhe dessem crédito ao testemunhar acerca de Deus. Pois o que está acima da natureza, pode fazê-lo o Autor da natureza.

Quantas ameaças não terá feito o carrasco para incutir-lhe o terror! Quantas seduções para persuadi-la! Quantas propostas para casar com algum deles! Mas sua resposta foi esta: É uma injúria ao Esposo esperar por outro que me agrade.

Aquele que primeiro me escolheu para Si, esse é que me receberá. Por que demoras, carrasco? Pereça este corpo que pode ser amado por quem não quero! Ficou de pé, rezou, inclinou a cabeça.

Terias podido ver o carrasco perturbar-se, como se fosse ele o condenado, tremer a mão que desfecharia o golpe, e empalidecerem os rostos temerosos do perigo alheio, enquanto a menina não temia o próprio perigo.

Tendes, pois numa única vítima um duplo martírio: O da castidade e o da fé. Inês permaneceu virgem e alcançou o martírio”.

Santa Inês é uma das Santas mais antigas do cristianismo. Sua existência transcorreu entre os séculos III e IV, sendo martirizada durante a décima perseguição ordenada contra os cristãos, desta vez imposta pelo terrível imperador Diocleciano, em 304.

Inês, em grego, significa pura e casta, e em latim, cordeiro. Ela pertencia a uma rica, nobre e cristã família romana. Isso lhe possibilitou receber uma educação dentro dos mais exatos preceitos religiosos, o que a fez tomar a decisão precoce de se tornar “esposa de Cristo”.
  
Mais uma vez Deus escolheu “os fracos” para confundir “os fortes”,
“os loucos” para confundir “os sábios”: Loucura da Cruz!

“Santas Inês” de todos os tempos: Paixão incondicional por Cristo! (Parte II)(21/01)

                                              

“Santas Inês” de todos os tempos:
  Paixão incondicional por Cristo!                            

Faço memória dos inocentes de todos os tempos, e aprendo com Inês: tão pequenina, tão inocente, tão frágil, ao mesmo tempo, tão grande, tão sábia, tão forte.

Quanto Santa Inês tem a nos ensinar... Ainda que o tempo nos separe, não nos deve separar jamais sua presença e testemunho, e que esta reflexão nos ajude em nossa espiritualidade, no seguimento apaixonado e incondicional pelo Senhor, como o fez a tão bela e pequena Santa Inês:

Para a Igreja, Santa Inês é o próprio símbolo da inocência e da castidade, que ela defendeu com a própria vida.

A ideia da virgindade casta foi estabelecida na Igreja justamente para se contrapor à devassidão e aos costumes imorais dos pagãos.

Inês levou às últimas consequências a escolha que fez a esses valores.

Falar da vida desta que bebeu na Fonte da Vida, que fez resplandecer sem medida a Luz Divina, é falar de alguém:

- Que foi decididamente e profundamente apaixonada por Cristo, como o devemos também ser;
- Que traz a todo tempo mensagem de inocência, pureza e castidade, sobretudo num mundo marcado pela permissividade e devassidão;

- Que vive o que professa, professa o que vive, dissipando toda possibilidade de incoerência: lição de firmeza e convicção;
- Que fez das coisas divinas valores absolutos, anunciando a relatividade de todas as coisas temporais;

- Que encontrou o gozo nas delicias divinas e eternas e não naquilo que oferece prazeres parciais e temporais;
- Que se tornou modelo de confiança no poder de Deus para além de toda aparência de fraqueza: releitura humana da onipotência divina, releitura divina da fraqueza humana…

A vida de Inês também nos ensina que a vida, mais do que pela quantidade de anos vividos, vale pela intensidade com que foram vividos.

Além do que nos leva a refletir nas “tantas Inês” que morrem precocemente, vítimas da violência de cada tempo.

Bem perto de nós mais uma Inês está sendo violentada, agredida em sua dignidade.

Talvez não exatamente como o martírio desta grande menina, mas de outras tantas formas cruéis:

“Inês” inocentes de Gaza, “Inês” martirizadas pelo não amor. “Inês” mortas precocemente por causa do egoísmo que condenam à fome, à doença pelo mundo afora.

Ó que belas lições com Inês a aprender, 
e em nossa vida, em prática colocarmos!

Com a força do Espírito, que com ela esteve, 
continue em nosso coração a resplandecer, e, 
com vigor renovado, jamais esmorecer! 

Sedentos do Vinho Novo (19/01)

                                                          

Sedentos do Vinho Novo

 “O Amor de Deus foi
derramado em nossos corações.”

Ouvimos na segunda-feira da 2ª Semana do Tempo Comum a passagem do Evangelho de Marcos (Mc 2,18-22), em que Jesus nos questiona: “os convidados de um casamento poderiam, por acaso, fazer jejum, enquanto o noivo está com eles? Enquanto o noivo está com eles, os convidados não podem jejuar” (Mc 2,19).

À luz de um dos Sermões de um autor anônimo do século VI, refletimos sobre a unidade da Igreja que, recebendo o dom do Espírito Santo, fala todas as línguas, de modo que todos se comunicam e se entendem.

“Os Apóstolos começaram a falar em todas as línguas. Aprouve a Deus, naquele momento, significar a presença do Espírito Santo, fazendo com que todo aquele que O tivesse recebido, falasse em todas as línguas.

Devemos compreender, irmãos caríssimos, que se trata do mesmo Espírito Santo pelo qual o Amor de Deus foi derramado em nossos corações.

O amor haveria de reunir na Igreja de Deus todos os povos da terra. E como naquela ocasião um só homem, recebendo o Espírito Santo, podia falar em todas as línguas, também agora, uma só Igreja, reunida pelo Espírito Santo, se exprime em todas as línguas.

Se por acaso alguém nos disser: ‘Recebeste o Espírito Santo; por que não falas em todas as línguas?’ devemos responder:

‘Eu falo em todas as línguas. Porque sou membro do Corpo de Cristo, isto é, da Sua Igreja, que se exprime em todas as línguas. Que outra coisa quis Deus significar pela presença do Espírito Santo, a não ser que Sua Igreja haveria de falar em todas as línguas?’

Deste modo, cumpriu-se o que o Senhor tinha prometido: Ninguém coloca vinho novo em odres velhos. Vinho novo deve ser colocado em odres novos. E assim ambos são preservados (cf. Lc 5,37-38).
       
Por isso, quando ouviram os Apóstolos falar em todas as línguas, diziam alguns com certa razão: Estão cheios de vinho (At 2,13).

Na verdade, já se haviam transformado em odres novos, renovados pela graça da santidade, a fim de que, repletos do vinho novo, isto é, do Espírito Santo, parecessem ferver ao falar em todas as línguas.

E com este milagre tão evidente prefiguravam a universalidade da futura Igreja, que haveria de abranger as línguas de todos os povos.

Celebrai, pois, este dia como membros do único Corpo de Cristo.

E não o celebrareis em vão, se realmente sois aquilo que celebrais, isto é, se estais perfeitamente incorporados naquela Igreja que o Senhor enche do Espírito Santo e faz crescer progressivamente através do mundo inteiro.

Esta Igreja Ele reconhece como Sua e é por ela reconhecida como seu Senhor. O Esposo não abandonou sua esposa; por isso ninguém pode substituí-la por outra.

É a vós, homens de todas as nações, que sois a Igreja de Cristo, os membros de Cristo, o corpo de Cristo, a esposa de Cristo, é a vós que o Apóstolo dirige estas palavras:

Suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. Aplicai-vos em guardar a Unidade do Espírito pelo vínculo da paz (Ef 4,2-3).

Reparai como, ao lembrar o Preceito de nos suportarmos uns aos outros, falou-nos do amor, e quando Se referiu à esperança da unidade, pôs em evidência o vínculo da paz.

Esta é a casa de Deus, edificada com pedras vivas. Nela o Eterno Pai gosta de morar; nela Seus olhos jamais devem ser ofendidos pelo triste espetáculo da divisão entre Seus filhos.”

Acolhamos o dom do Espírito Santo, e com Ele o Amor de Deus, que é derramado em nossos corações; somos membros do único Corpo de Cristo, e assim devemos viver e agir.

Somos membros de uma Igreja, edificada com pedras vivas, e todo esforço deve ser feito para que se supere o “triste espetáculo da divisão entre Seus filhos”, como refletimos na conclusão do Sermão.

Envolvidos pelo Amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que preenche nossos corações, com coragem e ousadia, sejamos arautos contumazes e intrépidos da “Alegria do Evangelho”, eternos aprendizes da mais bela linguagem universal: a linguagem do Espírito Santo, a linguagem de Deus, que consiste na linguagem do Amor.

Com o coração renovado, a cada dia, acolhamos o Vinho Novo do Amor de Deus e, uma vez transbordante, seja derramado a quantos precisarem, porque sedentos de amor, vida, alegria e paz.

O Senhor conhece nossas fragilidades (19/01) ímpar

                                                             

O Senhor conhece nossas fragilidades

Na segunda-feira da segunda semana do Tempo comum (ano ímpar), ouvimos a passagem da Epístola aos Hebreus (Hb 5, 1-10), em que o autor nos apresenta Jesus como o Sumo Sacerdote da Nova Aliança, que Se solidariza com a humanidade e aponta o caminho da Salvação, através da obediência e fidelidade a Deus.

O autor escreve para estimular a vida cristã. É imperativo do crescimento na fé, e nos impressiona ele como descreve Jesus, verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, como fora definido pelos Concílios.

Como homem, sofreu, chorou, teve medo, angústia, cansaço. Viveu entre os homens, compreendeu as fraquezas humanas. Fez-Se igual a todos nós, exceto no pecado.

Somente na oração pôde viver a adesão incondicional ao Pai, fazendo de Sua vida uma perfeita oferenda, como fonte de Salvação eterna.

Ele, Ressuscitado, caminha conosco, e, conhecedor das fragilidades humanas, pôde cumprir integralmente o Projeto de Amor do Pai para toda a humanidade, ontem, hoje e sempre. 

São Sebastião: modelo de coragem e fidelidade (20/01)

                                                           


São Sebastião: modelo de coragem e fidelidade

À luz do Comentário do Salmo 118, escrito pelo Bispo Santo Ambrósio (séc. IV), reflitamos sobre o testemunho dado por São Sebastião, santo e mártir da Igreja, uma fiel testemunha de Cristo, cuja memória é celebrada no dia 20 de janeiro.

’É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus (At 14,22).

A muitas perseguições, correspondem muitas provações; onde há muitas coroas de vitória, deve ter havido muitas lutas. Portanto é bom para ti que haja muitos perseguidores, pois entre muitas perseguições mais facilmente encontrarás o modo de seres coroado.

Tomemos o exemplo do mártir Sebastião; hoje é seu dia natalício. É originário daqui, de Milão. Talvez o perseguidor já tivesse se afastado ou talvez ainda não tivesse vindo a este lugar, ou fosse mais condescendente. De qualquer modo, Sebastião compreendeu que aqui, ou não haveria luta, ou ela seria insignificante.

Partiu então para Roma, onde por causa da fé havia uma tremenda perseguição. Lá sofreu o martírio, isto é, lá foi coroado. Assim, no lugar onde chegara como hóspede, encontrou a morada da eterna imortalidade. Se só houvesse um perseguidor, talvez este mártir não tivesse sido coroado.

Mas o pior é que os perseguidores não são apenas os que se veem; há também os invisíveis, e estes são muito mais numerosos.

Assim como um único rei perseguidor envia muitas ordens de perseguição, e desse modo em cada cidade ou província há diversos perseguidores, também o diabo envia muitos servos seus para moverem perseguições, não apenas exteriormente, mas interiormente, na alma de cada um.

Sobre tais perseguições foi dito: Todos os que querem levar uma vida fervorosa em Cristo Jesus serão perseguidos (2Tm 3,12). Disse todos, sem exceção. Pois quem de fato poderia ser excetuado, se até o próprio Senhor suportou os tormentos das perseguições?

Quantos há que, às ocultas, todos os dias, são mártires de Cristo e proclamam que Jesus é o Senhor! O apóstolo Paulo, testemunha fiel de Cristo, conheceu este martírio, pois afirmou: A nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência’(2Cor 1,12)”.

São Sebastião morreu mártir em Roma (séc. III), no começo da perseguição de Deocleciano. Como vemos uma corajosa testemunha do Senhor no seu tempo, e que muito nos encoraja em nosso testemunho no tempo presente.

Grande é a devoção popular por este santo, mas também grande deve ser o empenho de todos nós, para que vivamos a mesma coragem e fidelidade por ele alcançadas.

Oremos:

“Dai-nos, ó Deus, o espírito de fortaleza, para podermos, instruídos  pelo glorioso exemplo de São Sebastião, obedecer mais a Vós do que aos homens. Por Nosso senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos do séculos. Amém.”

domingo, 19 de janeiro de 2025

Somente o Senhor pode nos dar o Vinho Novo (IIDTCC)

                                                              


Somente o Senhor pode nos dar o Vinho Novo

Com a Liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum (ano C), aprofundamos nossa reflexão sobre a Aliança de amor de Deus para com a humanidade: Deus é sempre fiel, pronto para nos amar e nos assegurar a alegria, a festa, a felicidade plena, o “vinho novo”.

Na primeira Leitura, ouvimos a passagem do Livro do Profeta Isaías (Is 62,1-5), que nos apresenta o amor inquebrável e eterno de Deus, que renova e transforma o povo, simbolizado, aqui, na relação de esposo e esposa.

O período é de pós-exílio, e os poucos habitantes da cidade vivem em condições de extrema pobreza, trazendo à memória a humilhação passada, destruição, na espera da restauração do Templo, acompanhados do sonho de uma nova Jerusalém, com vida, alegria e paz.

O profeta nos apresenta o amor de Deus pelo seu Povo, um amor que nada consegue quebrar ou destruir: nem o próprio afastamento d’Ele, ou nosso egoísmo, recusas. Espera-nos de forma gratuita, convidando-nos ao reencontro, a refazer nossa relação de amor, a fim de gerar vida nova, alegria, festa e felicidade.

Reflitamos:

- Somos sinais vivos de Deus, com o Seu amor transparecido em nossos gestos?
- Nossas famílias são um reflexo do amor de Deus?
- Nossas comunidades anunciam ao mundo, de forma concreta, o amor que Deus tem pela humanidade?

Na segunda Leitura, ouvimos a passagem da primeira Carta do Apóstolo Paulo aos Coríntios (1 Cor 12,4-11), que nos apresenta a comunidade enriquecida dos carismas, de modo que os dons devem ser colocados a serviço de todos, com toda a humildade e simplicidade, e não para uso exclusivo de alguns, em benefício próprio.

A comunidade, assim vivendo, manifesta o amor Trinitário, que a une ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.

Na passagem do Evangelho (Jo 2,1-11), conhecida como as “Bodas de Caná”, num contexto de casamento, acontece o primeiro “sinal”, que nos apresenta a Pessoa de Jesus e o Seu Projeto de vida: apresentar à humanidade o Pai que a ama, e, com Seu amor, convoca a todos para a alegria e a felicidade plenas, prefigurados na água transformada em vinho novo, de melhor qualidade.

O sinal em que Jesus transforma a água em vinho novo, não é uma “mágica”, mas a manifestação do Seu poder em transformar nossa realidade humana pelo amor/confiança em Sua Palavra.

Há um rico simbolismo na passagem:

- vinho: símbolo do amor (relação esposo x esposa);
- seis talhas – a imperfeição, a incompletude;
- talha de pedra – lembra as tábuas da Lei do Sinai e os corações de pedra de que falava o profeta Ezequiel (Ez 36,26);
- a purificação – evoca o amor de Deus que renova o Seu Povo;
- talhas vazias – não proximidade com Deus: de nada adianta todo aparato, se não houver proximidade de Deus, ficamos vazios.

Se em Deus confiarmos e fizermos o que Ele nos diz, jamais teremos um coração de pedra, e jamais seremos como “talhas vazias”; ao contrário, seremos como “talhas” preenchidas do melhor vinho do amor, bondade, ternura, perdão...

Seremos eternos partícipes de uma festa que nunca se acaba, e os carismas colocados a serviço serão sua máxima expressão, pois os carismas e dons que recebemos são para serem colocados a serviço da comunidade.

Uma comunidade madura na fé celebra sempre a Nova e Eterna Aliança do amor de Deus derramado por nós, do Seu lado trespassado pela Cruz, de onde jorrou Água e Sangue, prefigurando nosso Batismo e a Eucaristia, nosso Nascimento e nosso Alimento, em doação total de sua vida por amor à humanidade, por todos nós, quando éramos pecadores e não merecedores de tamanho amor:

"A Morte e Ressurreição de Cristo dão início a uma nova comunidade dos homens com Deus. Celebrar a Eucaristia quer dizer ‘renovar’ um gesto que constitui esta comunidade em Povo de Deus, sua Igreja.

O vinho, sangue de Cristo, é o sinal de seu amor indefectível pela Igreja, vinho que antecipa a festa da nossa assembleia que se plenificará nas núpcias eternas” .(1)

A melhor maneira de corresponder ao amor de Deus é colocar-nos a serviço, a partir dos carismas que cada um recebeu. Deste modo, nunca acabará o Vinho Novo, que Jesus veio trazer e pode a todo instante nos oferecer.

Reflitamos:

- O que nossos olhos e lábios revelam na relação com Deus?
- revelamos a alegria que brota de um coração cheio de amor, ou o medo e a tristeza que brotam de uma religião de pesadelo, de leis e de medo?
- Como vivemos as palavras que Maria nos disse naquele primeiro sinal – “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5)?

O primeiro sinal realizado por Jesus, levou muitos a crerem n’Ele  em Sua Pessoa e Projeto.

Jesus “toma a nossa vida, com as nossas alegrias, os nossos amores, as nossas conquistas humanas, importantes, mas tantas vezes efêmeras, com os nossos tédios, os nossos dias sem gosto e sem cor, os nossos fracassos e mesmo os nossos pecados, também eles ordinários.

E aí, Ele ‘trabalha-nos’ pelo Seu amor, no segredo para fazer brotar em nós a vida que tem o sabor do vinho do Reino. Isto, Ele cumpre-O em particular cada vez que participamos na Eucaristia. Façamos do ‘tempo ordinário’ o tempo do acolhimento do trabalho em nós do vinhateiro divino!” (2)

(1)         Missal Dominical – Editora Paulus – pp.1092-1093
Citação (2) e fonte de pesquisa da Homilia: www.dehonianos.org

O primeiro sinal (IIDTCC)

                                                            


O primeiro sinal 

No sábado antes da Epifania, ouvimos a passagem do Evangelho de João (Jo 2,1-11), em que o Evangelista nos apresenta o primeiro sinal realizado por Jesus: a transformação da água em vinho, numa festa de casamento.

Sejamos enriquecidos por este Hino, sobre as Bodas de Caná,  escrito pelo Diácono São Romano, o Melodioso (séc. VI):

Queremos narrar agora o primeiro milagre realizado em Caná por Aquele que outrora tinha demonstrado o poder de Seus prodígios aos egípcios e aos hebreus.

Naquela ocasião, a natureza das águas foi mudada milagrosamente em sangue. Ele tinha castigado os egípcios com a maldição das dez pragas e tinha tornado o mar inofensivo aos hebreus, a tal ponto que o atravessaram como em terra firme. No deserto, lhes proveu da água que prodigiosamente manou da rocha. Hoje, durante a festa das bodas, realiza uma nova transformação da natureza, Aquele que tudo cumpriu com sabedoria.

Enquanto Cristo participa das bodas e a multidão dos convidados banqueteava, faltou o vinho e a alegria pareceu mudar-se em melancolia. E o esposo estava envergonhado, os servidores murmuravam e aflorava em todas as partes o descontentamento por tal escassez, erguendo-se o tumulto na sala.

Frente a tal espetáculo, Maria, a plenamente pura, mandou advertir apressadamente ao seu Filho: 'Não têm mais vinho. Filhinho, eu Te peço, demonstra o Teu poder absoluto, Tu, que tudo cumpriste com sabedoria...' Cristo, respondendo à mãe que lhe dizia 'concede-me esta graça', contestou prontamente: 'Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou'.

Alguns procuraram entrever nestas palavras um significado que justifique sua impiedade. São aqueles que sustentam a submissão de Cristo às leis naturais, ou O consideram, até mesmo a Ele, vinculado às horas. Mas isto é porque não compreendem o significado da palavra. A boca dos ímpios, que meditam o mal, é obrigada a silenciar pelo milagre imediatamente realizado por aquele que tudo cumpriu com sabedoria.

'Meu filho, responde agora', disse a Mãe a Jesus, a plenamente pura, 'Tu que impões às horas o freio da medida, como podes esperar a hora, meu Filho e meu Senhor? Como podes esperar o tempo, se Tu mesmo estabeleceste a carreira dos anos em seus ciclos perfeitamente regulados: como podes esperar o tempo propício para o prodígio que Te peço, Tu que cumpriste tudo com sabedoria?'

'Antes que Tu notasses, Virgem venerada, Eu já sabia que faltava o vinho', respondeu, então, o Inefável, o Misericordioso, à Mãe veneradíssima. 'Conheço todos os pensamentos que habitam em teu coração. Refletis-te no teu interior: ‘A necessidade incitará, agora, o meu Filho ao milagre, porém, com a desculpa de que as horas O estão atrasando’. Ó Mãe pura, aprende agora o motivo do atraso, e quando o tenhas compreendido, certamente te concederei esta graça, Eu que tudo cumpri com sabedoria'.

'Eleva teu espírito à altura de minhas palavras e compreende, ó incorrupta, o que estou para pronunciar. No mesmo instante em que do nada criava o céu, a terra e a totalidade do universo, podia instantaneamente a ordem em tudo o que Eu estava formando.

Contudo, estabeleci certa ordem bem subdividida; a criação feita em seis dias. E certamente não porque me faltasse o poder de realizar, mas para que o coro dos anjos, ao comprovar que fazia cada coisa ao seu tempo, pudesse reconhecer em mim a divindade, celebrando-a com o seguinte canto: ‘Glória a Ti, Rei poderoso, que cumpriste tudo com sabedoria’'.

'Escuta bem isso, ó santa: Eu poderia resgatar de outra maneira aos caídos, sem assumir a condição de pobre e de escravo. Aceitei, contudo, minha concepção, meu nascimento como homem, o leite de seu seio, ó Virgem, e assim tudo cresceu em mim segundo a ordem, porque em mim nada existe que não seja deste modo. Com a mesma ordem quero agora realizar o milagre, ao qual consinto pela salvação do homem, Eu que tudo cumpri com sabedoria'.

'Entende o que estou dizendo, ó santa; quis começar pelo anúncio aos israelitas, por ensinar-lhes a esperança da fé, para que, antes dos milagres, saibam quem ordenou e conheçam com certeza a glória de meu Pai e Sua vontade, já que Ele quer firmemente que Eu seja glorificado por todos. Realmente, quanto realiza Aquele que me gerou, Eu também posso realizá-lo, por ser consubstancial a Ele e ao Espírito, Eu que tudo cumpri com sabedoria'.

'Se somente houvesse manifestado isso nos prodígios admiráveis, eles teriam compreendido que sou Deus desde antes de todos os séculos, mesmo que me tenha feito homem. Mas agora, contrariamente à ordem e até mesmo antes da pregação, tu me pedes prodígios. Eis aqui o porquê de meu delongo. Pedia-te que esperasse a hora de realizar milagres, por este único motivo. Mas como os pais devem ser honrados pelos filhos, terei consideração para contigo, ó Mãe, visto que tudo posso fazê-lo, Eu que tudo cumpri com sabedoria'.

'Diz, pois, aos habitantes da casa que se coloquem a meu serviço seguindo as ordens: que eles em breve serão, para si mesmos e para os demais, as testemunhas do prodígio. Não quero que seja Pedro o que me sirva, nem tampouco João, nem André, nem nenhum dos Apóstolos, por temor que depois, por sua causa, surja entre os homens a suspeita de fraude. Quero que sejam os próprios criados que me sirvam, porque eles mesmos se converterão em testemunhas daquilo que me é possível, a mim que tudo cumpri com sabedoria'.

Dócil a estas palavras, a Mãe de Cristo se apressou a dizer aos servidores das bodas: 'Fazei o que Ele vos disser'. Havia na casa seis talhas, como nos ensina a Escritura. Cristo ordena aos servidores: 'Enchei-as de água'. E prontamente foi feito. Encheram de água fresca as talhas e ali permaneceram, esperando o que tentava fazer Aquele que tudo cumpriu com sabedoria.

Agora, quero referir-me às talhas e descrever como foram enchidas por aquele vinho, que procedia da água. Como está escrito, o Mestre tinha dito em alta voz aos servidores: 'Tirai este vinho que não provém da vindima, o ofereça aos convidados, enchei as taças vazias, para que todo mundo o desfrute e também o próprio esposo; porque a todos dei a alegria de forma imprevista, Eu que tudo cumpri com sabedoria'.

Sendo que Cristo mudou publicamente a água em vinho graças ao Seu próprio poder, todo mundo se encheu de alegria considerando muito agradável o sabor daquele vinho. Hoje podemos sentar-nos ao banquete da Igreja, porque o vinho se transformou no sangue de Cristo, e nós o assumimos em santa alegria, glorificando ao grande Esposo. Porque o autêntico Esposo é o Filho de Maria, o Verbo que existe desde a eternidade, que assumiu a condição de escravo e que tudo cumpriu com sabedoria.

Altíssimo, Santo, Salvador de todos, mantém inalterado o vinho que existe em nós, Tu que presides todas as coisas. Precipita daqui aos que pensam mal e, em sua perversidade, adulteram com a água Teu vinho santíssimo: porque diluindo sempre Teu dogma em água, condenam-se a si mesmos ao fogo do inferno. Porém, preserva-nos, ó Imaculado, dos lamentos que seguirão ao Teu juízo, Tu que és misericordioso, pelas orações da Santa Virgem Mãe de Deus, Tu que tudo cumpriste com sabedoria”. (1)

Contemplamos a serenidade, confiança e sensibilidade de Maria, que intervém para que o Filho realize o primeiro sinal, antes mesmo das pregações que haveria de fazer.

Ainda que não houvesse chegado a “hora”, Jesus atendeu ao pedido de Sua Mãe, e transformou a água em vinho, e muitos creram n’Ele.

Ressoem as palavras de Maria, sempre em nossos ouvidos e em nosso coração – “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2,5), garantia de que jamais nos faltará o Vinho Novo que somente Jesus, Seu Filho, pode nos oferecer.

(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes - 2013 - pág. 619-622

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