quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Memórias missionárias...

                                                         


Um dia inesquecível!

Todos os dias são importantes em nossa vida, pois são presentes que Deus nos concede. Há, porém, dias que são inesquecíveis, seja pela dor, alegria, ou algum outro fato marcante.

Um destes dias inesquecíveis foi, para mim, o dia 22 de março de 2001 – uma Quinta-feira. Naquela semana, estava na Paróquia São João Batista, em Presidente Médici - RO, ajudando na rodada de primeira visita às Comunidades.

Naquele dia, acordei, tomei o café da manhã junto com Pe. Afonso, Pároco daquela Paróquia, e o João, Agente de Pastoral, liberado da Paróquia. Bagagens prontas, fomos para as Comunidades da Quarta Linha (nome das estradas).

O carro era um Gurgel 85, não muito comum para nós, mas naquela realidade e tempo um tipo de carro mais barato, que consegue romper atoleiros, buracos, morros etc... Por falar nisto, a Quarta linha estava com vários pontos desafiadores por causa dos atoleiros e pontos escorregadios. Ainda bem que o João tinha experiência neste assunto.

Finalmente, chegamos à primeira Comunidade, para a celebração da primeira Missa do dia (normalmente duas por dia, quando na realização das visitas).

Antes disto, tivemos que atravessar um carreador (trilho) com muita água empoçada. Com muito custo, por sinal, conseguimos atravessar os duzentos metros que nos separava da casa onde foi celebrada a Missa (ainda não tem o Centro Comunitário da Comunidade, mas tem uma bonita Igreja-Povo).

Um rapaz, empurrando sua bicicleta, atravessava tranquilamente... Talvez eu não estivesse tão bem acostumado com a realidade, mas chegaria lá!

A Missa foi muito simples e bonita. A motivação do Ato Penitencial, à luz do tema da Campanha da Fraternidade, foi maravilhosa.

Após a Missa, subi numa charrete (tinha sempre a impressão que iria virar) com um casal, e fui a uma casa próxima almoçar. Almoço: galinha caipira, arroz, feijão, sempre muito bem temperado.

Logo após, fui visitar um jovem de 21 anos, a pedido de sua mãe, em quase tom de súplica. Um rapaz muito bom e com algum problema que os médicos não conseguiam descobrir (já tinham vindo até para São Paulo).

Enquanto almoçava, conversei com ele, após alguma resistência à minha visita. No desespero de sua família, como acontece em outras tantas, foi levado a uma Igreja, e lá disseram coisas do tipo: “é possessão do diabo” e coisas assim...

Palavras como estas destroem as pessoas ao invés de ajudá-las. Conversei, orei e o abençoei. Ao final, ele me desejou boa viagem e que tudo daria certo, que eu seria feliz e me chamou de amigo. Prometi rezar muito por ele.

Subi na moto de seu irmão que me levou de volta a casa onde estava a minha mala. Andar de moto no meio de buracos e tocos é muito emocionante. Tive alguns minutos para um descanso, enquanto aguardava a vinda do Gurgel para a segunda Missa.


  1. Após um café moído e feito na hora, com o tradicional coador de pano sustentado no mancebo, voltei ao local de encontro, e aí, no caminho (aquele que falei acima), vi uma cobra enorme; levei um tremendo susto, não sabia se voltava ou se corria para frente. Graças a Deus ela também se assustou comigo e voltou para dentro do mato (mais tarde me falaram que não era uma cobra perigosa, era a conhecida cobra “limpa mato”, mas até saber disto tinha a impressão de que era a mais perigosa da Amazônia...Não chegava a uma anaconda...risos).

Indo para as Comunidades onde celebraríamos à tarde, depois de ter passado por vários atoleiros, nosso Gurgel ficou encavalado num aguaceiro; nem para frente e nem para trás. O jeito foi descermos. Tirei o tênis branco e confortável que, a propósito, não combinava com aquela água barrenta e cheia de pedras, arregaçamos as calças até o joelho. Empurrar? Não adiantou nada! Alavanca com uma tora para remover a roda traseira esquerda, e nada!

Apareceu, providencialmente, um motoqueiro experiente no assunto, solidário, tirou a bota e nos atolamos juntos. Enfim, conseguimos empurrar para trás e sair. O João conseguiu passar por um atoleiro ao lado, que hesitamos passar no primeiro momento, mas foi o melhor caminho. É errando que se aprende. O prejuízo maior foi para ele, que perdeu os óculos nesta confusão toda! (Na volta, procuramos, e nem sinal do mesmo).

Antes de chegar à primeira Comunidade, tivemos que passar numa ponte. Mas para isto tivemos que descer, eu e o Pe. Afonso, para orientar o João, e aliviar o peso, e que peso! Que loucura, passar as rodas equilibradamente em dois troncos! Estávamos indo à Missa ou a um rali?

Chegamos à primeira Comunidade onde Celebrei a Missa: Comunidade Pe. Josimo. Lavei as mãos com a pouca água que tinha, aliás, tirada do filtro, por não ter outra.

A Comunidade se reunia numa sala de aula, que chamavam de Escola. Precária, como outras tantas. Estavam construindo sua Igreja ao lado, num assentamento recente.

Perguntei aos membros da Comunidade se podia celebrar só com a estola, pois estava com a calça toda encharcada de lama, bem como as pernas. O pessoal respondeu: “ Padre, prá nóis o que importa é a Missa!” .

Terminei a Missa, como sempre, povo simples mas cheio de Deus no coração. Aguardei a volta do Pe. Afonso e o João. Pelo eterno problema de avisos, o João não celebrou naquele dia, pela segunda vez. A questão de comunicação era problema lá e em qualquer lugar, e continua ainda hoje.

Voltando, um pouco antes daquele famoso atoleiro, um ônibus que vai e volta da Cidade todos os dias estava atolado. Sabe lá como sairia dali. Mas para eles isto é um fato normal, não se assustavam mais...

Enfim chegamos em casa. Tudo o que queria era um bom banho e descansar para o dia seguinte. Mas o segundo Gurgel que o João tinha levado até um certo trecho de manhã, não havia retornado. Pelo simples motivo de que as chaves se encontravam no seu bolso. Já era 17:40 horas.

Já tinham tentado ligação direta do carro, o que causou pane na parte elétrica. Não havia outra coisa à fazer. Peguei a Toyota da Paróquia em que era Pároco (Sagrado Coração - Ministro Andreazza), e com o João rebocamos  o Gurgel.

Finalmente, chegando em casa, pude tomar meu banho e comer alguma coisa e fim de dia. Antes das 21 horas já estava dormindo, para um novo dia, uma nova visita...

Como disse, há dias memoráveis em nossas vidas. Este dia foi um daqueles que marcaram meus três anos em Missão naquela Diocese que faz parte de minha história e que lembro com carinho e saudade, acompanhado de contínuas orações.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Testemunhar a fé resplandecendo a luz divina

                                               

Testemunhar a fé resplandecendo a luz divina

“A messe é grande, mas os trabalhadores
são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe
 que mande trabalhadores para a colheita” (Lc 10, 2)

Renovemos nossos compromissos no aprofundamento e anúncio da nossa fé, para que a mesma resplandeça a luz da Palavra de Deus.

Precisamos compreender as inúmeras formas de atitudes que revelam, comunicam e testemunham a nossa fé, a fim de que sejamos sal da terra e luz do mundo.

Deste modo, testemunhamos a nossa fé quando não nos distanciamos do conhecimento e cumprimento da Lei Divina contida no Decálogo. Avançando, refletimos sobre o sétimo mandamento: “Não matar”.

Testemunhamos a nossa fé quando não nos dobramos aos pecados capitais que maculam a vida, roubam o que ela tem de mais belo e sagrado.

Testemunhar a nossa fé resplandecendo a luz divina, como bem tem insistido o papa, exige também que lancemos mão dos diversos meios de comunicação, e a internet sem dúvida é um instrumento eficaz para comunicarmos o Evangelho a todos os povos, manifestarmos nosso amor a Deus na construção de relações mais fraternas com o nosso próximo. Todavia é preciso que estejamos atentos às implicações que seu uso indevido pode nos causar.

Viver intensamente a Fé exige corajosa e generosa resposta ao Senhor que nos chama para o cuidado da messe, pois como Ele disse “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos.”

Renovemos nossa alegria de amar e servir a Igreja, colocando nossos dons e carismas a serviço nas  diversas pastorais, movimentos e serviços.

Jesus volta permanentemente o seu olhar cheio de amor para nós pede que vendamos tudo para segui-Lo com alegria, disponibilidade, desapego, confiança e coragem, e nos garante cem vezes mais tudo que tenhamos renunciado, mas não sem perseguição.

Enfim, peçamos ao Senhor da messe, o verdadeiro consumador da nossa fé, que em todo tempo muitos corações se abram à alegria da Boa Nova do Reino, que a exemplo de Maria, respondam “sim” a vontade de Deus, para que empenhados e dedicados, dentro e fora da Igreja, construamos um mundo melhor.

Urge vivermos uma fé autêntica, fecunda, correspondendo ao chamado do Pai, para que nosso coração seja como a terra boa onde a Palavra de Deus cai e produz frutos de amor, alegria, vida e paz. Não há porque temer, recuar... Sua presença, força, ternura, amor e coragem nunca há de nos faltar.

Cair, levantar e caminhar

                                                      


Cair, levantar e caminhar

Por vezes, podemos experimentar a queda,
mas temos que nos levantar e continuar o caminho...

Ainda que não tenhamos forças para nos levantar,
Deus, em Sua bondade e providência, nos assiste.

Não nos deixa faltar mãos solidárias estendidas,
Que não apenas nos levantam, mas condividem os fardos.

Agradeçamos a Deus por estas mãos tantas,
Que nos foram estendidas para sermos o que somos.

Mãos que tocaram nossas feridas com o bálsamo da atenção,
E nos enfaixaram com as faixas da ternura e coragem.

Sejam nossas mãos também estendidas e solidárias,
A quantos caídos, feridos sem vontade de viver e caminhar.

Contemplemos a tríplice queda do Senhor,
E a solidariedade de Simão Cirineu no carregar da cruz.

O Senhor caiu pelo peso de nossos pecados e maldade.
Caiu porque expressão máxima da misericórdia divina.

Caiu pela misericórdia redentora por todos nós vivida.
Caímos, por vezes, por causa de nossos pecados e miséria.

Se cairmos, que não seja para sempre,
Pois há um longo deserto a atravessar...

Pétalas/sépalas

 


Pétalas/sépalas

No jardim, as rosas se sobressaem pela beleza, perfume e cor.
Suavidade em cada pétala, por vezes desfolhadas,
Em “mal me quer, bem me quer”, brinquedo de enamorados.
 
Pétalas são conhecidas, variadas em cores e formatos,
Em poesias, músicas, entre páginas guardadas,
Suaves e doces lembranças de encontros vividos.
 
Mas não haveria as pétalas, não fossem as sépalas,
Que por um tempo as preservaram para que se abrissem
Em botões para decorações e selar puras emoções.
 
Sépalas? Quem delas poesia faria, e encanto despertaria?
Sépalas, no anonimato e escondimento, dobram-se suavemente,
Quase imperceptíveis aos olhos, mas ali estiveram e estarão.
 
Penso nas sépalas nossas de cada dia,
Não as da rosa do meu ou do teu jardim,
Mas aquelas que são fundamentais para mim.
 
Sépalas mães, que por um tempo, no ventre,
Uma vida fecundam no silêncio, por vezes na dor,
Acolhidas como sinais de bênção do Amado Senhor.
 
Sépalas pais, que em imprescindível presença, 
coragem, afeto, proteção, pão de cada dia, 
força e confiança oferecem.

Sépalas, profissionais da saúde, cultura e educação.
Outros tantos impossível  serem aqui mencionados.
Com seu suor e trabalho prolongam a obra da criação.
 
Sépalas de nossas comunidades de fé,
Que se desdobram, se curvam humildemente,
Discípulos/as do Servo que se fez Servidor.
 
Em formações, encontros, catequese,
Cantos, acolhidas, visitas, celebrações.
Palavra proclamada que arde corações.
 
Assim é a história da humanidade,
A beleza das “pétalas”, o escondimento das “sépalas”,
Em harmonia para que o Jardim do Senhor floresça.
 
Pétalas, beleza e encanto para os olhos.
Sépalas, beleza e encanto para o coração
Em perfeita sintonia, sagrado abraço e comunhão. Amém.


 
PS: Sépalas são as estruturas em forma de folha localizadas na parte mais externa de uma flor, cuja principal função é proteger o botão floral antes de ele se abrir.
Pétalas são folhas modificadas que formam a parte colorida e mais visível de uma flor.

Livrai-nos, Senhor!

                                                     

Livrai-nos, Senhor!

Livrai-nos, Senhor, das doenças e tentações que nos enfraquecem,  como Igreja, no anúncio, testemunho e construção do Vosso Reino.

Livrai-nos, Senhor, da doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” pondo de lado os controles necessários e habituais, sabendo que não somos insubstituíveis e indispensáveis, e ajudai-nos cada vez mais a termos consciência que somos apenas servos Vossos.

Livrai-nos, Senhor, da doença do “martalismo”, da excessiva operosidade, que nos condena a um ativismo que fragiliza e nos faz tão apenas cumpridores de tarefas. Que saibamos nos colocar aos Vossos pés, para escutar Vossa Palavra e tudo melhor realizar, porque, acolhidos e envolvidos pelo Vosso Amor, teremos as “mãos de Marta e o coração de Maria”

Livrai-nos, Senhor, da doença do “empedernimento” mental e espiritual, para que não tenhamos  “dura cerviz”, e um coração de pedra, frio e endurecido. Iluminai-nos para que tenhamos os Vossos pensamentos e sentimentos.

Livrai-nos, Senhor da doença da planificação excessiva e do funcionalismo. Iluminai-nos e conduzi-nos por Vosso Espírito, que é o protagonista de toda ação evangelizadora e de todo o nosso viver.

Livrai-nos, Senhor, da doença da má coordenação  e fortalecei a nossa comunhão numa maior harmonia, concórdia, para que redescubramos sempre a força do trabalho em equipe, que nos torna mais fortes e capazes.

Livrai-nos, Senhor, da doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, da história pessoal com o Senhor, do «primeiro amor» (Ap 2,4), voltando sempre àquele primeiro momento em que o Senhor nos seduziu, nos olhou nos olhos e nos chamou pelo nome.

Livrai-nos, Senhor, da doença da rivalidade e da vanglória, de modo que nada façamos por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade nos ensine a considerar os outros superiores a nós mesmos, não agindo em vista de nossos próprios interesses, mas dos outros, rivalizando-nos tão somente no amor.

Livrai-nos, Senhor, da doença da esquizofrenia existencial, e na resposta ao Vosso chamado; conduzidos por Vossa Palavra não tenhamos uma vida dupla e dissoluta, vazia de conteúdo porque um contratestemunho da pregação.

Livrai-nos, Senhor, da doença das bisbilhotices, das murmurações e do mexerico. Que de nossa boca saiam tão apenas palavras sábias e oportunas para a edificação do outro e nossa própria edificação. Lentos no falar, prontos para amar e perdoar e silenciar quando for preciso, e nunca calar o que for preciso dizer. Por isto, concedei-nos serenidade e sabedoria, Senhor.

Livrai-nos, Senhor, da doença da divinização dos chefes e superiores, para que não nos tornemos cortejadores de favores e  benefícios, e afastai toda tentação de carreirismo e oportunismo, que tenha tão apenas o desejo de promoção e reconhecimento, pois não é isto que nos propusestes ao nos oferecer a Cruz para segui-Lo.

Livrai-nos, Senhor, da doença da indiferença para com os outros, para que não pensemos tão somente em nós mesmos. Ajudai-nos a estabelecer relacionamentos sinceros e fraternos, ajudando a levantar quem deseja ser levantado, e jamais sentirmos alegria ao ver um irmão que tenha caído, pecado, ao contrário tudo fazermos para erguê-lo pela confiança em Vossa infinita misericórdia.

Livrai-nos, Senhor, da doença da cara fúnebre, para que não sejamos pessoas grosseiras e sisudas, com feições de melancolia, de severidade e assim, jamais  tratar os outros – principalmente os considerados inferiores – com rigidez, dureza e arrogância.

Livrai-nos, Senhor, da doença do acúmulo de bens que passam, para que jamais preenchamos o vazio existencial do coração acumulando bens materiais, não por necessidade, mas somente para nos sentirmos seguros. Dai-nos sempre sabedoria para usar os bens que passam e abraçar os que não passam.

Livrai-nos, Senhor, da doença dos círculos fechados onde a pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo  e, em algumas situações, ao próprio Cristo. Concedei-nos a abertura ao outro, em respeito à alteridade e na vivência da gratuidade necessária em tudo que fizermos, para que mais verdadeira seja nossa comunhão fraterna.

Livrai-nos, Senhor, da doença do proveito mundano, dos exibicionismos, para que não transformemos o serviço em poder e o  poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder. Que o poder seja a mais perfeita expressão do amor serviço, entrega e doação da própria vida e dos dons que nos concedestes, multiplicando-os quando não os enterramos, mas colocamos em comum.

Senhor, livrai-nos, enfim, de tudo aquilo que não corresponda aos Vossos desígnios e de tudo aquilo que nos afaste de Vós, porque, inevitavelmente afastado de Vós, nos afastamos uns dos outros. Amém.


PS: Inspirado no “Discurso do Papa Francisco à Cúria Romana”, que o leitor poderá conferir na íntegra acessando:


“Discurso do Papa Francisco à Cúria Romana”

                              

“Discurso do Papa Francisco à Cúria Romana”

“Catálogo das Doenças curiais.”
“São doenças e tentações que
enfraquecem o nosso serviço ao Senhor.”

Retomemos o “Discurso do Papa Francisco à Cúria Romana”, por ocasião do final do Advento de 2014.

A Curia Romana, como o corpo humano, está exposta também às doenças, ao mau funcionamento, à enfermidade. E como um “corpo”, procura, séria e cotidianamente, ser mais viva, mais sadia, mais harmoniosa e mais unida em si mesma e com Cristo

O papa descreveu 15 prováveis doenças curiais mais costumeiras, afirmando: “estas doenças e tais tentações são naturalmente um perigo para todo cristão e para toda a Cúria, Comunidade, Congregação, Paróquia, Movimento eclesial e podem atingir quer em nível individual quer comunitário”.

1. “A doença do sentir-se “imortal”, “imune” ou até mesmo “indispensável” pondo de lado os controles necessários e habituais. Uma Cúria que não faz autocrítica, que não se atualiza, que não procura melhorar é um corpo enfermo. Uma visita ordinária aos cemitérios poderia ajudar-nos a ver os nomes de tantas pessoas, algumas das quais pensassem talvez que eram imortais, imunes e indispensáveis!...”

2. A doença do “martalismo” (que vem de Marta), da excessiva operosidade: ou seja, "daqueles que mergulham no trabalho, descuidando, inevitavelmente, 'a melhor parte': sentar-se aos pés de Jesus (cf Lc 10,38-42)... o tempo do descanso, para quem levou a termo a sua missão, é necessário, obrigatório e deve ser levado a sério: no passar um pouco de tempo com os familiares e no respeitar as férias como momentos de recarga espiritual e física; é necessário aprender o que ensina Coelet que «para tudo há um tempo» (3,1-15)".

3. A doença do “empedernimento” mental e espiritual: o perigo de tornar o coração de pedra, frio e endurecido, deixando de ter os mesmos sentimentos do Senhor (Fl 2,5); ou seja, "daqueles que possuem um coração de pedra e são de 'dura cerviz' (At 7,51-60); daqueles que, com o passar do tempo, perdem a serenidade interior, a vivacidade, a audácia e escondem-se atrás das folhas de papel, tornando-se 'máquinas de práticas' e não 'homens de Deus' (cf Hb 3,12)". 

4. A doença da planificação excessiva e do funcionalismo: jamais ter como Igreja a pretensão de regulamentar e domesticar o Espírito Santo que é  frescor, fantasia, novidade - "É necessário preparar tudo bem, mas sem nunca cair na tentação de querer conter e pilotar a liberdade do Espírito Santo, que sempre permanece maior e mais generosa do que toda a planificação humana (cf. Jo 3,8)...” .

5. A doença da má coordenação: os  membros perdem a comunhão entre si e o corpo perde a sua funcionalidade harmoniosa e a sua temperança com a falta do  espírito de comunhão e de equipe.

6. A  doença do “alzheimer espiritual”: ou seja, o esquecimento da “história da salvação”, "...da história pessoal com o Senhor, do 'primeiro amor' (Ap 2,4)... É o que vemos naqueles que perderam a memória do seu encontro com o Senhor; naqueles que não têm o sentido deuteronômico da vida; naqueles que dependem completamente do seu presente, das suas paixões, caprichos e manias; naqueles que constroem em torno de si barreiras e hábitos, tornando-se, sempre mais escravos dos ídolos que esculpiram com as suas próprias mãos".

7. A doença da rivalidade e da vanglória: "...quando a aparência, as cores das vestes e as insígnias de honra se tornam o objetivo primordial da vida, esquecendo as palavras de São Paulo: 'Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses , e sim os dos outros» (Fl 2,3-4)'".

8. “A doença da esquizofrenia existencial: há a criação de um mundo paralelo com uma vida oculta e dissoluta e a conversão é por demais urgente e indispensável para esta gravíssima doença (cf Lc 15,11-32) - "...é a doença dos que vivem uma vida dupla, fruto da hipocrisia típica do medíocre e do vazio espiritual progressivo que formaturas ou títulos acadêmicos não podem preencher”. 

9. A doença das bisbilhotices, das murmurações e do mexerico: É uma doença grave, que começa simplesmente, quem sabe, para trocar duas palavras e se apodera da pessoa, transformando-a em “semeadora de cizânia” (como satanás), e em tantos casos “homicida a sangue frio” da fama dos seus colegas e confrades - "É a doença das pessoas covardes que, não tendo a coragem de falar diretamente, falam pelas costas... guardemo-nos do terrorismo das maledicências!"

10. A doença de divinizar os chefes: "...é a doença dos que cortejam os Superiores, esperando obter a benevolência deles. São vítimas do carreirismo e do oportunismo, honrando as pessoas e não a Deus (cf Mt 23,8-12)...”

11. A doença da indiferença para com os outros:  Não se partilha o saber e, às vezes, por ciúme ou por astúcia, sente alegria ao ver o outro cair, ao invés de erguê-lo e encorajá-lo - "Quando alguém pensa somente em si mesmo e perde a sinceridade e o calor das relações humanas.”

12. A doença da cara fúnebre. Quer dizer, das pessoas grosseiras e sisudas que pensam que, para ser sérias, é necessário assumir as feições de melancolia, de severidade e tratar os outros – principalmente os que consideram inferiores – com rigidez, dureza e arrogância. Na realidade, a severidade teatral e o pessimismo estéril são muitas vezes sintomas de medo e de insegurança...”

13. A doença de acumular: "quando o Apóstolo procura preencher um vazio existencial no seu coração, acumulando bens materiais, não por necessidade, mas só para sentir-se seguro...”.

14. "A doença dos círculos fechados onde a pertença ao grupinho se torna mais forte do que a pertença ao Corpo  e, em algumas situações, ao próprio Cristo...".

15. “A doença do proveito mundano, dos exibicionismos, quando o apóstolo transforma o seu serviço em poder e o seu poder em mercadoria para obter dividendos humanos ou mais poder; é a doença das pessoas que procuram insaciavelmente multiplicar poderes e, com esta finalidade, são capazes de caluniar, de difamar e de desacreditar os outros, até mesmo nos jornais e nas revistas...”

Como podemos perceber, estas “doenças curiais” também estão presentes em nossas comunidades, e é preciso a ajuda do Espírito Santo que, com Sua ação, dá vida nova a quem a Ele se abre.

Como bem afirmou o Papa, o restabelecimento destas enfermidades é fruto da consciência da doença, e da decisão pessoal e comunitária de tratar-se, suportando pacientemente e com perseverança a terapia com propósito de mudança.

Há esperança de cura e conversão, ele diz citando o Bispo Santo Agostinho:  «Enquanto uma parte aderir ao corpo, a sua cura não é desesperada; mas o que foi cortado não pode nem curar-se nem sarar».

Concluo afirmando que, na Cúria Romana ou em qualquer lugar, estas “doenças” podem nos tornar enfermos, e necessitados  da cura que somente Deus pode nos oferecer, em sincera abertura de coração, tomando consciência de nossos pecados, para estabelecer novas relações mais humanas e fraternas, que expressem a verdadeira presença de Deus entre nós.


PS: “Discurso do Papa Francisco à Cúria Romana”, pode ser acessado e conferido na íntegra:



Em poucas palavras...

                                                  


“...Ó Maravilha de amor pelos homens!”

“Cristo foi verdadeiramente crucificado, verdadeiramente sepultado e ressuscitou verdadeiramente. Tudo isto foi para nós um dom da graça, a fim de que, participando da sua paixão através do mistério sacramental, obtenhamos na realidade a salvação.

Ó maravilha de amor pelos homens! Em Seus pés e mãos inocentes, Cristo recebeu os cravos e suportou a dor; e eu, sem dor nem esforço, mas apenas pela comunhão em suas dores, recebo gratuitamente a Salvação.” (1)

 

(1)  Das Catequeses de Jerusalém (séc IV)

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