sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Os inseparáveis amores: Amor a Deus e ao próximo

                                                      

Os inseparáveis amores: Amor a Deus e ao próximo

O Mandamento do Amor é a essência da vida cristã

Na Liturgia da Sexta-feira da 20ª Semana do Tempo Comum ouvimos a passagem do Evangelho de São Mateus (Mt 22,34-40), e refletimos sobre a inseparabilidade do amor a Deus e ao próximo, que são os maiores Mandamentos da Lei Divina.

Amor que está no centro da experiência cristã, pois Deus espera que cada coração humano esteja submergido no Seu Amor.  Imersão no Amor de Deus para transbordar, comunicar o amor ao próximo: eis o sentido do existir e do ser cristão em todo tempo.

É oportuno que voltemos a passagem do Livro do Êxodo (Ex 22,20-26), que nos remete ao “Código da Aliança”, que se trata de um conjunto de prescrições, soluções, disposições justas, sãs e sólidas que norteiam, orientam a conduta humana nas mais diversas situações.

Esta passagem é como um extrato deste Código: a defesa do pobre e da viúva (desprotegidos); a acolhida do estrangeiro (desenraizado); a defesa do pobre (carente e em extrema necessidade).

Somente a defesa destes é que manterá viva a Aliança de Deus com a humanidade. A dura experiência vivida no exílio leva ao aprendizado e a compromissos renovados, para que a vida e a liberdade sejam resplandecentes em cada amanhecer.

É preciso ver no rosto do pobre, do órfão, da viúva e do estrangeiro, o rosto de Deus.

Reflitamos:

- Onde estão eles em nossas comunidades?
- Como os amamos e os defendemos?

- Quais os espaços que ocupam em nossas preocupações, organizações e pastorais?
- Como não compactuar com situações que favoreçam o roubo da vida e da dignidade dos pobres?

Mais uma vez Jesus enfrenta os líderes religiosos de Seu tempo. Após as questões polêmicas do tributo a César e da Ressurreição (não acreditada pelos Saduceus), Jesus é interrogado sobre qual é o maior Mandamento.

Consideremos que os fariseus conservavam 613 mandamentos (sendo 365 proibições e 248 prescrições). Um verdadeiro emaranhado de preceitos e prescrições. 

Evidentemente, os pobres estavam impossibilitados deste conhecimento, e, pelos fariseus, eram considerados impuros e distantes de Deus.

A resposta de Jesus unifica e equipara os dois Mandamentos: “’Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma e de todo o teu entendimento!’ Esse é o maior Mandamento.

O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’”. Com isto podemos afirmar que toda revelação de Deus se resume no amor: amor a Deus e ao próximo. A Lei e os Profetas são desdobramentos destes dois Mandamentos.

O Mandamento do Amor é o resumo de toda Lei, pois a vida cristã consistirá em viver o amor Trinitário, do Pai que nos ama, por meio do Seu Filho em comunhão com o Santo Espírito.

Tudo que Deus faz é simplesmente por amor, e esta é essencialmente a marca de Seu agir. Assim, tudo quanto fizermos, tanto os gestos mais grandiosos de fidelidade quanto os menores, se ausente o amor, perdem sua consistência.

Amando a Deus escutaremos Sua palavra e haveremos de nos empenhar no cumprir da vontade divina. No amor aos irmãos, haveremos de nos solidarizar com todos os que encontrarmos pelo caminho. O amor, a solidariedade, o serviço, a partilha, o dom da vida em favor do outro nos fazem adoradores de Deus, de fato.

Evidentemente, na vivência do Amor a Deus e ao próximo, Jesus fez cair as máscaras da hipocrisia de Seus opositores, que conhecedores da Lei, do Mandamento divino, mas tão apenas conhecedores, pois não os colocavam em prática, como Ele o fez em relação aos pequeninos, aos pobres, aos enfermos, aos marginalizados. Bem sabemos que este Amor que ama até o fim incomodou aqueles bem estabelecidos, porque com os preferidos de Deus jamais comprometidos.

O Missal Dominical nos enriquece com esta reflexão:

“O Mistério de Cristo, no seu todo, é vivido na Igreja, no conjunto de seus membros em todos os séculos.

O contemplativo serve aos homens servindo a Deus; o ativo serve a Deus servindo aos homens...

O Santo Cura D’Ars suspirava por um convento e pela solidão, enquanto se dedicava inteiramente aos homens; e os conventos deram à Igreja grandes Papas, Bispos, Reformadores e Missionários, que passaram da contemplação e da solidão à ação mais perseverante e ininterrupta”.

Na verdade, os dois Mandamentos são o resumo de toda a Bíblia: que a vontade de Deus seja feita, numa entrega cotidiana de amor em favor do Reino, fazendo da vida um dom total de si mesmo, como Jesus o fez - o Missionário amado pelo Pai, na força do Espírito, o Amor que nos acompanha em todo momento. 

Conduzidos pelos Dez Mandamentos

                                              

Conduzidos pelos Dez Mandamentos

Reflexão à luz da passagem do Livro do Êxodo (Ex 20,1-17), que descreve a entrega do Decálogo a Moisés por Deus.

O Decálogo é o coração da Aliança no Sinai; uma síntese da Lei e são como “balizas” para a nossa vida, nossa conduta e atitudes em relação a Deus e ao próximo.

Como “sinais de trânsito”, assegura o percurso para a liberdade e vida verdadeira: 

A formulação das Dez Palavras, na sua maioria negativas, varia na extensão: mais ampla a que diz respeito à relação com Deus; muito concisa a que concerne a relação com o próximo” (1).

Mas, esta Lei não é uma imposição externa, pois se trata de Dez Palavras de vida: 

É um caminho traçado, diante de nós e dentro de nós, para guardarmos e saborearmos as belezas da vida” (2).

A Aliança do Povo com Deus implica em obrigações fundamentais diante d'Ele, e elas são sintetizadas nos Dez Mandamentos.

Deus tem que ser a referência e o valor absoluto na vida de Seu Povo, para que não volte à velha escravidão e opressão da qual foi liberto, a fim que seja livre e feliz.

A maior parte dos Mandamentos, de outro lado, assegura relações comunitárias e fraternas, sem egoísmo e cobiça.

Sendo o Senhor dono do templo, deveria receber toda adoração, e não se poderia adorar os ídolos que O substituiria e levaria, consequentemente, o Povo para nova escravidão: egoísmo, autossuficiência, injustiça, comodismo, paixões, cobiça, exploração.

Com isto, curvar-se-ia diante de outros “deuses”: dinheiro, poder, afetos humanos, realização profissional, reconhecimento social, interesses egoístas, valores da moda e ideologias que se contrapõem a Lei do Senhor.

Portanto, o Lei exerce uma função fundamental para que não se caia em nova escravidão, como fora experimentada no Egito: 

A Lei é a Palavra que estabelece a relação entre nós e o Senhor, uma Palavra que não nos limitaremos a cumprir exteriormente, mas que escutaremos e compreenderemos com uma participação intensa do coração” (3).

No Novo Testamento, Jesus sintetizará os Mandamentos em dois: 

“E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc 12, 29-31).

Segundo o Bispo Santo Agostinho

“Esses dois Preceitos devem ser sempre lembrados, meditados, conservados na memória, praticados, cumpridos. O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos Preceitos, mas o amor do próximo ocupa o primeiro lugar na ordem da execução. Pois, quem te deu esse duplo preceito do amor não podia ordenar-te amar primeiro ao próximo e depois a Deus, mas primeiramente a Deus e depois ao próximo”.

Concluindo, o Papa Bento XVI, em sua Encíclica “Deus caritas est”, assim afirmou: 

“O amor ao próximo é também uma estrada que conduz a Deus. Não amar o próximo é tornar-se míope de Deus”.

Reflitamos:

 -   Como vivemos os Dez Mandamentos da Lei de Deus?
 -   De que modo amamos e servimos ao Deus Vivo e Verdadeiro?

 -   Existe algum ídolo que nos afasta deste Deus?
 -   Como é nossa relação com nosso próximo?

Oremos:

Ó Deus de Amor, suplicamos o Vosso Espírito Santo, Espírito de Amor, para que vivamos um amor verdadeiro, fiel, profundo e sofredor, para que mais configurados ao Vosso Filho sejamos e vivamos a fidelidade aos ensinamentos e Mandamento do Amor que Ele nos deu, curados de toda a miopia espiritual, e assim, a Trindade amar na primeira ordem dos preceitos e ao próximo em primeiro lugar na ordem da execução. Amém.


PS: Fonte de pesquisa: www.Dehonianos.org/portal
(1) Lecionário comentado – volume I – Tempo Comum - Ed. Paulus – Lisboa – p. 793
(2) idem p. 794
(3) Idem p. 797

O duplo Preceito do Amor

                                                             

O duplo Preceito do Amor

“Ama, pois, o teu próximo e procura
no teu íntimo a origem deste Amor...”

Amor a Deus e ao próximo,
duplo Preceito indissociável


Reflexão à luz do “Tratado sobre o Evangelho de São João”, escrito por Santo Agostinho (séc. V), sobre o duplo Preceito da Caridade, que nos torna verdadeiramente promotores da paz, realizando uma das Bem-Aventuranças que o Senhor, na Sagrada Montanha, nos apresentou - "Bem-Aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus" (Mt 5,9).

“Veio o Senhor, mestre da caridade, cheio de caridade, cumprir prontamente a Palavra sobre a terra (cf. Rm 9,28 Vulg.), como d’Ele foi anunciado, e sintetizou a Lei e os Profetas nos dois preceitos da caridade.

Recordai comigo, irmãos, quais são esses dois Preceitos. É preciso que os conheçais profundamente, de tal modo que não vos venham à mente só quando vo-los lembramos, mas os conserveis sempre bem gravados em vossos corações. 

Recordai-vos em todo momento de que devemos amar a Deus e ao próximo: a Deus de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, e de todo o nosso entendimento; e ao próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22,37-39).

Esses dois Preceitos devem ser sempre lembrados, meditados, conservados na memória, praticados, cumpridos. O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos Preceitos, mas o amor do próximo ocupa o primeiro lugar na ordem da execução. Pois, quem te deu esse duplo preceito do amor, não podia ordenar-te amar primeiro ao próximo e depois a Deus, mas primeiramente a Deus e depois ao próximo.

Entretanto, tu que ainda não vês a Deus, merecerás vê-Lo se amas o próximo; amando-o purificas teu olhar para veres a Deus, como afirma expressamente São João: 'Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê '(1 Jo 4,20).

Ouviste o Mandamento: Ama a Deus. Se me disseres: 'Mostra-me a quem devo amar', que responderei senão o que disse o mesmo São João: A Deus, ninguém jamais viu? (Jo 1,18). E para pensares que está absolutamente fora de teu alcance ver a Deus, o mencionado Apóstolo afirma: 'Deus é Amor: quem permanece no amor, permanece com Deus '(1Jo 4,16). Ama, pois, o teu próximo e procura no teu íntimo a origem deste amor; lá verás a Deus o quanto agora te é possível.

Começa, portanto, a amar o próximo. Reparte o pão com o faminto, acolhe em casa o pobre sem abrigo; quando encontrares um nu, cobre-o, e não dês as costas ao teu semelhante (cf. Is 58,7).

Procedendo assim, o que alcançarás? Então brilhará a tua luz como a aurora (Is 58,8). Tua luz é o teu Deus; Ele é a aurora que despontará sobre ti depois da noite desta vida. Essa luz não conhece princípio nem ocaso, porque existe eternamente.

Amando o próximo e cuidando dele, vais percorrendo o teu caminho. E para onde caminhas senão para o Senhor Deus, para Aquele que devemos amar com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, de toda a nossa mente? É certo que ainda não chegamos até junto do Senhor; mas já temos conosco o próximo. Ajuda, portanto, aquele que tens ao lado, enquanto caminhas neste mundo, e chegarás até junto d’Aquele com quem desejas permanecer para sempre.”

A dupla face do Mandamento do Amor que o Senhor nos deixou: amar a Deus e ao próximo. 

E nós os vivemos:

Quando não ilhamos os dois amores.
Quando não os esvaziamos de conteúdos.
Quando não os tornamos apenas teorias.
Quando não os dissociamos do Mistério da Cruz.

Quando damos a eles matizes Pascais.
Quando sabemos viver renúncias, desapegos...
Quando temos coragem de morrer por algo melhor.
Quando o coração plenificado do Amor Divino
Se visibiliza em pequenos e grandes gestos solidários.

Quando não nos curvamos diante dos pecados capitais
Que roubam a beleza da vida, porque nos escravizam.
Quando pautamos nossa vida pelos dons do Santo Espírito,
Que se vividos, acolhidos, nos humanizam, divinizam.

Espírito que na criatura, em Mistério insondável habita,
Divinizados nos fez, semente da eternidade nos concedeu.
Se imagem de Deus convicção tivermos de que somos,
Empenho pela paz fará mais belo um mundo novo possível. Amém.

PS: Apropriado para a passagem do Livro do Deuteronômio (Dt 6,4-13)

São Pio X e a riqueza dos Salmos

                                                    

São Pio X e a riqueza dos Salmos

“A mim me parece que os Salmos são como um espelho para quem salmodia, onde este se contempla a si e os movimentos de seu espírito, e, assim impressionado, os recita

No dia 21 de agosto, celebramos a Memória do Papa São Pio X (séc. XX), e refletimos sobre a Constituição Apostólica Divino aflatu, que ele escreveu sobre os Salmos.

“Compostos por divina inspiração, os salmos colecionados na Sagrada Escritura foram desde os inícios da Igreja empregados, como se sabe, não apenas para alimentar maravilhosamente a piedade dos fiéis que ofereciam sempre a Deus o sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que louvam seu nome (cf. Hb 13,15; Os 14,3); mas também, como já era costume na antiga Lei, para ocupar lugar eminente na sagrada liturgia e no ofício divino. Daí nasceu, na expressão de Basílio, ‘a voz da Igreja’ e a salmodia.

Salmodia que é ‘filha de sua hinodia, que sempre a Igreja canta diante do trono de Deus e do Cordeiro’, como expõe nosso predecessor Urbano VI. Assim a Igreja ensina aos homens particularmente devotados ao culto divino, conforme as palavras de Atanásio, ‘de que modo se deve louvar o Senhor e com que palavras dignamente’ confessá-lo.

A este respeito disse muito bem Agostinho: ‘Para ser bem louvado pelo homem, Deus mesmo se louvou; e, aceitando louvar-se, deu ao homem encontrar o modo de louvá-lo’.

Além disto, nos Salmos há uma maravilhosa força para despertar nos corações o desejo de todas as virtudes. Pois, ‘embora toda a nossa Escritura, tanto a antiga quanto a nova, seja inspirada por Deus e útil para a instrução, como está escrito (cf. 2Tm 3,16), o Livro dos Salmos porém, semelhante a um paraíso, que contém em si os frutos dos demais Livros, produz o canto, e, ainda mais, oferece seus próprios frutos unidos aos dos outros durante a salmodia’.

Essas palavras são novamente de Atanásio, que acrescenta: ‘A mim me parece que os Salmos são como um espelho para quem salmodia, onde este se contempla a si e os movimentos de seu espírito, e, assim impressionado, os recita’.

Também diz Agostinho nas Confissões: ‘Como chorei por causa de teus hinos e cânticos, vivamente comovido pelas suaves palavras do canto de tua Igreja! As palavras fluíam em meus ouvidos e instilava-se a verdade em meu coração, fazendo arder a piedade; corriam-me as lágrimas e sentia-me bem com elas’.

Na verdade, a quem não comovem aquelas frequentes passagens dos salmos onde se canta profundamente a imensa majestade de Deus, a onipotência, a indizível justiça, a bondade ou a clemência e todos os outros infinitos louvores?

A quem não inspiram iguais sentimentos as ações de graças pelos benefícios recebidos de Deus, ou as humildes e confiantes preces pelo que se deseja, ou os clamores do arrependimento dos pecados? A quem não inflama a cuidadosamente velada imagem do Cristo Redentor ‘cuja voz ouvia Agostinho em todos os Salmos a salmodiar, a gemer, a alegrar-se na esperança ou a suspirar pela realização?’”.

É inesgotável a riqueza da oração com os Salmos, como vemos na compreensão da Tradição da Igreja.

Quando rezamos os Salmos, sobretudo na Liturgia das Horas, temos que levar em conta ao menos quatro aspectos: o sentido literário, a dimensão cristológica, eclesiológica e escatológica.

Urge que redescubramos a beleza e riqueza dos Salmos, enriquecendo-nos em nossa espiritualidade, na fidelidade ao Senhor, como discípulos missionários seus. Amém.

“Peregrinos da esperança: coração ardente, pés a caminho”

                                                  


“Peregrinos da esperança: coração ardente, pés a caminho”

“Ainda que a figueira não floresça,
nem a vinha dê seus frutos,
a oliveira não dê mais o seu azeite,
nem os campos, a comida
 
mesmo que faltem as ovelhas nos apriscos
e o gado nos currais:
mesmo assim, eu me alegro no Senhor,
exulto em Deus, meu Salvador!” (1)
 
Ainda que a cruz de tantos nomes pese sobre meus ombros,
Tenho que seguir adiante, pois não posso jamais desistir,
Porque peregrino da esperança, coração ardente, pés a caminho.
 
Ainda que as mudanças tantas do mundo não as veja acontecer,
Tenho que persistir, contemplando os pequenos sinais do Reino,
Porque peregrino da esperança, coração ardente, pés a caminho.
 
Ainda que as ondas do mar pareçam forças absolutas possuir,
O barco agitado, o medo na travessia a fazer, n’Ele, Jesus, confiar.
Porque peregrino da esperança, coração ardente, pés a caminho.
 
Ainda que as montanhas e vales a subir e caminhar,
Na busca de objetivos que pareçam jamais poder alcançar, seguir...
Porque peregrino da esperança, coração ardente, pés a caminho.
 
Ainda que a luz do sol pareça não mais no céu irradiar,
Porque o caminho se fez mais escuro em pleno dia, pelas inquietações,
peregrino da esperança, coração ardente, pés a caminho.
 
Ainda que não encontre respostas para os mistérios cotidianos,
Nas asas do Espírito, na busca das coisas do alto, onde habita Deus,
Porque peregrino da esperança, coração ardente, pés a caminho.
 
Ainda que as forças pareçam eternamente exauridas,
Do Pão da Palavra e da Eucaristia, nutrir-se e seguir...
Porque peregrino da esperança, coração ardente, pés a caminho. 
 
Ontem, hoje e sempre.
Como os discípulos de Emaús, (2)
Peregrino da esperança, coração ardente, pés a caminho. Amém. Aleluia!
 
(1)             cf. Hab 3,17-18
(2)             cf. Lc 24,13-35 

Fidelidade e prática dos Mandamentos divinos

                                


Fidelidade e prática dos Mandamentos divinos

Sejamos enriquecidos pelo Tratado contra as heresias escrito por Santo Irineu de Lião (séc. II).

“A tradição dos seus maiores que eles fingiam observar como derivada da Lei era contrária à Lei dada por Moisés. Por isso disse Isaías: Teus taverneiros colocam água no vinho, indicando que ao austero preceito de Deus os maiores tinham misturado uma tradição aguada, isto é, uma lei adulterada e contrária à Lei, como o manifestou o Senhor, dizendo-lhes: Por que vós anulais o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?

E não só anularam a Lei de Deus por suas transgressões, colocando água no vinho, mas erguendo contra ela sua própria lei, lei que ainda hoje se chama ‘farisaica’. Nesta lei tiram algumas coisas, acrescentam outras e interpretam não poucas ao seu bem-querer. De tudo isto se servem particularmente os seus próprios mestres.

Querendo reivindicar tais tradições, não quiseram submeter-se à Lei de Deus que os orientava para a vinda de Cristo; antes, recriminavam ao Senhor porque curava em sábado, coisa que certamente - como já vimos - a Lei não proibia, já que, de certo modo, ela também curava, prescrevendo a circuncisão naquele dia; porém, cuidavam-se muito bem de acusarem a si mesmos por transgredir o preceito em nome de sua tradição e da mencionada ‘lei farisaica’, não levando em conta o principal mandamento da Lei, que é o amor a Deus.

Sendo este o primeiro e principal preceito e o segundo o amor ao próximo, o Senhor ensinou que toda a Lei e os profetas dependem destes dois mandamentos. E Ele mesmo não nos deu nenhum mandamento maior do que este, mas o renovou, ordenando aos seus discípulos amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmos.

E Paulo diz que o amor é o cumprimento perfeito da Lei, e quando desaparecem os demais carismas, permanecerão a fé, a esperança e o amor, porém o maior dos três é o amor; e que o conhecimento sem o amor de Deus não tem valor nenhum, nem  conhecer todos os segredos, nem a fé, nem a profecia, visto que tudo é tolice e vaidade sem o amor; que o amor torna o homem perfeito, e quem ama a Deus é um homem perfeito neste mundo e no futuro: porque jamais deixaremos de amar a Deus, mas quanto mais o contemplemos, mais o amaremos.

Sendo, portanto, na Lei e no Evangelho o primeiro e maior mandamento é o mesmo, isto é, amar o Senhor Deus de todo o coração, e o segundo, semelhante a ele, amar o próximo como a si mesmo, é evidente que um só e o mesmo é o Autor tanto da Lei como do Evangelho. Assim, sendo os mesmos, em ambos os Testamentos, os mandamentos fundamentais da vida, apontam para um mesmo Senhor, o qual deu, é verdade, preceitos particulares adaptados a cada Testamento, porém propôs em ambos alguns mandamentos comuns, os mais importantes e sublimes, sem os quais não é possível salvar-se.” (1)

Tanto na Lei como no Evangelho, o primeiro e principal mandamento é amar a Deus, que não se separa do segundo mandamento que se expressa no amor ao próximo como Jesus Cristo nos falou na passagem do Evangelho de Mateus (Mt 22,34-40).

Trata-se, portanto. de um duplo preceito inseparável que devemos viver na relação com Deus e com nosso próximo, que nos credencia, se vividos, caminhar para a eternidade. Amém.

  

(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes - 2013 - pp. 458-459

PS: Oportuno para a reflexão da passagem do Evangelho de Marcos (Mc 12,28b-34).

Amor a Deus e ao próximo

                                

Amor a Deus e ao próximo

Ao refletirmos sobre o Mandamento do amor a Deus e ao próximo, voltemo-nos a uma passagem do Antigo Testamento (Dt 32,15-24.30-34), que retrata o retorno de Moisés do cume da montanha, trazendo em suas mãos as duas Tábuas da Aliança, escritas de ambos os lados, como obra de Deus.

As Tábuas trazidas por Moisés, o Decálogo, eram o coração da Aliança no Sinai; uma síntese da Lei e são como “balizas” para a nossa vida, nossa conduta e atitudes, em relação a Deus e ao próximo.

Como “sinais de trânsito”, asseguram o percurso para a liberdade e vida verdadeira: A formulação das Dez Palavras, na sua maioria negativas, varia na extensão: mais ampla, a que diz respeito à relação com Deus; muito concisa a que concerne a relação com o próximo” (1)

Mas, esta Lei não é uma imposição externa, pois se trata de Dez Palavras de vida: “É um caminho traçado, diante de nós e dentro de nós, para guardarmos e saborearmos as belezas da vida” (2).

A Aliança do Povo com Deus implica em obrigações fundamentais diante d'Ele, e elas são sintetizadas nos Dez Mandamentos, para que não volte à velha escravidão e opressão da qual o Senhor os libertou, pois Deus quer ser adorado por um Povo livre e feliz.

A maior parte dos Mandamentos, de outro lado, assegura relações comunitárias e fraternas, sem egoísmo e cobiça.

Sendo o Senhor dono do templo, deveria receber toda adoração, e não se poderia adorar os ídolos que O substituiria e levaria o Povo para nova escravidão: egoísmo, autossuficiência, injustiça, comodismo, paixões, cobiça, exploração.

Curvar-se-ia diante de outros “deuses”: dinheiro, poder, afetos humanos, realização profissional, reconhecimento social, interesses egoístas, valores da moda e ideologias que se contrapõem a Lei do Senhor.

Portanto, a Lei exerce uma função fundamental para que não se caia em nova escravidão, como fora experimentada no Egito: “A Lei é a Palavra que estabelece a relação entre nós e o Senhor, uma Palavra que não nos limitaremos a cumprir exteriormente, mas que escutaremos e compreenderemos com uma participação intensa do coração” (3).

Voltando à passagem do Evangelho, Jesus sintetizou os Mandamentos em dois: “E Jesus respondeu-lhe: O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes” (Mc 12, 29-31).

Segundo o Bispo Santo Agostinho: “Esses dois Preceitos devem ser sempre lembrados, meditados, conservados na memória, praticados, cumpridos. O amor de Deus ocupa o primeiro lugar na ordem dos Preceitos, mas o amor do próximo ocupa o primeiro lugar na ordem da execução. Pois, quem te deu esse duplo preceito do amor não podia ordenar-te amar primeiro ao próximo e depois a Deus, mas primeiramente a Deus e depois ao próximo”.

Concluindo, o Papa Bento XVI, em sua Encíclica “Deus caritas est”, assim afirmou: “O amor ao próximo é também uma estrada que conduz a Deus. Não amar o próximo é tornar-se míope de Deus”.

Reflitamos:

 -   Como vivemos os Dez Mandamentos da Lei de Deus?
 -   De que modo amamos e servimos ao Deus Vivo e Verdadeiro?

 -   Existe algum ídolo que nos afasta deste Deus?
 -   Como é a nossa relação com Deus e com nosso próximo?

Oremos:

Ó Deus de Amor, suplicamos o Vosso Espírito Santo, Espírito de Amor, para que vivamos um amor verdadeiro, fiel, profundo e sofredor, para que mais configurados ao Vosso Filho sejamos e vivamos a fidelidade aos ensinamentos e Mandamento do Amor que Ele nos deu, curados de toda a miopia espiritual, e assim, a Trindade amar na primeira ordem dos preceitos e ao próximo em primeiro lugar na ordem da execução. Amém.




PS: Fonte de pesquisa: www.Dehonianos.org/portal
(1) Lecionário comentado – Volume I – Tempo Comum - Editora  Paulus – Lisboa – 2011 - p. 793
(2) idem p. 794
(3) Idem p. 797
PS: Passagem do Evangelho proclamada no 31º Domingo do Tempo Comum (ano B), quando ouvimos a passagem do Evangelho de São Marcos (Mc 12,28b-34)

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