sexta-feira, 26 de junho de 2026

Pássaro solitário

                            

Pássaro solitário
 
“Espere no Senhor. Seja forte! Coragem!
Espere no Senhor.”
(Sl 27,14)

Como que sem vontade de voar,
Olhar fixo no horizonte do nada,
Por algum tempo, um pássaro ali parado.
E meu olhar fixo nele, à distância
 
Não queria que ele voasse.
Não por mais um instante.
Aquela solidão, um céu cinza de fundo,
Reportam à solidão de muitos,
 
Que também fixam o olhar
No horizonte do nada,
Sem mais esperança alguma:
Por que resistir? Melhor se entregar...
 
A solidão e o pássaro imóvel,
Um breve instante que soou como uma eternidade.
Assim, por vezes, alguém pode se sentir.
Mas é preciso bater asas,
 
Crer que o céu para sempre cinza, não ficará.
Mais cedo ou mais tarde, voltará o azul,
E também os voos em busca do melhor.
Forças revigoradas, asas bater, voar...
 
O pássaro e o cinza do céu,
Cenário do cotidiano que me fez pensar:
Se preciso, pousar e silenciar,
Ainda que por um instante.
 
Se dos olhos tristes lágrimas verterem,
Que não seja expressão de esforços em vão;
De ações multiplicadas inúteis e desgastantes.
 
O cinza do céu, apenas uma passagem,
Que na vida de todos presente pode estar,
Mas não para sempre, assim cremos.
 
Viver sem perder a fé e a esperança,
virtudes que se cultivam no coração,
de mãos dadas com a virtude maior:
 
O amor necessariamente renovado,
Novos céus há que se esperar e buscar...
 
A solidão e a aparente tristeza do pássaro,
O cinza do céu, o silêncio
O recolhimento, a oração...
 
Voemos nas asas do Espírito,
Que renova nossas forças,
Comunica graça e paz,
 
E derrama, copiosamente, o amor divino;
para voos mais altos e para o eterno,
Haveremos de, incansavelmente, buscar.
 Amém. 

Como se fossem pássaros... Mas... por onde andam?

                                                  

Como se fossem pássaros...
Mas... por onde andam?

Temos pessoas que nos lembram os pássaros...
Pássaros humanos que Deus coloca em nosso caminho
Em alguns momentos marcantes na caminhada de fé.

Há pessoas que como águias nos levam a voos maravilhosos,
Ao encontro da sabedoria do Altíssimo, tão divina, tão bela.
Voamos nas asas das palavras carregadas desta sabedoria.

Como águias nos apontam o destino que marca a fé:
Buscar as coisas do alto e não debaixo, incansavelmente,
Lá onde Deus habita, como bem disse Paulo aos Colossenses.

Como águias nos ajudam a olhar para baixo, para o cotidiano...
Ensinam-nos que, para fazer a travessia do vale de lágrimas, 
a fé é mais do que preciso, pois com Deus tudo é possível.

Há pessoas que como gaivotas nos levam 
a buscar o alimento no mar,
Em voos certeiros, e sempre com o alimento à boca para sobreviver,
Mergulham no mar tão profundo que oculta tantos mistérios...

Como gaivotas nos apontam a busca do tão apenas essencial,
Para que não procuremos o supérfluo, o acúmulo.
Tão apenas o necessário: o pão de cada dia nos dai hoje...

Como gaivotas nos apontam onde se encontra o Alimento,
Não mais no mar propriamente dito, mas na Mesa Santa da Palavra
E em outra inseparável: 
a Mesa do Pão Eterno, dulcíssimo Sacramento.

Há pessoas que como beija-flores 
nos ensinam a sugar o néctar das flores.
Incansável no abanar das asas, sem pouso, 
sem descanso, o tempo suficiente,
Para que alimentado, retome o voo para retornar noutro momento.

Como beija-flores nos ensinam a sugar o néctar da vida,
Que encontramos naqueles que são puros de coração;
Naqueles que promovem a justiça, comprometidos com a paz.

Como beija-flores nos ensinam a ir e vir à procura do néctar,
Do mais precioso néctar da eternidade que encontramos
No coração daqueles que não se furtam 
dos compromissos com a fraternidade.

Águias, gaivotas, beija-flores, os vejo voando...
Águias, gaivotas, beija-flores os vejo anunciando.
Águias, gaivotas, beija-flores, a Palavra pregando.

Assim foi e será a vida da Igreja.
Assim é a missão evangelizadora.

Com a Igreja, dando os  passos na caminhada de fé,
Precisamos de alguém que nos ensine sagrados voos:
Águias, gaivotas, beija-flores, são mais que precisos.

Por onde eles andam? Eu bem sei.
Por onde eles andam? Bem sabemos.

Sejamos também como eles...
Ouçamos cada um deles
cantando na janela de tua alma...


“Fica conosco, Senhor, suplicamos...”

                                           

                  

“Fica conosco, Senhor, suplicamos...”
 
Na Liturgia das Horas, encontramos esta oração nas Vésperas, que nos remete ao Evangelho de Lucas (Lc 24, 13-35), que podemos repetir em cada entardecer, certos de que a noite cai lentamente, cede lugar ao anoitecer; como o sol poente cederá lugar à lua, em suas fases naturais:
 
“Ficai conosco, Senhor Jesus, porque a tarde cai e, sendo nosso companheiro na estrada, aquecei-nos os corações e reanimai nossa esperança, para Vos reconhecermos com os irmãos nas Escrituras e no partir do Pão. Vós, que sois Deus com o Pai, na unidade do Espírito Santo”. (1)
 

Oremos:
 
Fica conosco, Senhor, e ao participarmos da Tua Mesa,  e na partilha do Pão da Eucaristia, reconheçamos Tua real presença, como os discípulos que Te reconheceram ao partir o Pão, e os olhos foram abertos.
 
Fica conosco, Senhor, e jamais nosso coração seja endurecido e tardio para entender o Mistério de Tua Paixão, Morte e Ressurreição; e que a Tua Palavra nos ilumine e faça arder nosso coração.

 
Fica conosco, Senhor, sobretudo para que solidifiquemos nossa amizade e intimidade contigo, de modo especialíssimo ao participarmos da Ceia da Eucaristia.

 
Fica conosco, Senhor, em todos os momentos, favoráveis ou adversos, obscuros ou luminosos, opacos ou radiantes de luz, alegres ou tristes, angustiados ou cheios de esperança.

 
Fica conosco, Senhor, fortaleça nossa fé, reanima nossa esperança e inflama nossos corações, na mais pura e desejável caridade para com o nosso próximo.

 
Fica conosco, Senhor, pois és nosso “companheiro na estrada”, companheiro de viagem, sobretudo quando passarmos por vales tenebrosos e montanhas de dificuldades.

 
Fica conosco, Senhor, na travessia de desertos áridos da existência, a fim de que vençamos as tentações (ter, poder e ser), porque, contigo, mais que vencedores o somos.

 
Fica conosco, Senhor, a Ti nos dirigimos confiantes, pois Tu vives e Reinas com o Teu Pai, na comunhão com o Espírito Santo, na mais perfeita comunhão de amor.  Amém. 

 

(1)   Oração das Vésperas- Liturgia das Horas (cf Lc 24,13-35)

O Senhor caminha conosco

                                                         

O Senhor caminha conosco

Senhor, Vós sois nosso companheiro na estrada,
Seja ela fácil ou não, com pedras ou espinhos.

Senhor, Vós que sois nosso companheiro na estrada,
Aquecei nossos corações com a Vossa Palavra.

Senhor, Vós que sois nosso companheiro na estrada,
Em tempos de provação, fortalecei nossa fé.

Senhor, Vós que sois nosso companheiro na estrada,
Nos tempos sombrios que vivemos, reanimai nossa esperança.

Senhor, Vós que sois nosso companheiro na estrada,
Em tempos de partilha e solidariedade, ensinai-nos a santa caridade.

Senhor, Vós sois nosso companheiro na estrada,
Sentimos Vossa presença caminhando com a nossa comunidade.

Senhor, Vós sois nosso companheiro na estrada,
Vos reconhecemos nas Escrituras e no partir do Pão.

Senhor, Vós sois nosso companheiro na estrada,
Ficai conosco, porque a tarde cai.

Senhor, Vós que sois nosso companheiro na estrada,
Refazei-nos do cansaço para novo caminhar.

Senhor, Vós que sois nosso companheiro na estrada,
Abri nossos olhos, aquecei nosso coração.

Senhor, Vós que sois Deus com o Pai, na unidade do Espírito Santo, sois nosso companheiro na estrada, ontem, hoje e sempre. 
Amém. Aleluia! 

PS: passagem do Evangelho de Lucas (Lc 24,14-35)

Do pretérito perfeito ao futuro do presente


Do pretérito perfeito ao futuro do presente

Viver às vezes pede a conjugação no pretérito perfeito:
Excluí, eliminei, apaguei, limpei, varri, extirpei,
Curei, “deletei”, impus um ponto final. Ponto final?
Mas também a conjugação no futuro do presente...

Excluí todo pensamento que me rouba os sonhos,
Eliminei a ferrugem da alma que ofusca o esplendor divino,
Apaguei toda lembrança que me consome inapelavelmente,
Limpei aquilo que corrói o ardor do empenho no melhor.

Varri para um lugar inacessível, o que é impensável,
Extirpei aquilo que, a quem crê, é mais do que detestável.
Curei a dor da alma, sem me eximir do carregar da cruz,
“Deletei” do coração, sem envio para a “lixeira” da história.

Há pretéritos perfeitos que se conjugados
Sem dúvida me faria um pouco melhor.
Como viver consiste num eterno aprender
A conjugá-los no futuro do presente...

Somarei a eles outros verbos:
Amar, perdoar, acolher, sorrir,
Caminhar, lutar, resistir, viver
Persistir, aprender, vencer...

Do Verbo Maior, outros verbos aprender...

PS: Poesia inspirada na passagem do Evangelho (Mt 13, 1-23), em que somos exortados a transformar nosso coração em terra fértil. Isto começa com um aprendizado inadiável e com toda coragem: do pretérito perfeito ao futuro do presente; conversão no mais profundo de nosso coração, nos recônditos mais obscuros de nossa alma.

Pensar na Igreja, rezar por ela Rezar por ela, pensar nela!

                                                      

Pensar na Igreja, rezar por ela
Rezar por ela, pensar nela!

Oramos pela Igreja, quando nela pensamos; mas, quando rezamos, será que pensamos; refletimos sobre o conteúdo daquilo que rezamos?

Quando refletimos sobre a História da Igreja, vemos páginas de pecados, marcas e cicatrizes deixadas. Talvez, um dia, revisitando esta História, que estamos escrevendo, outros dirão o mesmo de nós.

Condená-la? Execrá-la? Ignorá-la?
Não são as atitudes meritórias de consideração e estima. Devemos amar a Igreja com suas páginas, ora belas, ora nem tanto, mas sempre a Igreja de Cristo!

Sendo Cristo a cabeça e a Igreja o Seu corpo, o amor por Ele torna-se inseparável do amor por ela (Ef 5,21-33). Amor por Cristo deve ser traduzido em gestos concretos no amor por Sua Igreja... Apaixonamento por Cristo na mesma intensidade de apaixonamento pela Igreja.

Assumir sofrimentos no Mistério da Paixão, completando em nossa carne o que falta a Paixão de Cristo, por amor a Sua Igreja: 

Agora regozijo-me nos meus sofrimentos por vós,
e completo o que falta às tribulações de
Cristo, em minha carne pelo
Seu Corpo, que é a Igreja” (Cl 1,24).

Mais que pensar e rezar pela Igreja, 
urge edificá-la e santificá-la.
Eis a missão de todo batizado: com amor incondicional empenhar-se para que isto aconteça. Amém. 

“Como é bom estar em Vossa morada, ó Senhor”

                                              

“Como é bom estar em Vossa morada, ó Senhor”

Como é bom estar em Vossa morada, ó Senhor Onipotente.
Neste Templo em que sentimos Vossa presença tão benevolente, para fazer nele Sua morada no meio de nós.

Neste lugar sagrado, como comunidade, nos sentimos acolhidos por Vós, envolvidos por Vossa misericórdia, e fortalecidos pelos laços de Vossa ternura.

Aqui, encontramos o esplendor da luz. Neste Templo Sagrado nossa comunidade santa é verdadeiramente o Corpo de Cristo, o templo vivo de Deus e a nova humanidade.

Aqui, a vossa presença é real e corporal, e aqui a humanidade também é real e corporal, pois aceitastes em Cristo a nossa humanidade em Vosso Corpo.

Senhor, no Corpo de Cristo, Vosso amado Filho, temos o lugar da aceitação, da reconciliação e da paz entre Vós e nós, e qual lugar melhor poderia nos oferecer?

Senhor, Vós encontrais no corpo de Cristo nossa humanidade, porque somos aceitos no Vosso corpo Templo Sagrado, edificado em três dias no Mistério da Páscoa.

Exultamos de alegria e Vos glorificamos por sermos membros do Corpo de Cristo, o templo espiritual, edificado de pedras vivas que somos (1 Pd 2,5ss).

Adoramos Jesus Cristo, único e eterno fundamento e pedra angular deste templo (Ef 2,20; 1 Cor 3,11), e é igualmente o templo (Ef 2,21) em que habita o Espírito Santo, que enche os corações dos fiéis e os santifica (1 Cor 3,16; 6,19).

Como é bom nos sentirmos tão perto, íntimo a quem Vos acolhe de coração puro e sincero e também reconhece Vossa divina presença em cada feição humana que encontramos.

Estais em nós, estamos em Vós, ó inaudito Mistério que contemplamos e cremos, elevando-nos ao mais alto grau a nossa condição humana, expressão do Projeto Divino. Amém!


Livre adaptação de uma citação de Dom Bonhoeffer, Missal Cotidiano,  Paulus, 1997. 

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