quinta-feira, 26 de março de 2026

“O poder radiante da Cruz”

                                                                

“O poder radiante da Cruz”

A Promessa Divina e
a esperança humana se realizam...

Ouvimos na Quinta-feira da 5ª Semana do Tempo da Quaresma as passagens bíblicas que nos falam do poder radiante da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

N'Ele acontece o mais belo desejo humano: o que antes fora promessa, com Ele se cumpre plenamente. 

A Sua Encarnação, Sua Vida, pregação, Amor e doação se consumam na cruenta Morte, e Morte de Cruz. O Pai O ressuscitando, experimentamos e testemunhamos “o poder radiante da Cruz”, como rezamos no Prefácio da Missa no Tempo da Quaresma.

O Amor que fora descrito, ensaiado, experimentado, ainda que em sombras, agora se revela plenamente em raios de luz.

Na passagem da primeira Leitura (Gn 17,3-9), refletimos sobre a Aliança que Deus selou com Abrão. Realiza-se através desta o encontro da Promessa Divina e a Esperança humana. Quando Deus promete, compromete-Se plenamente e cumpre.

Vemos que é próprio de Deus, por Seu Amor eterno e desde sempre, entrar nos desejos e nos sonhos da humanidade, sem jamais sufocá-la. Por ser Amor não cabe em Si, portanto, dilata e eleva a alto grau, que ultrapassa a compreensão e categorias do pensamento humano.

A Aliança selada por Deus com Abrão não é um fato jurídico, com direitos e deveres estabelecidos; é muito mais do que isto: trata-se de uma relação de amor, “um fluxo e refluxo de gratuidade e gratidão”.

Deus Se dá por inteiro e por Amor, assegura descendência, prosperidade, felicidade, e de nossa parte a resposta de compromisso, fidelidade e gratidão.

Deus anseia desde os primeiros dias do Éden por uma relação de Amor, amizade e felicidade com o homem e a mulher, por isto os criou à Sua imagem e semelhança, mas nem sempre assim compreendemos e correspondemos. É a história do pecado, da ruptura, da desobediência, do pecado de nossos pais que perpetua em cada um de nós – o desejo de sermos deuses.

Ressoa a Palavra proclamada com o Salmo (Sl 104,4-9) em que se canta a fidelidade de Deus e Seu perene Amor.

Na passagem do Evangelho (Jo 8,51-59) acentua-se a polêmica e a rejeição das autoridades da pessoa e missão de Jesus. É extremamente forte a reação dos judeus manifestada em desprezo, ironia, sarcasmo e confronto cada vez mais evidente.

Jesus Se apresenta como Aquele que existiu desde o princípio – “Garanto-vos: antes que Abraão existisse, Eu sou” (Jo 8,58). E segundo o autor aos Hebreus (Hb 13,8) – “Jesus é o mesmo, ontem, hoje e será sempre”.

Jesus é a Promessa do Pai realizada. Encarna-Se para a redenção da humanidade, ainda que enfrente rejeição, condenação e Morte, mais que Abraão, Davi, Salomão, Moisés, João Batista.

“Jesus não é um entre os grandes, é o Deus feito homem por Amor! Entrando com humildade no mundo transforma-o em ‘casa de Deus’, fazendo parte da nossa história contingente torna-a história da Salvação divina, tomando sobre Si a natureza humana eleva-a a esfera divina. Ele é o maior dom que o Senhor deu à Humanidade”. (1)

Silenciemo-nos por um instante diante da Cruz de nosso Senhor, diante da qual devemos nos gloriar: “Quanto a mim, não aconteça gloriar-me senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gl 6,14).

Experimentemos e testemunhemos a força renovadora que emana do Senhor, do Seu Coração trespassado, agora Ressuscitado, à direita do Pai sentado, gloriosa e soberanamente.

Experimentemos o poder radiante da Cruz! 
Amém.


(1) Leccionário Comentado - Vol. Quaresma – Ed. Paulus pp. 246 – 249.

O Senhor nos refaz de todos os cansaços (Papa Francisco - 2015)

                                                         

O Senhor nos refaz de todos os cansaços

Ofereço alguns trechos da Homilia feita pelo Papa Francisco na Missa do Crisma, Quinta-feira Santa, dia 2 de abril de 2015:

«A minha mão estará sempre com ele / e o meu braço há de torná-lo forte» (Sl 89/88, 22).... Assim pensa o nosso Pai cada vez que «encontra» um Padre. E acrescenta: «A minha fidelidade e o meu amor estarão com ele / (...) Ele me invocará, dizendo: “Tu és meu Pai, / és o meu Deus e o rochedo da minha salvação”» (vv. 25.27)

...E, se o Senhor pensa e Se preocupa tanto com o modo como poderá ajudar-nos, é porque sabe que a tarefa de ungir o povo fiel não é fácil, é dura; causa fadiga e leva-nos ao cansaço. E nós experimentamo-lo em todas as suas formas: desde o cansaço habitual do trabalho apostólico diário até ao da doença e da morte, incluindo o consumar-se no martírio.

O cansaço dos Sacerdotes! Sabeis quantas vezes penso nisto, no cansaço de todos vós? Penso muito e rezo com frequência, especialmente quando sou eu que estou cansado. Rezo por vós que trabalhais no meio do povo fiel de Deus, que vos foi confiado; e muitos o fazem em lugares demasiado isolados e perigosos. E o nosso cansaço, queridos Sacerdotes, é como o incenso que sobe silenciosamente ao Céu (cf. Sl 141/140, 2; Ap 8, 3-4). O nosso cansaço eleva-se diretamente ao coração do Pai.

Estais certos de que também Nossa Senhora se dá conta deste cansaço e, imediatamente, fá-lo notar ao Senhor. Como Mãe, sabe compreender quando os seus filhos estão cansados, e só disso se preocupa. «Bem-vindo! Descansa, filho. Depois falamos... Não estou aqui eu, que sou tua Mãe?»: dir-nos-á ao abeirarmo-nos d’Ela (cf. Evangelii gaudium, 286). E dirá, ao seu Filho, como em Caná: «Não têm vinho!» (Jo 2, 3).

Pode acontecer também que, ao sentir o peso do trabalho pastoral, nos venha a tentação de descansarmos de um modo qualquer, como se o repouso não fosse uma coisa de Deus. Não caiamos nesta tentação! A nossa fadiga é preciosa aos olhos de Jesus, que nos acolhe e faz levantar o ânimo: «Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei de aliviar-vos» (Mt 11, 28)...

Sei repousar recebendo o amor, a gratidão e todo o carinho que me dá o povo fiel de Deus? Ou, depois do trabalho pastoral, procuro repousos mais refinados: não os repousos dos pobres, mas os que oferece a sociedade de consumo? O Espírito Santo é verdadeiramente, para mim, «repouso na fadiga», ou apenas Aquele que me faz trabalhar? Sei pedir ajuda a qualquer sacerdote experiente? Sei repousar de mim mesmo, da minha autoexigência, da minha autocomplacência, da minha autorreferencialidade?

Sei conversar com Jesus, com o Pai, com a Virgem Maria e São José, com os meus Santos padroeiros e amigos, para repousar nas suas exigências – que são suaves e leves – nas suas complacências – eles gostam de estar na minha companhia – e nos seus interesses e referências – só lhes interessa a maior glória de Deus? Sei repousar dos meus inimigos, sob a proteção do Senhor? Vou argumentando, tecendo e ruminando repetidamente cá para comigo a minha defesa, ou confio-me ao Espírito Santo que me ensina o que devo dizer em cada ocasião? Preocupo-me e afano-me excessivamente ou encontro repouso, dizendo como Paulo: «Sei em quem acreditei» (2 Tm 1, 12).

Repassemos brevemente os compromissos dos Sacerdotes, que proclama a liturgia de hoje: levar a Boa-Nova aos pobres, anunciar a libertação aos cativos e a cura aos cegos, dar a liberdade aos oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor. Isaías diz também cuidar daqueles que têm o coração despedaçado e consolar os aflitos.
Gostaria agora de partilhar convosco alguns cansaços, em que meditei.

Temos aquele que podemos chamar «o cansaço do povo», o cansaço das multidões»: para o Senhor, como o é para nós, era desgastante – di-lo o Evangelho – mas é um cansaço bom, um cansaço cheio de frutos e de alegria.

O povo que O seguia, as famílias que lhe traziam os seus filhos para que os abençoasse, aqueles que foram curados e voltavam com os seus amigos, os jovens que se entusiasmavam com o Mestre… Não Lhe deixavam sequer tempo para comer. Mas o Senhor não Se aborrecia de estar com a gente. Antes pelo contrário, parecia que ganhava nova energia (cf. Evangelii gaudium, 11)...

 É o cansaço do Sacerdote com o cheiro das ovelhas, mas com o sorriso de um pai que contempla os seus filhos ou os seus netinhos. Isto não tem nada a ver com aqueles que conhecem perfumes caros e te olham de cima e de longe (cf. ibid., 97).

Somos os amigos do Noivo: esta é a nossa alegria. Se Jesus está apascentando o rebanho no meio de nós, não podemos ser pastores com a cara azeda ou melancólica, nem – o que é pior – pastores enjoados. Cheiro de ovelhas e sorriso de pais... Muito cansados, sim; mas com a alegria de quem ouve o Seu Senhor que diz: «Vinde, benditos de meu Pai!» (Mt 25, 34).

Existe depois aquele que podemos chamar «o cansaço dos inimigos». O diabo e os seus sectários não dormem e, uma vez que os seus ouvidos não suportam a Palavra de Deus, trabalham incansavelmente para a silenciar ou distorcer.

Aqui o cansaço de enfrentá-los é mais árduo. Não se trata apenas de fazer o bem, com toda a fadiga que isso implica, mas é preciso também defender o rebanho e defender-se a si mesmo do mal (cf. Evangelii Gaudium, 83)... Eis a Palavra do Senhor para estas situações de cansaço: «Tende confiança! Eu já venci o mundo» (Jo 16, 33). E esta palavra dar-nos-á força.

E, por último (...) há também «o cansaço de nós próprios» (cf. Evangelii Gaudium, 277). É talvez o mais perigoso. Porque os outros dois derivam do fato de estarmos expostos, de sairmos de nós mesmos para ungir e servir (somos aqueles que cuidam).

Diversamente, este cansaço é mais autorreferencial: é a desilusão com nós mesmos, mas sem a encararmos de frente, com a alegria serena de quem se descobre pecador e carecido de perdão, de ajuda; é que, neste caso, a pessoa pede ajuda e segue em frente...

Gosto de lhe chamar o cansaço de «fazer a corte ao mundanismo espiritual». E, quando uma pessoa fica sozinha, dá-se conta de quantos sectores da vida foram impregnados por este mundanismo e temos até a impressão de que não há banho que o possa lavar. Aqui pode haver um cansaço mau.

A palavra do Apocalipse indica-nos a causa deste cansaço: «Tens constância, sofreste por causa de mim, sem te cansares. No entanto, tenho uma coisa contra ti: abandonaste o teu primeiro amor» Ap 2, 3-4).

Só o amor dá repouso. Aquilo que não se ama, cansa de forma má; e, com o passar do tempo, cansa de forma pior.

A imagem mais profunda e misteriosa do modo como o Senhor cuida do nosso cansaço pastoral – «Ele que amara os Seus (…), levou o Seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13,1) – é a cena do lava-pés...

O seguimento de Jesus é lavado pelo próprio Senhor para que nos sintamos no direito de ser e viver «alegres», «satisfeitos», «sem medo nem culpa» e, assim, tenhamos a coragem de sair e ir, «a todas as periferias até aos confins do mundo», levar esta Boa-Nova aos mais abandonados, sabendo que «Ele estará sempre conosco até ao fim dos tempos». E, por favor, peçamos a graça de aprender a estar cansados, mas com um cansaço bom!”

Voltamo-nos a esta Homilia para reencontrar as forças e nos refazer de nossos cansaços, como Presbíteros ou como cristãos, cada um de modo próprio.

Além das passagens pelo Papa citadas, a Homilia nos remete a inúmeras passagens bíblicas. Entre elas: Salmo 23, “O Senhor é meu Pastor e nada me faltará”; vários textos dos Evangelhos, em que o Senhor chamou quem Ele quis pelo nome e muitas vezes depois os chamou em lugar a parte para que se refizessem e descansassem; além de várias passagens das Cartas do Apóstolo Paulo; e, por fim, o Livro do Apocalipse, que se refere ao abandono do “primeiro amor”.

Oremos por todos os Sacerdotes...



As perigosas tentações na vida cristã (Papa Francisco - abril de 2023)

                                                          


As perigosas tentações na vida cristã

 

Na Santa Missa do Crisma, de 06 de abril de 2023, o Papa Francisco, na homilia, refletiu sobre o Ministério Presbiteral, partindo do versículo do Evangelho de Lucas (Lc 4,18) – “O Espírito do Senhor está sobre mim”, anunciado na passagem de Isaías (Is 61,1).

Apresentou três perigosas tentações, que podem se fazer na vida de todo presbítero:

“Três perigosas tentações: a da acomodação, em que a pessoa se contenta com o que pode fazer; a da substituição, em que se tenta «recarregar» o espírito com algo diferente da nossa unção; a do desânimo – a mais comum –, em que, insatisfeitos, se avança por inércia.”

Acomodação, substituição e desânimo. Quem destas tentações está imune, Presbítero ou não?

À luz destas três tentações, uma breve reflexão:

Na vida de comunidade, na vivência da fé, todos podemos cair na tentação da “acomodação”, contentando-nos com o que já sabemos, ou com o que fazemos, sem atenção à Palavra do Senhor, que nos convida a lançar as redes em águas mais profundas (cf. Lc 5,1-11).

Acomodar-se às atividades restritas nos espaços internos da comunidade, ou da própria pastoral, sem maiores compromissos com a realidade social em que se encontra inserido.

Acomodar-se e se tornar indiferente, ou até mesmo surdo, aos clamores que brotam das dores de quem padece a fome, o abandono ou qualquer outra forma que vilipendia a existência.

Acomodar-se numa pastoral de manutenção e conservação, sem abertura ao Espírito, que nos acena para a necessária conversão, para maior proximidade, ternura, compromissos solidários e compaixão.

Acomodar-se numa postura eclesial pouco ou nada sinodal, sem a coragem de se pôr a caminho juntos, e enfrentar as dores possíveis de tantas pedras que se possam encontrar no caminho.

Na vida de comunidade, na vivência da fé, todos podemos cair na tentação da “substituição”, com práticas até mesmo de valor duvidoso, e que pouco ou nada possam reverter em mais vida e dignidade para si e para toda a comunidade.

Substituir o essencial pelo acessório, o eterno pelo passageiro, o verdadeiro esplendor pela luz que se apaga.

Substituições que aparentemente preenchem o tempo, mas mergulham aos poucos num vazio sem sentido, até mesmo irreversível.

Na vida de comunidade, na vivência da fé, todos podemos cair na tentação do “desânimo”e com ele, a inércia, o imobilismo, a perda do esplendor da graça do batismo; o não mais exalar do odor do amor, no dia da unção do crisma (no Sacramento da Crisma ou da Ordenação), compromisso um dia assumido; a não mais a santificação de si e do mundo; a não busca do aperfeiçoamento espiritual.

Desânimo, apatia, indiferença, vacilações na fé, esmorecimentos da esperança, e esfriamento da caridade, mais que indesejáveis, com consequências danosas e indizíveis.

Todos temos que lutar contra estas tentações, em todo o tempo, reavivando a chama do primeiro amor (2 Tm 1,6), viver a graça da unção (Lc 4,18).

Ouvir em todo o instante o Senhor, que nos olha com olhar terno e cheio de amor e compaixão:“Vem e segue-me” (Mt 19,21).

Em poucas palavras... (Papa Francisco - 2019)

                                                           


“Nós, sacerdotes...” 

“Nós, sacerdotes, somos o pobre e queremos ter o coração da viúva pobre quando damos esmola e tocamos a mão do mendigo fixando-o nos olhos. 

Nós, sacerdotes, somos Bartimeu, e levantamo-nos cada manhã para rezar: «Senhor, que eu veja!» (cf. Mc 10, 51). 

Nós, sacerdotes, somos, nos vários momentos do nosso pecado, o ferido espancado deixado meio morto pelos ladrões. 

E queremos ser os primeiros a estar entre as mãos compassivas do Bom Samaritano, para depois podermos com as mãos ter compaixão dos outros.” (1)

 

(1)           Homilia Santa Missa Crisma – Papa Francisco – 18/04/19

 

Síntese da homilia crismal do Papa Francisco - 2024

                                                        


Síntese da homilia crismal do Papa Francisco - 2024

Síntese da homilia do Papa Francisco, na Missa crismal do dia 28 de março de 2024, na Basílica de São Pedro-Roma.

Inicia retomando a passagem proclamada na Missa, mais especificamente o versículo do Evangelho de São Lucas - «Todos os que estavam na sinagoga, tinham os olhos fixos n’Ele» (Lc 4, 20).

A partir do caminho feito por Pedro, nos momentos da Paixão e Morte do Senhor e seu protagonismo, como que num processo de reconhecimento de sua condição pecadora, e afirmação de seu amor por Jesus, pouco mais tarde, para cumprir a missão pelo Senhor confiada: “E, vindo para fora, chorou amargamente» (Lc 22, 61-62). Os seus olhos acabaram inundados de lágrimas que, brotando dum coração ferido, o libertaram de falsas certezas e justificações. Aquele choro amargo mudou-lhe a vida.”

Na noite do renegamento, Pedro deixou espaço às lágrimas da vergonha, às lágrimas do arrependimento. E vai conhecer Jesus verdadeiramente, quando, «triste por Jesus lhe ter perguntado, a terceira vez: “Tu és deveras meu amigo?”», se deixará penetrar plenamente pelo olhar de Jesus. Então, daquele «não O conheço», passará a dizer: «Senhor, Tu sabes tudo» (Jo 21,17), afirma o Papa.

E assim, propõe aos sacerdotes, uma reflexão sobre o tema da compunção, uma palavra “talvez insólita”, diz o Papa, mas ela evoca o picar: a compunção é «uma aguilhoada no coração», um trespassamento que o fere, fazendo brotar as lágrimas do arrependimento.

Ajuda-nos a compreender sobre o que se trata a compunção:

- não é um sentimento de culpa que nos lança por terra, nem uma série de escrúpulos que paralisam, mas uma picada benéfica que queima intimamente e cura, pois o coração, quando se dá conta do próprio mal e se reconhece pecador, abre-se, acolhe a ação do Espírito Santo, como água viva que o muda a ponto de lhe correrem as lágrimas pelo rosto.

Chorar por nós próprios não significa, porém sentir pena de nós mesmos, nem tão pouco repassar as injustiças sofridas para sentirmos pena de nós mesmos, pensando que não nos deram o merecido e imaginando o futuro reservando-nos de contínuo apenas surpresas negativas.

Deste modo, chorar por nós próprios, afirma o Papa, é arrepender-nos seriamente de ter entristecido a Deus com o pecado; reconhecer que diante d’Ele sempre estamos em débito, nunca em crédito; admitir que se perdeu o caminho da santidade, não tendo confiado no amor d’Aquele que deu a vida por nós.

Adverte-nos o Papa, sobretudo os sacerdotes: “É olhar para dentro de mim e sentir pesar pela minha ingratidão e inconstância; meditar com tristeza nos meus fingimentos e falsidades; descer aos meandros da minha hipocrisia, a hipocrisia clerical: amados irmãos, aquela hipocrisia na qual escorregamos tanto… tanto. Tende cuidado com a hipocrisia clerical! Para em seguida erguer o olhar para o Crucificado e deixar-me comover pelo seu amor que sempre perdoa e eleva, que nunca deixa frustradas as esperanças de quem n’Ele confia. Assim as lágrimas continuarão a cair, e purificam o coração.

A compunção requer esforço, mas restitui a paz; um antídoto para a esclerocardia, aquela dureza do coração frequentemente denunciada por Jesus (Mc 3, 5; 10, 5).

Convida (se incluir) os sacerdotes para ver o quanto a compunção se faz presente, através do exame de consciência e na oração.

A compunção bem vivida, tem como característica a solidariedade -“ Um coração dócil, liberto pelo espírito das Bem-aventuranças, tende naturalmente a sentir compunção pelos outros: em vez de se irritar e escandalizar pelo mal feito pelos irmãos, chora pelos pecados deles. Não se escandaliza.”

Considerando que a compunção, mais do que fruto do nosso exercício, é uma graça e como tal deve ser pedida na oração, o Papa faz duas recomendações:  não olhar a vida e a vocação numa perspectiva de eficiência e imediatismo, e a segunda, como consequência da primeira, descobrir a necessidade de nos dedicarmos a uma oração que não seja obrigatória e funcional, mas livre, calma e prolongada.

Finaliza convidando os sacerdotes a voltarem para São Pedro e às suas lágrimas; bem como fazer suas as palavras recitadas no silêncio ao Presidir a Santa Missa: «Em humildade e contrição, sejamos recebidos por Vós, Senhor…» e ainda: «Lavai-me, Senhor, da minha iniquidade, e purificai-me do meu pecado».

Retoma a passagem no começo mencionada e do Profeta Isaías, «curar os quebrantados de coração» (Is 61, 1): “Então, se o coração se despedaçar, pode ser faixado e curado por Jesus. Obrigado, queridos sacerdotes, obrigado pelo vosso coração aberto e dócil; obrigado pelas vossas fadigas e obrigado pelo vosso pranto; obrigado porque levais a maravilha da misericórdia – perdoai sempre, sede misericordiosos – e levai esta misericórdia, levai Deus aos irmãos e irmãs do nosso tempo. Que o Senhor vos console, confirme e recompense! Obrigado!”

 

Se desejar, acesse e confira a homilia na integra:

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2024/documents/20240328-omelia-crisma.html#:~:text=Quanto%20precisamos%20de%20ser%20libertos,que%20o%20Senhor%20realize%20maravilhas.


A graça do Ministério Presbiteral

                                                           

A graça do Ministério Presbiteral

Assim falou o Papa São João Paulo II, na Exortação Apostólica pós-sinodal Pastores Dabo Vobis (n.22), sobre o presbítero:

“O presbítero é chamado a assumir em si os sentimentos e as virtudes de Cristo em relação à Igreja, amada ternamente mediante o exercício do ministério; portanto, dele se pede que seja capaz de amar o povo com o coração novo, grande e puro, com um autêntico esquecimento de si mesmo, com dedicação plena, contínua e fiel, juntamente com uma espécie de ‘ciúme’ divino, com uma ternura que reveste inclusive os matizes do afeto materno”.

Deste modo, com o Rito da Ordenação, o presbítero “...é introduzido em um novo gênero de vida, que o une a Cristo com um vínculo original, inefável e irreversível e o habilita a agir ‘in persona Christi’. Configurado a Cristo, Cabeça, Pastor, Esposo e Servo da Igreja, como seu representante e na união com Ele, o presbítero tem uma relação especial com a Igreja de Cristo”.  (1)

Como Presbítero, exerce o tríplice múnus como um servidor e anunciador da Palavra, ministro dos Sacramentos e um guia da comunidade.

Na realização do Ministério, o presbítero é apresentado com várias imagens e aspectos, que se completam e auxiliam na compreensão da natureza íntima de sua identidade, como nos fala o Documento n. 110 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) – Diretrizes para a formação dos presbíteros da Igreja no Brasil que ora apresento, conforme o parágrafo n. 41

a)   Presbítero: De acordo com a Escritura é o ancião, o adulto, já experimentado na vida, e por isto se tornou um sábio, mestre, conselheiro e guia;

b)   Pastor: Uma imagem muito frequente na Sagrada Escritura que designa aqueles a quem cabe colocar-se a serviço do povo. Assim o faz seguindo o exemplo de Jesus Cristo, o Bom Pastor (Jo 10,1-4). Por isto é chamado a ser homem de misericórdia e compaixão, vivendo a proximidade com seu povo e um servidor de todos, particularmente dos que sofrem grandes necessidades.

c)   Profeta: Como mensageiro da Palavra viva de Jesus, anuncia e testemunha a Palavra de Deus, “oportuna e inoportunamente” como falou o Apóstolo Paulo a Timóteo (2 Tm 4,2); proclama o reino de Deus e denuncia o que contradiz o Evangelho;

d)   Servo: O Filho do Homem veio “não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). O Presbítero participa desta missão do Filho, e participa da autoridade de Cristo-Cabeça com seu serviço, seu dom, sua entrega total, humilde e amorosa pela Igreja;

e)   Missionário: Consciente de que é enviado por Cristo, nunca deve cansar de repetir a si mesmo: “Sou uma missão, e não simplesmente tenho uma missão”, como diz o Papa Francisco. Para tanto, precisa coragem, audácia, fantasia e vontade de olhar não apenas para si mesmo, nem o cumprimento das funções rotineiras, mas ir além, como Igreja, constantemente em saída, rumo às periferias existenciais, ultrapassando as estruturas que já não favoreçam mais à transmissão da fé;

f)    Padre: Trata-se, pelo Sacramento da Ordem, viver o dom da paternidade espiritual, com a missão de gerar, nutrir, educar, organizar e levar à plenitude a comunidade do Povo de Deus;

g)   Sacerdote: É alguém que foi separado para o Evangelho de Deus (Rm 1,1), e em virtude da Ordenação se torna um dom sagrado de Deus para o seu povo. Ele reúne a comunidade para o momento mais alto e importante de sua existência, que é a Celebração Eucarística. Ele é sempre o ministro de Deus e nele, a exemplo de Jesus, tudo deve ser “sacerdotalizado”;

h)   Esposo: Uma vez configurado a Cristo, o Presbítero na sua vida espiritual, é chamado a reviver o amor de Cristo esposo, em sua relação com a Igreja esposa;

i)     Perito em humanidade: Deixa-se atingir pelas grandes questões que envolvem a humanidade, em sinais de amizade, companheirismo e solidariedade com todos, assumindo em seu modo de ser o estilo de Jesus Cristo, que assumiu a condição de servo (Fl 2,7);

j)    Homem da proximidade: O Presbítero está junto de Deus como das pessoas (1 Cor 9,19-23). Oportunas as palavras do Papa Francisco na Homilia da Missa do Crisma de 29 de março de 2018: “Na proximidade com Deus, a Palavra far-se-á carne em ti e tornar-te-ás um padre próximo de toda carne. Na proximidade com o povo de Deus, a sua carne dolorosa tornar-se-á palavra do teu coração e terás do que falar com Deus, tornar-te-ás um padre intercessor”.

k)   Homem da misericórdia: A exemplo de Jesus, exerce o Ministério com cuidado especial em relação aos pobres e marginalizados (Lc 14,13; Mt 25,31-46; Hb 5,7.9);

l)     Homem de oração: O Presbítero por sua disponibilidade a encontros fervorosos com o Senhor, torna-se íntimo das coisas divinas, místico e mistagogo, de modo que é capaz de auxiliar todos os que o procuram, a encontrarem-se com o Mistério de Deus;

m)  Homem de sacrifício: Contemplando o Senhor que oferece a sua vida pelos outros, o Presbítero é capaz de consumir-se com generosidade e sacrifício pelo Povo de Deus;

n)   Irmão universal: Participante da missão de Jesus Cristo e da sua Igreja, leva o Evangelho até os confins da terra; portanto, chamado a construir relações especial com os irmãos de outras Igrejas e confissões cristãs, com os fiéis de outras religiões e com as pessoas de boa vontade.

Elevemos orações por todos os presbíteros, e por todos aqueles que estão se preparando com vistas à Ordenação Presbiteral, para que possam viver estes diferentes aspectos e imagens no exercício do Ministério Presbiteral.

Em cada Presbítero, podemos encontrar um ou outro aspecto e imagem mais presente, de modo que não podemos economizar orações para que cada vez mais se façam presentes em suas vidas, e assim cumpram, com solicitude, empenho, dedicação, o Ministério pela Igreja confiado na santificação, ensino e governo da Igreja.



(1)         Diretrizes para a formação dos Presbíteros da Igreja no Brasil – Edições CNBB – (Documento n.110, n.35)

Maria, tão serena e plena de liberdade!

                                                 

Maria, tão serena e plena de liberdade!

Maria, tão serena e plena de liberdade!
Seja assim a Igreja, seja assim a nossa comunidade.
Seja assim também nossa família,
Na harmonia, diálogo, ternura e fidelidade.

Olhemos sempre para Maria, silenciosamente.
Contemplemos sua serena e plena liberdade
Na realização da vontade divina,
Com alegria e disponibilidade sem igual.

Maria, tão serena e plena de liberdade:
Na manhã da memorável Anunciação,
Na tarde da dolorosa Paixão,
Na manhã da Gloriosa Ressurreição.
No belo Dia de Pentecostes.

Maria, tão serena e plena de liberdade!
Meditemos o seu Sim, que ecoou em cada momento,
Sempre com confiança, esperança, coragem,
Irradiando amor e luz, sem desespero, crises ou estéreis lamentos.

Maria, tão serena e plena de liberdade!
Mais que rezar à Maria, rezemos como Maria.
Mais que pedir à Maria, ouçamos o que ela disse:
“Fazei tudo o que Ele Vos disser” (Jo 2, 5).

E assim, serenos e plenos de liberdade também seremos. 

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG