segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Em poucas palavras... (Epifania)

 


Mais que presentes

“Eles (magos) trouxeram três presentes: ouro, para honrar Sua Realeza; incenso, para honrar Sua Divindade; e mirra para honrar a Sua Humanidade, que estava destinada à morte.

A mirra foi usada em Seu sepultamento (Jo 19,39). O presépio e a Cruz estão novamente relacionados, pois há mirra em ambos.” (1)

(1)          Vida de Cristo – Fulton J. Sheen – Editora Molokai – 2024 – p.81

Contemplemos o esplendor da glória

                                                            

Contemplemos o esplendor da glória

Sejamos enriquecidos pelo Sermão escrito pelo Bispo São Pedro Crisólogo (Séc. V), sobre Jesus Cristo, “Aquele que quis nascer para nós não quis ser ignorado por nós”:

“Embora no Mistério da encarnação do Senhor os sinais de Sua divindade tenham sido sempre claros, a solenidade que hoje celebramos manifesta e revela de muitas formas que Deus veio ao mundo num corpo humano, para que os homens, mergulhados nas trevas, não perdessem por ignorância o que só puderam alcançar e possuir pela graça. Com efeito, aquele que quis nascer para nós não quis ser ignorado por nós. Por isso manifestou-Se deste modo, para que o grande Mistério de Seu amor não desse ocasião a um grande erro.

Hoje os Magos que O procuravam resplandecente nas estrelas, O encontram num berço. Hoje os Magos veem claramente, envolvido em panos, Aquele que há muito tempo procuravam de modo obscuro nos astros. Hoje os Magos contemplam maravilhados, no presépio, o céu na terra, a terra no céu, o homem em Deus, Deus no homem e, incluído no corpo pequenino de uma Criança, Aquele que o universo não pode conter. Vendo-O, proclamam sua fé e não discutem, oferecendo-lhe místicos presentes: incenso a Deus, ouro ao Rei e mirra ao que haveria de morrer.

Assim o povo pagão, que era o último, tornou-se o primeiro, porque a fé dos Magos deu início à fé de todos os pagãos.

Hoje Cristo entrou nas águas do Jordão para lavar o pecado do mundo. E João dá testemunho de que foi para isso que veio, ao dizer: 'Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo' (Jo 1, 29).

Hoje o servo recebe o Senhor, o homem recebe Deus, João recebe Cristo; recebe-O para obter o perdão, não para conceder. Hoje, como disse o Profeta, a voz do Senhor ressoa sobre as águas (Sl 28,3). E o que diz esta voz? 'Eis o meu Filho amado, no qual Eu pus o meu agrado' (Mt 3, 17). Hoje o Espírito Santo, em forma de pomba, paira sobre as águas: assim como uma pomba anunciou a Noé o fim do dilúvio, por Sua presença os homens saberiam que havia terminado o ininterrupto naufrágio do mundo. Esta pomba não trouxe, como a outra, um ramo da antiga oliveira, mas derramou sobre a cabeça do Senhor toda a riqueza do novo óleo, cumprindo-se assim o que o Profeta anunciara: É por isso que Deus Vos ungiu com Seu óleo, deu-Vos mais alegria que aos Vossos amigos (Sl 44,8).

Hoje Cristo, convertendo a água em vinho, realiza o primeiro de Seus sinais celestes. A água, porém, devia converter-se no Sacramento do Sangue, a fim de que o Cristo oferecesse aos homens a bebida pura do cálice de Seu corpo, conforme a palavra do Profeta: 'O meu Cálice precioso transborda' (Sl 22,5)”.

Três momentos são refletidos: a Epifania (manifestação de Jesus, como Salvador e luz de todos os povos), o Seu Batismo (prefigurando a Sua missão, sendo Ele o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo) e o sinal realizado nas bodas de Caná (prefiguração de Sua Paixão e Morte, e o Cálice Sagrado da Eucaristia, em que Se oferece a nós, como a pura Bebida de nossa redenção).

Celebrando a Epifania do Senhor, saciados pelo Pão da Eucaristia e inebriados pelo Sangue por nós oferecido no Cálice Sagrado,  preparamo-nos para a Celebração do Batismo do Senhor.

Oremos:

“Nós Vos pedimos, ó Deus, que o esplendor da Vossa glória ilumine os nossos corações para que, passando pelas trevas deste mundo, cheguemos à Pátria da luz que não se extingue. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém”.

Em poucas palavras...

                                                       

Deus falou conosco por meio do Filho 

Deus, ao contrário dos ídolos mudos, falou conosco e por muito tempo, de modo especial pelos Profetas:

“Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, Ele nos falou por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou o universo”. (1)

 

(1) Início da Epístola aos Hebreus (Hb 1,1-6)

“Faça bem e com amor o que lhe é próprio”

 


                      “Faça bem e com amor o que lhe é próprio”
 
Na ação evangelizadora é fundamental que retomemos as avaliações do ano que passou, com seus objetivos e estratégias, e ver o quanto nos falta fazer para que o Senhor cresça e seja conhecido e amado por todos.
 
Para o êxito da ação evangelizadora é fundamental a presença do Ressuscitado em nosso meio,  com Seu Espírito que repousa sobre nós e nos alcança a graça da paz necessária -  shalon, ou seja, a plenitude dos bens e graças divinas que nos enriquecem em todos os momentos e em todas as nossas  atividades dentro e fora dos espaços da Igreja.
 
Esteja sempre presente em nossos trabalhos o Princípio da Subsidiariedade, que tem seus momentos nascentes na Encíclica “Quadragesimo Anno” (1931), quando o Papa Pio XI chamava o mundo para a necessária busca de caminhos para uma verdadeira ordem internacional.
 
Este Princípio consiste, essencialmente,  em “cada um fazer bem e com amor o que lhe é próprio”, e deve nortear a ação da Igreja, pois se verdadeiramente vivido, a alegria, o amor, a gratidão, gratuidade, ardor, vigor, desprendimento, coragem, empenho, discernimento, sabedoria se farão presentes no coração de cada agente e firmaremos passos na edificação de uma Igreja autenticamente sinodal, caminhando sempre juntos.
 
Não haverá divisões nem cansaços inúteis na procura dos primeiros lugares, pois faremos do poder expressão de amor e serviço, a exemplo de Jesus que veio servir e não para ser servido, num permanente lava-pés com ressonâncias eucarísticas.
 
Que Jesus cresça, as pastorais se revigorem. Que avancemos para águas mais profundas (Lc 5,1-11) e não nos percamos com questões pequenas, insignificantes que nos desviam do essencial: “Ai de mim se eu não evangelizar“ (1Cor 9,16), pois “É necessário que Ele cresça” (Jo 3,30). 
 
A paz será notável em nossos corações e dentro das pastorais, ultrapassando  nossos espaços, estruturas, porque seremos como as primeiras comunidades, notabilizadas pela perseverança e fidelidade à Doutrina dos Apóstolos, à Comunhão Fraterna, à Fração do Pão e à Oração (At 2,42-47).
 
Crescerá a Igreja, assim como o nosso Batismo ganhará nova expressão, será fortalecida a Evangelização, que se renovará em expressões e métodos, e a Paz tão sonhada não será uma ilusão, mas um projeto, uma construção em mutirão, em que mãos e corações que amam se comprometem com a vida, da concepção ao declínio natural. Amém.

“Somos um projeto de Deus em desenvolvimento”

                                            

“Somos um projeto de Deus em desenvolvimento”

No Comentário da passagem da Carta de Paulo aos Romanos (Rm 1,1-17), em sua introdução, Paulo se apresenta como “apóstolo por vocação”, um “servo de Jesus Cristo”.

Na conclusão da passagem, saúda a todos que moram em Roma, dirige-se a estes com estas palavras: “A vós todos que morais em Roma, amados de Deus e santos por vocação, graça e paz da parte de nosso Pai, e de nosso Senhor, Jesus Cristo” (v.17).

Sejamos enriquecidos pelo Comentário do Missal Cotidiano:

“Cada um de nós é um projeto de Deus em desenvolvimento. Deus continua a criar-nos na densa trama de nossas ações e do agir dos outros: Para nossa vida há um projeto que Deus abrange num só olhar, mas que ocuparia muitos arquivos nossos.

É uma promessa que supera toda a nossa esperança e está muito acima de nossos horizontes. Eis toda a espiritualidade cristã: entrar ativamente nesse projeto de Deus” (1).

Assim como Paulo soube ler e rever o projeto que Deus tinha para que ele realizasse, também nós somos chamados ao mesmo fazer: redescobrir a cada dia o que Deus espera de nós, conscientes de que somos “um projeto de Deus em desenvolvimento”.

Nossa espiritualidade cristã consiste, portanto, em mergulhar intensamente neste projeto com todo o nosso ser, para que cada vez mais sejamos configurados a Jesus Cristo, assim como foi o servo e apóstolo Paulo, como ele mesmo se denominou na referida passagem.

Nem sempre será fácil viver o projeto que Deus tem para cada um de nós. Exigirá coragem, renúncia, desprendimento, confiança, entrega total de si mesmo.

Ser um “projeto de Deus em desenvolvimento”, é colocar-se nas mãos de Deus, n’Ele confiando como barro na mão do Oleiro Divino.

Ter a coragem de suportar as podas dos ramos, como os ramos de uma videira, que é o próprio Jesus Cristo, para muitos e melhores frutos produzir.

Nunca se dar por vencido, ainda que as provações e adversidades se façam presentes em nosso viver, porque sabemos em quem confiamos, em que Deus depositamos toda a nossa esperança, envolvidos pela plenitude de Seu amor.

Ponhamo-nos a caminho, dia pós dia, em comunidade a fé vivendo, alimentados pelo Pão da Palavra e da Eucaristia, e assim, a caridade testemunhada por nossas obras, faça de nós ardorosos discípulos missionários do Senhor.



(1) Missal Cotidiano – Editora Paulus – pp.1373-1374

“Creio, Senhor, mas aumentai minha fé”

                                                               

“Creio, Senhor, mas aumentai minha fé” 

“Este foi o início dos sinais de Jesus.
Ele o realizou em Caná da Galileia e manifestou
a Sua glória, e Seus discípulos creram n’Ele” (Jo 2,11)

O sinal realizado por Jesus em Caná da Galileia, transformando a água em vinho, é um dos sete sinais que João descreve em seu Evangelho (emprega a palavra sinais 17 vezes).

O primeiro sinal revela quem é Jesus, Sua pessoa e Sua missão; revela que Ele é o Messias há muito esperado pelo Povo de Deus, e com o sinal suscita a fé dos discípulos.

- Mas, o que é a fé?
- Como conceituá-la?

Como afirma o autor da Epístola aos Hebreus, Jesus é o “autor e consumador da fé” (Hb 12,2). Sendo o autor da fé pode aperfeiçoá-la e suscitá-la no coração de Seus ouvintes.

Fé é o acolhimento de Jesus que Se revela a cada um de nós nos acontecimentos cotidianos, para que com Ele caminhemos carregando nossa cruz, com as renúncias necessárias, e seguindo até o fim para que alcancemos a glorificação.

Ter fé é seguir o Divino Mestre, reconhecendo-O como Guia e ao mesmo tempo como Caminho; é acolhê-Lo como a Verdade que nos liberta, encontrando n’Ele a alegria e o sentido de viver, pois Ele é fonte de Vida plena.

Ter fé é seguir os passos do Senhor, tendo d’Ele os mesmos pensamentos e sentimentos (Fl 2,5).

Ter fé e entregar-se completamente nas mãos de Deus, confiando em Sua Palavra e Providência, mas não significa cruzar os braços, esperar passivamente, fé implica numa confiança ativa, ou seja, não nos dispensa de sagrados e irrenunciáveis compromissos com a justiça, a fraternidade, a vida e a paz.

A fé é fonte e fundamento daquele que segue o Senhor, comunicada àquele que crê como dom, graça divina (Ef 2,8), não dispensando jamais esforço pessoal (1Ts 1,3), acompanhada de obras, pois  “A fé sem obras é morta.”  (Tg 2,14-26).

A fé é a docilidade interior ao Espírito, que é a fonte de todos os dons que vêm de um só Deus, que realiza tudo em todos (1Cor 12,6). A vivência da fé leva àquele que crê a sentir uma necessidade de colocar os dons a serviço de toda a comunidade, vivendo com alegria o ministério, o carisma e a vocação própria.

Uma fé autêntica nos insere cada vez mais numa relação intensa e profunda de amor com a Santíssima Trindade, de modo que este amor vivido dá a razão de nossa esperança. Fé vivida, cultivada, celebrada, implica em amor vivido e esperança renovada em cada amanhecer. Assim, experimentamos a força transformadora do Amor de Deus, saboreando na esperança a alegria das núpcias eternas.

Em Caná, Ele fez o primeiro sinal. Quantos sinais Deus realiza em nosso meio, para que também vejamos e acreditemos em Seu poder?

Sobretudo em cada Eucaristia celebrada, vemos o grande sinal do Amor de Deus por nós, inebriamo-nos com o Sangue do Senhor, Vinho Novo e Melhor, que nos redime de todos os pecados, sacia nossa sede de vida, amor e paz.

Alimentados pelo Pão e Vinho Eucarísticos, saciamo-nos do Melhor de Deus, que é o Seu próprio Filho – “Tomai e comei, isto é o meu Corpo... Tomai e bebei, isto é o meu Sangue”.

Alimentados pela Eucaristia, sobre a qual foi invocado o Santo Espírito, renova-se no coração dos que creem o compromisso com a Vida, colocando a serviço da comunidade e do mundo os dons que nos vem de Deus, a fim de que construamos um novo céu e uma nova terra.

Finalizando, ter fé é crer na presença e ação do Senhor que faz novas todas as coisas, desde que acolhamos as palavras de Sua Mãe: “Fazei tudo o que Ele vos disser.”  (Jo 2, 5).

PS: Liturgia do 2º Domingo do Tempo Comum (Ano C). Livre interpretação de Leccionário Comentado - Tempo Comum - pp. 74.

Do fermento do Maligno livrai-nos, Senhor!

                                                         

Do fermento do Maligno livrai-nos, Senhor!
Somente com Jesus
 somos libertos do fermento do Maligno,
e nos tornamos com Ele mais que vencedores

Quando a vida e a fé se irmanam em eterno abraço,
Do suor do trabalho comemos o pão de cada dia,
Plenificados de Vida que vem do Corpo e Sangue – Eucaristia.

Precisamos do pão provisório, indiscutivelmente,
Não tão pouco para mendigar e nem ter fome,
Nem tanto que prescindamos do Pão Essencial.

Precisamos do Pão Eterno, imprescindivelmente,
Corpo e Sangue, verdadeiramente Comida e Bebida
Que sacia, inebria, fortalece... Efeitos da Eucaristia.

Em cada Banquete Eucarístico, ativa e conscientemente participado,
Tríplice ação divina: a fé é nutrida, a esperança é incentivada,
A caridade é mais que fortalecida e na vida testemunhada.

Ouvindo e acolhendo Vossa Palavra e envolvidos pelo Amor Divino,
Renovamos forças para a superação das tentações fundamentais,
Com Cristo que nos liberta de todo fermento do Maligno

Aprendemos, primeiro, a superar toda forma de egoísmo,
E a busca ansiosa pelos bens materiais cede lugar
Para uma vida frugal, simples, de alegre partilha.

Aprendemos que a sede de posse e de domínio sobre os outros
Cedem lugar para a mais bela face expressiva do poder,
Que se traduz no amor aos pobres, alegria do serviço.

Aprendemos, finalmente, que a ilusão do sucesso imediato,
Do prestígio alcançado a qualquer preço, não encontram lugar
No coração de quem a fidelidade a Deus, vivo e verdadeiro, procura viver.

Com Jesus, mais que vencedores tornam-se Seus discípulos.
É a comunidade dos remidos que, como Igreja,
Empenha-se na luta pela libertação da humanidade das forças do mal.

Sendo a Salvação plena e universal, torna-se inconcebível
Miséria, ignorância, ódio e violência, febril consumo,
Inveja, cobiça, egoísmo e a funesta falta de amor.

Como Igreja, cumprindo a missão plena dos dons do Espírito,
Com a força de Cristo Ressuscitado, que d’Ele nunca se afasta,
Trilhamos o caminho para a construção do Reino, sinal de um mundo novo.

Uma súplica ao Senhor, com coração confiante, elevemos:
Do fermento do Maligno livrai-nos, Senhor!

Quem sou eu

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG