segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

“Não deixemos que nos roubem a esperança”

                                                            


“Não deixemos que nos roubem a esperança”

Vivendo tempos sombrios, marcados por tantos sinais de dor e sofrimento, corrupção, prantos e morte, retomemos o parágrafo da Exortação Evangelli Gaudium, parágrafo n.86, no qual o Papa Francisco nos exortou a não perdermos a esperança:

“É verdade que, nalguns lugares, se produziu uma «desertificação» espiritual, fruto do projeto de sociedades que querem construir sem Deus ou que destroem as suas raízes cristãs. Lá, «o mundo cristão está a tornar-se estéril e se esgota como uma terra excessivamente desfrutada que se transforma em poeira».

Noutros países, a resistência violenta ao cristianismo obriga os cristãos a viverem a sua fé às escondidas no país que amam. Esta é outra forma muito triste de deserto. E a própria família ou o lugar de trabalho podem ser também o tal ambiente árido, onde há que conservar a fé e procurar irradiá-la.

Mas «é precisamente a partir da experiência deste deserto, deste vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a sua importância vital para nós, homens e mulheres. No deserto, é possível redescobrir o valor daquilo que é essencial para a vida; assim sendo, no mundo de hoje, há inúmeros sinais da sede de Deus, do sentido último da vida, ainda que muitas vezes expressos implícita ou negativamente.

E, no deserto, existe, sobretudo, a necessidade de pessoas de fé que, com suas próprias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperança». Em todo o caso, lá somos chamados a ser pessoas-cântaro para dar de beber aos outros.

Às vezes o cântaro transforma-se numa pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que o Senhor, trespassado, Se nos entregou como fonte de água viva. Não deixemos que nos roubem a esperança!”

Oremos:

Senhor Jesus, concedei-nos a graça de cultivar a virtude divina da esperança, que se constitui em um distintivo dos cristãos, discípulos missionários Vossos, em meio às provações e contrariedades.

Senhor Jesus, renovai em nós a confiança em Vossa Palavra e poder, pois cremos que a última palavra é a Vossa, pois Vós tendes Palavras de vida eterna, que nos orientam e nos firmam os passos nesta travessia do deserto árido de nossa história.

Senhor Jesus, ajudai-nos a aprofundar nossas raízes, não em nós mesmos, mas em Vós, no amor de Vosso Pai, nutridos pela Seiva de Amor do Vosso Espírito, suportemos também as podas necessárias para produzirmos saborosos frutos de amor, vida e paz.

Senhor Jesus, que tão apenas em Vós confiemos, pois “Mais vale refugiar-se no Senhor do que confiar nos poderosos” (Sl 117,9), pois cremos, como disse Vosso Apóstolo: – “Se Deus é por nós, quem estará contra nós?” (Rm 8,31).

Senhor Jesus, não deixeis jamais que nos roubem a esperança, para que jamais nos percamos no caminho, e tenhamos sempre à nossa frente, o horizonte do inédito a ser buscado, construído, sem esmorecimentos, vacilações e recuos. Amém.

“FICA COMIGO, SENHOR!”

                                                        


“FICA COMIGO, SENHOR!”
 
Fica Senhor comigo, pois preciso da tua presença para não te esquecer. 
Sabes quão facilmente posso te abandonar.

 
Fica Senhor comigo, porque sou fraco e preciso da tua força para não cair.
 
Fica Senhor comigo, porque és minha vida, e sem ti perco o fervor.
 
Fica Senhor comigo, porque és minha luz, e sem ti reina a escuridão.
 
Fica Senhor comigo, para me mostrar tua vontade.
 
Fica Senhor comigo, para que ouça tua voz e te siga.
 
Fica Senhor comigo, pois desejo amar-te e permanecer sempre em tua companhia.
 
Fica Senhor comigo, se queres que te seja fiel.
 
Fica Senhor comigo, porque, por mais pobre que seja minha alma, quero que se transforme num lugar de consolação para ti, um ninho de amor.
 
Fica comigo, Jesus, pois se faz tarde e o dia chega ao fim; a vida passa, e a morte, o julgamento e a eternidade se aproximam. Preciso de ti para renovar minhas energias e não parar no caminho. Está ficando tarde, a morte avança e eu tenho medo da escuridão, das tentações, da falta de fé, da cruz, das tristezas. Oh, quanto preciso de ti, meu Jesus, nesta noite de exílio.
 
Fica comigo nesta noite, Jesus, pois ao longo da vida, com todos os seus perigos, eu preciso de ti. Faze, Senhor, que te reconheça como te reconheceram teus discípulos ao partir do pão, a fim de que a Comunhão Eucarística seja a luz a dissipar a escuridão, a força a me sustentar, a única alegria do meu coração.
 
Fica comigo, Senhor, porque na hora da morte quero estar unido a ti, se não pela Comunhão, ao menos pela graça e pelo amor.
 
Fica comigo, Jesus. Não peço consolações divinas, porque não as mereço, mas apenas o presente da tua presença, ah, isso sim te suplico!
 
Fica Senhor comigo, pois é só a ti que procuro, teu amor, tua graça, tua vontade, teu coração, teu Espírito, porque te amo, e a única recompensa que te peço é poder amar-te sempre mais. Com este amor resoluto desejo amar-te de todo o coração enquanto estiver na terra, para continuar a te amar perfeitamente por toda a eternidade. Amém.


 
PS: Oração de São Pio de Pietrelcina
 

Com cantos e louvores, celebremos as maravilhas de Deus

                                                     


 

Com cantos e louvores, celebremos as maravilhas de Deus
 
“Louvem a Javé, nações todas, e O glorifiquem todos
os povos! Pois o Seu Amor por nós é firme, e a
fidelidade de Javé é para sempre! Aleluia!”
(Sl 117,1-2)
 
Sejamos enriquecidos com o “Comentário sobre os Salmos”, do bispo e mártir São João Fisher (Séc. XVI):
 
“Primeiramente, Deus, realizando muitos portentos e prodígios, libertou o povo de Israel da escravidão do Egito. Deu-lhe passagem a pé enxuto através do mar Vermelho.
 
Sustentou-o com o Pão vindo do céu, maná e codornizes. Da pedra duríssima fez jorrar água abundante para os sedentos. Deu-lhe vitória sobre os inimigos que lhe moviam guerra. Fez com que o Jordão, contrariando o seu ímpeto, retrocedesse por algum tempo.
 
Repartiu entre as tribos e as famílias a terra prometida. Concedeu-lhes tudo isto com amor e generosidade. No entanto, ingratamente, aqueles homens esquecidos de tudo, desleixando e mesmo repudiando o culto a Deus, não poucas vezes se emaranharam no inominável crime da idolatria.
 
Depois, também a nós, quando ainda pagãos íamos atrás dos ídolos mudos, ao sabor de nossas inclinações, Ele nos cortou da oliveira selvagem da gentilidade e, quebrados os ramos naturais, nos enxertou na verdadeira oliveira do povo judaico, tornando-nos participantes da graça fecunda de Sua raiz. Por fim, nem sequer poupou ao próprio Filho, mas O entregou por todos nós como sacrifício e oblação de suave odor, a fim de nos remir e de tornar puro e aceitável para Si um povo.
 
Todos estes fatos, absolutamente certos, não são apenas provas de Seu Amor e de Sua generosidade para conosco, mas também acusações. Pois, ingratos, ou melhor, ultrapassando todos os limites de ingratidão, nem damos atenção ao Seu Amor nem reconhecemos a grandeza dos benefícios.

Rejeitamos e temos por desprezível o liberal doador de tão grandes bens. A imensa misericórdia que Ele demonstrou incessantemente para com os pecadores não nos comove nem nos leva a adotar uma norma de vida conforme Seu Mandamento Santo.
 
Tudo isto bem merece ser escrito para as gerações futuras, em perpétua memória. E assim todos aqueles que no futuro receberem o nome de cristãos, reconhecendo a infinita bondade de Deus para conosco, não deixem nunca de celebrá-Lo com louvores divinos.”
 
A primeira reflexão que nos desperta, é sobre a beleza e a riqueza inesgotável dos Salmos, que são a expressão da oração do Povo de Deus, com as diferentes sentimentos e realidades por que passamos.
 
Não há nada de humano que tenha escapado aos salmistas. Com eles, podemos falar com Deus: alegrias e tristezas, angústias e esperanças, dúvidas e certezas, prantos e sorrisos, sonhos e pesadelos, sofrimentos e realizações, sombras e luzes, pecado e graça.
 
Cantos e louvores a Deus:
 
Pela Sua ação criadora e recriadora, desde os primeiros amanheceres no Éden, até que venha o novo céu e a nova terra.
 
Pela Sua bondade e misericórdia, conduzindo o Povo pelo deserto, libertando-o da escravidão do Egito, e de toda forma de escravidão em todos os tempos.
 
Pela experiência do amor e presença, através dos Profetas que prepararam a vinda do Messias, e com Ele, o tempo da graça, a inauguração do Reino.
 
Pela proximidade de Deus no Verbo que Se fez Carne, que desceu ao nosso encontro assumindo nossa condição humana, igual a nós, exceto no pecado, para nos redimir e nos elevar à glória da eternidade.
 
Pela bondade e misericórdia nas Palavras e ação de Jesus, que nos revelou a face misericordiosa do Pai, porque inserido na plena comunhão de amor do Santo Espírito.
 
Pelo amor que ama até o fim, que elevado na Árvore da Vida, deixou-Se trespassar e morrer de amor por nós.
 
Pela presença do Santo Espírito, o Paráclito, que nos foi concedido quando voltou para junto do Pai, para conduzir, iluminar e fortalecer a Sua Igreja, para que jamais sentíssemos orfandade, fragilidade e abandono.
 
Reflitamos:
 
- O que mais Deus poderia ter feito por nós?
Nada, absolutamente nada! Pois não poupou Seu Próprio Filho, para que n’Ele creiamos e tenhamos vida eterna (Jo 3,16).
 
- O que podemos fazer para corresponder ao Amor de Deus?
Muito mais, porque, ainda que algo tenhamos feito, é nada diante do tudo que a Trindade Santíssima fez, faz e sempre fará em nosso favor.
 
O tempo é breve, a figura deste mundo passa. Façamos de cada instante, de cada palavra e gesto multiplicado uma correspondência ao indizível e infinito amor de Deus por nós, tão somente assim felizes o seremos.
 
A segunda reflexão é sobre a graça de podermos celebrar as maravilhas de Deus.
 
No comentário, vemos retratadas as maravilhas que Deus realizou sempre em favor da humanidade, cuja expressão máxima encontra-se em Jesus, entregue por todos nós como sacrifício de suave odor.
 
Também hoje, precisamos reconhecer as maravilhas que Deus continua a realizar, em meio às dificuldades, provações, angústias e tristezas que se possam notar.
 
Não podemos incorrer no risco de não perceber a ação de Deus, a cada segundo em nossa vida, e não cairmos na tentação de ver tão apenas o que haja de negativo.
 
Celebremos com louvores divinos a ação permanente de Deus, para que tenhamos vida plena e feliz. 

Redescobrir a Sua vontade e realizá-la, é um dos caminhos de acolhida da Palavra de Jesus, com a força do Espírito, apresentada no Sermão da Montanha: as Bem-Aventuranças (cf.Mt 5,1-12).
 
Louvemos e agradeçamos as maravilhas que Deus realiza em nosso favor, pois a gratidão é, verdadeiramente, o tesouro dos humildes (Shaekesperare); a gratidão, humildade, paz e felicidade caminham juntas.
 
Contemplemos as maravilhas de Deus com os olhos do mesmo coração que celebra a Sua misericórdia e bondade, na plena comunhão com o Espírito, por meio de Jesus, a quem rendemos toda a honra, glória, poder e louvor. Amém.  

A misericórdia do Senhor é para sempre

                                                               

                        A misericórdia do Senhor é para sempre

“E se as misericórdias de Deus
são de sempre e para sempre, também eu
cantarei eternamente as misericórdias do Senhor”

Sejamos enriquecidos pelo Sermão do Abade São Bernardo (Séc. XII) sobre o Livro do Cântico dos Cântidos, em que ele nos leva à contemplação do Amor redentor do Senhor por nós pecadores, com uma mensagem que nos faz perceber que onde abunda o delito, o pecado, superabunda a graça divina.

“Onde encontrar repouso tranquilo e firme segurança para os fracos, a não ser nas Chagas do Salvador? Ali permaneço tanto mais seguro, quanto mais poderoso é Ele para salvar.

O mundo agita, o corpo dificulta, o demônio arma ciladas; não caio, porque estou fundado sobre rocha firme. Pequei e pequei muito; a consciência abala-se, mas não se perturba, pois me lembro das Chagas do Senhor.

Ele foi ferido por causa de nossas iniquidades. Que pecado tão mortal que a morte de Cristo não apague?

Se vier à mente tão poderoso e eficaz remédio, não haverá mal que possa aterrorizar.

Por isso, muito errou quem disse: Tão grande é o meu pecado que não merece perdão.

Mostra com isso não ser membro de Cristo nem lhe interessar o mérito de Cristo, por apoiar-se no próprio merecimento, declarar coisa sua o que pertence a outro, como acontece com um membro em relação à cabeça.

Quanto a mim, vou buscar o que me falta confiadamente nas entranhas do Senhor, tão cheias de misericórdia, que não lhe faltam fendas por onde se derrame.

Cravaram Suas mãos e Seus pés, traspassaram Seu lado; por estas fendas é-me permitido sugar o mel da pedra, o óleo do rochedo duríssimo, quero dizer, provar e ver quão suave é o Senhor.

Ele alimentava pensamentos de paz e eu não sabia. Pois quem conheceu o pensamento do Senhor? ou quem foi seu conselheiro?

Mas o cravo que penetra tornou-se-me a chave que abre a fim de ver a vontade do Senhor.

Que verei através das fendas? Clama o cravo, clama a chaga que Deus está em Cristo reconciliando o mundo consigo. A espada atravessou sua alma e tocou seu coração; é-lhe agora impossível deixar de compadecer-se de minhas misérias.

Abre-se o íntimo do Coração pelas Chagas do corpo, abre-se o magno Sacramento da piedade, abrem-se as entranhas de misericórdia de nosso Deus que induziram o Oriente, vindo do alto a visitar-nos.

Qual o íntimo que se revela pelas Chagas? Como poderia brilhar de modo mais claro do que em Vossas Chagas, que Vós, Senhor, sois suave e manso e de imensa misericórdia?

Maior compaixão não há do que entregar Sua vida por réus de morte e condenados. Em vista disso, meu mérito é a misericórdia do Senhor. Nunca me faltam méritos enquanto não lhe faltar a comiseração.

Se forem numerosas as misericórdias do Senhor, eu muitos méritos terei. Que acontecerá se me torno bem consciente dos meus muitos pecados? Onde abundou o delito, superabundou a graça.

E se as misericórdias de Deus são de sempre e para sempre, também eu cantarei eternamente as misericórdias do Senhor. Acaso é minha a justiça?

Senhor, lembrar-me-ei unicamente de Vossa justiça. Vossa, sim, e minha; porque Vós Vos fizestes para mim justiça de Deus.”

Contemplemos as Santas Chagas dolorosas do Senhor, que são também as Suas Santas chagas gloriosas, da qual nascemos e nos alimentamos. 

A água cristalina jorrada do Coração transpassado do Senhor, remete-nos ao Batismo, e o Sangue, por usa vez, remete-nos ao Sangue que nos lavou e nos redimiu, e que no Banquete Eucarístico, quando o Pão e o Vinho recebemos, não comemos pão nem bebemos vinho, mas comemos e bebemos do Cálice do Senhor, verdadeira Comida, verdadeira Bebida. 

“Vida Líquida” Urge encontrar caminhos para um mundo novo possível (Introdução)

“Vida Líquida”
Urge encontrar caminhos para um mundo novo possível

É preocupação constante da Igreja, e há de ser de todos nós que, pela graça do Batismo, somos chamados a construir o novo e a nova terra queridos por Deus para toda a humanidade, saber que “a criação está gemendo em dores de parto” (Rm 8,23).

Neste pensamento, ofereço uma síntese, acompanhada da minha reflexão pessoal, de um livro que li recentemente: “Vida Líquida”, que retrata o tema da fluidez da existência contemporânea.

O autor do mesmo é Zygmunt Bauman, um sociólogo polonês que, de forma clara e objetiva, nos conduz à compreensão da pós-modernidade, que vive uma verdadeira mudança de época.

Impressionante sua capacidade de percepção e análise da vida social, chamando a atenção para os reais problemas que a atual condição do sistema capitalista multiplica como desafios para a condição humana.

Leva-nos a repensar a necessidade do encontro de caminhos para superação do ritmo criativo e alucinante do mercado, entretanto destrutivo, e com o consequente temor que nos acompanha de ficarmos ultrapassados, descartados.

O autor apresenta o desafio de vivermos nos dias atuais, numa sociedade onde há o imperativo permanente do consumo, que o autor denomina de “modernidade líquida” e a configuração da “vida líquida”: há sempre o risco de se tornar descartável, dejeto, lixo, um ninguém.

Como ele próprio diz “’A vida líquida’e a ‘modernidade líquida’ estão intimamente ligadas. A ‘vida líquida’ é uma forma de vida que tende a ser levada adiante numa sociedade ‘líquido-moderna’.

‘Líquido-moderna’ é uma sociedade em que as condições sob as quais agem seus membros mudam num tempo mais curto do que aquele necessário para a consolidação, em hábitos e rotinas, das formas de agir.

A liquidez da vida e da sociedade se alimentam e se revigoram mutuamente. A ‘vida líquida’, assim como a sociedade líquida-moderna, não pode manter a forma ou permanecer por muito tempo” (p. 7).

Neste contexto, mostra a necessidade de procurarmos caminhos para a construção de um mundo mais hospitaleiro para a humanidade. Vê na educação e na autoeducação formas para influenciar a mudança de eventos que nos levem a tal objetivo.

Um antigo provérbio chinês pode expressar melhor este caminho a ser feito, como ele cita aludindo ao Programa “Aprendizagem por toda a vida”, que baliza as atividades da Comissão das Comunidades Europeias (séc. XXI):

“Planejando para um ano, plante milho. Planejando para
uma década, plante árvores. Planejando para a vida,
treine e eduque pessoas”.

Vida Líquida (I,II,III)

                                                               


Capítulo I – “O indivíduo sitiado”

Destaco esta citação, que expressa o drama da existência de uma vida líquida:

“Em nossa sociedade de indivíduos que buscam desesperadamente sua individualidade, não há escassez de auxílios, consagrados ou autoproclamados, que (pelo preço certo, é claro) se mostrarão totalmente dispostos a nos guiar pelos calabouços sombrios de nossas almas, onde os nossos autênticos ‘eus’ permanecem supostamente aprisionados, lutando para escapar em busca da luz” (p. 28).

Não há mais autoevidência incontestável e a transparência que permitia travessias livres de encruzilhadas e obstáculos a serem evitados, negociados ou forçados.

Ø Por onde caminhar?
Ø Qual a nossa singularidade?
Ø O que aprender com jangadeiros e marinheiros para construirmos nossa identidade e fazermos nossa travessia?

O autor, a partir desta metáfora, procura as respostas: “Jangadeiros que descem o rio sobre troncos de árvores só fazem seguir a corrente. Não precisam de bússola – ao contrário de marinheiros em mar aberto, que não navegam sem uma.

Os jangadeiros se deixam levar pela força do rio, ocasionalmente auxiliando-a com os remos ou afastando a jangada das rochas e cachoeiras, evitando bancos de areia e margens pedregosas.

Os marinheiros, porém, estariam perdidos se confiassem sua trajetória ao sabor dos ventos e às mudanças das correntes. Eles não podem deixar de controlar os movimentos do barco. Devem decidir para onde ir e por isso precisam de uma bússola que lhes diga quando e onde virar com o intuito de chegar ao destino” (p. 31).

Temas muito pertinentes são abordados neste capítulo: a procura da identidade; o alcance da liberdade; a questão gravíssima de repensar o consumo responsável para não destruirmos o planeta (se a população mundial vivesse o conforto do norte-americano, precisaríamos de mais três planetas); os efeitos negativos da globalização excludente e o repensar um novo caminho.

Capítulo II – “De mártir a herói e de herói a celebridade”

O autor afirma que a sociedade de consumo “líquido-moderna”, na parte rica do planeta, não tem espaço para mártires ou heróis, porque não há espaço para sacrifício das satisfações imediatas em função de objetivos distantes e não há porque sacrificar satisfações individuais em nome de uma causa ou do bem-estar de um grupo:

“À medida que avança a sociedade “líquido-moderna”, com seu consumismo endêmico, mártires e heróis vão batendo em retirada...

A sociedade-líquido-moderna de consumidores considera os feitos dos mártires, heróis e todas as suas versões híbridas quase incompreensíveis e irracionais, e, portanto, ultrajantes e repulsivos...” (p. 64-65).

Nesta sociedade há lugar para as “celebridades” que aparecem do nada e facilmente podem cair no esquecimento. Há a possibilidade de numerosas celebridades, bem como suas combinações: “O culto a uma celebridade (ao contrário da adoração de mártires e heróis, que limita a liberdade de escolha dos adoradores) não tem aspirações monopolistas.

Por mais que as celebridades sejam competitivas elas não estão realmente competindo. O culto a uma delas não exclui, muito menos proíbe, que alguém se junte à comitiva de outra... ”(p.69).

A sociedade “líquido-moderna” precisa da multiplicação das celebridades, mais que mártires e heróis.

Capítulo III – “Cultura rebelde e ingovernável”

A cultura “líquido-moderna” não se apresenta mais como a cultura do aprendizado e do acúmulo, como nos revelam historiadores e etnógrafos. Surge uma nova cultura do desengajamento, da descontinuidade e do esquecimento.

Nesta cultura o tempo flui, não “marcha mais” – “Há mudança, sempre mudança, nova mudança, mas sem destino, sem ponto de chegada e sem a previsão de uma missão cumprida. Cada momento vivido está prenhe de um novo começo e de um novo fim...” (p.88).


Vida Líquida (IV) (V)

                                            


Capítulo IV - “Buscar abrigo na Caixa de Pandora” 
- o medo, a segurança e a cidade - 

Encontramo-nos profundamente identificados, pois consegue descrever com extrema precisão o mundo em que vivemos marcados por relações de medo e insegurança, necessidade cada vez maior de investirmos em recursos que nos garantam um pouco mais de privacidade e segurança.

Citando Ray Surette, afirma: “... o mundo visto pela TV parece um de ‘cidadãos-ovelhas’ sendo protegidos de ‘criminosos-lobos’ por ‘policiais-cães pastores” e citando Diken e Laustsen – “A vida urbana se transforma num estado de natureza caracterizado pelo domínio do terror, acompanhado pelo medo onipresente” (p. 96).

Há uma procura pela invisibilidade planejada, bem como a intimidação (guaritas, fortalezas e outras formas de garantir a segurança...).

Na sociedade “líquido-moderna” vemos a arquitetura do medo e da intimidação se espalhando por todos os espaços públicos urbanos abrindo espaço para a inventividade e o consumo pela segurança desejada.

Algumas questões pertinentes sobressaem ao longo de todo o capítulo:

Ø Insegurança e medo, como superar?
Ø Qual o caminho para um urbanismo integral em que seja possível a conexão, a comunicação e a celebração do existir em espaços sem medo e sem o tédio do isolamento?

Capítulo V
“Os consumidores na sociedade ‘líquido-moderna’”

A sociedade de consumo torna permanente a insatisfação, e uma das formas é a depreciação e desvalorização dos produtos de consumo logo depois de terem sido alçados ao universo do desejo do consumidor (o leitor vai também se identificando na percepção e descrição do autor).

Outra forma é o método de satisfazer toda necessidade/desejo/vontade de uma forma que não pode deixar de provocar novas necessidades/desejos/vontades (p. 105).

A síndrome consumista degradou a duração e promoveu a transitoriedade – “colocou o valor da novidade acima do valor da permanência...

A síndrome consumista é uma questão de velocidade, excesso e desperdício” e, deste modo, a sociedade de consumo não é nada além de uma sociedade de excesso e da fartura, e, portanto, da redundância e do lixo farto, conclui o autor (p.110).

Tudo isto também vai influenciar relacionamentos e inclusive os casamentos pouco duradouros (p.114ss).

Em longas páginas, de modo muito pertinente, descreve sobre o quanto a sociedade “líquido-moderna” fomenta o consumo em nome da preservação do corpo, da boa forma, como o corpo se torna fonte de lucro. Em diversos momentos nos encontraremos profundamente identificados com a problemática apresentada.

Também nos apresenta as crianças ocupando espaço fundamental como destinatários imediatos e futuros na sociedade consumo. Como elas influenciam nas decisões de seus pais.

Citando Allen Kanner, um psicoterapeuta de Berkeley sintetiza muito bem uma preocupação: “O consumismo dirigido pelas corporações tem amplos efeitos psicológicos não apenas sobre as pessoas, mas também sobre o planeta...

Com muita frequência, a psicologia individualiza exageradamente os problemas sociais. Ao fazê-lo, acabamos culpando a vítima, neste caso localizando o materialismo basicamente na pessoa, ignorando a cultura das grandes corporações que está invadindo uma parte tão grande de nossas vidas” (p.149/150).

Inquietante a conclusão do autor, e nos provoca a repensar e buscar novos caminhos:

“A espiritualidade pode ser um dom de nascença da criança, mas foi confiscada pelos mercados de consumo e reapresentada como um lubrificador das rodas da economia de consumo.

A infância, como sugere Kiku Adatto, se transforma numa ‘preparação para venda do ser’, à medida que as crianças são treinadas ‘para ver todos os relacionamentos em termos de mercado’ e encarar os outros seres humanos, incluindo os amigos e membros da família, pelo prisma das percepções e avaliações geradas pelo mercado” (p.150).

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