segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Vida Líquida (IV) (V)

                                            


Capítulo IV - “Buscar abrigo na Caixa de Pandora” 
- o medo, a segurança e a cidade - 

Encontramo-nos profundamente identificados, pois consegue descrever com extrema precisão o mundo em que vivemos marcados por relações de medo e insegurança, necessidade cada vez maior de investirmos em recursos que nos garantam um pouco mais de privacidade e segurança.

Citando Ray Surette, afirma: “... o mundo visto pela TV parece um de ‘cidadãos-ovelhas’ sendo protegidos de ‘criminosos-lobos’ por ‘policiais-cães pastores” e citando Diken e Laustsen – “A vida urbana se transforma num estado de natureza caracterizado pelo domínio do terror, acompanhado pelo medo onipresente” (p. 96).

Há uma procura pela invisibilidade planejada, bem como a intimidação (guaritas, fortalezas e outras formas de garantir a segurança...).

Na sociedade “líquido-moderna” vemos a arquitetura do medo e da intimidação se espalhando por todos os espaços públicos urbanos abrindo espaço para a inventividade e o consumo pela segurança desejada.

Algumas questões pertinentes sobressaem ao longo de todo o capítulo:

Ø Insegurança e medo, como superar?
Ø Qual o caminho para um urbanismo integral em que seja possível a conexão, a comunicação e a celebração do existir em espaços sem medo e sem o tédio do isolamento?

Capítulo V
“Os consumidores na sociedade ‘líquido-moderna’”

A sociedade de consumo torna permanente a insatisfação, e uma das formas é a depreciação e desvalorização dos produtos de consumo logo depois de terem sido alçados ao universo do desejo do consumidor (o leitor vai também se identificando na percepção e descrição do autor).

Outra forma é o método de satisfazer toda necessidade/desejo/vontade de uma forma que não pode deixar de provocar novas necessidades/desejos/vontades (p. 105).

A síndrome consumista degradou a duração e promoveu a transitoriedade – “colocou o valor da novidade acima do valor da permanência...

A síndrome consumista é uma questão de velocidade, excesso e desperdício” e, deste modo, a sociedade de consumo não é nada além de uma sociedade de excesso e da fartura, e, portanto, da redundância e do lixo farto, conclui o autor (p.110).

Tudo isto também vai influenciar relacionamentos e inclusive os casamentos pouco duradouros (p.114ss).

Em longas páginas, de modo muito pertinente, descreve sobre o quanto a sociedade “líquido-moderna” fomenta o consumo em nome da preservação do corpo, da boa forma, como o corpo se torna fonte de lucro. Em diversos momentos nos encontraremos profundamente identificados com a problemática apresentada.

Também nos apresenta as crianças ocupando espaço fundamental como destinatários imediatos e futuros na sociedade consumo. Como elas influenciam nas decisões de seus pais.

Citando Allen Kanner, um psicoterapeuta de Berkeley sintetiza muito bem uma preocupação: “O consumismo dirigido pelas corporações tem amplos efeitos psicológicos não apenas sobre as pessoas, mas também sobre o planeta...

Com muita frequência, a psicologia individualiza exageradamente os problemas sociais. Ao fazê-lo, acabamos culpando a vítima, neste caso localizando o materialismo basicamente na pessoa, ignorando a cultura das grandes corporações que está invadindo uma parte tão grande de nossas vidas” (p.149/150).

Inquietante a conclusão do autor, e nos provoca a repensar e buscar novos caminhos:

“A espiritualidade pode ser um dom de nascença da criança, mas foi confiscada pelos mercados de consumo e reapresentada como um lubrificador das rodas da economia de consumo.

A infância, como sugere Kiku Adatto, se transforma numa ‘preparação para venda do ser’, à medida que as crianças são treinadas ‘para ver todos os relacionamentos em termos de mercado’ e encarar os outros seres humanos, incluindo os amigos e membros da família, pelo prisma das percepções e avaliações geradas pelo mercado” (p.150).

Vida Líquida (V)

                                  


Concluindo, deixo claro que não tive a pretensão de expor exaustivamente o conteúdo do livro, mas de apresentar algumas ideias que absorvi entre tantas que o autor oferece sobre os vários aspectos da “vida-líquida”, para que tenhamos melhor compreensão da sociedade “líquido-moderna” na qual nos encontramos inseridos.

Como o autor mesmo o disse, somos como aqueles que procuram “janelas” para contemplar novas perspectivas para os dias de hoje. Somente compreendendo a realidade, e tomando consciência do presente, é que podemos lançar sementes de um novo futuro, de um mundo mais agradável, habitável. Somente assim, como afirmo sempre, o Paraíso não será uma saudade estéril, mas um compromisso de todos, porque generoso e solidário.

Volto às palavras de Zygmunt Bauman: “Como tornar o mundo humano, um pouco mais hospitaleiro para a humanidade”. Não há possibilidade de omissão para ninguém, por isto me propus a também oferecer minha reflexão.

Como leitores ávidos de um mundo novo, continuemos nossas leituras e reflexões, pois todos temos sempre algo a ensinar, e, certamente, muito mais a aprender...

Concluo citando um trecho da música sempre atual de Beto Guedes – “O sal da terra” –
“...vamos precisar de todo mundo
porque um mais um é sempre mais que dois...”



PS: Vida Líquida - Zygmunt Bauman - Editora Zahar - 2ª Edição – 2009.

Vida Lìquida (VI)

                                         


Capítulo VI – “Aprendendo a andar sobre a areia movediça
Para repensar um novo modo de existir, uma educação e treinamento para um consumo responsável e sustentável para nós e para os que virão.

Temas como a relação consumidor x cidadão; passividade dos cidadãos somada a apatia e perda do interesse pelo processo político e outras permeiam este capítulo e que tão facilmente percebemos ao nosso redor:

“O consumidor é inimigo do cidadão. Em toda parte ‘desenvolvida’ e abastada do planeta, abundam sinais de pessoas dando costas à política, de uma crescente apatia e da perda de interesse pelo processo político.

Mas a democracia não pode sobreviver por muito tempo diante da passividade dos cidadãos em função da ignorância e da indiferença políticas.

A liberdade dos cidadãos não é propriedade adquirida de uma vez por todas; não está a salvo quando trancada em cofres privados...

Não são as habilidades técnicas que precisam ser continuamente renovadas, nem é somente a educação voltada para o mercado de trabalho que precisa ocorrer ao longo da vida.

O mesmo é exigido, e com mais urgência ainda, pela educação para a cidadania” (p. 164).

Estas são algumas questões que emergem na leitura e que precisam de respostas.

Ø Como educar para a cidadania?
Ø Como alcançar o domínio do presente para podermos sonhar com o controle do futuro?
Ø Como superar a ignorância que produz a paralisia da vontade?
Ø No que consiste a educação permanente em longo prazo?

Capítulo VII – “O pensamento em tempos sombrios (Arendt e Adorno revisitados)”

Somos desafiados depois desta revisita tão bem feita pelo autor a buscar caminhos para a solidariedade necessária que consiste no  imperativo do momento para todos nós:

“Embora todos os habitantes do planeta estejam, por assim dizer, no merco barco, do ponto de vista de suas perspectivas de sobrevivência (só podendo optar entre navegar ou afundar juntos), suas tarefas imediatas, e, portanto, seus destinos preferidos, diferem amplamente, tornando as ações e os propósitos que os informam dissonantemente deslocados, e alimentando antagonismos em que a solidariedade é o imperativo do momento” (p. 193).

Também somos desafiados a repensar o preceito de Adorno: “a tarefa do pensamento crítico não é a conservação do passado, mas a redenção da esperança do passado”.

Ø O que precisa ser feito para que a esperança atinja um equilíbrio aceitável entre liberdade e segurança, que são condições indispensáveis da sociedade humana?

Ø Entre as esperanças do passado que precisam ser mais prontamente realizadas, qual é a metaesperança, ou seja, aquela esperança que torna possíveis todas as demais esperanças?

Esperar que as coisas, tanto as pequenas como as grandes, mudem, exige compromisso de todos, afirma o autor:

“Com as armas – benditas ou malditas – do conhecimento do bem e do mal, nós seres humanos, somos julgados e permanecemos em julgamento – sobre o que aconteceu o que fizemos ou deixamos de fazer.

Colocamos o ‘devia’ na banca de jurados e o ‘é’ no banco de réus. Levamos o juiz (comumente chamado de ‘consciência’ conosco (dentro de nós) aonde quer que vamos e no quer que façamos.

E acreditamos que chegar a uma sentença faz sentido: tem o poder de nos transformar e de transformar o mundo a nossa volta em algo melhor ou, no mínimo, menos mau” p.194).

Antes de sermos criaturas que pensam, somos criaturas com esperança.

São confortantes e iluminadoras as palavras finais do autor, que também merecem citação: precisamos construir um novo espaço público e global: “uma política que seja genuinamente planetária (que é diferente de ‘internacional’) e um palco planetária viável.

Trata-se de uma responsabilidade verdadeiramente planetária: o reconhecimento do fato de que todos nós que compartilhamos o planeta dependemos uns dos outros para o nosso presente e futuro, que nada que façamos ou deixemos de fazer pode ser indiferente para o destino de todos os outros, e que nenhum de nós pode mais procurar e encontrar um refúgio privado para tormentas que podem originar em qualquer parte do globo” (p. 196).

E ainda: “A lógica da responsabilidade planetária visa, ao menos em princípio, a confrontar os problemas gerados globalmente de maneira direta – no seu próprio nível... deve-se buscar um novo tipo de ambiente global em que os itinerários das iniciativas econômicas tomadas em qualquer lugar do planeta não sejam mais extravagantes, guiadas apenas pelos ganhos momentâneos, sem prestar atenção aos efeitos indesejados e às ‘baixas colaterais’, nem dar importância ás dimensões sociais dos cálculos de custo benefício” (p. 196).

Batismo: Em Cristo, Deus nos concede uma vida (Batismo do Senhor)

                                                     

                   Batismo: Em Cristo, Deus nos concede uma vida 

 
Batismo, sacramento e fundamento de toda a vida cristã,
pórtico da vida no Espírito, porta da vida espiritual.
Porta de acesso para todos os sacramentos,
e por ele, somos libertados do pecado,
regenerados como filhos de Deus,
tornamo-nos membros de Cristo, e ainda mais,
incorporados na Igreja, participantes na Sua missão.
 
Batizados, mergulhados e imersos para uma vida nova.
Banhados, purificados e renovados de nossos pecados.
Sepultados nas águas, sepultados na morte de Cristo,
Saímos pela Ressurreição com Ele, Jesus Cristo,
como uma “nova criatura” (1)
 
Batizados, temos o “banho da regeneração
e da renovação no Espírito Santo” (2)                
Nascemos da água e do Espírito,
sem o qual “ninguém pode entrar no Reino de Deus”. (3)
 
Batismo é Iluminação, porque nosso espírito fica iluminado, (4) 
para que no mundo sejamos sinais de luz irradiante.
Batismo é dom, porque recebemos sem nada ter trazido.
Batismo é graça, porque nos foi dado mesmo que culpados.
Batismo é unção para que sejamos profetas, reis e sacerdotes.
Batismo é veste, porque foi coberta nossa vergonha;
Batismo é selo, porque nos guarda, e é sinal do Senhorio de Deus.
 
Pelo Batismo, recebemos o Espírito Santo, e
“D’Ele nos vêm a alegria sem fim,
 a união constante e a semelhança com Deus;
d’Ele procede, enfim o bem mais sublime que se pode desejar:
o homem é divinizado”. Amém. (5)

 
(1)   cf. 2 Cor 5, 17; Gl 6, 15
(2)   cf. Tt 3, 5
(3)   cf. Jo 3, 5
(4)   São Justino
(5)   São Basílio Magno


domingo, 4 de janeiro de 2026

Sinais de esperança para o mundo

                                        

Sinais de esperança para o mundo

A missão é permanente e ela precisa 
                                           do ‘pulmão da oração’, da mística, 
                                         da espiritualidade, da vida interior

Iniciamos mais mais um ano,  e com ele as atividades pastorais conforme os planejamentos paroquiais, (Arqui)diocesanos (Guia Pastoral).

Deste modo, fundamental reavivarmos a chama da fé acesa no dia do batismo, para sermos sinais de esperança e testemunhas do mandamento do amor, que nos foi confiado, assim como desejou Jesus Cristo ao enviar os discípulos pelo mundo a fora, para proclamar a Sua Boa-Nova a todos os povos (Mt 28,19-20; Mc 16, 13-19).

Lembremos mais uma vez o que nos disse o Papa Francisco que “não servem as propostas místicas desprovidas de um vigoroso compromisso social e missionário, nem os discursos e ações sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o coração. Essas propostas parciais e desagregadoras alcançam só pequenos grupos e não têm força de ampla penetração, porque mutilam o Evangelho. É preciso cultivar sempre um espaço interior que dê sentido cristão ao compromisso e à atividade” (Evangelii Gaudium n.70).

Também lembremos o que nos dizem os Bispos da Igreja no Brasil no Documento 105, sobre a missão dos cristãos leigos e leigas, na Igreja e na sociedade, para que sejam sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13-14): “A missão precisa do ‘pulmão da oração’, da mística, da espiritualidade, da vida interior”.

Portanto, somente uma Igreja que ofereça momentos intensos de oração, aprofundamento da mística para os que dela participam, iluminando com a luz da Palavra de Deus abundantemente proclamada e refletida, através da prática da Leitura Orante, que tanto se tem insistido, nutridos pelo Pão Eucarístico no Banquete indispensável, a Santa Missa, é que poderemos, de fato, dar um sentido novo ao nosso viver, à nossa missão e nossas ações, fora e dentro da própria Igreja, comprometidos em construir uma nova sociedade com vida plena e feliz para todos.

Sendo a Igreja “perita em humanidade” não pode se omitir em sua missão de oferecer princípios e fundamentos para os que dela fazem parte, e assim não se omitam em sagrados compromissos no vasto e complicado mundo da família, da economia, da política, dos meios de comunicação, da cultura e muito mais que possa ser mencionado.

Como insistia o Papa, é preciso que sejamos uma “Igreja missionária, testemunha de misericórdia”, que não se fecha em si mesma, e se põe em atitude de permanente missão, aberta a ouvir e se solidarizar misericordiosamente com todos os que clamam por vida e dignidade, fazendo a Palavra de Deus chegar a todos os lugares, sobretudo os que tanto nos desafiam (escolas, universidades, penitenciárias, prédios, condomínios, shoppings, meios de comunicação social, migrantes etc.)

Não podemos ficar indiferentes à realidade a qual estamos inseridos, mas, com coragem, sermos como o sal, que se dissolve para conservar e dar sabor ao alimento. É nossa missão conservar a vida, cuidando, sobretudo do planeta, nossa casa comum; ser luz que não se esconde, mas a todos ilumina; ter um olhar luminoso e o coração sábio para gerar luz; sabedoria para alargar novos horizontes de comunhão, partilha, fraternidade, solidariedade, misericórdia e paz. 

“Misericordiosos como o Pai”

“Misericordiosos como o Pai”

Retomemos as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora do Brasil (2019- 2023), da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, continuemos a “Evangelizar com amor, zelo e alegria”, pois inúmeros são os desafios para toda a Igreja.

Revigoremos nossas forças, com a certeza de que o Espírito do Senhor nos conduz e nos ilumina, como vemos nos falou o Evangelista Lucas - “O Espírito do Senhor repousa sobre mim...” (Lc 4, 18).

Que Maria, Mãe da Igreja e nossa, primeira discípula missionária do Senhor, estrela da Evangelização, esteja sempre conosco, envolvendo-nos com seu carinho, proteção e ternura.  

Evangelizar com a presença e ação do Espírito Santo

                                                           

Evangelizar com a presença e ação do Espírito Santo

Rogamos a Deus que este mesmo Espírito Santo, que esteve sobre Jesus, e O ungiu para anunciar a Boa Notícia aos pobres e O enviou em missão (Lc 4,16-21), também esteja sobre toda a Igreja, de modo especial sobre os Bispos, no tríplice múnus de ensinar, santificar e governar.

Oportuno que voltemos ao objetivo das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil (2019-2023), CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
 
Entretanto, torna-se impossível qualquer ação evangelizadora, se não contarmos com a presença do Espírito Santo, que habita na Igreja e nos corações dos fiéis, como num templo (cf. 1 Cor 3,16; 6,19).

De fato, é Ele quem leva a Igreja ao conhecimento da verdade total, unificando-a na comunhão e no ministério, dirigindo-a, mediante os diversos dons hierárquicos e carismáticos.

O Espírito adorna, também, com Seus frutos (Ef 4,11-12; 1 Cor 12,5; Gl 5,22), e pela força do Evangelho, rejuvenesce a Igreja, renovando-a perpetuamente, levando-a à união consumada com Seu Esposo, Jesus Cristo (Lumen Gentium n.4).

Urge que sejamos cada vez mais fiéis à missão que nos foi confiada na evangelização, no anúncio da “Palavra de Deus, viva e eficaz, mais cortante que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4,12). 

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG