quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

A paz é fruto da justiça!


 A paz é fruto da justiça!

Em 2009, a Campanha da Fraternidade nos desafiou com um tema de extrema urgência: construir a paz, em irrenunciável compromisso com ela.

Passos foram dados, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Enquanto peregrinarmos neste mundo a paz será sempre a nossa grande busca, proponho ao leitor retomarmos as reflexões que escrevi na ocasião, reeditadas para facilitar a leitura.

Inicialmente, é importante termos claro qual é paz que a Igreja acredita e anuncia.

A Paz positiva, orientada por valores humanos como a solidariedade, a fraternidade, o respeito ao outro, a mediação pacífica dos conflitos, a promoção da dignidade humana e construção de uma sociedade justa e fraterna. Enfim, a paz fruto da justiça.

Precisamos dizer não à paz negativa, que se dá pelo uso da força das armas, da intolerância com os diferentes, e que tem como foco e meta os bens materiais, a busca inescrupulosa do poder.

Todos somos responsáveis pela paz. O exercício da cidadania é inadiável, e devemos colaborar no cultivo da cultura da paz e da vida, não apenas nas paredes de nossa Igreja, mas envolvendo todas as pessoas, todos os segmentos da sociedade, em todas as esferas de poder.

Lembro as oportunas e atualíssimas palavras do Secretário Geral da CNBB, D. Dimas L. Barbosa, naquele ano: “O caminho para a superação da insegurança passa, assim, pelo cultivo da cultura da paz, que supera a visão de guerra, seguindo a qual a violência se vence com violência.

A cultura da paz exige novos critérios para o relacionamento humano: a vivência da não violência ativa, a superação da vingança, a gratuidade, o perdão e a misericórdia. A prioridade tem que ser o valor da pessoa humana e sua dignidade”

A Oração do Salmista há de se tornar uma realidade: “O Amor e a Verdade se encontram, Justiça e Paz se abraçam, da terra germinará a Verdade, e a Justiça se inclinará do céu. O próprio Iahweh dará a felicidade e nossa terra dará seu fruto. A Justiça caminhará a sua frente, e com seus passos traçará um caminho” (Sl 85,11-14).

“A paz segundo São Leão Magno”

“A paz segundo São Leão Magno”

Iniciamos mais um ano, e é sempre oportuno retomar parte do Sermão deste grande Papa da Igreja , São Leão Magno (séc. V):

“Ora, no tesouro das liberalidades de Deus, que podemos encontrar de mais próprio para celebrar esta festa do que a paz, que o canto dos anjos anunciou em primeiro lugar no nascimento do Senhor?

É a paz que gera os filhos de Deus e alimenta o amor; ela é a mãe da unidade, o repouso dos bem aventurados e a morada da eternidade; sua função própria e seu benefício especial é unir a Deus os que ela separa do mundo...

O Natal do Senhor é o Natal da Paz. Como diz o Apóstolo, Cristo é a nossa paz, Ele que de dois povos fez um só (cf. Ef 2,14); judeus ou gentios, em um só Espírito, temos acesso junto ao Pai (Ef 2,18)”.

Com Jesus, nossa Paz, cerramos as cortinas de mais um ano e, 
ao mesmo tempo, abrimos as mesmas para Novo Ano.

Com Ele, nossa Paz, nossas forças sejam revigoradas;
Nossos sonhos se tornem mais próximos da realidade.
Com Ele, nossa vida de luz seja em maior intensidade.
Com Ele, nosso vigor, alegria, esperança renovadas!

Com Ela, Maria, terminamos longos dias de um ano,
Com a certeza de que por Ela desamparados jamais!
Com Ela, redescobrir o dulcíssimo gosto da paz!
Com Ela, aprender a fortalecer laços fraternos e humanos!

Feliz Ano Novo que no Natal do Senhor se anunciou!
Feliz Ano Novo, que não sejam palavras repetidas e frias,
Que expressem compromissos, sem coração e mãos vazias.
Somente transbordará no coração daquele que crê e testemunhou!

Graça e Paz da parte de Cristo Nosso Senhor!
Feliz Ano Novo acompanhado de bênçãos e alegria no Senhor.

Por uma Paz verdadeira!

Por uma Paz verdadeira!

As pessoas falam e procuram tanto a paz... Mas que paz?
Confunde-se muitas vezes o sentido mais profundo que possui a palavra paz.

Paz não é a ausência de problemas, tão pouco de desafios a serem enfrentados.
Paz não é a serenidade da ausência do dinamismo próprio da vida.
Paz não é ausência de conflitos a serem superados, 
Nem tão pouco a ausência de compromissos num imobilismo estéril.
Paz não pode ser reduzida a um sentimento intimista e sentimental. 

Paz não é fugir do mal ou os olhos ao mesmo fechar.
Paz não é viver fora da realidade, sinônimo de alienação total. 
Paz não é evasão do mundo numa ilha imaginária e irreal.
Paz não é o sossego aparente dos braços cruzados. 

Paz não é cegueira e indiferença que levam à morte.
Paz não é seguir sempre caminhos já trilhados. 
Paz não é viver num mundo sem contratempos.

As pessoas falam e procuram tanto a paz... Mas que paz? 
A paz que somente o Ressuscitado nos pode alcançar. 



Paz que é banir do coração medos e temores, 
Para manter sempre acesa a chama do fiel amor. 
Mantendo a chama mais bela sempre acesa, 
A chama da fidelidade na presença do Senhor. 

Paz que é experimentada por quem com Deus vive a comunhão. 
Paz de quem sabe que a alegria verdadeira não se rouba, 
Pois é construída na Verdade da Fé da Ressurreição. 
Paz saboreada e enraizada no mais profundo do coração. 

Paz, sentimento de quem alcançou a maturidade, 
De também na vida suportar sofrimentos, 
Pois sabe que do menor ao maior sacrifício, 
Com Cristo se configura, com paixão e sem lamentos. 

Esta paz verdadeira é o que desejo para você.
Esta paz que tanto procuro e espero alcançar...

Paz que não se compra e não se financia.
Paz nutrida pela Palavra e celebrada em cada Eucaristia.
Paz
 vislumbrada e contemplada no coração da Mãe Maria.

A Paz verdadeira somente Ele pode nos dar!

Política: a prática sublime da caridade (1)


Política: a prática sublime da caridade

Apesar das dificuldades e decepções, não podemos recuar, nem nos omitir dos sagrados compromissos com a atividade política, que deve ser a prática sublime da caridade, como nos ensina a Doutrina da Igreja, e como tão bem expressou o Papa São Paulo VI, na “Octogesima Adveniens”, em 1971: “A política é uma maneira exigente - se bem que não seja a única - de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros.” (n.46).

E ainda, retomando a preciosa citação da poetisa Gabriela Mistral: “Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar que fazem de cada recuo um ponto de  partida para um novo avanço”, façamos desta situação adversa que vivemos um momento favorável.

Se os fatos revelam um notável recuo, é a partir do recolhimento, reflexão, formação e diálogo, que juntos reencontraremos o caminho da construção e solidificação da democracia, com a preservação da liberdade de participação política de todos; transparência necessária na administração do bem público; fortalecimento dos espaços de participação e decisão dos rumos de nossa nação em todos os níveis (municipal, estadual, nacional). 

Portanto, que o “recuo das ondas” não seja sinônimo de apatia, indiferença, omissão diante da vocação política que todos possuímos.

Não nos foi dado um espírito de timidez e desânimo, e sim o Espírito do Senhor que nos orienta e conduz, para que avancemos no inadiável compromisso com o anúncio e testemunho da Boa-Nova de Jesus Cristo, participando alegres e corajosamente da construção de um mundo novo, justo e fraterno, com vida plena e feliz para todos.

Política: a prática sublime da caridade (2)



Política: a prática sublime da caridade

 “A Sagrada Escritura é para nos ajudar a decifrar o mundo; para
nos devolver o olhar da fé e da contemplação, e transformar
a realidade numa grande revelação de Deus”.

Apesar das dificuldades e decepções, não podemos recuar, nem nos omitir dos sagrados compromissos com a atividade política, que deve ser a prática sublime da caridade, como nos ensina a Doutrina da Igreja, e como tão bem expressou o Papa São Paulo VI, na “Octogesima Adveniens” (parágrafo n.46), em 1971 ao celebrar o octagésimo aniversário da Rerum Novarum, que nos fala sobre um tema que está na pauta do dia: a política como promoção do bem comum:

- O poder político a serviço do bem de todos e além das fronteiras nacionais:
“Atendo-se, pois, à sua vocação própria, o poder político deve saber desvincular-se de interesses particulares, para poder encarar a sua responsabilidade pelo que se refere ao bem de todos os homens, passando mesmo para além das fronteiras nacionais”.

- A política tomada a sério, em seus diversos níveis, na promoção do bem comum:
“Tomar a sério a política, nos seus diversos níveis, local, regional, nacional e mundial, é afirmar o dever do homem, de todos os homens de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem realizar juntos o bem da cidade, da nação e da humanidade”.

- Uma definição do que vem a ser a política:
“A política é uma maneira exigente - se bem que não seja a única - de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros. Sem resolver todos os problemas, naturalmente, a mesma política esforça-se por fornecer soluções, para as relações dos homens entre si”.

- O campo de atuação e domínio da política:
“O seu domínio é vasto e abrange muitas coisas, não é porém, exclusivo; e uma atitude exorbitante que pretendesse fazer da política algo de absoluto, tornar-se-ia um perigo grave”.

- A autonomia da realidade política e o compromisso dos cristãos em coerência ao Evangelho:
“Reconhecendo muito embora a autonomia da realidade política, esforçar-se-ão os cristãos, solicitados a entrarem na ação política, por encontrar uma coerência entre as suas opções e o Evangelho e, dentro de um legítimo pluralismo, por dar um testemunho, pessoal e coletivo, da seriedade da sua fé, mediante um serviço eficaz e desinteressado para com os homens”.

Ontem, hoje e sempre, ecoam as palavras do Papa Paulo VI, em 1975, que nos levam a refletir sobre a missão do cristão leigo e leiga e de todo batizado no mundo:

“Os leigos, a quem a sua vocação específica coloca no meio do mundo e à frente de tarefas as mais variadas na ordem temporal, devem também eles, através disso mesmo, atuar uma singular forma de evangelização...

O campo próprio da sua atividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos "mass media" e, ainda, outras realidades abertas para a evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento.”. (Evangelli Nuntiandi, n.º 70)

Também são oportunas as palavras dos Bispos na Conferência Nacional (CNBB), quando disseram nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora no Brasil (2015-2019): 

Promova-se cada vez mais a participação social e política dos cristãos leigos e leigas nos diversos níveis e instituições, por meio de formação permanente e ações concretas.

Com a crise da democracia representativa, cresce a importância da colaboração da Igreja no fortalecimento da sociedade civil, na luta contra a corrupção, bem como no serviço em prol da unidade e fraternidade dos povos, em especial na América Latina.” (n.123).

Urge que, no testemunho da fé, como discípulos missionários do Senhor, vivamos a atuação e compromisso político, como concretização e promoção do bem comum, para que sejamos sal, fermento e luz.

Embora a nossa participação política não se esgote no período eleitoral, este é um momento privilegiado, frente à possíveis descasos do poder público, precariedade de serviços necessários à população, desvios ou não aplicação verbas para o que é de fato essencial, e outros tantos fatos que clamam por mudanças efetivas.

Como Igreja, iluminados pela Doutrina Social da Igreja, não nos é permitido omissão nestes sagrados compromissos de participação da construção do Reino de Deus inaugurado por Jesus, com a força do Espírito Santo.

Porém, se dificuldades existem, a Palavra de Jesus, ontem, hoje e sempre, nos renova para os sagrados compromissos: “Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino” (Lc 12,32).

E para que superemos os nossos medos, na desafiadora e necessária participação política, Ele afirma ainda: “Coragem, Eu venci o mundo” (Jo 16,33).

Seja a Palavra de Deus luz em nossas reflexões, compreensão da realidade e, sobretudo, uma Palavra decisiva em nossa vivência da fé, na prática da verdadeira política que, como vimos, é a sublime prática da caridade.

Esteja a Palavra de Deus em nossas mãos e mente, pois como afirmou Santo Agostinho - A Sagrada Escritura é para nos ajudar a decifrar o mundo; para nos devolver o olhar da fé e da contemplação, e transformar  a realidade numa grande revelação de Deus”.

E ainda, retomando a preciosa citação da poetisa Gabriela Mistral: “Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço”, façamos desta situação adversa que vivemos um momento favorável.

Se os fatos revelam um notável recuo, é a partir do recolhimento, reflexão, formação e diálogo, que juntos reencontraremos o caminho da construção e solidificação da democracia, com a preservação da liberdade de participação política de todos; transparência necessária na administração do bem público; fortalecimento dos espaços de participação e decisão dos rumos de nossa nação em todos os níveis (municipal, estadual, nacional). Portanto, que o “recuo das ondas” não seja sinônimo de apatia, indiferença, omissão diante da vocação política que todos possuímos.

Não nos foi dado um espírito de timidez e desânimo, como falou o Apóstolo Paulo – “Pois Deus não nos deu espírito de timidez, mas de poder, de amor e de equilíbrio” (2 Tm 1,7), pois é o Espírito Santo que nos orienta e conduz, para que avancemos no inadiável compromisso com o anúncio e testemunho da Boa-Nova de Jesus Cristo, participando alegres e corajosamente da construção de um mundo novo, justo e fraterno, com vida plena e feliz para todos.

Enfim, encorajados pela Palavra do Senhor, luz para nosso caminho, assim como o Povo de Deus viveu e celebrou a noite da libertação da escravidão do Egito e a celebrou com cantos e júbilo, também nós, partícipes da Nova e Eterna Aliança, revigorados pelo Banquete de Eternidade, nos empenhemos concretamente nesta noite de libertação, que se repete ao longo da história, quando não nos omitimos e nos comprometemos no escrever de novas linhas da história com vida plena, digna, abundante e feliz para todos, como Igreja, participando com todo o empenho na construção do Reino de Deus.

Síntese da mensagem do Santo Padre Francisco para o 55º Dia Mundial da paz (2022)

 


Síntese da mensagem do Santo Padre Francisco

para o 55º Dia Mundial da paz (2022)

 “Diálogo entre as gerações, educação e trabalho: instrumentos para construir uma paz duradora”, tendo como lema – “Que formosos são sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz!” (Is 52, 7).

Como nos tempos dos antigos profetas, continua hoje a elevar-se o clamor dos pobres e da terra implorando justiça e paz

Citando o Papa São Paulo VI, acena para o caminho da paz, que consiste no desenvolvimento integral necessário, pois permanece uma situação marcada por sofrimentos, guerras e conflitos, doenças de proporções, a piora dos efeitos das alterações climáticas e da degradação ambiental, agrava-se o drama da fome e da sede e continua a predominar um modelo econômico mais baseado no individualismo do que na partilha solidária.

Na arquitetura da paz necessária, todos podem colaborar para construir um mundo mais pacífico partindo do próprio coração e das relações em família, passando pela sociedade e o meio ambiente, até chegar às relações entre os povos e entre os Estados.

Apresenta 3 caminhos para a construção de uma paz duradoura, na expressão de um pacto social,

1º - o diálogo entre as gerações, como base para a realização de projetos compartilhados;

2º - a educação, como fator de liberdade, responsabilidade e desenvolvimento;

3º - o trabalho, para uma plena realização da dignidade humana.

Quanto ao diálogo entre as gerações para a construção da paz, em contexto de pandemia que fustiga o mundo, é preciso promover o diálogo entre as gerações, multiplicando generosos testemunhos de compaixão, partilha, solidariedade.

Segundo o Papa, o diálogo significa “...ouvir-se um ao outro, confrontar posições, pôr-se de acordo e caminhar juntos. Favorecer tudo isto entre as gerações significa amanhar o terreno duro e estéril do conflito e do descarte para nele se cultivar as sementes duma paz duradoura e compartilhada”.

Neste  sentido, é preciso praticar o diálogo intergeracional, sobretudo no cuidado de nossa casa comum – “...a oportunidade de construir, juntos, percursos de paz não pode prescindir da educação e do trabalho, lugares e contextos privilegiados do diálogo intergeracional: enquanto a educação fornece a gramática do diálogo entre as gerações, na experiência do trabalho encontram-se a colaborar homens e mulheres de diferentes gerações, trocando entre si conhecimentos, experiências e competências em vista do bem comum”.

Quanto à instrução e a educação como motores da paz, embora tenha diminuído sensivelmente a nível mundial o seu orçamento, mas visto como despesas, elas são os alicerces duma sociedade coesa, civil, capaz de gerar esperança, riqueza e progresso.

Lamenta o aumento com despesas militares, ultrapassando o nível registado no termo da «guerra fria», e parecem destinadas a crescer de maneira exorbitante.

Exorta para que os detentores das responsabilidades governamentais elaborem políticas econômicas que prevejam uma inversão na correlação entre os investimentos públicos na educação e os fundos para armamentos.

Urge a promoção da cultura do cuidado, em todos os âmbitos e de modo especial um pacto que promova a educação para a ecologia integral, segundo um modelo cultural de paz, desenvolvimento e sustentabilidade, centrado na fraternidade e na aliança entre os seres humanos e o meio ambiente.

Afirma o Papa – “Investir na instrução e educação das novas gerações é a estrada mestra que as leva, mediante uma específica preparação, a ocupar com proveito um justo lugar no mundo do trabalho”.  

Quanto a promoção e o assegurar do trabalho na construção da paz O trabalho é um fator indispensável para construir e preservar a paz... Nesta perspectiva acentuadamente social, o trabalho é o lugar onde aprendemos a dar a nossa contribuição para um mundo mais habitável e belo”.

A situação do mundo do trabalho foi agravada pela pandemia Covid-19 –“Faliram milhões de atividades econômicas e produtivas; os trabalhadores precários estão cada vez mais vulneráveis; muitos daqueles que desempenham serviços essenciais são ainda menos visíveis à consciência pública e política; a instrução à distância gerou, em muitos casos, um retrocesso na aprendizagem e nos percursos escolásticos. Além disso, os jovens que assomam ao mercado profissional e os adultos precipitados no desemprego enfrentam hoje perspectivas dramáticas”.

O impacto da crise na economia informal, particularmente devastador, foi que muitas vezes envolve os trabalhadores migrantes – “Em muitos países, crescem a violência e a criminalidade organizada, sufocando a liberdade e a dignidade das pessoas, envenenando a economia e impedindo que se desenvolva o bem comum. A resposta a esta situação só pode passar por uma ampliação das oportunidades de trabalho digno”.

O Papa nos apresenta o trabalho como a “...base sobre a qual se há de construir a justiça e a solidariedade em cada comunidade. Por isso, «não se deve procurar que o progresso tecnológico substitua cada vez mais o trabalho humano... Temos de unir as ideias e os esforços para criar as condições e inventar soluções a fim de que cada ser humano em idade produtiva tenha a possibilidade, com o seu trabalho, de contribuir para a vida da família e da sociedade”.

Urge a promoção em todo o mundo condições laborais decentes e dignas, orientadas para o bem comum e a salvaguarda da criação – “É necessário garantir e apoiar a liberdade das iniciativas empresariais e, ao mesmo tempo, fazer crescer uma renovada responsabilidade social para que o lucro não seja o único critério-guia”.

Fundamental é o papel ativo da política na promoção de um justo equilíbrio entre a liberdade económica e a justiça social – “E todos aqueles que intervêm neste campo, a começar pelos trabalhadores e empresários católicos, podem encontrar orientações seguras na doutrina social da Igreja”.

Finaliza agradecendo os esforços de todos, com generosidade e responsabilidade, para que saiamos desta pandemia acompanhado de lembrança e oração por todas as vítimas e suas famílias.

Conclui abençoando e fazendo um apelo aos governantes e a quantos têm responsabilidades políticas e sociais, aos pastores e aos animadores das comunidades eclesiais, bem como a todos os homens e mulheres de boa vontade, para caminharmos, juntos, por estes três caminhos para a paz, com coragem e criatividade, como artesãos da paz.

Mensagem para o 54º dia Mundial da Paz - (Papa Francisco) (2021)


Mensagem do Santo Padre Francisco para a celebração do 54º dia Mundial Da Paz - 1º De Janeiro De 2021

A cultura do cuidado como percurso de paz

Inicialmente, o Papa saúda os Chefes de Estado e de Governo, responsáveis das Organizações Internacionais, líderes espirituais e fiéis das várias religiões, aos homens e mulheres de boa vontade, exortando para o necessário progresso no caminho da fraternidade, da justiça e da paz entre as pessoas, as comunidades, os povos e os Estados.

Descreve o gravíssimo cenário do ano de 2020, marcado pela pandemia, em suas manifestações de crise sanitária da covid-19, agravada fortemente pelas crises inter-relacionadas como a climática, alimentar, económica e migratória, e provocando grandes sofrimentos e incómodos.

Este cenário foi motivador para a escolha do tema da mensagem “A cultura do cuidado como percurso de paz”, com a promoção da cultura do cuidado para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer.

À luz da Palavra divina, retrata a obra da criação divina, a origem da vocação humana e a necessidade de cuidarmos uns dos outros, tendo como fundamentação bíblica: Gn 2,8; 2,15; Gn 4,9, 4,15, Gn 2,1-3; Lv 25, alusão aos Profetas Amós e Isaías, Ezequiel, e de modo especial a prática e ministério de Jesus nos Evangelhos (Jo 3,16; Lc 4,18; Jo 10,11-18; Lc 10,20-37  - Jesus é o Bom Pastor que cuida das ovelhas, o Bom Samaritano que Se inclina sobre o ferido, trata as suas feridas e cuida dele.

O ponto culminante da missão de Jesus se dá na Cruz, quando sela o seu cuidado por nós, oferecendo-Se nela e nos liberta da escravidão do pecado e da morte.

Com o dom da Sua vida e o Seu sacrifício, abriu-nos o caminho do amor e disse a cada um de nós: “Segue-Me! Faz tu também o mesmo” (cf. Lc 10, 37).

Fundamental neste sentido é a prática das obras de misericórdia corporais e espirituais vivida pela Igreja ao longo da história, somada aos princípios da Doutrina Social da Igreja como base da cultura do cuidado, que apresenta em parágrafos seguintes, como uma bússola a guiar a todos nós (em todos os âmbitos):

- o cuidado como promoção da dignidade e dos direitos da pessoa;

- o cuidado do bem comum;

- o cuidado através da solidariedade;

- o cuidado e a salvaguarda da criação.

“Através desta bússola, encorajo todos a tornarem-se profetas e testemunhas da cultura do cuidado, a fim de preencher tantas desigualdades sociais. E isto só será possível com um forte e generalizado protagonismo das mulheres na família e em todas as esferas sociais, políticas e institucionais”.

Esta bússola dos princípios sociais é “necessária para promover a cultura do cuidado, vale também para as relações entre as nações, que deveriam ser inspiradas pela fraternidade, o respeito mútuo, a solidariedade e a observância do direito internacional. A este respeito, hão de ser reafirmadas a proteção e a promoção dos direitos humanos fundamentais, que são inalienáveis, universais e indivisíveis”.

Acena para a criação de “Fundo Mundial” com o dinheiro que se gasta em armas e outras despesas militares para a eliminação da fome e contribuição para o desenvolvimento dos países pobres.

Esta cultura do cuidado pressupõe um processo educativo que nasce na família, e se desenvolve nas Escolas e Universidades; com contribuição das religiões em geral e seus líderes religiosos junto aos fiéis; e todas as pessoas empenhadas no serviço das populações, nas organizações internacionais, governamentais e não governamentais.

Deste modo, não há a paz sem a cultura do cuidado, e esta enquanto compromisso comum, solidário e participativo para proteger e promover a dignidade e o bem de todos, pois a barca da humanidade foi sacudida pela tempestade da crise, e avança com dificuldade à procura dum horizonte mais calmo e sereno.

Neste sentido, o leme da dignidade da pessoa humana e a “bússola” dos princípios sociais fundamentais podem consentir-nos de navegar com um rumo seguro e comum.

Exorta a todos os cristãos que mantenham o olhar fixo na Virgem Maria, Estrela do Mar e Mãe da Esperança.

Urge que todos juntos colaborem, a fim de avançar para um novo horizonte de amor e paz, de fraternidade e solidariedade, de apoio mútuo e acolhimento recíproco.

Conclui motivando-nos, para que não cedamos à tentação de nos desinteressarmos uns dos outros, especialmente dos mais frágeis, não nos habituando a desviar o olhar; ao contrário, é preciso empenho, cada dia, concretamente, para formar uma comunidade feita de irmãos que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros.

 

PS: Se desejar conferir na integra, acesse:

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/peace/documents/papa-francesco_20201208_messaggio-54giornatamondiale-pace2021.html 

 

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