terça-feira, 6 de outubro de 2026

A necessária discrição em todo o viver

                                                    


A necessária discrição em todo o viver

“Perguntaram a um ancião: ‘Como encontrarei a Deus?’ Ele disse: ‘No jejum, nas vigílias, nas labutas, nos atos de misericórdia e, sobretudo, também com discrição.

Digo-vos: muitos mortificaram sua carne sem discrição e saíram vazios, sem realizar nada.

Nossa boca cheira mal por causa do jejum; aprendemos as Escrituras de cor; aperfeiçoamos nosso conhecimento dos Salmos de Davi e, no entanto, não possuímos o que Deus busca: amor e humilhação.” (1)

Na passagem do Evangelho de Mateus (Mt 6,1-18), Jesus nos convida à prática da esmola, da oração e do jejum, e também nos ensina a oração do “Pai-Nosso”.

As três práticas mencionadas devem ser feitas no segredo do coração, e Deus, que é Pai, nos dará a retribuição (Mt 6,4.6.18).

Vemos quão necessária a discrição, acompanhada do “amor e humilhação”.

Se assim fizermos, crescerá nossa paixão pelo Senhor Jesus, e fascinados por Sua Pessoa e Palavra, seremos autênticos e apaixonados discípulos missionários do Reino.

Fundamental que tenhamos a necessária sensibilidade contemplativa, para a percepção dos clamores de nossos irmãos e irmãs, bem como de nossa Casa Comum, e seremos revigorados para a sensibilidade oblativa, renovando os sagrados compromissos com a Boa Nova do Reino de Deus, como tão bem expresso no Prefácio da Missa da Solenidade de Cristo Rei:

“Com óleo de exultação, consagrastes Sacerdote Eterno e Rei do universo Vosso Filho único, Jesus Cristo, Senhor nosso. Ele, oferecendo-Se na Cruz, vítima pura e pacífica, realizou a redenção da humanidade. Submetendo ao Seu poder toda criatura, entregará à Vossa infinita majestade um Reino eterno e universal: Reino da verdade e da vida, Reino da santidade e da graça, Reino da justiça, do amor e da paz...”

Oremos:

Ó Deus, nós Vos suplicamos a necessária discrição, para que nossa vida seja marcada pelo “amor e humilhação”, de tal modo que,  mais que enraizados em nosso coração, sejamos libertos de toda petrificação da sensibilidade, e não nos sejam roubadas a ternura e a Paixão pelo Reino. Amém.

  

(1)   Ditos anônimos dos Padres do Deserto – Editora Vozes – 2023 – n.222 – p.166 

Acolher e escutar o Senhor

                                                        

Acolher e escutar o Senhor

Reflexão à luz da passagem do Evangelho de Lucas (Lc 10,38-42), sobre a visita de Jesus à casa de Maria, Marta e Lázaro.

Marta acolhe o Senhor e se revela um tanto amarga, o que também pode acontecer conosco, portanto, a necessária vigilância.

De outro lado, com Maria, aprendemos que é preciso escolher a melhor parte, para seguir Jesus no caminho, sentando-se aos seus pés para a escuta de Sua Divina Palavra, pois não ficará de pé na caminhada quem não se assentar diante d’Ele para escutá-Lo.

Quem se assenta aos Seus pés, sofre menos, chora menos, age de um novo jeito: “Nós nos tornamos grandes quando nos ajoelhamos”

Maria assim o fez: Parou para escutar e não deixou de viver com intensidade a Palavra do Amado...

O caminho para ser feliz passa pela escuta da Palavra de Deus, e feliz de quem escuta a minha Palavra e a põe em prática, disse o Senhor.

Nesta escuta e prática da Palavra do Senhor é preciso que permaneçamos firmes no Senhor, como nos falou o Apóstolo Paulo: “Completo em minha carne o que falta a Paixão de Cristo, por amor à Sua Igreja.’ (Cl 1,24).

Quando o sofrimento assumido na fé é a presença de Deus em nossa vida, temos a perspectiva de vitória, configurados a Jesus Cristo, em seu Mistério de Paixão e Morte, em inseparável amor por Ele e por sua Igreja.

Acolhamos Jesus e Sua Palavra, e que se realizem em nós as transformações necessárias, acompanhadas de gestos concretos de amor, partilha e solidariedade.

Acolher o Senhor, escutar Sua Palavra,
vivê-la intensamente com a força do
Espírito, na fidelidade ao Pai!
Amém.

“Colar de pérolas”

                                                    

“Colar de pérolas”

Passagem do Evangelho: Lc 10,38-42 – Marta recebeu Jesus em sua casa, mas Maria escolheu a melhor parte:

“Só uma coisa é necessária: o amor a Deus, a santidade pessoal. Quando Cristo é o objetivo da nossa vida durante as vinte e quatro horas do dia, trabalhamos mais e melhor.

Este é o fio forte que – como num colar de pérolas finas – une todas as obras do dia; assim evitamos a vida dupla: uma para Deus e outra dedicada às tarefas no meio do mundo: às ocupações profissionais, à família, ao relacionamento com os amigos, ao descanso...” (1)

Reflexão:

Viver é como confeccionar um precioso colar de pérolas:
Quanto mais unidos ao Senhor e ao Mandamento que Ele nos deu, estivermos,
Mais pérolas teremos a acrescentar em nosso colar pessoal,
Que não é para ser exposto, mas nos alcançará algo maior, a eternidade.

Viver cada amanhecer com o intuito de unir novas pérolas ao colar,
Empenhado em viver o amor a Deus sobre todas as coisas,
de todo o coração, de toda a alma, e de todo o entendimento,
e ao próximo como a si mesmo, como nos ensinou o Senhor.

Cada pérola se unirá a outras tantas, numa obra interminável.
E assim, pérolas da paciência vivida, serenidade jamais perdida,
Fé nas provações mais que revigorada pela escuta atenta do Senhor,
Sentado aos Seus pés, como Maria, assim o fez.

Cada pérola se unirá a outras tantas, numa obra interminável.
E pérolas da esperança, no coração renovadas, utopias reavivadas,
Porque esperança é o nome da utopia cristã, que não pode morrer,
Mas reaprender a esperançar, na espera de novo céu e nova terra.

Cada pérola se unirá a outras tantas, numa obra interminável.
Pérolas de caridade eterna e inflamável, que jamais se apaga.
Pérolas do fogo abrasador do amor, que nem rios poderão apagar,
Porque assistidos pelo fogo do Espírito, que nos aquece e ilumina.

Ainda que a realidade sociopolítica nos inquiete e nos desafie,
Jamais percamos a capacidade de sonhar, mas um sonhar
Que não nos dispense desta obra por Deus confiada:
Confeccionar nossos colares até o último suspiro!




Resiliência na travessia

                                                 


Resiliência na travessia

Resiliência: uma palavra que tem sido cada vez mais falada, e que bem compreendida e vivida pode nos ajudar ao escrever sempre novas páginas de alegria, vida e esperança.

Uma possível definição da palavra: “habilidade que uma pessoa desenvolve para resistir, lidar e reagir de modo positivo em situações adversas”. (1)

Oremos:

Concedei-nos, Senhor, resiliência no enfrentar de uma enfermidade, acompanhada da fé, de mãos dadas com a ciência: uma fé que a ciência não dispensa, uma ciência que a fé não desconsidere.

Que nos ajude no autocontrole, acompanhado da força de vontade de superação de situações embaraçosas, e que não nos sejam aniquiladas as nossas forças.

Para suportar com fortaleza, sem nos deixarmos vencer pelo espírito de medo e timidez, crendo em Vós, que nos acompanha em todos os passos e nos fortalece, (2)

Peregrinos de esperança sejamos, resilientes em toda e qualquer situação, confiando em Vossa presença na barca de Vossa Igreja, que nos garante o chegar à outra margem, em necessária travessia... (3)

Com sabedoria, remar, por vezes, contra a maré das provações e dificuldades, aguentando firme, sem jamais perder o horizonte da esperança, no bom combate da fé (4), inflamados pela chama de Vossa Caridade. Amém.

 

(1)     Dicionário Aulete

(2)    2 Tm 1,7

(3)    Mc 4,35-41

(4)   2 Tm 4,7

 

Antes que o sol se ponha...

 


Antes que o sol se ponha...

Que a esperança jamais se ponha.
Antes que o sol se ponha atrás da montanha,
cerro meus ouvidos aos que bradam o fim da história,
que não há esperança alguma no horizonte da humanidade,
ou que em estéril saudosismo, dizem que nada é mais como antes.
 
Cerrados sejam também para os que semeiam dogmatismos,
Fundamentalismos, sectarismos que criam muros, insanas divisões.
Seja nos espaços reais da convivência cotidiana,
Seja nos espaços virtuais que semeiam discórdias e violência.
 
O sol se porá, inevitavelmente, como todos os dias,
O véu da escuridão cobrirá mais uma vez a Terra.
E, na espera dos raios de sol em nova aurora,
Peço as luzes de quem tem algo salutar a dizer.
 
Quero ouvir os que me fazem crer no novo humanismo;
que não poupam esforços para não incorrermos em barbáries,
porque se não vigilantes, ela é sempre possível,
e não podemos recuar jamais nos avanços históricos alcançados.
 
Recolhido na espera dos primeiros raios de um novo dia,
Releio, reflito e compartilho com pessoas de boa vontade,
Palavras que nos fazem reacender a esperança de um novo tempo,
Porque a fé também assim exige, expressa em fecunda caridade:
 
“Ser humanista doravante não é apenas pensar que os perigos, as incertezas e as crises (entre as quais a da democracia, a do pensamento político, a provocada pela explosão do lucro, a da biosfera e a multidimensional da pandemia) nos uniram numa comunhão de destinos.


Ser humanista não é apenas saber que somos todos humanos semelhantes e diferentes, não é apenas querer escapar das catástrofes e aspirar um mundo melhor.


Ser humanista é também sentir intimamente que cada um de nós é um momento efêmero de uma aventura extraordinária, a aventura da vida que deu origem à aventura humana, que, ao longo das criações, tormentos e desastres, chegou a uma crise gigantesca, na qual está em jogo o destino da espécie.


O humanismo regenerado, não é apenas o sentimento de comunidade humana, de solidariedade humana, é também o sentimento de estar no interior dessa aventura desconhecida e incrível, e desejar que ela continue em direção a uma metamorfose, da qual nascerá um novo devir.” (1)

Sigamos em frente... que o sol se ponha,
Mas jamais se ponha com ele a esperança.
Renovam-se as forças, novas linhas escrever,
O inédito do melhor nos desafia... Amém.

  
 
(1)
 Lições de um século de vida - Edgar Morin – Bertrand Brasil – p. 86.88

A Missão do Senhor é a nossa missão

                                                 


A Missão do Senhor é a nossa missão

Senhor, com a Vossa Ascensão aos céus, nos convidais a voltarmos os nossos olhos para o mundo em que vivemos, e darmos continuidade à Vossa Divina Missão, embora não merecedores o sejamos, mas em Vós confiamos e agradecemos.

Celebramos e contemplamos a Vossa partida como a marca do começo da missão universal confiada aos Apóstolos, porque tendes todo o poder no Céu e na Terra, e sois Cabeça da Igreja, que é o Vosso Corpo, e a ela nada falta para que esta missão realize.

Renovamos hoje o compromisso de construir, paciente e humildemente, no amor, a Vossa Igreja, como pedras vivas e escolhidas Vossas, e jamais nos sentindo órfãos, porque nos enviastes do Pai o Vosso Santo Espírito.

Cremos, contemplamos e sentimos a Vossa presença, Senhor, não mais como outrora, sujeita às limitações da condição humana, que restringia a Vossa ação no tempo e no espaço. Nada mais pode impedi-Lo de estar aqui ou ali, agora estais em todo lugar e caminhais conosco.

Contemplamos Vossa presença, Senhor, sublimemente na Palavra, na Eucaristia e no pobre, faminto, sedento, nu, enfermo, forasteiro, preso, e em tantos quantos possamos reconhecer-Vos, amando e servindo com humildade e alegria.

Nós Vos agradecemos, Senhor, por esta nova presença, e como discípulos missionários nada temos a temer no mundo. E que cada vez mais, como Igreja em saída, missionária e misericordiosa, coloquemo-nos a serviço da vida e da esperança, impelidos pelo Fogo do Vosso Amor. Amém. Aleluia!

“Amar até as últimas consequências...”

                                                      

“Amar até as últimas consequências...”

Meditemos sobre esta frase:
“Jesus, um Rei que Se doa. Reinar com Ele é amar até as últimas consequências!”

Amar até as últimas consequências...
Ser batizado é ser outro Cristo, a Seu exemplo, tendo d’Ele os mesmos sentimentos, para participar do Seu Reino...

Refletindo sobre o amor cristão:
Amar com alegria na doação da própria vida, entregando-a nas mãos de Deus em favor do próximo;

Amar sabendo esperar os frutos que virão, a partir da ação feita. Esperar silenciosamente e pacientemente, na alegria experimentada pelo bem que se fez;
Amar renunciando a si mesmo por uma causa infinitamente maior;

Amar colocando-se a serviço do outro nas diversas pastorais da comunidade;
Amar no silêncio, amar na ingratidão, 
amar para além de todo e qualquer resultado;

Amar na gratuidade, pura e simplesmente;
Amar na exata medida do Amor que é Jesus, que nos amou até o fim.

Portanto, como batizados, devemos ser no mundo sinal e instrumento do Amor de Deus, que cria e recria novas relações e um mundo novo.

Sejamos mais alegres e corajosos participantes da construção do Reino, arautos do Evangelho, como sacerdotes, profetas, reis e pastores.

Eis a missão intransferível e irrenunciável, a ser vivida com toda intensidade, fortalecidos na luz do Espírito de Deus.

Temos o Espírito, nada nos falta! 
Tudo temos e tudo podemos
n’Aquele que nos fortalece!
 (cf. Fl 4,13).

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4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG