quarta-feira, 1 de abril de 2026

Semana Santa: a dor de um amor não correspondido

                                                    

Semana Santa: a dor de um amor não correspondido

Na Quarta-feira da Semana Santa, ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 26, 14-25), que nos fala da traição de Judas, que entrega Jesus por trinta moedas.

Retomo um trecho do Sermão do Papa e Doutor da Igreja, São Gregório Magno (séc. VI):

“Nós sofremos menos pelos males causados por estranhos, porém nos são mais cruéis os tormentos que sofremos da parte daqueles em cujo amor confiávamos; porque, além do tormento do corpo, sofremos o amor  perdido, eis por que de Judas, Seu traidor, diz o Senhor pelo salmista:

Na verdade que, se o ultraje viesse de um inimigo meu, teria sofrido com paciência; e se a agressão partisse daqueles que me odeiam, poderia ter-me salvo deles; mas tu, meu companheiro, meu guia e meu amigo; com quem me entretinha em doces colóquios, que andávamos juntos na casa de Deus’.

E novamente: ‘Até o próprio amigo em quem Eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar’. Como se de Seu traidor dissesse claramente: ‘sua traição me é tanto mais dolorosa quanto mais íntimo me parecia ser aquele de quem a sofri’”.

São Gregório retrata possíveis experiências que possamos já ter vivido e sofrido por um amor perdido, como assim vivenciou nosso Senhor, em relação à traição de Judas, a quem tanto amou, e não foi correspondido, e nem por isto deixou de amá-lo.

Quem mais poderia amá-lo e nos amar tanto assim?

Quanto ainda temos que nos converter e amadurecer para amar, incondicionalmente, como Jesus nos ama?

Vivendo a Semana Santa, temos que aprofundar nosso aprendizado na prática do Mandamento Maior do amor a Deus, que se expressa no amor ao próximo.

Aprofundar nossa espiritualidade genuinamente Pascal, para não incorrermos em infidelidades e traições ao amor de Deus por nós, para que não reescrevamos novas páginas de traição, como Judas o fez.

(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes – 2013 – p.755

Oremos pelos sacerdotes em crise

 


                       Oremos pelos sacerdotes em crise


Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.


Senhor Jesus,
Bom Pastor e companheiro de caminhada,
hoje colocamos nas tuas mãos todos os sacerdotes,
especialmente os que atravessam momentos de crise,
quando a solidão pesa, as dúvidas obscurecem o coração
e o cansaço parece mais forte do que a esperança.

    Tu que conheces as suas lutas e feridas,
renova neles a certeza do teu amor incondicional.
Faz-lhes sentir que não são funcionários nem heróis solitários,
mas filhos amados, discípulos humildes e estimados,
e pastores amparado pela oração do teu povo. 

    Pai bom,
ensina-nos, como comunidade, a cuidar dos nossos presbíteros:
a escutá-los sem julgar,
a agradecer sem exigir perfeição,
a partilhar com eles a missão batismal
de anunciar o Reino com gestos e palavras,
e a acompanhá-los com proximidade e oração sincera.

    Que saibamos amparar aqueles que tantas vezes nos amparam. 
Espírito Santo,
reacende nos nossos sacerdotes a alegria do Evangelho.
Concede-lhes amizades sãs, redes de apoio fraterno,
sentido de humor quando as coisas não correm como esperavam,
e a graça de redescobrir sempre a beleza da sua vocação.

    Que nunca percam a confiança em Ti,
nem a alegria de servir a tua Igreja com um coração humilde e generoso. Amém.  (1)

   (1) Autor: Papa Leão XIV

O Jubileu e os clamores por sinais de esperança

 


O Jubileu e os clamores por sinais de esperança

O Papa na Bula da Proclamação Ano Jubilar 2025 – Peregrinos da Esperança, com o lema – “A esperança não nos decepciona” (Rm 5,5), apresenta algumas realidades que clamam por esperança, acompanhadas de compromissos expressos na compaixão, proximidade e solidariedade (parágrafos n. 7-15):

1-   Apelo pela paz para  todo o mundo – superação de conflitos e guerras. Em outro momento, o Papa fala em “terceira guerra mundial em pedaços”.

2- Abertura e cuidado da vida - paternidade e maternidade responsáveis; promoção da vida desde sua concepção ao seu declínio natural.

3-  Realidade dos presos - os privados de liberdade; reinserção social; preservação da dignidade; respeito aos direitos humanos; fim da pena de morte

4-  Doentes – em casa ou nos  hospitais; e gratidão aos profissionais de saúde, que atuam  em condições tantas vezes difíceis.

5- Jovens: desmoronamento de sonhos; falta de perspectiva e emprego; a ilusão das drogas; risco da transgressão e da busca do efêmero. É necessária a proximidade com os jovens, que são a alegria e esperança da Igreja e do mundo.

6-  Idosos – valorização do tesouro que são; experiência, vida e sabedoria que trazem consigo.

7-  Pobres – são milhões; escândalo do gasto com armas. São quase sempre vítimas e não os culpados. A superação da pobreza tem que estar na pauta dos debates políticos e econômicos internacionais.

Concluímos com a Oração do Jubileu:

Pai que estás nos céus,
 que nos deste no Teu filho Jesus Cristo, nosso irmão,
e a chama de caridade
derramada nos nossos corações pelo Espírito Santo
despertem em nós a bem-aventurada esperança
para a vinda do teu Reino.
 
A Tua graça nos transforme
em cultivadores diligentes das sementes do Evangelho
que fermentem a humanidade e o cosmos,
na espera confiante
dos novos céus e da nova terra,
quando, vencidas as potências do Mal,
se manifestar para sempre a Tua glória.
 
A graça do Jubileu
reavive em nós, Peregrinos de Esperança,
o desejo dos bens celestes
e derrame sobre o mundo inteiro
a alegria e a paz
do nosso Redentor.

A Ti, Deus bendito na eternidade,
louvor e glória pelos séculos dos séculos.
Amém. (1)
 

(1) Papa Francisco - escrito em 2025

Rezando com os Salmos - Sl 35 (36)

 


O Senhor é fonte de vida, graça e luz


“–1 Ao mestre do coro. De Davi, servo do Senhor.

–2 O pecado sussurra ao ímpio
lá no fundo do seu coração;
– o temor do Senhor, nosso Deus,
não existe perante seus olhos.
–3 Lisonjeia a si mesmo pensando:
‘Ninguém vê nem condena o meu crime’.

–4 Traz na boca maldade e engano;
já não quer refletir e agir bem.
=5 Arquiteta a maldade em seu leito,
nos caminhos errados insiste
e não quer afastar-se do mal.

–6 Vosso amor chega aos céus, ó Senhor,
chega às nuvens a Vossa verdade.
–7 Como as altas montanhas eternas
é a vossa justiça, Senhor;
– e os vossos juízos superam
os abismos profundos dos mares.

– Os animais e os homens salvais:
8 quão preciosa é, Senhor, vossa graça!
– Eis que os filhos dos homens se abrigam
sob a sombra das asas de Deus.
–9 Na abundância de Vossa morada,
eles vêm saciar-se de bens.

– Vós lhes dais de beber água viva,
na torrente das Vossas delícias.
–10 Pois em Vós está a fonte da vida,
e em Vossa luz contemplamos a luz.
–11 Conservai aos fiéis Vossa graça,
e aos retos, a vossa justiça!

–12 Não me pisem os pés dos soberbos,
nem me expulsem as mãos dos malvados!
–13 Os perversos, tremendo, caíram
e não podem erguer-se do chão.”

Com o Salmo 35(36) refletimos sobre a malícia do pecador e a bondade de Deus que vem em socorro dos justos, iluminando seus caminhos:

“Em dois quadros bem distintos descreve-se a maldade do pecador que não quer converter-se (v.2-5) e, depois, a infinita misericórdia de Deus, que coloca a salvação ao alcance de todos (v. 6-13).” (1)

Peregrinos do Senhor, experimentamos cotidianamente as delícias de Deus em nosso favor; e Ele nos comunica vida, graça e luz, como tão bem se expressou e rezou o Salmista.

Firmemos nossos passos confiantes na presença do Senhor, porque quem o Segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (cf. Jo 8,12).

 

(1) Comentário da Bíblia Edições CNBB – pág. 755

Amemos como o Senhor nos amou

                                                           

Amemos como o Senhor nos amou

“...o Senhor definiu a plenitude do Amor
com que devemos amar-nos uns aos outros”

Sejamos enriquecidos pelo “Tratado sobre o Evangelho de São João” escrito pelo Bispo Santo Agostinho (séc. V):

“Irmãos caríssimos, o Senhor definiu a plenitude do Amor com que devemos amar-nos uns aos outros, quando disse: Ninguém tem Amor maior do que Aquele que dá Sua vida pelos amigos (Jo 15,13).

Daqui se conclui o que o mesmo Evangelista João diz em sua epístola: Jesus deu a Sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos (1Jo 3,16), amando-nos verdadeiramente uns aos outros, como Ele nos amou até dar a Sua vida por nós.

É certamente a mesma coisa que se lê nos Provérbios de Salomão: Quando te sentares à mesa de um poderoso, olha com atenção o que te é oferecido; e estende a tua mão, sabendo que também deves preparar coisas semelhantes (cf. Pr 23,1-2 Vulg.).

Ora, a Mesa do poderoso é a Mesa em que se recebe o Corpo e o Sangue D'Aquele que deu a Sua vida por nós. Sentar-se à Mesa significa aproximar-se com humildade.

Olhar com atenção o que é oferecido, é tomar consciência da grandeza desta graça. E estender a mão sabendo que também se devem preparar coisas semelhantes, significa o que já disse antes: assim como Cristo deu a Sua vida por nós, também devemos dar a nossa vida pelos irmãos.

É o que diz o Apóstolo Pedro: Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, a fim de que sigamos os Seus passos (cf. 1Pd 2,21). 

Isto significa preparar coisas semelhantes.Foi o que fizeram, com ardente amor, os Santos mártires. Se não quisermos celebrar inutilmente as suas memórias e nos sentarmos sem proveito à Mesa do Senhor, no Banquete onde eles se saciaram, é preciso que, como eles, preparemos coisas semelhantes.

Por isso, quando nos aproximamos da Mesa do Senhor, não recordamos os mártires do mesmo modo como aos outros que dormem o sono da paz, ou seja, não rezamos por eles, mas antes pedimos para que rezem por nós, a fim de seguirmos os seus passos.

Pois já alcançaram a plenitude daquele Amor acima do qual não pode haver outro maior, conforme disse o Senhor. Eles apresentaram a seus irmãos o mesmo que por sua vez receberam da Mesa do Senhor.

Não queremos dizer com isso que possamos nos igualar a Cristo Senhor, mesmo que, por Sua causa, soframos o martírio até o derramamento de sangue.

Ele teve o poder de dar a Sua vida e depois retomá-la; nós, pelo contrário, não vivemos quanto queremos, e morremos mesmo contra a nossa vontade.

Ele, morrendo, matou em Si a morte; nós, por Sua morte, somos libertados da morte. A Sua carne não sofreu a corrupção; a nossa, só depois de passar pela corrupção, será por Ele revestida de incorruptibilidade, no fim do mundo.

Ele não precisou de nós para nos salvar; entretanto, sem Ele nós não podemos fazer nada. Ele Se apresentou a nós como a Videira para os ramos; nós não podemos ter a vida se nos separarmos d’Ele.

Finalmente, ainda que os irmãos morram pelos irmãos, nenhum mártir derramou o seu sangue pela remissão dos pecados de seus irmãos, como Ele fez por nós. Isto, porém, não para que O imitássemos, mas como um motivo para agradecermos.

Portanto, na medida em que os mártires derramaram seu sangue pelos irmãos, prepararam o mesmo que tinham recebido da Mesa do Senhor.

Amemo-nos também a nós uns aos outros, como Cristo nos amou e Se entregou por nós.”  (1)

Contemplamos a plenitude do Amor de Deus por nós, que não poupou o próprio Filho por amor à humanidade, e nos convida a viver o mesmo amor uns pelos outros.

Passemos da contemplação à vivência de mesmo Amor, como nos exorta o Bispo; e envolvidos por este amor, dele plenificados, podemos e haveremos de amar como Jesus Ama: Amor que ama sem medida, e assim faremos da nossa vida uma agradável oferenda a Deus,  sem o que tornaria nossos ritos e sacrifícios sem sentido, gosto e conteúdo.

Nossa vida, aos poucos, ficaria sem sonhos, sem verdadeiros projetos e perspectivas. No entanto, tudo se renova para quem experimenta, cotidianamente, o Amor de Deus, e procura vivê-lo em relação ao próximo, progredindo no essencial, que é o distintivo de nossa fé: a vivência do Mandamento do Amor.

Amando como o Senhor nos amou, daremos razão de nossa esperança ao mundo, e os sinais do Reino, os sinais Pascais se multiplicarão. Amém.

(1) Liturgia das Horas - Volume Tempo da Quaresma/Páscoa - Editora Paulus - pp. 392-393

A Política é uma expressão exigente do amor


A Política é uma expressão exigente do amor

Estreita é a Porta que nos conduz à Salvação, com a inevitável cruz a ser carregada cotidianamente, com as renúncias necessárias.

E o carregar da cruz implica em compromissos irrevogáveis que brotam da fé, entre eles, a atuação política, o compromisso de fazer dela a promoção do bem comum.

Em 1971, O Papa Paulo VI, na “Octogesima Adveniens”, quando celebrávamos o 80 º Aniversário  da Encíclica “Rerum Novarum”, nos enriqueceu com esta afirmação: 

 “A política é uma maneira exigente - se bem que não seja a única - de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros.” (n.46).

E, no Lecionário Comentado encontramos: “... o compromisso político e social dos cristãos é a forma mais elevada da caridade: a atuação dos cristãos no mundo, sempre marcada pela lógica da Cruz, anuncia e faz amadurecer aqueles germens de paz e justiça que serão totais e perfeitos somente no Reino de Deus.”

O amor cristão é chamado a ser vivido por toda vocação e em todos os âmbitos. É imprescindível que não nos furtemos desta prática, para que nossa fé seja, de fato, irradiação de luz na construção de um mundo mais justo e fraterno.

Da mesma forma, é impossível cultivar a virtude da esperança, sem a multiplicação de atos solidários que garantem que a vida tenha mais esplendor, beleza e dignidade; sem qualquer sinal de exclusão, fome, miséria, aviltamento da condição humana e do planeta em que habitamos.

Somente assim, vivendo esta maneira exigente e não exclusiva, mas de sublime expressão do compromisso cristão, consolidaremos a caridade, como Mandamento Maior do Senhor, do Amor a Deus que não se separa do segundo que é semelhante a este: o amor ao próximo.

Providencial, e ninguém pode ficar indiferente à preocupação de formar ou fortalecer um grupo de Fé e Política em cada Paróquia, como motivadores, animadores, mas não exclusivos, para que a nossa Fé, Esperança e Caridade assim também o sejam.

Política: uma sublime vocação


Política: uma sublime vocação

Esta súplica do Papa Francisco é sempre iluminadora:

Peço a Deus que cresça o número de políticos capazes de entrar num autêntico diálogo que vise efetivamente sanar as raízes profundas e não a aparência dos males do nosso mundo. A política, tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum.

Temos de nos convencer que a caridade ‘é o princípio não só das micro-relações estabelecidas entre amigos, na família, no pequeno grupo, mas também das macro-relações como relacionamentos sociais, econômicos, políticos’.  Rezo ao Senhor para que nos conceda mais políticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres” (1).

Acolhendo a súplica, multipliquemos espaços de reflexão, aprofundamento e discernimentos necessários, sobretudo neste momento em que estamos definindo nossas escolhas, vereadores e Prefeito que dirigirão nossas cidades.

É preciso que a política seja de fato uma “sublime vocação”; “uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum”, sobretudo quando a realidade nos apresenta uma face maculada pela corrupção em todos os âmbitos, de modo especial na política, pelo descaso com o bem público, absurda indiferença na promoção do bem comum, com a objetivação de interesses pessoais mesquinhos, que fazem multiplicar a dor e o sofrimento de milhões de empobrecidos, privados do pão, da moradia, da educação, da saúde, lazer e muito mais que lhes seria pleno direito como cidadãos.

Urge que sejamos criteriosos em nossas escolhas, não vendendo nosso voto, nem trocando por favores, de modo que nossas escolhas sejam expressão consciente, pois ainda que não pareça nosso voto tem um “preço” altíssimo que incide decididamente em toda a nossa vida, positiva ou negativamente.

Abertos à ação do Espírito, que nos fortalece na vocação profética, dom divino e resposta humana, empenhemo-nos na construção de uma nova realidade de vida plena e feliz para toda a humanidade, tendo a política, precioso e indispensável instrumento.

Ontem e hoje, o mundo precisa de Profetas, pessoas que não cedam à idolatria e injustiças, e se coloquem como vozes de Deus na defesa dos pequenos, dos pobres, dos excluídos, porque gozam de especial amor e predileção por Deus, como nos revela a Sagrada Escritura.


(1) cf. Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” n. 205 - Papa Francisco.

Quem sou eu

Minha foto
4º Bispo da Diocese de Guanhães - MG