Quaresma:
eliminemos toda murmuração, julgamento e desprezo
"Trabalhai para a vossa salvação, com temor e tremor. Pois é Deus que
realiza em vós tanto o querer como o fazer, conforme o seu desígnio
benevolente.Fazei tudo sem reclamar ou
murmurar,para que sejais livres de
repreensão e ambiguidade,filhos de Deus sem
defeito." Fl 2,12b-15a
Ao ouvimos a passagem do
Evangelho de Lucas (Lc 18,9-14) proclamada no sábado da 3ª semana do Tempo da
Quaresma, sejamos iluminados pela “Conferência sobre o julgamento do
próximo”, escrita por São Doroteu de Gaza (séc. VI).
“Irmãos, se recordarmos bem as
sentenças dos santos anciãos e as meditamos sem cessar, difícil será que
pequemos ou que sejamos negligentes.
Se como eles nos dizem, não
menosprezarmos o pequeno e aquilo que julgamos insignificante, não cairemos em
faltas graves. O repito sempre a vocês. Por coisas ligeiras, como dizer por exemplo: ‘O
que é isto? O que é aquilo?’, nasce um mau hábito na alma, e se começa a
desprezar inclusive as coisas importantes. Percebem quão grave é o pecado que
se comente ao julgar o próximo? O que há de mais grave? Existe algo que Deus
deteste tanto e do qual se afaste com tanto horror?
Os Padres disseram: ‘nada é pior
do que julgar'. E, contudo, é por estas coisas que se dizem ser de pouca
importância, que se chega a um mal tão grande. Se admite uma ligeira suspeita
contra o próximo, se pensa: ‘O que importa se escuto o que tal irmão diz? O que
importa se também eu digo somente esta palavra? O que importa se vejo o que vai
fazer aquele irmão ou aquele estranho?’, e o espírito começa a esquecer os seus
próprios pecados e a ocupar-se do próximo. Daí vem os juízos, murmurações e
desprezos, e finalmente se cai nas faltas que se condenavam.
Quando alguém é negligente, a
respeito de suas próprias misérias, quando alguém não chora a sua própria
morte, segundo a expressão dos padres, não pode corrigir-se nunca, porque se
ocupa constantemente do próximo. Entretanto, nada irrita tanto a Deus, nada
despoja ao homem e lhe conduz ao abandono, como fato de murmurar do próximo, de
julgá-lo e de desprezá-lo.
Murmurar, julgar e desprezar são
coisas diferentes. Murmurar é dizer de alguém: ‘aquele mentiu’, ou:
‘enraivecer-se’, ou: ‘fornicou’. Ou outra coisa semelhante. Se murmurou dele,
ou seja, se falou contra ele se revelou seu pecado, existe impulsos da paixão.
Julgar é dizer: ‘aquele é um
mentiroso, colérico, fornicário’. Eis aí que se julga a própria disposição de
sua alma e se aplica a sua vida inteira, dizendo que ele é assim, e se lhe
julga como tal. Isto é grave. Porque uma coisa é dizer: ‘encolerizou-se’, e
outra coisa: ‘é colérico’, pronunciando-se desta forma sobre toda a sua vida.
Julgar ultrapassa em gravidade a
todos os pecados, de modo que Cristo mesmo disse: ‘Hipócrita, tira primeiro
a trave do teu olho, e então poderás tirar o cisco do olho do teu irmão’. A
falta do próximo a comparou com um cisco, e o juízo uma trave, pois o julgar é
muito grave, mais grave talvez que cometer qualquer outro pecado.
O fariseu que orava e dava
graças a Deus por suas boas ações, não mentia; mas dizia a verdade; não foi
condenado por isso. Na realidade devemos dar graças a Deus pelo bem que Ele nos
concede realizar, já que é com a Sua ajuda e Seu auxílio.
Desta forma, ele não foi
condenado por ter dito: “Não sou como os demais homens’; não. Foi condenado
quando, voltando-se para o publicano, acrescentou: ‘nem como esse publicano’.
Foi então quando se tornou gravemente culpado, porque julgava a própria pessoa
do publicano, as próprias disposições de sua alma, em uma palavra: sua vida
inteira. Por isso, o publicano partiu dali justificado e ele não. Não há nada
mais grave, nada mais prejudicial, e o digo com frequência, que julgar ou
desprezar ao próximo”.
À luz da Conferência, reflitamos
sobre os nossos relacionamentos cotidianos, e o quanto também podemos incorrer
em graves murmurações, julgamentos e desprezos, tornando desagradáveis a Deus
nossas palavras e orações.
Antes, é preciso que nos
voltemos para nossa própria “miséria”, como o autor mesmo afirma, e sintamos a
necessidade da misericórdia divina, sem nos tornarmos parâmetros de santidade e
salvação para o outro.
É sempre tempo de aprendermos a
viver a misericórdia, compreendendo a fragilidade do nosso próximo, o que não é
sinônimo de conivência, cumplicidade.
A misericórdia divina não se afasta da justiça, tão pouco da verdade, não
exclui nem elimina o pecador, mas abomina o seu pecado.
Trilhando o itinerário
quaresmal, temos um caminho para percorrer e aprender o que significa, de fato,
a misericórdia querida por Deus, para que sejamos misericordiosos como o Pai
(Lc 6, 36).
Tão somente assim nossas orações
se tornarão agradáveis e chegarão ao coração de Deus, e sendo por
Ele ouvidas, alcançaremos a justificação.
(1) Lecionário Patrístico
Dominical – Editora Vozes – 2013 – pp. 741-743







