segunda-feira, 28 de julho de 2025

Supliquemos a Sabedoria Divina, nossa maior riqueza (XVIIIDTCC)

                                      

Supliquemos a Sabedoria Divina, nossa maior riqueza

Reflitamos sobre a  sabedoria divina, que nos ajuda a discernir sobre o que é essencial e o efêmero em nossa vida; quais são as nossas verdadeiras riquezas, quais são as escolhas que fazemos.

É preciso aprender a renunciar a certos valores perecíveis, a fim de se adquirir os valores da vida verdadeira e eterna; assim como é preciso ter ouvidos e coração abertos à sabedoria de Deus que é dom para todos.

A passagem do Livro da Sabedoria (Sb 7,7-11), o Livro mais recente do Antigo Testamento, nos apresenta o jovem Salomão como modelo de homem sábio, nos mostra que a verdadeira sabedoria é mais valiosa que o ouro, a riqueza, a saúde, e consiste em acolher as propostas de Deus com humildade e disponibilidade.

A Sabedoria é dom de Deus e garante o alcance da liberdade diante de todos os bens, pois somente Deus garante a verdadeira Sabedoria e a verdadeira felicidade, e esta consiste em escolher as coisas certas; tomar as corretas decisões para o alcance do êxito e da felicidade.

A Sabedoria divina é apresentada pelo autor da Epístola aos Hebreus (Hb 4,12-13), quando nos exorta: é preciso acolher a sabedoria de Deus, revelada em Jesus Cristo, como nossa maior e mais valiosa riqueza, pois a vida de quem crê é marcada pelo sacrifício de louvor e entrega de amor.  
                                        
Num contexto de monotonia e mediocridade, o autor tem a preocupação de levar a comunidade a viver uma fé comprometida, coerente, empenhada com a construção do Reino, numa acolhida frutuosa da Palavra de Deus. É preciso retomar, reavivar o entusiasmo inicial.

A Palavra de Deus, quando acolhida com sinceridade, transforma sentimentos, pensamentos e orienta nossos valores, opções e atitudes.

A Palavra de Deus é força decisiva, que dá conteúdo salutar à história e comunica a vida e a Salvação. Portanto, é preciso confrontar sempre a nossa vida diante das exigências da Palavra de Deus.

Ela questiona, transforma, indica os caminhos para a realização da vontade de Deus, para que possamos alcançar a vida eterna, dando passos em patamares sucessivos:

- Viver de acordo com as propostas de Deus – é preciso disponibilidade e abertura para escutar a Deus e por Ele ser desafiado;

Integrar-se à comunidade do Reino que toca o coração de todos;

- Viver as exigências de quem se coloca a serviço do Reino: não centrar sua vida nos bens que passam; viver a partilha e solidariedade; seguir Jesus Cristo no caminho de amor e entrega.

Oremos:

Senhor, que tão amados por Vós,
Saibamos corresponder ao Vosso Amor.
Dai-nos a liberdade de coração para segui-Lo,
Ouvindo e acolhendo Vossa Palavra de Sabedoria,
Vós que sois a própria Sabedoria do Pai,
Na plena comunhão com o Espírito.

Libertai-nos de nossas aparentes riquezas,
para que Vós sejais nossa mais bela e imensurável riqueza,
que não se corrói, que não se estraga, que não se rouba,
que nos garante a felicidade no tempo presente
e a glória da imortalidade.
Amém!

Unidos ao Senhor, uma fé viva e frutuosa (27/07)

Unidos ao Senhor, uma fé viva e frutuosa

“Este povo perverso, que recusa ouvir as minhas ordens,
… tornar-se-á semelhante a esta faixa, que para nada serve”
(Jr 13,10)

Na segunda-feira da 17ª Semana do Tempo Comum (ano par), ouvimos a passagem do Livro do Profeta Jeremias (Jr 13,1-11).

O Profeta Jeremias, por ordem do Senhor, realiza uma ação simbólica, a fim de melhor captar a atenção e a compreensão dos seus ouvintes.

Com o simbolismo da faixa apodrecida, Jeremias dá um tom dramático à sua pregação, de modo que a faixa cingida e depois enterrada na lama até apodrecer, tem um duplo simbolismo:

- como a faixa adere ao corpo de quem a cinge, assim Israel era chamado a aderir ao Senhor, respondendo positivamente à Aliança com Deus, que antes uma iniciativa divina;

- porém, como o povo tinha quebrado a Aliança, não escutando a voz do Senhor, seguindo as próprias ideias, votando-se à idolatria, faliu na sua vocação, não prestou a Deus o serviço que lhe devia prestar, tornou-se como uma faixa apodrecida, sem qualquer valor, que não serve para absolutamente nada.

Por isto as duras palavras do Senhor são ditas pelo Profeta: “Este povo perverso, que recusa ouvir as minhas ordens, … tornar-se-á semelhante a esta faixa, que para nada serve” (Jr 13,10).

Esta imagem da faixa de linho, antes nova e depois apodrecida entre os rochedos, “é uma figura da Aliança desejada por Deus com Israel, mas muitas vezes comprometida ao longo da história da infidelidade do povo” (1).

A mensagem profética é contundente: é preciso que o povo se prenda ao Senhor de todo o seu coração, como uma esposa amada ao esposo. No entanto, o povo de Deus deixou apodrecer esta relação de amor por Deus oferecida, perdendo o sentido e o valor da própria existência.

Através do Profeta, Deus demonstra uma profunda amargura por esta atitude absurda do povo, e se tornam explicitas as causas, que levaram à ruína o dom da relação de amizade com Ele:

- a rejeição em escutar a Sua Palavra;
- comportar-se seguindo um coração obstinado;
- a idolatria.

Urge que também nós fiquemos atentos à escuta e acolhida da Palavra de Deus, a fim de que a coloquemos em prática, e não tenhamos, lamentavelmente, uma fé “apodrecida”, que já não servirá para mais nada, como a faixa de linho que fora enterrada e, consequentemente, apodrecida.

É preciso que nos prendamos ao Senhor, com total fidelidade, com pequenos e grandes gestos de amor, partilha, comunhão e solidariedade, e todo o cuidado para não nos desprendermos, distanciando-nos de Sua Palavra e de Seu Projeto de vida plena para todos nós.


(1) Lecionário Comentado - Tempo Comum - Volume I - Editora Paulus - 2011 - p.822

domingo, 27 de julho de 2025

Mensagem do Santo Padre Leão XIV para o V Dia Mundial dos Avós e dos Idosos (Síntese) (26/07)

 


Mensagem do Santo Padre Leão XIV
para o V Dia Mundial dos Avós e dos Idosos (Síntese)

A mensagem para o V Dia Mundial dos avós e dos idosos, escrita pelo Papa Leão XIV, tem como inspiração bíblica a passagem do Livro do Eclesiástico: “Bem-aventurado aquele que não perdeu a esperança” (cf. Sir 14, 2)

Vivendo o Ano Jubilar da Esperança, o Papa destaca a importância da esperança em todas as idades, lembrando algumas personagens bíblicas: Abraão, Sara, Moisés, Zacarias, Isabel.

Diante da constatação do aumento daqueles que estão avançados em idade, como valorizar estas experiências; quais são os gestos e compromissos que podem ser assumidos para que haja sinais de libertação, superação de abandonos e solidão? – “Cada paróquia, associação ou grupo eclesial é chamado a tornar-se protagonista da “revolução” da gratidão e do cuidado, a realizar-se através de visitas frequentes aos idosos, criando para eles e com eles redes de apoio e oração, tecendo relações que possam dar esperança e dignidade àqueles que se sentem esquecidos".

Considerando que  a fragilidade dos idosos precisa do vigor dos jovens, é igualmente verdade que a inexperiência dos jovens precisa do testemunho dos idosos para projetar o futuro com sabedoria, afirma o Papa.

Urge que sejamos sinais de esperança para os idosos – “Este ano é o momento propício para realizá-la: a fidelidade de Deus às Suas promessas ensina-nos que há uma bem-aventurança na velhice, uma alegria autenticamente evangélica que nos convida a derrubar os muros da indiferença na qual os idosos estão frequentemente encerrados”.

Conclui a sua mensagem com um convite para que sejamos sinais de esperança em todas as idades – “Transmitamos com amor a fé que vivemos na família e nos encontros quotidianos durante tantos anos: louvemos sempre a Deus pela Sua benevolência, cultivemos a unidade com as pessoas que nos são caras, abramos o nosso coração aos que estão mais longe e, em particular, aos necessitados. Assim, seremos sinais de esperança, em todas as idades.”


PS: Confira a Mensagem na íntegra

https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/grandparents/documents/20250626-messaggio-nonni-anziani.html

Vinde habitar em nosso coração (XVIIDTCC) (26/07)

 


Vinde habitar em nosso coração

Assim nos falou o Senhor – “Vendei vossos bens e dai esmola. Fazei bolsas que não se estraguem, um tesouro no céu que não se acabe; ali o ladrão não chega nem a traça corrói. Porque onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” (Lc 12,33-34)

Há um antigo relato oriental que nos ajuda a compreender a alegoria do tesouro – “...quando os deuses criaram o homem, puseram nele algo de sua divindade; mas o homem fez um mal uso dessa divindade e os deuses decidiram tirá-la. Reuniram-se em grande assembleia para ver onde podiam esconder esse tesouro que lhe haviam dado. Um disse: ‘vamos colocá-lo no pico da montanha mais alta’. Um outro, porém, retrucou: ‘não, o homem acabará escalando a montanha e encontrará o tesouro’. Um outro disse: ‘vamos escondê-lo no fundo do oceano’. Mas, alguém respondeu: ‘Não, o homem poderá descer às profundezas e descobrir o tesouro’. Por fim, um terceiro disse: ‘Já sei onde vamos esconder esse tesouro: no mais profundo do coração do homem! Ali, ele nunca o buscará’” (1).

A alegoria nos ajuda a compreender as palavras do Senhor: onde se encontra nosso tesouro ali estará nosso coração.

É sempre tempo favorável para refletirmos:

- quais são os tesouros pelos quais nos consumimos e corremos atrás?

- quais são os tesouros que mais precisamos e pelos quais somos capazes de nos sacrificar?

Sejam nossos tesouros a Igreja que somos, cuja Cabeça é o Cristo e nós o seu corpo.

Sejam nossa família, pequena Igreja Doméstica, espaço de comunhão, amor, perdão, diálogo, solidariedade;

Sejam a fé, dom que Deus nos concedeu, irmanada com as virtudes da esperança e da caridade;

Bem como, sejam também nossos compromissos pastorais dentro e fora da Comunidade que participamos.

Roguemos a Deus para que jamais nos percamos entre as “bijuterias” que o mundo nos oferece insistentemente, e que jamais poderão nos preencher e nos conceder a felicidade e vida plena, que tão somente o Senhor Jesus pode nos dar, e nós temos o maior de todos os tesouros que habita em nós: – O Espírito Santo (1 Cor 6,19).

Nem montanha, nem mar, Deus quis habitar no mais profundo de nós. Amém.

Oremos: 

“Ó Deus, sois o amparo dos que em Vós esperam e, sem Vosso auxílio, ninguém é forte, ninguém é santo; redobrai de amor para conosco, para que, conduzidos por Vós, usemos de tal modo os bens que passam, que possamos abraçar os que não passam. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém!”. (2)

  

(1) Pe. Adroaldo Palaoro (SJ)

(2) Oração do dia - 17º Domingo do Tempo Comum 

 

Aprendamos com o Divino Multiplicador! (XVIIDTCB) (26/07)

                                                            

Aprendamos com o Divino Multiplicador!

Com a Liturgia do 17º Domingo do Tempo Comum (ano B), sentados à mesa com Jesus, aprendemos a grande lição de amor e a partilha. 

Deste modo, a Liturgia nos mergulha na reflexão sobre a grandiosidade do Amor de Deus para com Seu povo. Outrora com Moisés o povo foi saciado com o maná, agora é o próprio Senhor que Se dá em Alimento, e Alimento de Vida Eterna, sendo apresentado pelo Evangelista Mateus como um novo Moisés.

Contemplamos a face de um Deus providente, dedicado, preocupado no sentido de que nada nos falte.

Alimentados pelo Amor de Deus, no Pão da Eucaristia e no Pão da Palavra, aprendemos que somente a partilha nos saciará.

É preciso, como partícipes do Banquete Eucarístico, superarmos a indiferença, o egoísmo, a acomodação para entrarmos na lógica do Reino, como prolongamento da Eucaristia que celebramos.
  
Vinde, escutai e comei. Ide, partilhai e vivei! Ecoam as palavras do profeta Isaías na primeira Leitura que retrata o tempo do exílio (2 Rs 4,42-44).

A necessidade de manter viva a esperança e começar a partir do quase nada a história. Viver é um eterno recomeço, e é possível quando em Deus e em Sua Palavra se confia; jamais acomodar-se, mas pôr-se sempre a caminho.

É preciso desinstalar, arriscar, buscar novos caminhos, não deixando se enganar por falsas miragens, ilusórias saídas que aprofundam dores e sofrimentos.
  
Com o Apóstolo Paulo (Ef 4,1-6), aprendemos que nada pode nos separar do Amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, e do Seu Projeto de felicidade para todos nós - nem tribulação, angústia, perseguição, fome, perigo, nudez, espada... (Rm 8,35-39).

Nossa confiança em Deus será tão maior quanto mais profunda for nossa experiência de Seu Amor.

O milagre da partilha dos pães e peixe nos ensina que a fome é de responsabilidade humana, logo há a emergência da solidariedade – dai-lhes vós mesmos de comer. Também nos ensina a necessária gratidão a Deus, pois possuímos tudo para saciar a fome da humanidade (5 pães + 2 peixes). Não haverá jamais lugar para o egoísmo e nos poremos todos no alegre aprendizado da gratuidade e partilha. 

Aprendemos com Jesus que tudo procede de Deus e é para todos; bens e dons devem ser partilhados livre e alegremente e nada nos faltará (sobrarão 12 cestos).

O milagre da multiplicação dos pães e peixes sem dúvida é apelo e sinal. Apelo para que não nos omitamos diante da fome e da miséria que destrói a vida de irmãos e irmãs e, ao mesmo tempo, é sinal do Banquete da Vida que celebramos em cada Eucaristia, preanunciando o Banquete da Eternidade em que todos se assentarão, como muito bem expressa o Salmo que cantamos:

“Pelos prados e campinas, verdejantes eu vou... Um lugar em Sua mesa me preparou...” 

Aprendamos a Matemática de Deus (XVIIDTCB) (26/07)

                                                           

Aprendamos a Matemática de Deus

Na Liturgia da Palavra do 17º Domingo do Tempo Comum (ano B), ouviremos a passagem do Evangelho de São João (Jo 6, 1-15), em que narra o sinal que Jesus fez no deserto, celebrando com a multidão o Banquete da Vida, em oposição ao banquete de Herodes, o banquete da morte:
 
Sacrifício voraz de vidas inocentes e justas, como a vida de João Batista. No Banquete de Jesus, há credenciais exigidas para autêntica participação:
 
O amor de compaixão, a solidariedade, a confiança na providência de Deus, a gratidão, a bênção, e a consciência de que os bens de graça, d’Ele, recebidos devem ser generosamente partilhados.
 
O pão que de Deus, cotidianamente, recebemos, por Ele abençoado e por nós partilhado, ganha um novo sabor.
 
No Banquete da Vida de Nosso Senhor, não há como se omitir diante da dor, da fome, da miséria da existência humana: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16)
 
É possível superar esta brutal realidade que rouba a beleza do Projeto Divino. O Profeta Isaías já anunciara a promessa messiânica, de restauração da vida, em que Deus nos chama a comer e a beber sem paga: Vinho e leite, deleite e força, alegria, revigoramento... (Is 55,1-8).
 
O Profeta Eliseu também soube partilhar o pouco para saciar a fome de muitos (2 Rs 4,42-44).
 
Uma última exigência: Aprender a nova matemática de Deus: Na racionalidade da matemática humana 5+ 2 = 7, indiscutivelmente, logo os 5000 homens, sem contar mulheres e crianças, estariam condenados à fome, ao desalento...
 
Na racionalidade da Matemática Divina, 5 + 2 = plenitude, perfeição, tudo!
 
Temos tudo para saciar a fome da humanidade, pois os bens que de Deus recebemos, quando partilhados, são multiplicados.
O milagre da multiplicação dos 5 pães e 2 peixes foi um sinal do Banquete Eucarístico que celebramos.
 
Alimentando-nos de um pedaço de Pão e um pouco de Vinho, Corpo e Sangue do Senhor, prolongamos a celebração na vida, multiplicando gestos de compaixão, partilha, solidariedade, tornamo-nos promotores da justiça, da fraternidade, da vida e da paz.
 
Santo Inácio de Antioquia, Bispo e Mártir, no séc. I, num contexto de dominação e perseguição, nos exortava com sabedoria indiscutível:
 
“Vosso Batismo seja a vossa arma; a fé, o vosso capacete; a caridade, a vossa lança; a paciência, a vossa armadura completa. As vossas obras sejam vosso depósito para receberdes em justiça o que vos é devido”.
 
Quando aprendizes da matemática divina, nada nos separará do Amor de Deus (Rm 8,35-39): nem a tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada...
 
Quando aprendizes da matemática divina, intensificaremos nosso relacionamento com Deus, que é misericórdia, piedade, amor, paciência, compaixão, muito bom para com todos e pleno de ternura que abraça toda criatura (Sl 144).
 
Quando aprendizes da matemática divina, aprenderemos, como disse um autor desconhecido, que:

Somente a água que damos de beber ao próximo poderá saciar nossa sede. Somente a roupa que doamos poderá vestir nossa nudez. Somente o doente que visitamos poderá nos curar.
 
Somente o pão que oferecemos ao irmão poderá nos satisfazer.
Somente a palavra que suaviza a dor poderá nos consolar.
Somente o prisioneiro que libertamos poderá nos libertar”.
 
Somente a partir da matemática de Deus é que teremos o sinal de um novo céu e uma nova terra, pois não é a lógica fria e irracional, mas a lógica da compaixão, amor, solidariedade e partilha que multiplica, abundantemente, em nós, todas as graças divinas.
 
 
 Matemática de Deus... Uma bela lição a aprender. 
 

O Senhor sacia a nossa fome... (XVIIDTCB) (26/07)

                                                      

O Senhor sacia a nossa fome...

Oportuna é a reflexão Santo Hilário de Poitiers, Doutor da Igreja (séc. IV), sobre a passagem do Evangelho de João (Jo 6,1-5) em que Jesus realiza o sinal da multiplicação de cinco pães e dois peixes.

"Como os discípulos lhe aconselhavam a que enviasse as multidões para as cidades mais próximas para que pudessem comprar alimentos, ele lhes respondeu:

‘Não há necessidade de irem’. Assim demonstra que aqueles dos quais cuidava não necessitavam se alimentar de uma doutrina colocada à venda, e também não tinham necessidade de voltar para a Judeia para comprar alimentos; por isso manda aos Apóstolos que lhes deem sua própria comida.

Acaso o Senhor desconhecia que os apóstolos não tinham nada para dar-lhes? Aquele que conhecia as profundezas do espírito humano não conhecia, acaso, a pequena quantidade de comida que as mãos dos Apóstolos possuíam?

Na verdade, era necessário manifestar completamente uma razão tipológica. Ele ainda não tinha concedido aos Apóstolos o consagrar e o oferecer o Pão do Céu como Alimento de Vida Eterna. Por isso Sua resposta era dirigida para a compreensão espiritual.

De fato, eles responderam que só tinham cinco pães e dois peixes, porque ainda se encontravam sob o império dos cinco livros da Lei – os cinco pães -, e se alimentavam do ensinamento de dois peixes, ou seja, dos Profetas e de João.

Nas obras da Lei a vida estava como no pão, e a pregação dos Profetas e de João reanimava a esperança da vida humana mediante a força da água.

Assim, os Apóstolos ofereceram estas coisas em primeiro lugar porque ainda se encontravam debaixo daquele regime. Mas também indica que a pregação dos Evangelhos, difundindo-se a partir dessas origens, se desenvolve fazendo crescer mais e mais sua força.

O Senhor tinha tomado os pães e os peixes. Levantou os olhos ao céu, disse a bênção e os partiu, ao mesmo tempo em que dava graças ao Pai porque, depois do tempo da Lei e os Profetas, Ele Se transformava em Alimento evangélico.

Em seguida o povo foi convidado a sentar-se na relva. Já não está estendido sobre a terra sem motivo, mas apoiado na Lei, e cada um se estende sobre os frutos de seu trabalho como sobre a erva da terra.

Os pães foram dados também aos Apóstolos: é através deles que os dons da graça divina deviam repartir-se. O povo se alimentou dos cinco pães e dos dois peixes e, uma vez saciados os convidados, os pedaços de pão e de pescado eram tantos que encheram doze cestos.

Isto quer dizer que a multidão se saciou com a Palavra de Deus que vem do ensinamento da Lei e dos Profetas, e em seguida do ministério do Alimento eterno. A abundância do poder divino reservada para os povos pagãos transborda até a plenitude dos doze Apóstolos. (1)

Dentre os pontos que nos chamam atenção, destaco o paralelo feito entre os cinco pães e dois peixes:

- Cinco pães, aludindo aos cinco Livros da Lei, aos cinco primeiros Livros da Sagrada Escritura (Pentateuco): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio);

- Os dois peixes aludindo aos Profetas que precederam Jesus e o último dos Profetas, João Batista.

De fato, todos ainda estavam ancorados na Antiga Aliança, sob a Lei e os Profetas. Com Jesus, inaugura-se um novo tempo, e Ele veio dar pleno cumprimento da Lei e dos Profetas, como refletimos na Sua Transfiguração, no Monte Tabor, com a presença de Moisés e Elias (o primeiro simbolizando a Lei, e o segundo os Profetas).

Jesus é Aquele que vem trazer o Alimento Eterno, Ele próprio Se dá em verdadeira Comida e verdadeira Bebida (Jo 6).

Iluminados por Sua Palavra de Vida Eterna, aprendizes e obedientes a Seus Ensinamentos, e também por Ele saciado com o Pão Vivo e Verdadeiro, somos chamados a viver com alegria, o amor e a partilha, inseridos numa nova lógica, que vai gerar um mundo novo.

O sinal realizado tem tons Eucarísticos, prefigura o Banquete Provisório da Eucaristia, que nos prepara para o Banquete de Eternidade, como tão bem expressou o Salmista (Sl 23).

A multiplicação dos pães e peixes é a mais bela lição de amor e partilha, condição indispensável para uma sociedade da saciedade, e não da fome, da morte, da exploração do outro.

Vivamos não mais sob o jugo da Lei, mas iluminados e conduzidos pelo Espírito, saibamos colocar nossos pães e peixes em comum, para que todos tenham vida plena e feliz.

O Sinal realizado aponta para um mundo novo que todos temos que construir, aprendendo os sagrados ensinamentos do Divino Mestre do Amor e da Partilha: Jesus.


Lecionário Patrístico Dominical – Ed. Vozes - Pág. 436-437.

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