sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A prática do Jejum e o crescimento espiritual

                                                       

A prática do Jejum e o crescimento espiritual

No Tempo da Quaresma, a Liturgia da sexta-feira depois das cinzas, nos apresenta a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 9,14-15), sobre a autêntica e frutuosa prática do jejum, num caminho de aperfeiçoamento espiritual, vivendo intensamente o itinerário quaresmal.

O Missal Dominical cita longamente o Teólogo Paulo Evdokimow, iluminando neste propósito.

"A ascese cristã nunca foi fim em si mesma; é apenas um meio, um método a serviço da vida, e como tal procurará adaptar-se às novas necessidades.

Outrora, a ascese dos Padres do deserto impunha jejuns e privações intensas e extenuantes; hoje a luta é outra. O homem não tem necessidade de sofrimento suplementar; cilício, cadeias de ferro, flagelações, correriam o risco de extenuá-lo inutilmente.

A mortificação da nossa época consistirá na libertação da necessidade de entorpecentes, pressa, ruídos, estimulantes, drogas, álcool sob todas as formas.

A ascese consistirá acima de tudo no repouso imposto a si mesmo, na disciplina da tranquilidade e do silêncio, onde o homem encontra a possibilidade de concentrar-se para a Oração e a contemplação, mesmo em meio a todos os ruídos do mundo, no metrô, entre a multidão, nos cruzamentos de uma cidade. 

Consistirá principalmente na capacidade de compreender a presença dos outros, dos amigos, em cada encontro. O jejum, ao contrário da maceração imposta, será a renúncia alegre do supérfluo, a sua repartição com os pobres, um equilíbrio espontâneo, tranquilo".

No Missal também encontramos a citação do Bispo São João Crisóstomo (séc. IV) que já nos advertia sobre esta necessidade da ascese espiritual para a construção de relações mais sinceras e fraternas na vivência comunitária:

"Mas, direis, que divisão vês entre nós? Aqui, nenhuma, mas quando termina a nossa assembleia, um critica o outro; esse injuria publicamente o irmão; aquele se enche de inveja, de avareza ou de cobiça; aquele outro se entrega à violência; outro ainda à sensualidade, à impostura, à fraude.

Se nossas almas pudessem ser postas a nu, veríeis então a exatidão de tudo isso... Desconfiando uns dos outros, nos tememos mutuamente, falamos ao ouvido do vizinho e se vemos aproximar-se um terceiro, calamo-nos e mudamos de assunto...

Respeitai, respeitai esta Mesa da qual todos nós comungamos; respeitai o Cristo imolado por nós, respeitai o Sacrifício que é oferecido".

Urge rever nossa conduta cristã, abrindo-nos à graça divina, para que nossas comunidades sejam mais fraternas, mais credíveis da presença do Ressuscitado.

Participando da Celebração Eucarística e intensificando nossa vida de oração, acompanhada da fecunda prática do jejum, renovemos sagrados compromissos do aperfeiçoamento espiritual acompanhados de esforços indispensáveis para que o resplendor da glória divina seja vislumbrado em nosso olhar, porque oriunda de um coração que foi moldado e purificado pela misericórdia divina.

Vivendo este santo propósito de ascese espiritual, estaremos no caminho do crescimento e amadurecimento, para que nossa fé produza os frutos queridos por Deus, acompanhados de oração, jejum  e esmola, intensificando a intimidade com Ele e a comunhão fraterna e solidária entre nós, e tão somente assim poderemos celebrar a alegria Pascal trasbordante, com a Ressurreição do Senhor.

Quaresma: Tempo forte de Oração

                                                         

Quaresma: Tempo forte de Oração

Com a Homilia do século IV, de Pseudo-Crisóstomo, reflitamos sobre a Oração, fundamental em todo o tempo, de modo especial na Quaresma.

“A Oração, o diálogo com Deus, é um bem incomparável, porque nos põe em comunhão íntima com Deus. Assim como os olhos do corpo são iluminados quando recebem a luz, a alma que se eleva para Deus é iluminada por Sua luz inefável.

Falo da Oração que não é só uma atitude exterior, mas que provém do coração e não se limita a ocasiões ou horas determinadas, prolongando-se dia e noite, sem interrupção.

Com efeito, não devemos orientar o pensamento para Deus apenas quando nos aplicamos à Oração; também no meio das mais variadas tarefas – como o cuidado dos pobres, as obras úteis de misericórdia ou quaisquer outros serviços do próximo – é preciso conservar sempre vivos o desejo e a lembrança de Deus. 

E assim, todas as nossas obras, temperadas com o sal do Amor de Deus, se tornarão um alimento dulcíssimo para o Senhor do Universo.

Podemos, entretanto, gozar continuamente em nossa vida do bem que resulta da Oração, se lhe dedicarmos todo o tempo que nos for possível. A Oração é a luz da alma, o verdadeiro conhecimento de Deus, a mediadora entre Deus e os homens.

Pela Oração a alma se eleva até os céus e une-se ao Senhor num abraço inefável. Como uma criança que chorando, chama sua mãe, a alma deseja o leite divino, exprime seus próprios desejos e recebe dons superiores a tudo que é natural e visível.

A Oração é venerável mensageira que nos leva à presença de Deus, alegra a alma e tranquiliza o coração. Não penses que essa Oração se reduza as palavras.

Ela é desejo de Deus, amor inexprimível que não provém dos homens, mas é efeito da graça divina, como diz o Apóstolo: Nós não sabemos o que devemos pedir, nem como pedir; é o próprio Espírito que intercede em nosso favor, com gemidos inefáveis (Rm 8,26).

Semelhante Oração, quando o Senhor a concede a alguém, é uma riqueza que não lhe pode ser tirada e um alimento celeste que sacia a alma.

Quem a experimentou inflama-se do desejo eterno de Deus, como que de um fogo devorador que abrasa o coração. Praticando-a em sua pureza original, adorna tua casa de modéstia e humildade, torna-a resplandecente com a luz da justiça.

Enfeita-se com boas obras, quais plaquetas de ouro, ornamenta-se de fé e de magnanimidade em vez de paredes e mosaicos. Como cúpula e coroamento de todo o edifício, coloca a Oração.

Assim prepararás para o Senhor uma digna morada, assim terás um esplendido palácio real para O receber, e poderás tê-Lo contigo na tua alma, transformada, pela graça, em imagem e templo de Sua presença.” (1)

Como vemos, a Oração o jejum e a esmola são os três Exercícios que devem ser mais intensificados neste Tempo de Quaresma.

Reflitamos sobre o primeiro: a Oração.

Evidentemente que não é só na Quaresma que se deve orar. É sempre tempo de orar, em todas as situações e em todos os tempos, adversos ou favoráveis; diante de fracassos anunciados ou vitórias preanunciadas; na agitação e na tranquilidade; na alegria e na tristeza; na angústia e esperança; no tempo dos sonhos para que não cedam lugar a pesadelos; tempo da presença divina mais percebida, para percepção mais aguçada, quando tudo parecer desolação e abandono divino (o que será sempre impossível).

A Oração bem feita é expressão  e fortalecimento de nossa amizade com Deus.

Orar e sentir nossa alma a Deus elevada.
Orar e perceber que 
o quarto escuro de nossa alma foi iluminado.

Orar, 
como encontro e esquecimento do tempo,
para ficar com o Eterno 
que transcende nosso miserável tempo.
Oremos sempre!
Amém.

(1) Liturgia das Horas - Vol. II - Quaresma e Páscoa - pp. 58-59

“Alegria transbordante em toda a tribulação”

                                                                

“Alegria transbordante em toda a tribulação”

“É próprio de quem ama queixar-se de não ser amado e,
ao mesmo tempo, temer que, excedendo-se
na acusação, venha a magoar”

Sejamos enriquecidos pela Homilia sobre a Segunda Carta aos Coríntios, do Bispo São João Crisóstomo (Séc. IV), que nos fala do transbordamento da alegria em toda a tribulação, na fidelidade a Jesus Cristo.

“Paulo de novo fala sobre a caridade, refreando a dureza da advertência. Depois de tê-los censurado e repreendido porque, amados, não haviam correspondido ao seu amor, mas haviam-se separado de seu afeto para se ligar a homens perniciosos, de novo suaviza a acerba repreensão, dizendo:

Acolhei-nos em vossos corações, como quem diz: ‘Amai-nos’. Não é pesada a graça que pede, e é de maior vantagem para quem dá, do que para quem recebe. Não disse ‘Amai’, mas algo que transpira compaixão: ‘Acolhei-nos em vossos corações’.

Quem foi que nos arrancou de vossos corações? Quem nos expulsou? Qual a causa de tanta estreiteza em vós? Acima dissera: Tendes vossos corações apertados; aqui declara abertamente o mesmo: Acolhei-nos em vossos corações. Assim, com isso os atrai de novo a si. Não é de somenos importância, quando se solicita o amor, que o amado entenda ser sua afeição de grande valia para quem ama.

Já o disse: Estais em nossos corações para a vida e para a morte. A força máxima do amor está em que, mesmo desprezado, quer morrer e viver juntamente com eles. Ora, não de qualquer modo estais em nossos corações, mas como declarei. Pode acontecer que alguém ame, mas fuja dos perigos. Conosco não é assim.

Estou repleto de consolação. Que consolação? Aquela que me vem de vós. Convertidos a melhores sentimentos, por vossas obras me consolais. É próprio de quem ama, queixar-se de não ser amado e, ao mesmo tempo, temer que, excedendo-se na acusação, venha a magoar. Por isto acrescenta: Estou repleto de consolação, transborda minha alegria. Como se dissesse: ‘Senti grande tristeza por vós; contudo me enchestes de satisfação e me consolastes; não só tirastes a causa da tristeza, mas me cobristes com muito maior alegria’.

Em seguida manifesta sua grandeza não apenas ao dizer: Minha alegria transborda; como também no que segue: Em toda tribulação nossa. Foi tão grande o prazer que me causastes que não poderia ser obscurecido pela grande aflição. Tão imenso que reduziu a nada todos os sofrimentos que nos acometeram e não nos permitiu que fôssemos abatidos pelo desgosto”.

A vida é tecida de acontecimentos que se entrelaçam e que nem sempre tão bons e agradáveis e facilmente contornáveis.

Da mesma forma, na fidelidade e no testemunho da fé, podemos passar por momentos difíceis, momentos em que sentimos como que se pode dizer “secura da alma”, “noite escura”, com suas provações e inquietações.

Nestes momentos, porém, é que temos que manter firme nossa fé, crendo contra toda falta de esperança, confiando plenamente no poder e na Palavra divina, com a força do Espírito Santo, que vem nos assistir, socorrendo nossa fraqueza, dando-nos firmeza em novos passos que precisam ser dados.

Deus que tanto nos ama, espera esta resposta de amor, em total confiança e entrega a Ele, em Suas mãos, como tão bem expressou o Bispo: “É próprio de quem ama, queixar-se de não ser amado”.

Aprendamos com o Apóstolo que, mesmo incompreendido pela comunidade, jamais deixou de amá-la e exortá-la para que crescesse na fidelidade ao Senhor, na máxima expressão da caridade ativa e frutuosa, pois sabia a quem servia e de quem a Palavra anunciava e testemunhava, com todo ardor e coragem.

Resquiescat in pace - Descanse em paz!

                                          


Resquiescat in pace  - Descanse em paz!

O sol escondido sob as nuvens, dia sombrio, como ficaram os dias sem você, desde quando partiu, e meus olhos nadam em lágrimas vertentes.

Hoje, uma lembrança com misto de tristeza suave e dilacerante me consome, e volto meus olhos para o passado, procurando preencher o vácuo que você deixou, que por vezes parece impreenchível.

Não fosse a fé na ressurreição da carne, ficaria apenas a sombra do túmulo, eterna sombra da morte; eterno descanso; ocaso sem esperança; derradeira pulsação da vida, sem desabrochar na outra margem.

Não fosse a fé na ressurreição da carne, aquele momento supremo da vida, seria um eterno sábado; o véu da morte ficaria para sempre posto, e não reconheceríamos os sinais do Ressuscitado, “os panos dobrados e colocados à parte” desde aquela memorável madrugada (cf. Jo 20, 7).

Mas creio na ressurreição da carne, e a morte é o descansar no regaço do Senhor; o dormir o sono da noite, sem horas após o último suspiro e o cerrar dos olhos à luz; o sentimento do frio pelas asas da morte a roçar a fronte; o fugir dos últimos lampejos da vida.

RIP – Resquiescat in pace – Descanse em paz amigo/a. Que o Senhor se compadeça de sua alma e o tenha para sempre em Sua glória, até que um dia também faça a necessária e derradeira passagem e viveremos o epílogo da eternidade e comunhão na glória dos céus, com os anjos e santos. Assim creio. Assim espero. 

Tenho que seguir em frente, lembrando com carinho de cada momento que vivemos; cada sorriso compartilhado; cada lágrima enxugada; cada dificuldade superada...

Descanse em paz! O brilho do Sol nascente vem nos iluminar, até que um dia possamos nos céus nos encontrar. Amém.

“Entra no teu quarto”

                                                       

“Entra no teu quarto”

Sobre a oração, vejamos o que nos diz Santo Ambrósio, Bispo e Doutor da Igreja (séc. IV):

“Ademais, também nos é ensinado que convém orar em todos os lugares: assim o afirma o Salvador, quando diz, falando da oração: ‘Entra no teu quarto’.

Porém, entende-o bem, não se trata de um quarto rodeado de paredes, no qual o teu corpo se encontra fechado, mas sim daquela morada que existe em teu próprio interior, no qual residem os teus pensamentos e moram os teus desejos. 

Este quarto para a oração vai contigo a todos os lugares, em toda a parte onde te encontres continua sendo um lugar secreto, cujo só e único árbitro é Deus”. (1)

Oremos:

Entrai, Senhor, em meu quarto, onde moram meus pensamentos e desejos, e os transforme, para que correspondam aos Vossos, configurados a Vós, mesmos sentimentos ter, como tão bem nos exortou o Vosso incansável Apóstolo na Sagrada Palavra.

Entrai, Senhor, em meu quarto, onde moram meus desejos, e os purifique, de modo que os purificando, coincidam com os desígnios que tendes para mim, que consistem em uma vida realizada e feliz, porque no Vosso Caminho, pela Vossa Verdade sempre conduzida, Vida plena alcançada.

Entrai com Vossa Divina Luz, para iluminar as partes mais obscuras de meus pensamentos e desejos, lá no mais profundo de mim, onde Vosso Espírito habita, e os ilumine, para que os raios se tornem radiantes pelas obras de misericórdia corporais e espirituais que esperais de cada um nós.

Senhor, entrando em meu quarto, encontro-Vos, e encontrando-Vos, prolongo este estar diante de Vós, tão certo de que estais dentro de mim, mais íntimo a mim do que eu a mim mesmo; tão mais perto e eu tão longe, em permanente desejo de Vos procurar, encontrar e amado por Vós, que tanto nos ama, amar-Vos.

Senhor, conheceis as secretas cruzes que cada pessoa carrega, mais do que elas próprias, porque conheces o mais profundo de nossas entranhas. Dai-nos coragem para carregá-las com confiança, em permanentes quedas e reerguimentos, mas sem jamais desistir de alcançar o horizonte da eternidade. Amém.


(1) Lecionário Patrístico Dominical - Editora Vozes - 2013 - p.734

Quaresma: oração, jejum e esmola

                                                          

Quaresma: oração, jejum e esmola

Neste tempo de Quaresma, como Igreja, somos chamados a viver os exercícios quaresmais da oração, jejum e esmola.

Quanto à oração: o Terço em família, Grupos de Reflexão; intensificação e qualificação dos momentos orantes. Oração – a relação entre Deus e eu!   Uma Oração pura, verdadeira e sincera é revertida em ações solidárias.

A Quaresma também nos lembra que "Nem só de pão vive o homem, mas de toda a Palavra que sai da boca de Deus”. Portanto, a importância de ler, ouvir, meditar, praticar a Palavra de Deus.  

Devemos renunciar a algo que habitualmente fazemos, para nos dedicarmos mais à leitura orante da Palavra de Deus: leitura de textos bíblicos, da história dos Santos, da Tradição da Igreja; pesquisar fontes boas para o nosso alimento espiritual.

Sobre o jejum: devemos agradecer a Deus o que temos. Eu jejuo livremente em prol de quem o faz por privação.

Quando abrimos o coração para Deus, também abrimos o coração para o outro. Quando assim acontece, tudo se abre em nossa vida, inclusive nossos projetos.  Coração fechado, mãos fechadas.

A prática do jejum leva-nos à esmola, que não é somente jogar moeda para um pedinte, ou um pedaço de pão, é transformar o amor em ação; é agir com compaixão. Viver a compaixão é ‘dar mão ao coração’; é Deus levando nossas mãos a agirem em favor do outro.

Vivamos intensamente, portanto, o Tempo da Quaresma, tempo de graça e salvação, firmando nossos passos na fidelidade ao Senhor, no Mistério de Sua Paixão e Morte, para também com Ele alcançarmos a Ressurreição.

Em poucas palavras... (IDTQA)

 


“Quaresma: de que temos fome?”

“Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4)

“O primeiro domingo da Quaresma nos desloca até o ‘deserto das tentações’; ali Jesus se deparou com as grandes ‘fomes que desumanizam’: ‘pão do ego’, ‘poder autocentrado’, ‘vaidade estéril’.” (1)

 

(1) Pe. Adroaldo Palaoro - SJ

 

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