sábado, 28 de fevereiro de 2026

Resiliência na travessia

 


Resiliência na travessia

Resiliência: uma palavra que tem sido cada vez mais falada, e que bem compreendida e vivida pode nos ajudar ao escrever sempre novas páginas de alegria, vida e esperança.

Uma possível definição da palavra: “habilidade que uma pessoa desenvolve para resistir, lidar e reagir de modo positivo em situações adversas”. (1)

Oremos:

Concedei-nos, Senhor, resiliência no enfrentar de uma enfermidade, acompanhada da fé, de mãos dadas com a ciência: uma fé que a ciência não dispensa, uma ciência que a fé não desconsidere.

Que nos ajude no autocontrole, acompanhado da força de vontade de superação de situações embaraçosas, e que não nos sejam aniquiladas as nossas forças.

Para suportar com fortaleza, sem nos deixarmos vencer pelo espírito de medo e timidez, crendo em Vós, que nos acompanha em todos os passos e nos fortalece, (2)

Peregrinos de esperança sejamos, resilientes em toda e qualquer situação, confiando em Vossa presença na barca de Vossa Igreja, que nos garante o chegar à outra margem, em necessária travessia... (3)

Com sabedoria, remar, por vezes, contra a maré das provações e dificuldades, aguentando firme, sem jamais perder o horizonte da esperança, no bom combate da fé (4), inflamados pela chama de Vossa Caridade. Amém.

 

(1)     Dicionário Aulete

(2)    2 Tm 1,7

(3)    Mc 4,35-41

(4)   2 Tm 4,7

 

A força recriadora do amor e do perdão

                                                

A força recriadora do amor e do perdão

Para aprofundamento das passagens do Evangelho de São Mateus (Mt 5, 43-48) e São Lucas (Lc 6,27-38).

Sejamos enriquecidos pelas citações extraídas do Lecionário Comentado, para compreendermos e vivermos o exigente Mandamento do Amor que o Senhor nos deixou.

Não ao ódio e espírito de vingança: “O ódio e espírito de vingança são vistos como um cancro, que insinua no coração do homem e que, pouco a pouco, pode levar até a eliminação física do irmão” (1)

A divisão: “A divisão contradiz a natureza da comunidade cristã (a Igreja) e a sua norma de vida. Paulo diz isto àqueles que querem mostrar-se a si mesmos e se vangloriam pela sua presumida sabedoria” (2)

Somos de Cristo: “A fé não está e não pode estar apoiada no prestígio e na autoridade do evangelizador. O cristão deve apoiar sua fé só na pessoa de Cristo. A expressão ‘Vós sois de Cristo’ (v.23) não tem apenas um sentido afirmativo, mas também exclusivo, e significa: Vós pertenceis somente a Cristo e a ninguém mais. Só a sabedoria de Deus não divide e não exaspera” (3)

Espiral da violência: “O ódio, a violência, a vingança causam uma espiral que só pode ser interrompida pelo perdão. Se o mal não encontra resposta, esgota-se em si mesmo, como a semente que não encontra terreno onde possa germinar... O discípulo de Jesus, mesmo que venha a encontrar-se em situações-limite, deverá manter o seu coração livre do ódio e do ressentimento” (4)

Lei de Jesus: “A lei do mundo responde a uma lógica de justiça férrea, Jesus pede que ultrapassemos todas as barreiras com o amor” 

“O Senhor assegura-nos que o amor utilizado com quem nos aborrece e importuna, não nos saúda e procura tirar-nos o que é nosso, é construtivo, vitorioso.

Este amor pelos inimigos tem, ao mesmo tempo, aspectos profundamente humanos, porque parte da tentativa de entrar no íntimo do próximo, de compreendê-lo melhor, de compadecer-se dele... Perante os inimigos, o cristão deve ser guiado unicamente pela lógica do amor” (5)

De fato, somente o Amor de Deus vivido instaurará um novo tempo, uma nova face para o mundo, rompendo de vez com a espiral da violência que gera tão apenas mais sofrimentos.

É preciso que aprendamos com o Senhor que, nos amando até o fim, morrendo na Cruz, deu o mais perfeito testemunho da força desarmada do amor.

Oremos:

“Ó Deus, que no Vosso Filho, despojado e humilhado na Cruz, revelastes a força do Amor, abri o nosso coração ao dom do Vosso Espírito e despedaçai as cadeias da violência e do ódio, para que, na vitória do bem sobre o mal, demos testemunho do Vosso Evangelho de paz. Amém” (6)

(1) Lecionário Comentado – Editora Paulus - Lisboa - p.304
(2)Idem p. 304
(3)Idem p. 305
(4)Idem p. 306

(5)(6) Idem p. 307

“O Amor do Pai dá vertigem”

                                                    

“O Amor do Pai dá vertigem”

Ouvimos, na terça-feira da 11ª Semana do Tempo Comum, a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5,43-48), na qual Jesus nos diz: "Vós ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!' Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem" (Mt 5,43-44).

Vejamos o que nos diz o comentário do Missal Dominical:

“O Amor do Pai é tão absolutamente gratuito que dá vertigem. Quando encontramos nas pessoas com quem vivemos, algum reflexo de tal amor, sentimo-nos comovidos e abalados...

Toda Celebração Eucarística, comparada com nossa vida, é uma verificação da sinceridade com que reconhecemos a gratuidade do Amor do Pai e o transferimos ao nosso próximo”. (1)

Vertigem? Assim define o Aurélio sobre a "vertigem": sensação de instabilidade causada pela perda do equilíbrio;  sensação de desfalecimento;  perturbação, desvario;  perda momentânea do controle sobre si próprio.

Assim é a lógica do Amor de Deus ultrapassa a lógica humana, que muitas vezes se pauta por mesquinha medida, quando muito no amor aos amigos.

Deus faz chover sobre todos: bons e maus, ricos e pobres, Sua Misericórdia permite que “o joio e o trigo” cresçam ao mesmo tempo, no mesmo lugar.  

Como é próprio do Amor não se enganar, Ele no final dos tempos é quem nos julgará e para junto de Si levará quem bem quiser, quem ao Seu amor soube corresponder e no mundo o bem soube amar.

Nossa identificação com Ele é diretamente proporcional ao quanto amamos, não somente aos queridos e bons amigos, mas aos inimigos. Aqui a verdadeira grandeza, largueza, profundidade e intensidade do Amor de Deus.

Deus que jamais Se repete é sempre novidade porque amor. Deus sempre nos vê “com olhos novos”. Não só nos vê, mas nos convida a participação deste Seu olhar de Amor.

Amar como Deus ama é conservar em cada encontro com o outro a limpidez do olhar, sem preconceitos, sem limites. Quando olhamos com o olhar divino, nossos horizontes se alargam, mais ainda, se eternizam, porque não vemos mais com o olhar da cobiça, da mesmice, dos estreitos egoísmos, individualismos.

Verdadeiramente com o olhar divino os horizontes são intangíveis, e não desistimos de alcançá-los, pois o serão na exata medida do amor que se perpetua no definitivo encontro com Ele: céu.

O Amor de Deus é imperativo para que ele se renove até as circunstâncias mais difíceis. Deus não nos vê pelas aparências, mas na essência, ou seja, vê com um Coração que ama, incondicionalmente, o mais profundo de cada ser humano.

Amor assim causa vertigem porque nos desestabiliza, leva-nos a reencontrar com o verdadeiro Amor, para o mais desejável e perfeito equilíbrio que só encontra quem ama:

O amor é a força que nos equilibra em todos os momentos. Sem amor, tudo se desmorona, nada mais resta!

Só o amor nos põe em pé, nos aquece e ilumina o coração. Só o amor permite que “os cantos escuros” de nossos pensamentos e sentimentos  sejam divinamente iluminados, para que os mais belos e santos  propósitos sejam realizados.
 
(1) Missal Cotidiano - Editora Paulus - p. 909
PS: Apropriado para o primeiro sábado da Quaresma. 

O paradoxo dos paradoxos: o amor pelos inimigos

                                                   

O paradoxo dos paradoxos: o amor pelos inimigos

Reflexão sobre um paradoxo: o amor pelos inimigos, recomendado pela nova Lei que emana como consequência do Sermão da Montanha, pois é prescrito ao cristão não somente um estilo de comportamento, mas também uma necessária atitude de coração, do qual este comportamento deve nascer (Mt  5, 43-48).

Apenas para ilustrar, paradoxo consiste numa ideia, conceito, proposição ou afirmação aparentemente contraditória a outra ou ao senso comum. 

Também pode ser compreendido como um comportamento que contradiz os princípios que o deveriam reger, numa aparente contradição. 

Enquanto conceito filosófico, é o pensamento ou proposição que contraria os princípios do pensamento humano ou colide com as crenças e convicções da maioria das pessoas. Pode ser também, na lógica, um raciocínio aparentemente racional, mas que contém contradições em sua estrutura.

Devidamente conceituado, compreendamos o paradoxo cristão, em que a tribulação aparece associada à alegria; a pobreza à riqueza; a fragilidade dos discípulos à força que possuem; o túmulo vazio, que é sinal da Ressurreição, e a plenitude da presença do Ressuscitado comunicando alegria e paz.

“Portanto, não só o respeito, mas também o amor pelos inimigos e perseguidores, para além de todos os limites da possibilidade humana.

Não em nível de sentimento, certamente: não seria porventura possível nem necessário, e nem sequer suficiente resolver tudo ao nível de moções da alma e de emoções.

Não se pode mandar que se ame, mas pode-se mandar que se procure amar, que se queira amar,  de modo que a vida inteira seja orientada para o bem daquele que se quer amar, mesmo se não o merece, mesmo se nos repugna”. (1)

Aqui o grande desafio, pois o cristianismo não é a religião dos méritos, mas do amor, para que sejamos perfeitos como o Pai Celeste é perfeito (Mt 5, 48). Ser misericordioso como o Pai é misericordioso (Lc 6, 36).

Eis o paradoxo dos paradoxos, que o cristianismo é chamado a viver e testemunhar no mundo: o amor e a Oração pelos inimigos. Somente assim é que reinventamos o caminho da novidade, da fraternidade, de uma vida mais humana e mais bela, como sinal do Reino de Deus que já está em nosso meio.

É preciso que cada vez mais sejamos instrumentos do Amor Divino, testemunhas credíveis do Senhor, comprometidos com a civilização do amor.                                                         


PS: Inspirado no Evangelho da terça-feira da 11ª semana do Tempo Comum 
(1) Lecionário Comentado - Editora Paulus - p. 536.

Amemos e rezemos pelos nossos inimigos

                                                       

Amemos e rezemos pelos nossos inimigos

Com a Liturgia da terça-feira da 11ª Semana do Tempo Comum, à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5,43-48), aprofundamos sobre a vivência do Mandamento do Amor, inclusive aos inimigos.

Este Mandamento do Senhor é novo e revolucionário pela formulação, conteúdo e forte exigência.

Vejamos o que nos diz o Missal Dominical:

É novo pelo seu universalismo, por sua extensão em sentido horizontal: não conhece restrições de classe, não leva em conta exceções, limitações, raça, religião; dirige-se ao homem na unidade e na igualdade da sua natureza. É novo pela medida, pela intensidade, por sua dimensão vertical.

A medida é dada pelo próprio modelo que nos é apresentado: “Dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei assim amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34). A medida do nosso amor para com o próximo é, pois, o amor que Cristo tem por nós; ou melhor, o mesmo amor que o Pai tem por Cristo: porque “Como o Pai me amou, também eu vos amei” (Jo 15,9. Deus é amor (1Jo 4,16) e nisto se manifestou o seu amor: Ele nos amou primeiro e enviou seu Filho para expiar nossos pecados (1Jo 4,10).

É novo pelo motivo que nos propõe: amar por amor de Deus, pelas mesmas finalidades de Deus; exclusivamente desinteressado; com amor puríssimo; sem sombra de compensação (Mt 4,46). Amar-nos como irmãos, com um amor que procura o bem daquele a quem amamos, não a nosso bem. Amar como Deus, que não busca o bem na pessoa a quem ama, mas cria nela o bem, amando-a.

É novo porque Cristo o eleva ao nível do próprio amor por Deus. Se a concepção judaica podia deixar crer que o amor fraterno se põe no mesmo plano dos outros mandamentos (Lv 19,18) a visão cristã lhe dá um lugar central, único. No Novo Testamento o amor do próximo está indissoluvelmente ligado ao preceito do amor de Deus.

A fé... lembra ao cristão os mandamentos de Deus e proclama o espírito das bem-aventuranças; convida a ser paciente e bondoso, a eliminar a inveja, o orgulho, a maledicência, a violência; ensina a tudo crer, tudo esperar, tudo sofrer, porque o amor nunca passará” (RdC47) 

Mas insiste ainda: “Ama teu inimigo... oferece a outra face... Não pagues o mal com o mal”. Quanto cristãos fizeram da palavra de Jesus a lei da sua vida! A história da Igreja está cheia de exemplos sublimes a este respeito: J. Gualberto, que perdoa, por amor de Cristo crucificado, o assassínio de seu irmão; pais que esquecem heroicamente ofensas recebidas dos filhos; esposos que superam as ofensas e culpas; homens políticos que não conservam rancor pelas calúnias, difamações, derrotas; operários que ajudam o companheiro de trabalho que tentou arruiná-los, etc...

Em nome da religião e de Cristo, os cristãos se dividiram, dilacerando assim o Corpo de Cristo. Viram no irmão um inimigo, se “excomungaram” reciprocamente, chamando-se hereges, queimando livros e imagens... Derramou-se sangue, explodiu ódio em guerras de religião. O orgulho, o desprezo e a falta de caridade caracterizaram as diatribes teológicas e os escritos apologéticos. Os inimigos de Deus, da Igreja, da religião foram combatidos com armas e com ódio. Travaram-se lutas, organizaram-se cruzadas.

Hoje, a Igreja superou, ou se encaminha par superar, muitas dessas limitações. Não há mais hereges, mas irmãos separados; não há mais adversários, mas interlocutores; não consideramos mais o que divide, mas antes de tudo o que une; não condenamos em bloco e a priori as grandes religiões não cristãs, mas nelas vemos autênticos valores humanos e pré-cristãos que nos permitem entrar em diálogo.

Mas a intolerância e a polêmica estão sempre de atalaia. Não estaremos acaso usando, dentro da própria Igreja, aquela agressividade e polêmica excessivas que outrora usávamos com os de fora da Igreja? Quantos cristãos engajados, uma vez faltando o alvo de fora, começaram a visar com “inimigos” aos próprios irmãos na fé, e os combatem obstinadamente, sem amor e sem perdão!” (1)

Viver o Amor do Senhor, em seu universalismo e novidade. Um amor que ama sem medida, e que se estende até os inimigos. É esta maturidade cristã que somos chamados a alcançar, não obstante qualquer dificuldade.

Configurados a Cristo, temos que ter d’Ele mesmos sentimentos. Deste modo, “amar como Jesus ama” precisa estar impresso, como selo, em nossa alma, nas mais profundas entranhas de nosso ser.

Amar em nossa medida, com cálculos e retornos, condições e reciprocidade, não é o que nos fará sal e luz, como nos propôs Jesus no Evangelho de São Mateus, e tão pouco o concretizar das Bem-Aventuranças, o único caminho da verdadeira felicidade.

Deste modo, podemos concluir que a felicidade que Deus tem a nos oferecer é diretamente proporcional à nossa capacidade de amar, a nossa intensidade de amor, que não apenas ama os bons, mas ama até os inimigos.

Deus não nos ama porque somos bons, mas para que sejamos todos bons.

Linhas novas da História precisam de novos conteúdos, que somente serão escritos com a tinta do Amor, que nos vem do Santo Espírito derramada em nossos corações.


(1) Missal Cotidiano - Editora Paulus - pp.693-694.
PS: apropriado para 1º sábado da Quaresma.


Amar como o Senhor ama

                                                              

Amar como o Senhor ama

“Amai os vossos inimigos e
rezai por aqueles que vos perseguem” (Mt 5,44)

Com a Liturgia da terça-feira da 11ª Semana do Tempo Comum, somos convidados a trilhar o caminho cristão, que é inacabado e exige compromisso sério e radical em contínua conversão, progredindo a cada dia na prática da Lei divina, que o Senhor deu pleno cumprimento, pois quem ama como Jesus ama, cumpre plenamente a Lei, à luz da passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5,43-48).

Com os olhos fitos no Senhor que nos espera ao final da “viagem”, continuamos a refletir sobre o Sermão da Montanha, e seus desdobramentos em nossos relacionamentos.

Já muito antes no Livro do Levítico (Lv 9, 1-2;17-18) encontramos um apelo veemente à santidade que passa pelo amor ao próximo – “Sede Santos, porque Eu, o Vosso Deus sou Santo” (v.2).

As Leis de Deus e seus Preceitos existem para nos ajudar a viver em comunhão com Deus, que passa necessariamente na comunhão com o outro; iluminam a vida cultual e a vida social.

Arrancando as raízes do mal, que podem crescer em cada um de nós, haveremos de multiplicar esforços para permanecer no caminho da santidade, que exige um processo contínuo de conversão. Ser santo, portanto, é permitir que o Amor de Deus seja derramado através de nossos gestos e palavras.

Reflitamos:

- Em que consiste e como testemunhar a santidade no mundo hoje?
- O que ainda me impede de viver e dar um testemunho de santidade?

Retomando a passagem do Evangelho, continuamos a refletir sobre mais dois exemplos que nos desafiam para que, de fato, sejamos sal da terra e luz do mundo. Viver as Bem-Aventuranças implica em superar a Lei do talião”, conhecida pela fórmula “olho por olho, dente por dente” (Ex 21,24; Lv 24,20; Dt 19,21)  e o maior de todos os desafios, amor aos inimigos.

Viver como Deus ama, eis o nosso mais belo e maior desafio, acabando com a espiral da violência, como tão bem viveu e testemunhou Nosso Senhor: um Amor sem medida, um amor que se estende aos inimigos.

Jesus nos revela a face misericordiosa de Deus, um amor universal que faz brilhar o sol e envia a chuva sobre os bons e os maus. E nos exorta a sermos perfeitos como O Pai Celeste é perfeito, superando a lógica legalista, casuística e fria que não cria proximidade e comunhão.

Para que se viva em comunhão total com Deus é preciso deixar que a vida e o amor  de Deus preencha nosso coração, resplandecendo Sua Luz no cotidiano, e tão somente assim seremos também o sal da terra e nisto consiste o embarcar na aventura do Reino que O Senhor nos convida.

Reflitamos:

- Como sal da terra e luz do mundo de que modo vivo a força desarmada do amor para que se instaurem novos relacionamentos humanos e fraternos, quebrando a espiral da violência?

- Como amar os inimigos, como o Senhor nos exorta?
- O que falta em nossa vida para que vivamos a perfeição do Pai Celeste?

Tão somente assim, iluminados por Deus, iluminadores em situações mais obscuras também sejamos.

Oremos:

Ó Deus, com a presença e ação do Espírito Santo em nós, continuemos trilhando o caminho da santidade, em permanente conversão, envolvidos pelo Vosso amor, pleno em nosso coração, para que jamais, como sal, percamos o sabor, e jamais percamos o brilho e o esplendor da Verdade de Deus. Amém.


PS: Passagem do Evangelho proclamada no primeiro sábado da Quaresma

Somente no Senhor nossa vida encontra sentido

                                                     

Somente no Senhor nossa vida encontra sentido

A Oração da Liturgia das Horas do primeiro sábado da Quaresma nos apresenta dois pequenos parágrafos da Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”,  sobre a Igreja no mundo de hoje.

“O mundo moderno apresenta-se simultaneamente poderoso e fraco, capaz do melhor e do pior; abre-se diante dele o caminho da liberdade ou da escravidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade e do ódio.

Por outro lado, o homem toma consciência de que depende dele a boa orientação das forças por ele despertadas e que podem oprimi-lo ou servi-lo. Eis por que se interroga a si mesmo.

Na verdade, os desequilíbrios que atormentam o mundo moderno estão ligados a um desequilíbrio mais profundo, que se enraíza no coração do homem.

No íntimo do próprio homem, muitos elementos lutam entre si. De um lado, ele experimenta, como criatura, suas múltiplas limitações; por outro, sente-se ilimitado em seus desejos e chamado a uma vida superior.

Atraído por muitas solicitações, é continuamente obrigado a escolher e a renunciar. Mais ainda: fraco e pecador, faz muitas vezes o que não quer e não faz o que desejaria. Em suma, é em si mesmo que o homem sofre a divisão que dá origem a tantas e tão grandes discórdias na sociedade.

Muitos, sem dúvida, que levam uma vida impregnada de materialismo prático, não podem ter uma clara percepção desta situação dramática; ou, oprimidos pela miséria, sentem-se incapazes de prestar-lhe atenção. Outros, em grande número, julgam encontrar satisfação nas diversas interpretações da realidade que lhes são propostas.

Alguns, porém, esperam unicamente do esforço humano a verdadeira e plena libertação da humanidade, e estão persuadidos de que o futuro domínio do homem sobre a terra dará satisfação a todos os desejos de seu coração.

Não faltam também os que, desesperando de encontrar o sentido da vida, louvam a audácia daqueles que, julgando a existência humana vazia de qualquer significado próprio, se esforçam por encontrar todo o seu valor apoiando-se apenas no próprio esforço.

Contudo, diante da atual evolução do mundo, cresce o número daqueles que formulam as questões mais fundamentais ou as percebem com nova acuidade.

Que é o homem? Qual é o sentido do sofrimento, do mal e da morte que, apesar de tão grandes progressos, continuam a existir? Para que servem semelhantes vitórias, conseguidas a tanto custo? Que pode o homem dar à sociedade e dela esperar? Que haverá depois desta vida terrestre?

A Igreja, porém, acredita que Jesus Cristo, morto e Ressuscitado por todo o gênero humano, oferece ao homem, pelo Espírito Santo, luz e forças que lhe permitirão corresponder à sua vocação suprema; ela crê que não há debaixo do céu outro nome dado aos homens pelo qual possam ser salvos.

Crê igualmente que a chave, o centro e o fim de toda a história humana encontra-se em seu Senhor e Mestre.

A Igreja afirma, além disso, que, subjacente a todas as transformações, permanecem imutáveis muitas coisas que têm seu fundamento último em Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre”.

Notável a atualidade e pertinência deste Documento  do Concílio Vaticano II (1962-1965), que aborda as  interrogações mais profundas do gênero humano que carregamos no mais profundo de nós, e com coragem procuramos respostas.

De fato, muitas são as questões e interrogações que fazem parte de nosso cotidiano. A vida é um mistério de hipercomplexidade das relações.

Se não tivermos na vida a centralidade de Cristo, a confiança em Sua presença em nossa vida, acabamos nos perdendo em meio às dúvidas, incertezas que são inerentes à condição humana.

Bem nos lembra o que nos falou o Apóstolo Paulo aos Gálatas – “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).

Viver consiste em romper correntes que nos aprisionem ou nos faça perder a verdadeira identidade e a imagem impressa de Deus em nós.

Em Cristo e em Sua Palavra, encontramos a luz que ilumina nossos caminhos e os recônditos mais obscuros de nossa alma.

Em Cristo e em Sua Palavra, encontramos a promessa de Sua presença, que não nos permite evadir do mundo, mas corajosamente d’Ele presença ser, vivendo nosso Batismo, sendo sal, fermento e luz.

Em Cristo, o mesmo ontem, hoje e sempre, em Sua Palavra, encontramos a razão e o sentido de nossa vida.

Sem Ele tudo ficaria à deriva do incerto, do inseguro, do funesto, do imponderável, do fracasso, do caos...

Com o Senhor, e somente com Ele, a liberdade alcançamos, a alegria no coração sentimos transbordar

Quaresma: amor divino, amor sem limites

                                                         

Quaresma: amor divino, amor sem limites

“Amo porque fui amado,
amo para poder amar cada vez mais...”

No sábado da 1ª Semana da Quaresma, ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5,43-48), na qual Jesus nos diz: "Vós ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!' Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem" .

No Antigo Testamento não aparece explicitamente a ordem de amor aos inimigos, no entanto, ordenado ou não, o ódio aos inimigos é algo muito espontâneo e bem testemunhado também na história de Israel.

Mas, Jesus, com Sua Boa-Nova, ordena aos discípulos uma atitude exatamente oposta: amar os inimigos e orar pelos que perseguem, oferecendo o bem em troca do mal que se recebeu.

Vivendo deste modo, o discípulo estabelecerá uma semelhança entre este modo de agir e o de Deus, que por sua vez manda o sol e a chuva sobre bons e maus, sem distinção alguma: “Ele já nos deu o que tinha de mais precioso, o Seu Filho Único, indistintamente, por ti e por São Francisco, pelo terrorista e por Madre Teresa de Calcutá, pela vítima e pelo carrasco” (1).

Somos destinados a agir assim, como cristãos: agir como age o Pai de todos nós, e isto não nos permite cair na tentação de nos empenharmos no cultivo do “nosso jardinzinho”, para viver o amor pelos irmãos.

Deus nos arranca destes limites estreitos, através da Boa Nova e testemunho de Seu Filho, não apenas indicando mas vivendo o amor pelos inimigos e pelos perseguidores.

É preciso dilatar a medida do próprio coração, superar o que é somente sensato e conveniente, e viver um novo tipo de amor, e tão somente vivendo como filhos do Pai que está nos Céus isto se tornará possível.

Deste modo, compreendemos o amor de Deus, que é a causa e a meta de nosso empenho em amar:

Amo porque fui amado, amo para poder amar cada vez mais. E este é o amor que, sem demasiados clamores, sem proclamações oficiais, mas na quotidiana e porventura banal da vida diária, revoluciona o mundo e pode restituir o sorriso ao homem, tão triste e desanimado do nosso tempo” (2).


Fonte:
(1) (2) Lecionário Comentado – Volume Quaresma Páscoa – Editora Paulus – Lisboa - pp. 88-90

Quaresma: amor e oração pelos inimigos

                                                        

Quaresma: amor e oração pelos inimigos

No sábado da 1ª Semana da Quaresma, ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5, 43-48).

Vivendo o itinerário Quaresmal, podemos aprofundar  sobre a vivência do Mandamento do Amor, inclusive aos inimigos.

Este Mandamento do Senhor é novo e revolucionário pela formulação, conteúdo e forte exigência.

Vejamos o que nos diz o Missal Dominical:

É novo pelo seu universalismo, por sua extensão em sentido horizontal: não conhece restrições de classe, não leva em conta exceções, limitações, raça, religião; dirige-se ao homem na unidade e na igualdade da sua natureza. É novo pela medida, pela intensidade, por sua dimensão vertical.

A medida é dada pelo próprio modelo que nos é apresentado: “Dou-vos um mandamento novo, que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei assim amai-vos uns aos outros” (Jo 13,34). A medida do nosso amor para com o próximo é, pois, o amor que Cristo tem por nós; ou melhor, o mesmo amor que o Pai tem por Cristo: porque “Como o Pai me amou, também eu vos amei” (Jo 15,9. Deus é amor (1Jo 4,16) e nisto se manifestou o seu amor: Ele nos amou primeiro e enviou seu Filho para expiar nossos pecados (1Jo 4,10).

É novo pelo motivo que nos propõe: amar por amor de Deus, pelas mesmas finalidades de Deus; exclusivamente desinteressado; com amor puríssimo; sem sombra de compensação (Mt 4,46). Amar-nos como irmãos, com um amor que procura o bem daquele a quem amamos, não a nosso bem. Amar como Deus, que não busca o bem na pessoa a quem ama, mas cria nela o bem, amando-a.

É novo porque Cristo o eleva ao nível do próprio amor por Deus. Se a concepção judaica podia deixar crer que o amor fraterno se põe no mesmo plano dos outros mandamentos (Lv 19,18) a visão cristã lhe dá um lugar central, único. No Novo Testamento o amor do próximo está indissoluvelmente ligado ao preceito do amor de Deus.

A fé... lembra ao cristão os mandamentos de Deus e proclama o espírito das bem-aventuranças; convida a ser paciente e bondoso, a eliminar a inveja, o orgulho, a maledicência, a violência; ensina a tudo crer, tudo esperar, tudo sofrer, porque o amor nunca passará” (RdC47) 

Mas insiste ainda: “Ama teu inimigo... oferece a outra face... Não pagues o mal com o mal”. Quanto cristãos fizeram da palavra de Jesus a lei da sua vida! A história da Igreja está cheia de exemplos sublimes a este respeito: J. Gualberto, que perdoa, por amor de Cristo crucificado, o assassínio de seu irmão; pais que esquecem heroicamente ofensas recebidas dos filhos; esposos que superam as ofensas e culpas; homens políticos que não conservam rancor pelas calúnias, difamações, derrotas; operários que ajudam o companheiro de trabalho que tentou arruiná-los, etc...

Em nome da religião e de Cristo, os cristãos se dividiram, dilacerando assim o Corpo de Cristo. Viram no irmão um inimigo, se “excomungaram” reciprocamente, chamando-se hereges, queimando livros e imagens... Derramou-se sangue, explodiu ódio em guerras de religião. O orgulho, o desprezo e a falta de caridade caracterizaram as diatribes teológicas e os escritos apologéticos. Os inimigos de Deus, da Igreja, da religião foram combatidos com armas e com ódio. Travaram-se lutas, organizaram-se cruzadas.

Hoje, a Igreja superou, ou se encaminha par superar, muitas dessas limitações. Não há mais hereges, mas irmãos separados; não há mais adversários, mas interlocutores; não consideramos mais o que divide, mas antes de tudo o que une; não condenamos em bloco e a priori as grandes religiões não cristãs, mas nelas vemos autênticos valores humanos e pré-cristãos que nos permitem entrar em diálogo.

Mas a intolerância e a polêmica estão sempre de atalaia. Não estaremos acaso usando, dentro da própria Igreja, aquela agressividade e polêmica excessivas que outrora usávamos com os de fora da Igreja? Quantos cristãos engajados, uma vez faltando o alvo de fora, começaram a visar com “inimigos” aos próprios irmãos na fé, e os combatem obstinadamente, sem amor e sem perdão!” (1)

Viver o Amor do Senhor, em seu universalismo e novidade; um amor que ama sem medida, e que se estende até os inimigos.

Compreende-se, deste modo, a maturidade cristã, que somos chamados a alcançar, não obstante qualquer dificuldade.

Configurados a Cristo, temos que ter d’Ele mesmos sentimentos e pensamentos. Deste modo, “amar como Jesus ama”, precisa estar impresso, como selo, em nossa alma, nas mais profundas entranhas de nosso ser.

Amar em nossa medida, com cálculos e retornos, condições e reciprocidade, não é o que nos fará sal e luz.

Sal e luz seremos, se fizermos o que nos propôs Jesus no Evangelho de São Mateus, vivendo as Bem-Aventuranças, o único caminho da verdadeira felicidade.

Logo, concluímos que a felicidade que Deus tem a nos oferecer é diretamente proporcional à nossa capacidade de amar, à nossa intensidade de amor, que não apenas ama os bons, mas ama até os inimigos.

Deus não nos ama porque somos bons, mas para que sejamos todos bons.

Linhas novas da História precisam de novos conteúdos, que somente serão escritos com a tinta do Amor, que nos vem do Santo Espírito, e é derramada em nossos corações.


(1) Missal Cotidiano - Editora Paulus - pp.693-694.

Quaresma:“o amor do Pai dá vertigem”

                                                         

Quaresma:“o amor do Pai dá vertigem”

No sábado da 1ª Semana da Quaresma, ouvimos a passagem do Evangelho de Mateus (Mt 5,43-48), na qual Jesus nos diz: "Vós ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!' Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem" .

Vejamos o que nos diz o comentário do Missal Dominical, sobre o este Mandamento do Senhor:

“O Amor do Pai é tão absolutamente gratuito que dá vertigem. Quando encontramos nas pessoas com quem vivemos, algum reflexo de tal amor, sentimo-nos comovidos e abalados...

Toda Celebração Eucarística, comparada com nossa vida, é uma verificação da sinceridade com que reconhecemos a gratuidade do Amor do Pai e o transferimos ao nosso próximo”. (1)

Vertigem? Assim define o Aurélio sobre a "vertigem": sensação de instabilidade causada pela perda do equilíbrio;  sensação de desfalecimento;  perturbação, desvario;  perda momentânea do controle sobre si próprio.

Assim é a lógica do Amor de Deus ultrapassa a lógica humana, que muitas vezes se pauta por mesquinha medida, quando muito no amor aos amigos.

Deus faz chover sobre todos: bons e maus, ricos e pobres, Sua Misericórdia permite que “o joio e o trigo” cresçam ao mesmo tempo, no mesmo lugar.  

Como é próprio do Amor não se enganar, Ele no final dos tempos é quem nos julgará e para junto de Si levará quem bem quiser, quem ao Seu amor soube corresponder e no mundo o bem soube amar.

Nossa identificação com Ele é diretamente proporcional ao quanto amamos, não somente aos queridos e bons amigos, mas aos inimigos. Aqui a verdadeira grandeza, largueza, profundidade e intensidade do Amor de Deus.

Deus que jamais Se repete é sempre novidade porque amor. Deus sempre nos vê “com olhos novos”. Não só nos vê, mas nos convida a participarmos deste Seu olhar de Amor.

Amar como Deus ama é conservar em cada encontro com o outro a limpidez do olhar, sem preconceitos, sem limites.

Quando olhamos com o olhar divino, nossos horizontes se alargam, mais ainda, se eternizam, porque não vemos mais com o olhar da cobiça, da mesmice, dos estreitos egoísmos, individualismos.

Verdadeiramente com o olhar divino os horizontes são intangíveis, e não desistimos de alcançá-los, pois o serão na exata medida do amor que se perpetua no definitivo encontro com Ele: céu.

O Amor de Deus é imperativo para que ele se renove até as circunstâncias mais difíceis. Deus não nos vê pelas aparências, mas na essência, ou seja, vê com um Coração que ama incondicionalmente o mais profundo de cada ser humano.

Amor assim causa vertigem porque nos desestabiliza, leva-nos a reencontrar com o verdadeiro Amor, para o mais desejável e perfeito equilíbrio que só encontra quem ama:

O amor é a força que nos equilibra em todos os momentos. Sem amor, tudo se desmorona, nada mais resta!

Só o amor nos põe em pé, nos aquece e ilumina o coração, e também permite que “os cantos escuros” de nossos pensamentos e sentimentos sejam divinamente iluminados, para que os mais belos e santos  propósitos sejam realizados.

(1) Missal Cotidiano - Editora Paulus - p.909